Entrevista

"Este país tem futuro"

Kumuênho da Rosa |

Angola. A Europa. A crise do euro. E, claro, o Império Rothschild. O barão David René James de Rothschild falou, em exclusivo ao Jornal de Angola, sobre as razões que o levaram a visitar este país, e o que o faz querer regressar.

Patrão do grupo Rothschild falou ao Jornal de Angola sobre a Europa e a crise económica
Fotografia: Dombele Bernardo

O patrão dos Rothschild partilhou connosco a sua visão ‘como europeu’ sobre os BRICS e “abriu-se” em relação aos seus planos de sucessão neste império empresarial anglo-francófono, que apesar de existir há 200 anos e ter escritórios em 40 países, não descansa quando o assunto é fazer novos clientes e expandir a sua carteira de negócios.

Jornal de Angola: Embora tenha empresa a operar em Angola, que ideias tinha sobre Angola e com que impressão ficou após essa visita?

R: A impressão que tínhamos antes de chegar a um lugar não é importante. Penso que o que importa é o que vemos, e quem encontramos. E a impressão com que ficamos é boa. Angola tem a sorte de ter um embaixador inteligente em Paris. Encontramo-nos várias vezes e tornamo-nos amigos. De facto conhecia muita coisa sobre Angola, e também tive alguns trabalhos feitos pela minha empresa. Claro, estava um pouco preparado. Mas é muito importante, na minha idade, depois de ter viajado por várias partes do mundo, saber que começas a conhecer algum lugar.

JA: Como uma organização como a Rothschild pode ser útil a um país como Angola?

R: Muitos países no mundo passaram por períodos de guerra, revoluções, muitas transformações. Nós, Rothschild, não andamos envolvidos em política. Trabalhamos em muitos países, países como a Rússia, temos um grande escritório na Alemanha, onde tivemos de facto um período muito difícil após a Segunda Guerra Mundial. É assim que hoje vejo Angola. A guerra terminou há 11 anos. O que interessa a uma empresa como a nossa, é tentar perceber juntamente com as autoridades do país, o que há para fazer de modo a ajudar a melhorar o que tem que ser melhorado, e, claro, dentro dos nossos conhecimentos e interesses.

JA: Disse uma vez que a Rothschild não é propriamente um banco. Porquê?
R: É comum as pessoas falarem da Rothschild ou com membros da nossa organização, como se andássemos com uma mala de dinheiro para investir ou financiar, porque a minha família actua nas finanças há mais de 200 anos. Muitas vezes as pessoas olham para nós como se nos tivesse saído um ‘grande jackpot’. A empresa que hoje presido desenvolveu-se ao longo de 200 anos. Tornamo-nos uma grande organização em termos geográficos. São cerca de 50 escritórios em mais de 40 países, e o que nós fazemos é ajudar os nossos clientes a atingirem objectivos.

JA: Que tipo de objectivos?
R: Ajudamos empresas que queiram desenvolver, comprar, vender, produzir. Ajudamos famílias a definir uma estratégia inteligente de investimento. Ajudamos a investir e a trabalhar com várias entidades públicas ou governos em processos de privatizações, na promoção de parcerias público-privadas, e a terem acesso ao mercado financeiro mundial, com vários objectivos. Este é praticamente o objecto social principal da nossa organização.

JA: Fez contactos enquanto esteve em Luanda, sente que há ambiente para trabalhar. Em que áreas?

R: A elite política e económica angolana é competente e sofisticada, e pessoas como eu ou empresas como a minha, nunca devem dizer que são imprescindíveis. Fui informado que o país gostaria de desenvolver um fundo soberano, que tem interesse em criar o seu mercado de capitais, e por que o país está a viver um período de transição, quer desenvolver um vasto programa de privatizações, e também apostar fortemente em parcerias público-privadas. Queremos voltar aqui com uma equipa de profissionais. Caso as autoridades locais assim entenderem, estamos dispostos a dar o nosso contributo. O país tem futuro. Ficaremos muito felizes em participar das iniciativas que me referi atrás.

JA: É apenas impressão ou há algum excesso de modéstia da sua parte? Afinal, é somente o líder do império Rothschild…

R: Nada disso. Quando se chega a um lugar, e olha que viajei já bastante, tens de ser humilde. De nada te vale a arrogância. Dar uma que sabes tudo e que os outros não sabem nada. Só te prejudica. Estamos sempre a aprender. É assim que deve ser.

JA: Desde o fim da guerra as autoridades angolanas definiram um rumo para o país, e segue esse trilho. Que opinião tem do que está a ser feito?
R: Penso que isso é um processo, que obviamente levará tempo. Desenvolver uma sociedade em democracia é algo transversal e complexo, que começa com uma elite, com sectores prósperos, com pessoas que promovem negócios e geram empregos. Claro que é impossível fazê-lo sem investidores nacionais e estrangeiros. E claro, segundo a realidade do mundo ocidental, também é preciso saber lidar com questões como desemprego, pobreza, falta de educação e saúde. Isso existe em todo o mundo. Como disse, é um processo transversal, que envolve vários factores, todos eles importantes.

