Entrevista

Europeus têm visão distorcida de África

Cândido Bessa|

Chegou a Angola há sete anos, com uma missão empresarial. Quinze dias depois, começava o processo de instalação de uma empresa que hoje opera nas áreas de engenharia, arquitectura, consultoria, energia e águas, aquicultura, geologia e minas, edificação e fiscalização de obras.

Avelino Suárez Álvarez consul honorário
Fotografia: Rogério Tuti

Um dos projectos mais visíveis é o Plano Nacional Geológico de Angola (Planageo) que vai permitir ao país, dentro de cinco anos, conhecer com detalhe os recursos mineiros que tem no seu subsolo. Em entrevista ao Jornal de Angola, Avelino Suárez Álvarez fala da nova missão, facilitar as relações comerciais, económicas, culturais e científicas entre o Principado das Astúrias e Angola. Promete, com o seu trabalho, ajudar a mostrar este país forte, jovem e com muitas oportunidades que se chama Angola.

Jornal de Angola - Como surgiu o convite para cônsul honorário de Angola nas Astúrias?

Avelino Suárez Álvarez -
A notícia foi-me dada pelo embaixador de Angola em Espanha, Victor Lima. Depois, o ministro Georges Chikoti, que esteve de visita a Espanha no mês passado, recebeu-me na embaixada e entregou-me a carta patente que me acredita como cônsul honorário de Angola. O Ministério dos Assuntos Exteriores de Espanha cedeu-me uma credencial que me acredita como cônsul honorário de Angola nas Astúrias. Vamos, no dia 21, inaugurar o escritório consular. Vão estar presentes o embaixador Victor Lima, o cônsul em Madrid, Nelson Ribeiro, o presidente do Principado das Astúrias, Javier Fernandes, o delegado do Governo Espanhol e o Alcalde de Llamera, José Avelino Sanchez.

JA - Em que áreas vai incidir o seu trabalho?

ASA -
As funções dos cônsules honorários estão reguladas pela Convenção de Viena de 1963. Neste caso, trata-se  de facilitar as relações comerciais, económicas, culturais e científicas entre as Astúrias e Angola. Trata-se também de  contribuir para resolver questões que podem surgir na comunidade angolana.

JA - Porquê um cônsul honorário nas Astúrias?

ASA -
O embaixador de Angola em Espanha e o Governo de Angola, mais concretamente o ministro Georges Chikoti, entenderam que chegou o momento para ter um consulado nas Astúrias. É para mim uma grande honra representar os interesses de Angola na terra onde nasci, vivo e trabalho. Penso contribuir para facilitar a relação com a Embaixada de Angola em Espanha e também com as autoridades espanholas e asturianas.

JA - Como avalia as relações entre Angola e a Espanha?

ASA -
São extraordinariamente importantes e fluidas, graças, sobretudo, ao grande trabalho desenvolvido pelo embaixador de Angola Victor Lima, e pela embaixadora de Espanha em Angola, Julia Olmo e Romero. Eles estão a dar continuidade ao trabalho dos embaixadores anteriores e a fazer um trabalho extraordinário que tem como resultado os dois países terem uma relação forte, potente e sincera.

JA - Que conhecimento  de Angola há nas Astúrias?

ASA -
No geral, a Europa tem uma percepção leviana e distorcida da realidade da África Subsaariana e também de Angola. O conhecimento que se tem vem fundamentalmente das empresas que aqui operam e pelo que se ouve e lê nos meios de comunicação social. Vamos ajudar a mostrar este país democrático, que tem muitas oportunidades, um país forte, jovem e com dirigentes preparados e comprometidos com o desenvolvimento. O povo de Angola é pacífico, sensível, amável e maravilhoso.

JA - Quais são os pontos fortes das Astúrias que Angola pode aproveitar?

ASA -
Nas Astúrias estão as indústrias básicas e motrizes de Espanha. Estamos a falar do aço, alumínio, vidro, indústria agro-alimentar, lácteos. Devido às Astúrias a mineração teve um papel importante no desenvolvimento de Espanha. É uma região com forte tradição industrial e mineira. Angola precisa de desenvolver a sua indústria e pôr em marcha a mineração. O conhecimento que as Astúrias têm da grande indústria transformadora e da mineração é muito importante para Angola.

JA - Como é que se sente trabalhando em Angola?

ASA -
Com muito gosto, porque contribuímos, com o nosso conhecimento, para o desenvolvimento deste país. Não concebemos a empresa apenas pensando em dinheiro. As empresas têm de ganhar dinheiro para crescer, mas têm de gerar empregos e fazer com que o conhecimento sirva o desenvolvimento do país onde actuam. Estamos contentes por trabalhar em Angola, porque crescemos com o país e geramos empregos. Temos quarenta funcionários e 32 são angolanos. As empresas devem ter alma, contribuir para o desenvolvimento social, económico e cultural dos lugares onde actuam. Não devem ter apenas como objectivo o valor económico.

JA - Como foram os primeiros anos em Angola?

ASA -
Não foram fáceis, principalmente pelo desconhecimento do país. Isso dificulta as coisas. Conseguimos adaptar-nos rapidamente, porque a cultura é idêntica à dos espanhóis. Somos cristãos e a maior parte é católica. O modo de ser e de fazer as coisas é muito parecido. As dificuldades iniciais são similares em qualquer outro país, africano ou americano. Há que ­inteirar-se da Lei, das normas, dos procedimentos, das gentes, da cultura do país. Isso leva tempo.

