Entrevista

Ensino Superior por Rui Mingas

Edivaldo Cristóvão|

Rui Mingas é uma figura incontornável da cultura angolana. Mas tem também um papel importante no Ensino Superior. É administrador da Universidade Lusíada de Angola.

Administrador da Universidade Lusíada fala da evolução da instituição de ensino superior
Fotografia: Paulo Mulaza

Rui Mingas é uma figura incontornável da cultura angolana. Mas tem também um papel importante no Ensino Superior. É administrador da Universidade Lusíada de Angola. Numa entrevista exclusiva ao Jornal de Angola, Rui Mingas fala da evolução daquele estabelecimento de ensino superior e das perspectivas de futuro.

Jornal de Angola - Que avaliação faz do desempenho da Universidade Lusíada de Angola?

Rui Mingas -
A Universidade Lusíada foi a primeira Instituição privada de Ensino Superior em Angola, já lá vão 12 anos. O nosso princípio reitor é rigor e qualidade. Isto implica cuidarmos das diferentes variáveis que fazem de uma Universidade uma instituição séria.

JA - Quais são esses princípios?

RM -
Cuidar da qualidade do corpo docente e da criação de infra-estruturas que correspondam ao perfil e qualidades necessárias. Outra preocupação era os materiais e equipamentos. Começámos com 289 alunos no primeiro ano lectivo, parte deles frequentaram o ano zero. A criação do ano zero destinava-se a consolidar o conhecimento dos jovens pela consciência que tínhamos da deficiência dos nossos alunos vindos do ensino médio e pré-universitário.

JA - Como funcionava o ano zero?

RM -
O ano zero não tinha carácter obrigatório, mas optativo. O exame de aptidão ao primeiro ano estava aberto a todos os candidatos com o pré-universitário ou ensino médio concluídos. Cedo nos apercebemos da justeza da nossa decisão pelo claro aproveitamento no ensino superior dos alunos vindos do ano zero ao lado dos colegas vindos do ensino público regular.

JA - A Universidade Lusíada apoia os estudantes carenciados?

RM -
A Universidade hoje tem, só na província de Luanda, mais de sete  mil alunos. E temos um sistema de bolsas de estudos para estudantes carenciados, desde o primeiro ano da nossa existência. Neste momento, temos 198 bolseiros. A esses estudantes impomos uma regra: estudam até à conclusão da licenciatura, contraindo uma dívida, correspondente ao valor global das propinas. Têm um ano de graça após a conclusão da licenciatura e depois vão fazendo o retorno à universidade, constituindo-se assim um fundo para a atribuição de bolsas a futuros candidatos.

JA - A Universidade começou com que estruturas?

RM -
A Universidade Lusíada começou a funcionar em estruturas alugadas da Casa Americana, com os seguintes cursos: Direito, Economia, Engenharia, Informática, Contabilidade Superior de Gestão, Gestão de Empresas. Um deles, o curso de Engenharia Industrial, pela nossa inexperiência, foi interrompido, porque os encargos e o recrutamento dos docentes eram muito elevados. Mas tivemos o cuidado de garantir uma bolsa em Portugal a todos os estudantes que frequentavam o curso. Alguns dos estudantes optaram pela indemnização, outros aceitaram dar continuidade aos estudos. Hoje, estes alunos são engenheiros e têm a graduação de mestres.

JA - Quantos licenciados já saíram da vossa Universidade?

RM -
Lançámos, no mercado nacional, mais de 2.500 licenciados, entre os quais há um número significativo com mestrados, que concluíram os respectivos cursos nos Estados Unidos, França e Portugal com o apoio da nossa Universidade. Temos o exemplo recente do nosso docente e director do Centro de Estudos, Investigação Científica e Pós-Graduações, António Luvualu de Carvalho, que foi graduado mestre em Relações Internacionais na Universidade Lusíada de Lisboa, defendendo a sua dissertação com distinção. António Luvualu foi convidado para fazer o doutoramento directo e  recebeu a máxima distinção do Ministério da Ciência e Tecnologia e Ensino Superior de Portugal.

JA - Foi aluno bolseiro da Universidade Lusíada?

