Entrevista

Estados Unidos e AFRICOM na voz de Christopher Dell

Cândido Bessa|

Durante três dias participou em palestra sobre os 20 anos do estabelecimento das relações entre os dois países e abordou a segurança marítima regional e internacional, os caminhos para uma cooperação mais estreita e o papel crescente de Angola na Comunidade Económica dos Estado da África Central e na SADC. Em entrevista ao Jornal de Angola falou das actividades do AFRICOM, dos programas em Angola e afirma que a guerra nos Grandes Lagos ainda vai durar porque há muitos interesses e muitas forças envolvidas no conflito da RDC.

Christopher Dell sublinha o papel importante de Angola na Comunidade Económica dos Estados da África Central e na SADC
Fotografia: Paulo Mulaza

Jornal de Angola - Sete anos depois da sua criação, que balanço faz das actividades do AFRICOM em África?

Christopher Dell -
O ser humano é interessante. Podemos entender que existe um problema, mas sem estruturas é sempre difícil para as organizações se concentrarem nos desafios. E é isso que o AFRICOM levou para o Governo americano até agora. No passado, a nossa política de defesa não era muito focada. Os assuntos africanos eram o segundo papel do Comando Europeu. Pela importância cada vez mais crescente e notável da África, achamos muito importante ter um comando para se concentrar na nossa cooperação militar com a África.

JA - Que benefícios o AFRICOM trouxe para os Estados africanos?

CD -
Um dos benefícios é uma cooperação mais efectiva entre as Forças Armadas dos Estados africanos e os EUA. Temos cada vez mais resultados na cooperação bilateral e regional multilateral. As nossas tropas estão na formação, nos exercícios militares e na assistência militar. Os países africanos estão a beneficiar muito.

JA - Que acções o AFRICOM tem efectuado com as Forças   Armadas Angolanas?

CD -
Estamos a dar formação na Língua Inglesa e continuamos a nossa já tradicional cooperação na saúde, principalmente na luta contra a Sida. No meu encontro com o senhor ministro da Defesa, abordei a possibilidade de ampliar esta cooperação em todas as áreas de interesse mútuo, entre o Governo americano e o angolano, mas tendo sempre em vista os interesses definidos pelo Governo angolano. Este é o nosso ponto de partida. Começamos sempre com uma indicação da parte angolana ou africana sobre as áreas de interesse na cooperação.

JA - Que resultados práticos estes programas e operações já produziram?

CD -
Dou o exemplo da Somália. Em conjunto com o Departamento de Estado, o AFRICOM está a apoiar a Missão da União Africana para a Somália (AMISOM) formada por militares do Quénia, Uganda, Burundi e outros países, que está a trazer a paz na Somália e criou condições para que hoje, após mais de 20 anos, se pudesse estabelecer um Governo. Isto é um bom exemplo de que o AFRICOM e o Governo americano, trabalhando em conjunto com os países africanos, podem atingir maiores êxitos na área da defesa e da segurança.

JA - Acha que é o modelo ideal?

CD –
Achamos que este modelo também tem as suas imperfeições, mas mostra as dificuldades e a paciência que precisamos de ter, porque não são questões fáceis e leva tempo a preparar, organizar, formar e equipar estes exércitos para assumirem o papel de intervenção de paz.

JA - Qual tem sido a intervenção do AFRICOM na região dos Grandes Lagos?

CD –
Em primeiro lugar, tem um papel no apoio ao exército do Congo, na assistência e formação de unidades militares congolesas. Segundo, estivemos envolvidos no apoio ao governo do Uganda na captura do líder rebelde, Bosco Ntaganda, que jogava um papel determinante neste conflito. Além disso, temos apoiado a Missão da ONU na República Democrática do Congo (MONUC). Temos também indicado aos governos da SADC a nossa disponibilidade para apoiar estes países na formação, caso cheguemos a um acordo sobre como e quando intervir na região.

JA - Este é um dos objectivos da visita a Angola?

CD -
Não directamente. A questão da força da SADC ainda está em fase de formação. Há muita diplomacia, muita discussão que deve acontecer a nível dos governos da SADC, antes de apoiar. Ainda é cedo para falar deste assunto com os governos regionais.

JA - Porque custa tanto chegar à paz na região?

CD -
Depois de tantos anos de guerra, vai ser difícil chegar a uma solução. Os problemas são complicados. Há interesses de vários países, há muitos movimentos, tendências e forças. A situação ficou muito complicada e acho que ainda vai demorar bastante tempo para resolver os problemas. Mas temos o exemplo da região austral do continente. Há 20 anos havia guerra em Angola e em Moçambique e apartheid na África do Sul. Hoje esta região transformou-se na parte mais estável do continente. O fim da guerra em Angola, em 2002, foi o último capítulo. Isso também vai acontecer com os Grandes Lagos. Quando chegar o momento, pode-se resolver rapidamente e com bons resultados.

JA – Porque razão a comunidade internacional tardou tanto a intervir na RDC?

CD –
Em vez de responder deixe-me fazer uma pergunta: os africanos querem ver militares americanos no continente a assumirem um papel importante nas batalhas e lutas entre africanos?

