Entrevista

Estilista defende identidade estética

Arcângela Rodrigues |

A estilista Nadir Tati considera uma responsabilidade dos criadores de moda e de arte, em geral, exaltarem a identidade angolana e africana nas suas obras.

Nadir Tati destacou que é preciso divulgar mais os valores angolanos pois que há poucos designers
Fotografia: Paulo Mulaza

Em entrevista ao Jornal de Angola, ela afirma que, apesar dos poucos eventos realizados, a moda no continente tem dados passos seguros no caminho da afirmação e critica aqueles que se limitam a fazer cópias do que é produzido noutros cantos do mundo.

Jornal de Angola - A propósito da sua última colecção “A voz de Angola”, a Nadir afirmou que pretende internacionalizar uma identidade estética angolana. Fale-nos dessa identidade estética.

Nadir Tati -
A minha colecção passada foi dedicada ao país, à mulher angolana, africana e ao posicionamento dela na sociedade. Quando se fala na colecção de um criador africano, é normal, eu sinto esta responsabilidade de passar uma série de informações através da moda. Vou buscar a história e factos reais, porque penso que é sempre responsabilidade de um criador, que tem a possibilidade de estar num palco, falar sobre si ou a sua marca, sobre o país e o continente. Falar do continente africano, identidade e cultura é passar toda uma história, uma vivência naqueles 15 ou 20 minutos de desfile. Sinto que, cada vez mais, o continente africano começa a ser estudado, compreendido e apreciado com outros olhos. Mas é importante que se fale do continente e de Angola, não só como país que produz petróleo, diamante, como país que está em crise, mas acima de tudo falar de Angola como uma nação com pessoas, porque são a maior riqueza que um país pode ter. Somos nós que temos a responsabilidade e a necessidade de passar toda essa identidade. Todos os dias, sinto esse compromisso de mostrar ao mundo o papel da mulher na sociedade em que vivemos e o que podemos melhorar.

Jornal de Angola - A moda angolana parece estar mais virada para o exterior. A que se deve isso?

Nadir Tati -
Estamos num momento crítico em que existem poucos designers formados na área e isto faz com que muitos não percebam que a moda pode ser uma forma de comunicação e ao mesmo tempo possui algumas responsabilidades. Significa que devemos usar mais o nosso tempo para divulgar os nossos valores. Penso que a 99 por cento dos criadores em Angola passa-lhes tudo isso, porque a maior tendência é seguir o que outros criadores fazem. A partir da altura em que alguém se senta e começa a reproduzir o que foi feito no exterior, é cópia. Neste sentido, é necessário que se crie uma identidade, o que infelizmente os artistas e muitos criadores se esquecem de fazer. É necessário que cada um crie a sua linha de trabalho, mas é importante que se reconheça esse trabalho sem cópias. Apelo aos criadores que se identifiquem cada vez mais e, mesmo dentro da globalização, deve haver alguma responsabilidade. É necessário que se façam mais estudos e pesquisas. Vários são os criadores internacionais que fazem a produção em África e nós temos de ter a capacidade de identificar o que queremos. Se estivermos atentos, vamos ver que em África há muito para ser explorado.

Jornal de Angola - Como alguém que viveu tantos anos no exterior e em diferentes continentes consegue manter as suas raízes e apresentá-las com essa força?

Nadir Tati -
Consigo, porque dedico muito tempo às pessoas, estou sempre a defender que, quando formamos um ser humano, trabalhamos com alguém, enquanto somos líderes, é importante termos sentido de responsabilidade. Sou uma pessoa muito curiosa, estou sempre atenta e aprendo com detalhes pequenos.

Jornal de Angola - O vestido que lhe deu notoriedade foi usado pela primeira vez pela actriz congolesa Rachel Mwanza na entrega dos óscares e as cores foram vermelha, preta e amarela. Foi de propósito?

Nadir Tati -
Foi tudo estudado, porque são as cores que melhor representam o continente africano e eu precisava mostrar o sangue de África e o nosso luto. O facto de ter recebido o convite e ser a única criadora africana que conseguiu chegar aos óscares foi um passo muito importante para a minha carreira. A partir daí, surgiram outros convites para participar em eventos. A modelo não só usou o vestido na entrega dos óscares nos Estados Unidos, mas também em outros eventos no Canadá. A Rachel é o exemplo de uma criança africana que sofreu sem os pais e tinha a sua base no Congo. De repente, aparece na entrega de óscares com milhares de actores que nem imaginavam que a modelo dormia na rua.

