Entrevista

Espanha prepara mestrado em agro-indústria

Eleazar Van-Dúnem|

O ano de 2012 está a ser especial para o relacionamento entre Angola e Espanha, ao celebrarem-se 35 anos de relações diplomáticas e 25 de intensa cooperação entre os dois Estados.

Josep Puig coordenador geral da Cooperação Espanhola em Angola
Fotografia: Eduardo Pedro

O ano de 2012 está a ser especial para o relacionamento entre Angola e Espanha, ao celebrarem-se 35 anos de relações diplomáticas e 25 de intensa cooperação entre os dois Estados. O coordenador-geral da Cooperação Espanhola em Angola, Josep Puig, falou, em entrevista concedida ao Jornal de Angola, sobre o trabalho da “grande família espanhola” nos 25 anos de presença ininterrupta no nosso país.

Jornal de Angola – Em que consiste a cooperação espanhola?

Josep Puig –
A Cooperação Espanhola é a representação da solidariedade e da cidadania do povo espanhol em Angola e noutros países do mundo. Estamos representados em 50 países. A cooperação espanhola é desenvolvida no âmbito da Embaixada de Espanha, mas representa todas as administrações públicas espanholas e fundações privadas solidárias que existem em Espanha. Em Angola, através do escritório técnico de cooperação, representa o que a agência espanhola de cooperação destina para doação e para projectos sociais, e tudo o que os governos regionais espanhóis canalizam através das Organizações Não Governamentais, universidades públicas, entre outras. A cooperação espanhola representa todos esses sectores.

JA - Que vantagens pode ter para Angola?

JP -
Os 25 anos de presença solidária ininterrupta da Cooperação Espanhola em Angola colocam-na como um sócio fiável e comprometido com o país. A experiência na institucionalização territorial decorrente de 37 anos de descentralização administrativa do Estado espanhol pode, igualmente, contribuir para a construção desse modelo em Angola, que realiza eleições autárquicas nos próximos tempos. A experiência na descentralização administrativa e no reforço de instituições locais, a especialização no sector agro-alimentar e o desenvolvimento na investigação universitária podem ser, entre outras, vantagens comparativas no relacionamento de Angola com a cooperação espanhola.

JA - Existem quadros angolanos na Cooperação Espanhola?

JP -
Temos 19 quadros angolanos a trabalhar connosco, juntamente com 13 estrangeiros. Existem ainda seis assistências técnicas nos distintos ministérios, 30 cooperantes que trabalham em ONG, 300 missionários e sete universidades públicas, tendo um representante cada uma delas.

JA - Quais são os agentes dessa cooperação?

JP -
São Universidades, empresas públicas, institutos nacionais e os distintos ministérios. No fundo, é a representação da grande família espanhola de doadores e de intervenientes que participam na transferência de conhecimento. Os mais antigos integrantes da cooperação espanhola são os cerca de 300 missionários que aqui estão há quase 50 anos. Muitos deles chegaram muito jovens e agora mal falam espanhol. Também existem cerca de 30 Organizações Não Governamentais espanholas especializadas no terreno, desde educação, saúde, água e saneamento, e sobretudo a segurança alimentar. Existem ainda algumas universidades públicas espanholas que têm cooperado com universidades angolanas.

JA - Em que domínios tem sido feita a cooperação entre as universidades dos dois países?

JP -
Cerca de sete universidades públicas espanholas cooperam com universidades angolanas. No sector agrário, a Universidade Autónoma de Barcelona tem trabalhado com a Faculdade de Ciências Agrárias da Universidade José Eduardo dos Santos, no Huambo, no sentido de criar o primeiro mestrado em agro-indústria em Angola. A Universidade de Córdoba está a trabalhar em parceria com universidades angolanas para que, em Dezembro de 2013, Angola tenha a primeira promoção de engenheiros florestais. Isso significa que no próximo ano vamos ter licenciados angolanos em silvicultura, gestão, protecção, repovoação, ou seja, cientificamente aptos a gerir os bosques e os recursos florestais. />
JA - Inclui o envio de angolanos a Espanha?

