Entrevista

Falta de salas de teatro é algo sem explicação

Matadi Makola |

Até agora salvo pela crise, o Elinga foi o móbil desta conversa, que trouxe à baila o desfecho do Teatro Avenida. Mena Abrantes também tacteia sobre a fragilidade da Lei do Património Cultural, enfraquecida no braço de ferro contra iniciativas meramente comerciais.

Escritor e dramaturgo
Fotografia: Paulino Damião | Edições Novembro

Hoje, Dia da Cultura Nacional, as preocupações aqui levantadas reflectem a posição da cultura dentro das prioridades do Estado

Memória do Elinga. Penso que passou também a ser visto como espaço afectivo...
Mena Abrantes - Um espaço onde, durante trinta anos, nos reunimos com pessoas de todas as idades e de todos os estratos sociais, com o propósito de conviver e de criar algo em conjunto, tem necessariamente de deixar uma forte marca afectiva. Forjaram-se ao longo do tempo laços que nos permitem falar de uma ‘Família do Elinga’, envolvendo já filhos e até mesmo netos dos participantes mais regulares. Todos eles têm o Elinga como uma referência incontornável no seu crescimento e formação. O mesmo acontece com um variadíssimo número de pessoas (actores, músicos, artistas plásticos, bailarinos, etc,), que reclama o Elinga como o local onde a sua vocação artística se pôde afirmar e desenvolver. “O Elinga é a minha casa!” foi uma frase muito repetida nas redes sociais, na campanha a favor da conservação do espaço. Houve mensagens de apoio até a partir da Austrália! Um desconhecido deixou um dia escrito na parede: “Aqui respira-se por todos os cantos cultura e informalidade!”.

Quando foi o seu primeiro contacto com o espaço e o que recorda dele?
Eu tomei conhecimento da existência do espaço em 1985, altura em que o Orlando Sérgio me convidou a montar uma peça com o grupo de teatro da Faculdade de Medicina, que ele dirigia. Na altura, funcionava lá o Centro Cultural Universitário e, para além do grupo de teatro, existiam associações de xadrez, filatelia, banda desenhada, etc. Eu montei na altura uma obra da minha autoria “Nandyala ou a Tirania dos Monstros” e fui ficando. Quando o grupo de teatro acabou, por dispersão dos seus elementos, e as associações deixaram de funcionar, o espaço ficou meio ao abandono.

Sabemos que o espaço para a sua utilização pelo Elinga-Teatro teve uma mão do engº Guerra Marques. Em que circunstâncias isso aconteceu?
Quando houve necessidade de se encontrar um local para a criação de um novo grupo de teatro, que seria o Elinga, fomos falar com o Engº Guerra Marques, que era o reitor da Universidade, solicitando autorização para lá trabalharmos. Ele passou-nos um documento dizendo que podíamos permanecer no local “por tempo indeterminado”, desde que nunca o deixássemos de utilizar para actividades culturais. O que aconteceu até hoje.

Desde então, o espaço ficou a ser conhecido como Elinga, transformando-se num dos locais mais ecléticos, senão mesmo o mais, da cidade. Seria possível prever? Foi ganhando vida própria?
Previsões não fizemos. Criámos o Elinga, em 21/5/88, fomos desenvolvendo o nosso trabalho teatral, com os modestos recursos à nossa disposição, e o público começou a aparecer. Com o apoio do engº Pisoeiro, na altura director da EMPROE, pudemos instalar no palco uma teia metálica para os projectores e fazer uma bancada para o público se sentar. Uma vez que o espaço nos tinha sido cedido sem contrapartidas, além da exigência de aí desenvolvermos actividades culturais, fizemos sempre questão de o partilhar gratuitamente com todos os interessados nesse tipo de actividades. Assim, foram aparecendo aqueles artistas e aspirantes a artistas que não tinham um espaço onde desenvolver ou mostrar o seu talento.
O carácter eclético que referes deriva, precisamente, de nunca termos imposto quaisquer condições ou limitações a quem quer que seja. O Elinga sempre foi um espaço aberto, democrático e inclusivo. Os que apareciam, viessem de onde viessem, fossem quem fossem, podiam ficar! Curiosamente, alguns dos que ali se iniciaram são hoje artistas com projecção internacional, em especial na música, na dança e nas artes plásticas. Não cito nomes, porque, como agora eles são famosos, se calhar vão negar ter começado ali a sua carreira artística.

