Entrevista

Espanha faz investimentos

Natacha Roberto|

Nos próximos dez anos, as prioridades do comércio e investimentos espanhóis vão para os países africanos, com destaque para Angola, disse em entrevista ao Jornal de Angola, o secretário de Estado do Comércio de Espanha, Jaime Garcia Legaz, que esteve em Luanda à frente de uma delegação de 120 empresários.

Secretário de Estado do Comércio falou em Luanda das vantagens da cooperação
Fotografia: Paulo Mulaza

O seu Governo disponibilizou 75 milhões de dólares para financiar projectos espanhóis em Angola e o secretário de Estado afirma que outras facilidades se vão seguir.

Jornal de Angola - Qual a expectativa dos empresários espanhóis ao investirem no mercado angolano?

Jaime Garcia Legaz -
Os empresários espanhóis estão muitos ansiosos em apoiar os angolanos a desenvolver os projectos em vários sectores da economia. Eles vêm com humildade, porque são de um país em crise e com muita vontade de transmitir as suas experiências. Há mais de 20 anos que trabalho na administração económica do Governo e no Parlamento espanhol e nunca tinha visto um interesse tão grande em determinado mercado, como o que vejo com Angola.

JA - O mercado africano interessa a Espanha?

JGL -
Nos próximos dez anos, além do EUA, a nossa prioridade máxima vai ser para os países africanos. Nunca tivemos conflitos com Angola. A nossa relação é de confiança, porque construímos laços históricos. Espanha foi o primeiro país europeu a reconhecer a independência de Angola e também rubricou um programa financeiro, quando Angola não tinha abertas as linhas de financiamento internacional.

JA - Que outras vantagens existem nas relações?

JGL -
Existe semelhança na língua. Hoje os nossos empresários estão espalhados pelo mundo, porque no mundo empresarial a língua não constitui barreira. Temos empresários radicados nos EUA, Austrália, Malásia e outros pontos do mundo. O fórum empresarial impulsionou as nossas relações comerciais e garantiu maior aproximação entre os povos.

JA - Em que outro país africano a Espanha tem investimentos?

JGL -
As nossas empresas têm internacionalizado os seus negócios por serem líderes de mercado em energias renováveis. Marrocos e Argélia, outros países do Sul de África, são os exemplos de desenvolvimento no sector energético com aposta das empresas espanholas. Através de parcerias e de protecção dos investimentos nos países onde investem, os espanhóis dão impulso às economias com défice de crescimento.

JA - Que experiência a Espanha procura transmitir, além do sector da energia?

JGL -
Possuímos a maior rede de alta velocidade ferroviária da Europa e somos o segundo a nível mundial em construção de infra-estruturas para unidades hospitalares, aeroportos, portos, saneamento básico, educação e rede de transportes. Tudo isso foi conquistado com muito trabalho.

JA - Qual foi o segredo?

JGL -
Há 40 anos, a Espanha era um país com um rendimento per capita de quatro mil dólares e em muitas povoações não havia electricidade. Passamos do desenvolvimento à prosperidade, fazendo coisas bem feitas e com muita seriedade. Apesar da crise, a Espanha é número um na Europa no domínio da construção e infra-estruturas.

JA - As empresas que participaram no Fórum Empresarial em Luanda também participaram no processo de desenvolvimento de Espanha?

JGL -
Muitas empresas presentes no fórum ajudaram a modernizar o nosso país. Espanha não estaria desenvolvida nas tecnologias, se não buscasse sócios estrangeiros para ajudar a desenvolver os seus projectos. Apostamos na abertura política e económica do país e com o apoio de empresas estrangeiras e desenvolvemos os nossos sectores produtivos.

JA - Estão em condições de fazer o mesmo percurso em Angola?

JGL -
Hoje temos empresas espanholas líderes em vários segmentos de mercado. Isto é só para dizer que Angola também pode trilhar este caminho de transformação e modernização dos seus sectores produtivos adquirindo experiencia positiva do estrangeiro.

JA - Os espanhóis estão interessados em parcerias com empresários angolanos?

JGL -
Absolutamente. As empresas espanholas, quando vão buscar negócios, procuram manter parcerias, partilhando os investimentos no mercado. Quando vão investir em determinado país, os espanhóis vão em equipas pequenas buscando o sócio adequado para trabalhar. Nesta primeira visita trouxemos 120 grandes empresas espanholas que estão muito interessadas em investir no mercado angolano. As relações devem incidir na base da diversificação do comércio.

JA - A estabilidade política em Angola é boa para os negócios?

JGL -
A estabilidade é uma condição imprescindível para o progresso económico e social. Quando não há paz as instituições não funcionam. Angola tem agora 12 anos de paz e vive uma estabilidade que tem proporcionado níveis de crescimento impressionantes. Este desenvolvimento tem gerado curiosidade aos empresários estrangeiros. Nesta minha primeira visita a Angola vejo que é um país jovem com muita actividade, porque contrasta totalmente com a Europa, que enfrenta a crise financeira.