JP -
Temos uma ampla gama de bolsas todos os anos e, no caso de Angola, já foram formados no âmbito dessa cooperação muitos mestres e doutores. Nos finais dos anos 90 e início dos anos 2000 formámos muitos engenheiros agrónomos. Tivemos cerca de 85 bolseiros angolanos nos últimos oito anos.

JA - Quais são os sectores que  têm prioridade?

JP -
São os da Governabilidade Democrática e do Desenvolvimento Rural e Luta Contra a Fome. Dentro da Governabilidade Democrática, existem várias linhas de acção, designadamente as políticas públicas para a coesão social e o reforço da igualdade de género. O diálogo social, o fortalecimento do poder local, a descentralização do Estado, o reforço e protecção das organizações da sociedade civil e a difusão e promoção dos Direitos Humanos também fazem parte das linhas de acção nesta área. O sector do Desenvolvimento Rural e Luta Contra a Fome está relacionado com a segurança alimentar e a capacidade de produção de pequenos agricultores e no desenvolvimento territorial, criação de emprego, inclusão social e igualdade de género. Este sector visa fortalecer as capacidades comerciais através do apoio às pequenas e médias empresas nos sectores produtivos alternativos da indústria extractiva e contribuir para a diversificação da economia e criação de riqueza no interior de Angola.

JA - A Cooperação Espanhola está em todo o território nacional?

JP -
Não. Até 2002, estávamos em Benguela, Kwanza-Norte, Kwanza-Sul, Luanda, Malange, Huambo e Bié. Nos últimos tempos temos centrado mais os nossos esforços em Malange, Huambo e Bié.

JA - A crise que tem assolado a Espanha não condiciona, de alguma maneira, o dinamismo dessa cooperação?

JP -
Afecta em questões de fundos que podem ser alocados. Mas também é verdade que as realidades e as necessidades de Angola são diferentes. Angola tem recursos económicos e aquilo que o Governo de Angola e as suas organizações nos pedem é uma transferência de conhecimentos. Em muitos casos, para essa transferência de conhecimentos, a deslocação dos técnicos e as missões em alguns casos são suportados pela parte angolana. A cooperação espanhola joga actualmente um papel de facilitador. Há uma parceria entre instituições públicas sem fins lucrativos.

JA - Qual vai ser o futuro dessa cooperação?

JP -
A relação entre Angola e Espanha vai continuar por muitos anos. Os vínculos históricos entre os dois países são muitos e essa cooperação vai prosseguir. A alegria do povo angolano e do povo espanhol são semelhantes. Apesar das dificuldades que existem, e a Espanha também está a passar por algumas, existe uma alegria natural nos dois povos e penso que isso nos une bastante. A Espanha foi o segundo país a reconhecer Angola e o primeiro Ocidental a fazê-lo.

Um amigo de Angola

Josep Puig foi condecorado na semana passada com a Cruz Oficial da Ordem do Mérito Civil, por ter contribuído para o reforço das relações entre Angola e Espanha. A condecoração foi feita pela embaixadora de Espanha em Angola, Júlia Olicia Olmo y Romero, na presença de funcionários diplomáticos espanhóis e de outros países da União Europeia.
A embaixadora espanhola disse na cerimónia que “se para o primeiro Presidente de Angola, Agostinho Neto, ‘a vida matou a minha mística esperança’, como escreveu na obra “Sagrada Esperança”, para o condecorado ‘a vida inspirou-o e renovou a esperança por uma Angola cada vez melhor’”.
Formado em psicologia social e cultural, Josep Puig trabalha em Angola desde 2006. O coordenador geral da cooperação espanhola foi condecorado por despacho do Ministério dos Assuntos Exteriores espanhol “pela coerência, lealdade e profissionalismo”.

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