É dos que concorda que isto fez do Elinga um espaço que responde às necessidades de uma cidade de complexidade urbana como Luanda? Ou seja, um espaço que esbate os limites separatistas das chamadas classes sociais?

Mais do que dar a minha opinião, que pode ser suspeita, prefiro referir o que nos disse, um dia, o representante da CNN para África, Imran Ahmad, um paquistanês residente no Canadá. Depois de uma noite passada no Elinga, ele ficou impressionado com a presença harmoniosa de negros, brancos e mestiços, de todas as idades e estratos sociais, num ambiente de grande descontração. Ele, que já tinha viajado por todos os países africanos, disse que era a primeira vez que, no continente, assistia a um convívio dessa natureza. Só para dar outro exemplo: como sabes, há alguma gente que se assusta e que não frequenta o Elinga, com receio dos indivíduos que fazem a sua vida e praticamente habitam no passeio em frente. Uma noite, numa exposição que ali aconteceu, um desses moradores de rua tinha-se vestido mais a preceito e estava no Elinga em animada conversa... com a embaixadora dos EUA! Não imagino qual terá sido o tema da conversa.

Durante um tempo, foi um tanto marginalizado, até mesmo taxado como local de boémios e marginais. Mas parece que os tempos presentes e uma certa lufada de modernidade vieram provar que tudo não passava de ambiente. O que é hoje o Elinga? E como funciona a gestão do espaço?
Pelo exemplo que acabei de dar, alguns “marginais” ainda têm acesso ao espaço e podem mesmo conversar com a embaixadora dos EUA... Essa suposta fama de o Elinga ser um local de boémios e marginais tem mais a ver com a frequência do bar que ali funcionou e ainda funciona, embora com nova gerência. Como o Elinga é uma associação cultural sem fins lucrativos e não dispõe de recursos próprios nem de apoios regulares, viu-se obrigado a alugar o espaço do bar para poder, pelo menos, assegurar a manutenção das suas instalações e o pagamento dos seus funcionários. Como qualquer local nocturno onde se consomem bebidas alcoólicas, o ambiente pode, por vezes, degenerar. Mas isso não tem nada a ver com a principal actividade que se desenvolve no Elinga, que é e foi sempre de natureza artística e cultural.
A gestão do espaço é feita pela direcção da associação, constituída segundo a lei que as rege. Um administrador remunerado, que é também actor do grupo, assegura o funcionamento do espaço durante o dia. É também ele que cuida da programação da sala, porque, cada vez mais, grupos pedem para actuar nas nossas instalações. O nosso grupo de teatro só à noite pode ensaiar, porque muitos dos seus elementos trabalham durante o dia noutras áreas.

Enquanto director, aquele palco sempre o satisfez, no que toca à criação de peças? As transformações e as possíveis posições do palco, têm histórias por contar?

A área reservada ao palco, o antigo pátio da escola que aí funcionou no tempo colonial, tem dimensões excelentes: 10x10 metros. Com a teia que acrescentámos, tornou-se um lugar onde é possível encenar qualquer peça. A esse respeito, nunca tive problemas. Era preferível que o chão fosse de madeira e não de cimento, porque reflecte muito a luz, mas vamos encontrando soluções para minimizar esse efeito negativo. E, com as cortinas, podemos sempre alterar as dimensões da área de representação.