Jornal de Angola - “Não sou defensora de Black Fashion Weeks. Eu trabalho para o mundo, não para alguns. Além disso, não há White Fashion Weeks.” Esta frase foi-lhe atribuída. O que quis dizer em concreto?

Nadir Tati -
Não existem White Fashion Weeks. Existem Fashion Weeks do mundo, existem Fashion Weeks ­Milão, Paris, Lisboa e Angola Fashion Weeks. Existem as semanas de moda no mundo e eu penso que, quando somos criadores do mundo e atingimos um determinado nível de trabalho, temos de ter capacidade para participar em eventos de moda no mundo e não de moda de África ou de negros, porque isso limita o meu trabalho e as minhas espectativas. Os angolanos e não só conhecem o meu trabalho e acreditam no que faço, por isso, o meu trabalho não deve ser visto com limites, por exemplo, em uma semana de moda africana.

Jornal de Angola - Atendendo à grande diversidade cultural no continente, é possível falar de uma moda africana?

Nadir Tati -
África começa a dar cada vez mais passos no sentido de as fronteiras desaparecem e nos unirmos. Felizmente, os países africanos têm trabalhado para que as condições sejam criadas e ultrapassar as barreiras. A mesma coisa acontece com a moda e posso afirmar que 99 por cento dos tecidos que uso são provenientes do Ghana e Camarões e fiz a minha formação na África do Sul. É necessário olhar para tudo que está à nossa volta, porque, além da primeira-dama e do Presidente da República, todos são chamados a divulgar a nossa cultura.

Jornal de Angola - Que contactos mantém com outros estilistas africanos? E quais as suas referências nesse sentido?

Nadir Tati -
Por trabalhar internacionalmente e, nos últimos 10 anos, andar um pouco pelo continente africano, tenho acompanhado de perto o trabalho de muitos criadores africanos, desde Moçambique, Senegal, Ghana e Etiópia e 90 por cento dos criadores africanos estão atentos e lutam para a divulgação do seu trabalho. Tenho respeito e admiração por todos esses criadores que lutam pela história da moda africana.

Jornal de Angola - Como antevê o futuro da moda africana no curto, médio e longo prazos?

Nadir Tati -
É devido ao grande trabalho dos criadores que acreditam e de todos aqueles que têm a responsabilidade de usar uma camisa ou um vestido africanos, nos momentos certos, que estamos a falar da transmissão daquilo que é nosso. A moda angolana e africana é vista hoje de maneira diferente, devido ao trabalho dos criadores que passaram antes de mim e os que estão a lutar agora. Os que vêm a seguir nunca devem esquecer-se de onde vieram para manter estas raízes.

Apaixonada pelo desenho


Estilista de coração, criminologista de formação, angolana de nacionalidade e universal de espírito, Nadir Tati já foi considerada pela revista norte-americana Forbes “líder dos criadores de moda angolana.”
Desde os 4 anos que desenha, diz a mulher alta, agora com 40 anos. A culpa é capaz de ser da mãe, que confeccionava a roupa da única menina de cinco irmãos e é uma referência importante da estilista.
Viveu em Luanda até aos 18 anos, altura em que, guiada pelo espírito nómada que a caracteriza, morou em sete países e aprendeu a falar fluentemente cinco línguas - inglesa, francesa, alemã, portuguesa e espanhola. Licenciou-se em Criminologia e especializou-se em Abuso e Tráfico de Menores.
Numa breve passagem por Portugal, onde viveu durante três anos, trabalhou com reclusos no Tribunal de Instrução Criminal. Depois, atravessou o Atlântico e encontrou poiso no México, onde concluiu o mestrado em Exploração Sexual e Comercial de Menores e outro em Design de Moda.
Em 2001, ao regressar a Luanda, deixou que a paixão antiga pelo design pautasse o seu futuro. Estabeleceu-se como estilista e somaram-se prémios e desfiles, em e além Angola, num globo que já mostrou ser pequeno para a angolana. Nova Iorque, Tanzânia, México, Portugal, Espanha, Macau, África do Sul, Coreia do Sul e Togo são alguns dos países que já passaram pelo GPS de Nadir.

Tempo

Multimédia