JA: O governo angolano fixou em cerca de sete por cento a meta de crescimento económico. Para o actual momento do país qual a importância de manter esta marca?
R: Penso que há várias razões para continuar nesta senda de crescimento. O desafio para os países é saber o que fazer com este crescimento. Países como a Índia e China, têm um grande índice de pobreza, mas também há um grande crescimento da classe média, com cada vez mais pessoas com capacidade de comprar coisas, casas, carros, criar empresas e gerar empregos. Quando há crescimento, mesmo na Europa, temos a certeza de que é necessário, de tempos em tempos, mesmo com as dificuldades, fazer com que todas as pessoas beneficiem do crescimento. Penso que Angola fará isso muito bem feito.

JA: Quanto tempo mais acha que vai durar a crise na Europa?
R: Acho que ninguém tem uma resposta para isso. Concordará comigo que tem havido na crise europeia várias fases. Houve a crise bancária que começou nos EUA e que de facto teve um efeito contaminante num número considerável de bancos em toda a Europa. É claro que era necessário primeiro curar os bancos, o que foi feito em grande medida. Depois da crise bancária houve uma recessão, em 2009. Melhorou em 2010. Depois tivemos a crise do euro, em 2011, que foi praticamente um pânico do mercado, devido principalmente às dívidas soberanas, na Itália, Espanha, Portugal, etc. A taxa de juros subiu, os custos financeiros tornaram-se demasiado altos, o que se tornou de facto muito perigoso. Nessa altura, o Banco Central Europeu, que tem como presidente Mario Draghi, uma pessoa muito interessante, decidiu agir tal como os americanos e ingleses o fizeram: injectar muito dinheiro no sistema financeiro, e os bancos, em todas as agências, passaram a ter liquidez. Isso fez com que diminuísse a pressão sobre as taxas e hoje a chamada crise do euro praticamente terminou. Já ninguém questiona se o euro sobrevive ou não.

JA: Tem condições?
R: É claro que sim. Só que depois disto tudo estamos numa situação em que as economias dos países europeus praticamente deixaram de crescer. E isso é mau para o emprego e também é mau para o mundo. Perguntou-me quanto tempo é que isso vai durar. Lamento ter de dar-vos esse historial todo, mas alguns comentários sobre essa questão são de facto importantes. O que eu penso é que 2013 está a ser um ano muito difícil. É também muito difícil fazer um prognóstico em relação a 2014. Mas se os países europeus trabalharem juntos, criando maior sinergia, poderemos ter uma situação melhor a partir de 2015. Tem havido muitas opiniões a esse respeito. Esta é a minha.
/>JA: Qual a sua opinião quanto a forma como os governos procuram resolver a crise do Euro?
R: Penso que tem havido mais degradação económica do que propriamente uma crise do euro. Existe mais uma preocupação com a situação económica dos países, do que propriamente com a zona euro. Temos países na União Europeia que têm uma recessão real, outros que têm um baixo índice de desenvolvimento, e ainda temos os que não têm. Também temos muitos países com grandes taxas de desemprego e outros tantos com níveis elevados de dívida pública.

JA: O que fazer?
R: Há a meu ver apenas duas coisas a fazer: reduzir os gastos públicos, e ajudar as empresas a melhorarem a sua competitividade, com a redução do custo da mão-de-obra, aumento das horas de trabalho sem aumentar os salários. Tudo isso na esperança de, com essas medidas, termos uma situação económica melhor, com o passar do tempo.

JA: Mas essas medidas têm levado a Europa a um problema de crise social…
R: Concordo plenamente. É um grande problema.

JA: Como os governos sobrevivem perante este tipo de pressão?
R: Em muitos países europeus temos o que chamamos de movimentos populistas. Muitos votam na extrema-esquerda e também muitos votam na extrema-direita. Eu penso que os extremismos não são uma boa resposta. Nenhum país governado por extremistas é um bom lugar. Penso que os partidos democráticos, de centro-direita e centro-esquerda, estão todos preocupados com os problemas sociais, como o desemprego, particularmente dos jovens. Penso que a Europa unida, a Europa como entidade, deve encontrar mecanismos para apoiar a criação de empregos para os jovens.

JA: Como criar empregos num quadro de recessão em que se encontram muitos países?
R: Precisamos ultrapassar esse período de recessão e encontrar fórmulas de crescimento económico. Só é possível criar empregos com crescimento económico.

JA: Enquanto isso…
R: Enquanto isso, a Europa deve tratar de redistribuir o apoio social para evitar uma catástrofe humana, com os desempregados. Mas uma resposta de longo prazo deverá passar pelo melhoramento da situação económica.