RM –
António Luvualu de Carvalho foi um aluno que começou no ano zero e terminou os seus estudos na Universidade Lusíada.Beneficiou do programa da universidade  de bolsas para o exterior atribuídas aos  melhores alunos que enveredem pela carreira docente, começando como monitores e evoluindo na carreira docente mediante vários critérios de avaliação. A universidade paga aos bolseiros o valor de 1.200 euros de bolsa mensal, assumindo, ainda, o pagamento integral do valor da propina.

JA - A Universidade tem tido benefícios com o investimento em alunos bolseiros?

RM -
Os jovens estudantes que apoiamos para fazerem o mestrado não têm a obrigação de fazer retorno dos custos. A única situação que impomos é a disponibilidade deles para darem aulas durante quatro anos na Universidade Lusíada e são remunerados com a categoria resultante com a aquisição de outro grau científico.

JA - A Universidade Lusíada tem um plano de expansão?

RM -
Neste momento, existem dois pólos nas províncias de Benguela e Cabinda. Vamos para a Lunda-Sul no próximo ano lectivo, por uma questão pessoal e, também, de consciência política, por ser uma província importante. Fomos a primeira universidade privada a nascer em Angola e queremos ser também a primeira a surgir no Leste do país. Temos também a pretensão de abrir na província do Huambo uma instituição de ensino superior e estamos a organizar a criação do ensino à distância para proporcionar e facilitar a vida às pessoas que vivem nas aldeias e municípios distantes dos grandes centros urbanos.

JA - Quais são os cursos que vão ser ministrados na Lunda-Sul?

RM -
Optámos pelos cursos de Direito, Economia, Gestão de Recursos Humanos e Psicologia.

JA - A política de ensino é a mais adequada para a realidade angolana?

RM -
Procuramos ajustar a nossa política de ensino à realidade do país que temos. Há ainda alunos que só pagam depois de concluírem o curso e um ano depois de estarem a trabalhar. Temos uma diversidade de professores que são admitidos com o princípio do rigor e da qualidade. Temos professores angolanos, búlgaros, portugueses e cubanos, mas a nossa aposta está mais virada para os quadros angolanos com perfil adequado ao exercício da docência universitária.

JA - A Universidade Lusíada tem realizado acções sociais?

RM -
Temos uma equipa de basquetebol, onde os mais destacados estudam sem pagar propinas, outros pagam 50 por cento do valor. Já demos bolsas às Selecções Nacionais de Basquetebol e de Andebol Feminino. Temos dado também apoio a uma escola primária no Bairro Operário, com a compra de novos equipamentos, nomeadamente, carteiras e quadros. Oferecemos, ainda, merenda escolar. A mesma acção é, também, praticada na província de Cabinda, por isso, pensamos que a componente social da Lusíada é merecedora de referência.

JA - Como qualifica a Universidade Lusíada no contexto nacional e internacional?

RM -
Em Angola, ainda não foi feita uma avaliação por especialistas que classificam as universidades. Internacionalmente, estamos distantes do ranking, porque as pessoas têm de ter consciência da realidade do país. Um dos grandes indicadores para a qualificação de uma universidade é o número de professores com grau de doutor, mestres e de investigadores cientistas, porque os recursos humanos são o mais importante. Ao nível das universidades da CPLP, a de São Paulo, do Brasil, é a única que consta no ranking das melhores universidades do mundo.

JA - Quais são as áreas que o país mais precisa para a formação de quadros?

RM –
Os recursos humanos é uma área fundamental, porque, se a sociedade tiver cinco milhões de alfabetizados com qualidade, o país caminha bem. A arquitectura é outro sector que necessita de recursos qualificados, porque o país sofreu uma guerra durante anos e precisa de ser reconstruído por bons técnicos. Tem de se dar prioridade ao trabalho de base, porque é aí que se define a formação de qualidade para o futuro.

JA - Como melhorar o nosso sistema de ensino superior?

RM –
Melhorar o sistema de formação dos quadros docentes é fundamental. E uma das formas de melhorar o sistema de ensino é dar mais sustentabilidade à formação de base dos candidatos ao ensino superior no conhecimento e domínio das línguas que representam o suporte da investigação na Ciência e Tecnologia, particularmente o inglês. Temos de melhorar as condições de trabalho dos professores, através da criação de centros de estudos e de investigação, bibliotecas e outros instrumentos de apoio. Demos, também, oportunidade aos nossos docentes de estarem em contacto com os grandes mestres da ciência no mundo.

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