Entrevista

Esclarecer a Sociedade

Adalberto Ceita |

Há mais de dois meses que a cidade de Luanda é assolada por uma doença viral, até aqui desconhecida de grande parte da população. Mais de cem casos de chikungunya, vulgarmente chamado de “catolotolo”, foram notificados pelas autoridades de saúde.

Alexandra Fernandes aconselha a população a seguir as instruções dadas pelos médicos e evitar tratamento sugerido por amigos em casa
Fotografia: Kindala Manuel

Em entrevista ao Jornal de Angola, a médica coordenadora do Programa de Combate à Malária na província de Luanda, Alexandra Fernandes, alertou para o perigo das semelhanças existentes entre esta enfermidade e outras, como a malária e a dengue. Apesar de garantir que a doença não mata, aconselha as pessoas que suspeitem de contágio a dirigirem-se a um hospital.

Jornal de Angola - Como aparece a chikungunya, também conhecida por catolotolo?

Alexandra Fernandes - É uma doença que já vem de tempos remotos, mas de cuja existência a população não tinha grande conhecimento. Foi identificada na Tanzânia e o nome chikungunya tem origem swaili, uma língua local. Entre nós, recebeu o nome de catolotolo e, em função dos sintomas, os técnicos de saúde estão capazes de a identificar. 

JA - Quais são?

AF - Além da febre, as dores nas articulações são muito fortes e chegam, até, às pequenas articulações dos dedos das mãos e dos pés, a par de dores musculares. Nalguns casos, os pacientes podem sofrer de erupções cutâneas, vómitos e vermelhidão nos olhos, sintomas que facilmente se confundem com outras doenças.

JA - Como descreve o quadro da doença em Luanda?

AF - Desde que surgiu, foram notificados e informados à direcção provincial de saúde de Luanda mais de cem casos. No quadro do trabalho que temos desenvolvido, pusemos equipas a fazer pesquisas a nível do Hospital Municipal da Samba, Josina Machel, Américo Boavida e no Hospital Municipal dos Cajueiros. Acreditamos que os casos notificados não reflectem a realidade da doença em Luanda. Dizemos isto, porque os relatos da população apontam para a existência de índices superiores e, inclusive, casos de mortes.

JA - Essas mortes correspondem à verdade?

AF - É importante referir que a chikungunya não mata. O que tem acontecido é que as pessoas têm sinais e sintomas muito semelhantes a outras doenças e associam-nos à chikungunya. Mas, se não se deslocarem a uma unidade sanitária para ser feito o diagnóstico e o tratamento correcto, podem agravar o seu estado de saúde. Infelizmente, muitos ficam em casa e recorrem a automedicação ou ao tratamento sugerido por um familiar, vizinho, colega ou amigo.

JA - São frequentes as situações de pacientes com chikungunya, mas com sintomas semelhantes aos de outras doenças?

AF - Temos muitos casos de co-infecções, ou seja, associações de duas doenças. Temos casos de chikungunya e dengue, e de chikungunya e malária, ou outras doenças. Na maioria dos casos, a população começa por fazer o tratamento caseiro e quando acorre ao hospital o estado do doente já é grave, o que dificulta o trabalho do técnico para o salvar. Daí as mortes que, posteriormente, as pessoas afirmam ser provocadas por chikungunya. Reafirmo que a doença como tal não mata, mas é fundamental acorrer à unidade hospitalar.

JA - Há pessoas que em casa fazem tratamentos à base de petróleo e alho. É correcto fazê-lo?

AF - Está provado que não existe qualquer vantagem na utilização desses e de outros produtos inapropriados em massagens para combater a doença. Muitos produtos até prejudicam e têm surgido casos de queimaduras na pele devido à mistura do petróleo com o alho. O certo é que se fizermos a massagem sem o uso de qualquer substância ela alivia a dor.

JA - Os profissionais de saúde estão preparados para diagnosticar a doença?

AF - Começámos com a sensibilização, precisamente, com os técnicos de saúde, no sentido de alertarem a população. O esclarecimento, que foi intensificado, inclui folhetos que ilustram os métodos de prevenção e combate à chikungunya que, repito, está muito interligada à malária e à dengue. No essencial, são doenças transmitidas por mosquitos.

JA - Os hospitais têm testes rápidos de despistagem?

AF - Estamos a usar os testes de diagnóstico rápido SD Bioline, que levam cerca de 15 minutos para fazer a leitura. Não temos tido razões de queixa, pois são testes fiáveis.

JA - Luanda tem problemas sérios de saneamento básico, com muita água estagnada e lixo a servir de incubadora de mosquitos. 

AF - É importante que melhoremos o saneamento básico e a higiene nos lares que, como se sabe, quando deficientes propiciam o surgimento da doença. O saneamento básico está muito interligado ao sector da saúde, mas não é da sua responsabilidade específica. Só que tudo aquilo que acarreta e as suas consequências acabam por prejudicar a saúde.

JA - É contagiosa?

AF - É, porque o mosquito que pica um indivíduo infectado suga o sangue e quando for picar outra pessoa transmite o vírus e dá início a uma cadeia de transmissão. Além disso, uma mulher grávida com chikungunya pode transmitir o vírus ao filho e também pode haver contágio por transfusão de sangue.

JA - Ao fim de quanto tempo se fica curado?

AF - A doença varia de organismo para organismo. Há pessoas que ficam sete dias doentes e outras levam duas semanas para recuperar completamente. Depois do fim da doença, também verificamos que há situações persistentes de dores articulares. Pode levar algum tempo, mas depois passa.

JA - A população pode estar tranquila? 

AF - Não há motivo para as pessoas entrarem em pânico. Se cumprirem as orientações e forem ao hospital para o pessoal médico descartar a possibilidade de terem uma doença associada que lhes pode provocar a morte, repito, não existem razões para pânico.

JA - A doença está circunscrita à província de Luanda?

AF - Temos um surto em Luanda, um caso notificado na província do Cuanza Norte e, provavelmente, na Huíla.

JA - Que recomendações faz à população?

AF - As pessoas não podem esperar que o Governo faça tudo. O mosquito, principal vector da doença, vive essencialmente nas casas e áreas envolventes. E a melhor arma de que dispomos é a prevenção, com pequenas atitudes que estão ao nosso alcance. O combate à chikungunya deve envolver toda a sociedade.

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