JA - Qual foi o segredo para o sucesso?

ASA -
A paciência. É uma palavra muito importante. Para os que chegam, há que ter paciência e confiança no país. Não se pode vir a Angola e regressar. Há que vir e ficar aqui, viver aqui. O presidente da Impulso Angola, o nosso sócio-gerente, vive aqui e a cada dois meses ou três vai ver a família. Há gente que vem da Europa com uma mala para ganhar dinheiro e regressar. Isso não serve. Tem de conhecer o país, as províncias. É preciso ter aqui profissionais de primeira qualidade, para poderem dar conta dos problemas e resolvê-los. Este é o conselho que vou transmitir ao empresariado das Astúrias.

JA - O que Angola representa para a Impulso?

ASA -
Estamos em dez países, contando com a Espanha, e Angola representa cerca de 20 por cento da nossa cifra de negócios. Ao longo destes sete anos não paramos de crescer. Podemos fazer muito mais. Somos especialistas em engenharia, energia e águas, arquitectura, consultoria, aquicultura, geologia e ­minas, edificação e fiscalização de obras. Participamos activamente na elaboração do plano de industrialização de Angola, para o Ministério da Indústria, e estamos a trabalhar num dos projectos mais importantes do mundo em matéria de investigação geológica, o Plano Nacional Geológico de Angola (PLANAGEO), com os seus parceiros no projecto, o Laboratório Nacional de Energia e Geologia de Portugal (LNEG) e o Instituto Geológico Mineiro de Espanha (IGME), duas das mais antigas instituições da Europa na área.

JA - Como vê o futuro de Angola e dos negócios?

ASA -
Quando um país é patriota, tem uma classe dirigente preparada, um presidente que é um líder por excelência da África Subsaariana e tem um povo pacífico, o seu futuro é enorme. Não digo apenas pela sua riqueza económica, mas pela riqueza humana, pelo projecto de desenvolvimento que está a conhecer depois do processo de pacificação. Nas Astúrias tenho a televisão angolana, leio todos os dias o Jornal de Angola e há sempre notícias do Presidente a receber entidades, a dirigir reuniões, a inaugurar projectos importantes. Vocês angolanos podem não se aperceber disso mas é um homem inteligente, trabalhador e comprometido com o bem-estar do seu povo. Sempre que chego a Angola depois de um mês fora, há um novo edifício, mais hotéis, restaurantes, vejo uma juventude com uma atitude muito proactiva. Isto é formidável.

JA - Porquê a aposta no mercado angolano?

ASA -
Angola está num processo de diversificação económica e é uma oportunidade de fazermos mais coisas para esta nação. A Impulso tem muito para trazer a Angola. Os angolanos têm três características importantes que são comuns nas Astúrias, são um povo orgulhoso da sua condição, têm muita dignidade, há poucos imigrantes angolanos pelo mundo, e é um povo muito patriota. Depois dos acontecimentos que viveram, continuam a adorar a sua terra, seja partido no poder ou da oposição. O processo de paz liderado por um líder tão importante, como o Presidente Dos Santos, trouxe frutos riquíssimos para o desenvolvimento ­social, cultural e económico do país.

JA - Que imagem e opinião tem dos angolanos?

ASA -
Uma coisa que muito me impressiona é a preparação da classe dirigente de Angola. A minha estada aqui coincidiu com duas campanhas eleitorais e estive muito atento aos discursos dos líderes políticos e do próprio Presidente da República. E  surpreendeu-me muito o comprometimento da classe dirigente liderada pelo Presidente José Eduardo dos Santos no desenvolvimento do país.

JA - Quais os principais planos para este ano?

ASA -
Desenvolver o PLANAGEO, desenvolver a aquicultura, que é também uma especialidade da Impulso. Com a aquicultura chegam as proteínas necessárias para a alimentação das pessoas a um preço acessível. Também estamos em projectos de energia e águas. Estamos a trabalhar em projectos de abastecimento de água em várias zonas do país e também fazemos fiscalização nesta área. A Impulso, com os seus importantes sócios espanhóis e portugueses, tem 37,5 por cento da investigação geológica de Angola. É uma superfície do tamanho de Espanha.

JA - O que mais valoriza no mundo dos negócios?

ASA -
A persistência. Quem perde não fracassa, porque sempre perdemos um pouco todos os dias. Nem todas as coisas saem bem, algumas saem mal algum dia. Por isso, não se deve interpretar isso como um fracasso. Só fracassa quem desiste, quem não tenta de novo. O que resiste ganha. Há vezes em que as coisas não saem bem, mas é preciso voltar a tentar.

O Principado


O Principado das Astúrias é uma comunidade autónoma espanhola. A sua capital é Oviedo, embora a cidade mais povoada seja Gijón, com quase 300 mil habitantes. Com mais de 10 mil quilómetros quadrados de extensos montes e montanhas, praias e cidades, as  Astúrias têm muita história, com grandes feitos históricos que não podem ser esquecidos e uma infinidade de possibilidades. No Principado vivem mais de um milhão de habitantes. Aviles, Langreo e Mieres são outras das localidades importantes das Astúrias.

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