JA - Angola e Espanha assinaram um acordo para financiar empresas que tencionam investir no mercado angolano. Até que ponto esta medida vai intensificar as trocas comerciais?

JGL -
Estamos a conceder 75 milhões de dólares para apoiar as empresas espanholas que queiram investir em Angola. Esta parceria vai ser canalizada entre a Companhia Espanhola de Financiamento e Desenvolvimento e o Instituto de Fomento Empresarial de Angola. O acordo constitui um primeiro passo entre os dois Governos para facilitar os negócios entre os empresários. Esta medida visa também intensificar as parcerias comerciais, que ainda estão baixas, avaliadas apenas em dois milhões de euros.

JA - Como pensam mudar esta realidade nos negócios?

JGL -
Estamos a trabalhar com o Ministério da Economia em protocolos que vão permitir gerar um  avanço grande nas relações comerciais entres os dois países. Esperamos que o Governo angolano nos mostre os caminhos a seguir e o sector estratégico a investir.

JA - Um acordo de supressão de vistos facilita a circulação dos empresários?

JGL -
A supressão de vistos era importante para facilitar o intercâmbio entre as empresas, mas é uma situação que envolve acordos a nível de toda Europa, não é assunto que a Espanha possa tomar uma decisão autónoma. Estamos a trabalhar intensamente para convencer a Comissão Europeia a rever a política de vistos com Angola. É um trabalho árduo, mas que dará frutos.

JA - Basta resolver o problema dos vistos?

JGL -
Também era importante ter mais voos entre os dois países. Estamos a reforçar os serviços diplomáticos para que sejam mais dinâmicos na concessão de vistos. Temos voos directos entre Madrid e Luanda, mas é crucial facilitar as conexões aéreas entre os dois países, abrindo uma terceira frequência semanal.

JA - Que lições a Espanha tira da crise na Europa?

JGL -
Os Espanhóis aprenderam uma lição clara. Não podemos viver acima das nossas possibilidades muito tempo. A Espanha crescia e os gastos das famílias aumentava cada vez mais. O país endividava-se no estrangeiro. Foi essa  dívida que causou a crise financeira. Baixamos os preços dos activos e das empresas e estamos a receber investimentos do Médio Oriente e da Europa. Agora temos de optar por um estilo de vida mais cauteloso e moderado.

JA - Aprenderam que não podem ser gastadores?

JGL -
Tiramos também uma lição de responsabilidade. Se temos 100 euros não podemos gastar 120. É importante ter noção das possibilidades financeiras. As crises são distintas em cada país. A de Espanha foi diferente de Portugal e da Itália. A crise espanhola foi causada pela dívida das famílias e do sector imobiliário. Portugal teve um problema de demasiado gasto público que se assemelha à Itália. Cada país tem uma lição a tirar e todos devem aprender com este exemplo.

JA - Como a Espanha tem resistido à crise?

JGL -
No primeiro trimestre deste ano, a nossa economia cresceu 1,4 por cento. Tivemos nove meses consecutivos de crescimento. Em Junho vamos acumular um ano de crescimento. Isto é sinal de que a recuperação está em marcha e que a crise ficou para trás em termos de queda da produção. O problema da Espanha é que vai levar muitos anos a devolver o emprego à população. Está a ser um processo duro de reformas. O saldo positivo na balança de pagamentos está em mais de 1,5 por cento do PIB.

JA - Como estão as exportações de Espanha no mundo?

JGL -
Somos o segundo país exportador da Europa, apenas atrás da Alemanha, tendo superado a Itália, França e Reino Unido. Isso faz-nos confiar na capacidade das nossas empresas porque são as grandes protagonistas do intercâmbio comercial e da grande modernização que tivemos nos últimos 40 anos. A Espanha é um país seco, um dos países mais secos da Europa, mas graças à tecnologia desenvolvemos a nossa agricultura no domínio das frutas e verduras. Comercializamos 20 por cento da produção na Europa, para 500 milhões de consumidores europeus.

JA - O empresariado angolano é desejado no mercado espanhol?

JGL -
A Espanha tem um mercado aberto. Os investimentos são mútuos. As empresas angolanas interessadas podem investir de forma segura, basta contactar o Ministério da Economia para facilitar o intercâmbio. A obrigação dos governos consiste em modernizar Angola o mais rápido possível. Esta é a mensagem que quero deixar em Angola aos empresários angolanos: constituam parcerias porque é o melhor caminho para o desenvolvimento sustentável.

JA - Angola pode contar com apoios da Espanha na área do desporto?

JGL -
Claro que sim. Essa vai ser uma das preocupações que vou levar para as entidades do desporto em Espanha. Era gratificante apoiar Angola na formação de jovens futebolistas no Clube Atlético de Madrid. Queremos estender a relação firmando vários acordos entre as instituições desportivas.

Tempo

Multimédia