JA: A austeridade tem sido o caminho da maior parte dos governos europeus. Qual a sua opinião?
R: Como pode ver, nenhum governo escolheu a austeridade como política. É uma consequência dos problemas. E quais problemas? Uma grande dívida, que é de facto muito perigoso e é preciso reduzir. Basta ver os casos da França, Espanha, Itália, Irlanda e Portugal. É necessário reduzir a dívida. Os impostos subiram. É claro que quando os impostos sobem a população consome menos e investe também menos. Portanto, a austeridade é o resultado do alto nível da dívida pública e da falta de crescimento económico. A medida que a situação for melhorar, haverá mais confiança, as empresas estarão mais motivadas para investir, os estrangeiros vão voltar a investir na Europa e sairemos dessa fase de austeridade.

JA: Que opinião tem dos BRICS e da intenção de criar um banco?
R: A China, Rússia, o Brasil, Índia e África do Sul são países muito diferentes. Sobre a criação de um banco? Nunca ouvi falar desse projecto. Para responder a essa sua questão teria de estar melhor documentado.

JA: O banco dos BRICS é visto como alternativa às políticas de financiamento seguidas pelas organizações da Bretton Woods.
R: É uma questão muito complexa. Vendo do ponto de vista de europeu, como eu, ficaria satisfeito com uma alteração no sistema financeiro mundial, se for de facto mais saudável, porque a China, Índia, Brasil e Rússia estão num bom caminho, e a América reaparece com sinais de recuperação. Todos esses países fazem parte do que se entende por uma economia global, e seguem a mesma direcção. Mas todos eles têm os seus problemas. O crescimento do Brasil não é o mesmo de há dois anos. Quando a China cresce entre oito e nove por cento é fantástico. Mas quando cresce cinco por cento é o mesmo que a França ou a Europa crescer zero, porque têm muitas bocas a dar de comer, e não podem fazê-lo crescendo abaixo dos seis por cento. Do meu ponto de vista é fabuloso, mas não pode compensar, se for esse o caso, a longa crise na Europa. Agora. Se me perguntar se os BRICS têm uma grande influência no mundo financeiro? Eu digo que sim. E também concordo que precisamos de mudar o relacionamento no sistema internacional, mas isso tem de ser feito de forma gradual e ponderada. Não acho que seja necessária uma revolução do ponto de vista institucional.

JA: Porque deixou a direcção do grupo Rothschild?
R: Tenho 70 anos. E entendo que, num mundo de negócios como o meu, temos que saber algumas decisões importantes e para assumir a gestão diária da empresa, mesmo que estejas fisicamente bem, e intelectualmente normal, precisas de novos negócios para promover jovens e preparar a transição e o desenvolvimento da empresa. Por isso temos dois presidentes executivos, um inglês e um francês, já que somos uma organização bicultural, anglo francófona. Tem sido bastante positivo, porque temos conseguido fazer coisas muito interessantes. Depois tenho um filho, o Alexandre. Ele tem 32 anos e está a dar-se bem trabalhando na empresa. Penso que dentro de alguns anos poderá suceder-me como presidente do grupo.

JA: Fale-nos um pouco da crise do grupo após a Segunda Guerra Mundial?

R: Foi de facto um período difícil, a nacionalização dos bancos francófonos. Muitas coisas aconteceram. Foi difícil.

JA: Como foi recomeçar?
R: Como sabe, poderemos sempre ver o fundo do copo a meio ou quase vazio. Na época acreditei que quando há adversidades tens de arregaçar as mangas e trabalhar duro para encontrar a solução. Porque quando tu acreditas que algo é possível, há também momentos de sorte. Mas se fores pessimista as boas coisas nunca virão ao teu encontro. A atitude tem sido sempre pensar de forma realista e acreditar que haverá sempre uma luz no fundo do túnel.

JA: O que mais tem feito ultimamente?
R: Tenho tido uma vida simples. Falo com os meus colegas seniores, para mantê-los informados e para mostrar-lhes que são importantes para mim. Visito clientes, com o corpo executivo em várias partes do mundo, e viajo, como o fiz agora, para encontrar-me com clientes importantes, visitar líderes, para ajudar o desenvolvimento da empresa. Também viajo para ajudar os meus colegas em países onde temos escritórios. E tenho outras actividades não lucrativas. Dirijo duas fundações, uma dedicada à memória do Holocausto, e outra que conduz investigações sobre doenças mentais, chama-se ‘Funda Mental’. Procuro ter uma vida balanceada. Tenho uma mulher lindíssima, quatro filhos, três netos, uma boa e fascinante empresa, muito internacional, um número de actividades não lucrativas que têm contribuído para o bem-estar da Humanidade.

JA: Que valor dá a estabilidade?
R: Eu sou um democrata, não gosto de grandes tensões, conflitos, nem gosto de guerras. Mesmo na minha própria empresa, tento gerir as pessoas na base de consensos, não na base de tensão. Não coloco uns contra outros, porque penso que a convergência de pontos de vista é importante. Por isso digo que sou um adepto da concertação e da estabilidade.

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