JA – Os africanos não querem? É essa a visão do AFRICOM?

CD -
Penso que os africanos não querem. É só reparar nas atitudes contra o AFRICOM. Muitos disseram que estávamos a criar um comando para dominar África, para tentar impor a militarização em África. Os africanos não querem isso. E achamos bem. Depois de muitos anos de experiências negativas, começando com a falhada missão na Somália, entendemos que as únicas soluções duradouras para África são soluções africanas. Os africanos têm de definir e encontrar soluções adequadas e apropriadas para África.

JA - Então o AFRICOM é apenas um aliado?

CD -
Preferia a palavra parceiro ou apoiante dos países africanos.

JA – O AFRICOM foi criado para ajudar a neutralizar focos de terrorismo?

CD -
Não foi criado para isso, mas tem esse papel.

JA – Se existir um foco de terrorismo num determinado Estado africano, o AFRICOM aguarda o convite das autoridades desse país para actuar?

CD -
Sim, com uma excepção. Se tivermos informação de que há uma ameaça imediata e directa para os EUA, o Governo americano, como outro Governo qualquer, tem o direito de responder a uma ameaça. Não estou a falar de uma ideia, estou a falar de uma ameaça, de um atentado concreto e imediato. Mas não vemos esta situação em África, agora. Nem mesmo no Mali, onde a Al-Qaeda tem presença, não vemos uma ameaça para os EUA, de momento.

JA – A base do AFRICOM vai continuar na Alemanha?

CD -
Posso dizer com toda a confiança que o AFRICOM não vai basear-se em África. A única possibilidade de mudança é transferir o comando para os EUA. Há três estados americanos que têm interesse em receber o AFRICOM: Texas, Carolina do Sul e Virgínia. Recentemente, o secretário de Defesa fez um relatório ao congresso dizendo que, depois de muita análise, resolveu manter a sede do AFRICOM em Estugarda, na Alemanha. A deslocação para África implicava verbas de milhares de milhões de dólares que não dispomos de momento. Não se trata apenas do quartel-general, são escolas, hospitais, casas, tudo para criar condições para as famílias viverem lá.

JA - Essa não era a ideia do Presidente Bush?

CD -
Não posso dizer qual foi a ideia do Presidente Bush. O AFRICOM era parte do Comando Europeu, que estava baseado em Estugarda. Como havia cidades vazias, era só mudar uns dez quilómetros de uma cidade para outra para criar a sede do AFRICOM. A ideia foi aproveitar as facilidades existentes para criar o Comando para África.

JA - O facto de estar baseado fora do continente não atrapalha as acções de resposta?

CD -
Não, por duas razões: as ligações são muito boas na Alemanha. Às vezes é mais fácil viajar para África a partir de lá do que no interior do continente. Também apenas o Comando Europeu e o AFRICOM estão baseados fora dos Estados Unidos da América. O Comando para o Médio Oriente está baseado na Florida. O Comando para a América do Sul também está baseado na Florida. O Comando para a Ásia está baseado no Havai. Isto não impede nada.

JA - Qual destes comandos tem sido o mais interventivo?

CD –
Depende como se definem as intervenções e o período. Ultimamente tem sido o Comando para o Médio Oriente, efectivamente, devido ao Iraque e ao Afeganistão.

JA - Quais os principais desafios de trabalhar em África?

CD –
O principal desafio é a nossa falta de experiência com o ambiente africano. Quando falamos de cooperação, não quer dizer que são os americanos sempre a dar algo aos africanos. Ganhamos muito com esta colaboração. Ganhamos experiência em trabalhar num continente onde historicamente não temos uma presença militar.

JA - Como avalia as medidas para combater o terrorismo?

CD –
Levávamos várias horas para falar disso concretamente, mas posso dizer que o terrorismo é uma luta a longo prazo. Os terroristas adoptam métodos e medidas que criam possibilidades de actuar onde quiserem e como quiserem. Isso é uma praga que vai levar muito tempo a eliminar.

Perfil

Diplomata orgulhoso de Angola

Christopher Dell foi embaixador em Angola entre 2001 e 2004. Serviu na embaixada do Afeganistão e, mais tarde, em 2009, no Kosovo, até ser indicado, em Setembro de 2012, para comandante adjunto do Comando Norte-Americano para África (AFRICOM). Diplomata do Departamento de Estado Norte-Americano, Christopher Dell é o responsável pelos planos e programas ligados à saúde, assistência humanitária, acções de desminagem, resposta a desastres, reforma do sector de segurança e apoio às operações de paz e comunicação estratégica entre o AFRICOM e os parceiros.
Christopher Dell assegura que as acções em desenvolvimento e a execução dos programas estejam em consonância com a política externa dos Estados Unidos. Conhecedor da realidade africana, como ele mesmo faz questão de sublinhar, Christopher Dell chefiou a missão diplomática dos Estados Unidos da América em Angola numa altura crucial da guerra. Hoje, diz-se orgulhoso do país que encontrou, principalmente pelo papel importante e sempre crescente nas regiões em que está inserido.

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