Por exemplo, no último Festival Elinga-Teatro, o espaço foi totalmente explorado, sendo que em algumas peças houve actores que usaram os gradeamentos da cobertura do espaço e mudaram o palco, estando a plateia no lugar dos actores. O espaço oferece esse conforto, moldável às ideias da cena? É uma vantagem ou sinal da sua insuficiência, enquanto espaço adaptado?

Eu próprio explorei essa possibilidade de mudança, quando o Elinga levou à cena a minha peça ‘Na Nzuá e Amirá ou de como o prodigioso filho de Na Kimanaueze se casou com a filha do Sol e da Lua”. A peça aconteceu na bancada e os espectadores estavam sentados no palco. Quando a actriz brasileira Paula Passos representou uma outra peça minha, ‘A órfã do Rei’, tanto ela como os espectadores ficaram concentrados no palco, com uma cortina a esconder a bancada. A utilização do espaço depende da imaginação de cada encenador.

Foi com a exposição ‘Luz Veio’ de Yonamine, em 2013, que um certo público conheceu um pouco do rés-do-chão. Há de facto muito espaço que sobra. Já alguma vez se pensou em explorar todo o edifício? Ou seja, torná-lo, digamos, numa ‘Casa de Teatro Elinga’?
Nós só utilizámos sempre a parte superior do edifício, até porque, durante muito tempo, funcionou no rés-do-chão um supermercado. Depois de este ter encerrado, fizemos algumas tentativas para ocupar também esse espaço, mas não fomos autorizados pelos novos proprietários. Como o espaço está abandonado há uns anos e como era apenas para uma exposição, não vimos inconveniente em utilizá-lo. Mas é evidente que explorar todo o edifício seria o ideal, porque já temos limitações de espaço no primeiro andar.

Poucos luandenses esquecerão a tentativa de demolição do espaço. Com foi digerir esta possibilidade que se arrastou por mais de oito anos?
Há dez anos que essa tentativa se arrasta e continua a arrastar-se. A ameaça de demolição continua e só foi adiada por causa da crise económica e financeira que o país vive. A ideia é que no lugar onde se encontra o Elinga seja construído um parque de automóveis em altura, para servir o edifício que se encontra em frente. Como a construção deste foi suspensa, também a destruição do Elinga deixou de ser tão urgente. Não sabemos o que se vai passar, quando a crise for superada. Já por diversas vezes nos foram fixados prazos para abandonarmos as instalações e de todas elas fizemos uma grande festa de despedida. Espero que as próximas festas sejam apenas para celebrar a requalificação e continuidade do espaço.

Pela resistência, apoio e apreço da comunidade artística luandense, e não só, percebeu-se que demolir o Elinga seria deitar por terra um ponto de partida de uma geração vanguardista, como a de 80. Afinal, o Elinga tem muito mais importância do que aparenta?
MA - A importância do edifício onde o Elinga se encontra é anterior ao próprio grupo. Para começar, é um edifício de fins do século XIX, que assinala uma fase da construção da cidade de Luanda. De tal modo que, em 1981, o conjunto arquitectónico do Largo Matadi (ex-Tristão da Cunha), no qual o Elinga se inclui, foi classificado como “testemunho histórico do passado colonial” (Despacho de 31/8/1981 do Secretário de Estado da Cultura). Estranhamente, com o argumento de que “as razões de natureza histórica que determinaram essa classificação já não subsistem”, o Ministério da Cultura revogou o anterior despacho e desclassificou esse conjunto arquitectónico com o Decreto Executivo nº 154/12, de 30 de Abril. Antes da chegada do Elinga a esse espaço, funcionou aí uma escola que foi frequentada por grandes vultos do nacionalismo angolano, como Hoji-ya-Henda e muitos outros. Em cerca de 30 anos de existência, o Elinga já realizou aí mais de 50 peças de teatro e acolheu, para além de dezenas de grupos angolanos, grupos vindos do Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e S. Tomé e Príncipe. Músicos de vários países actuaram no seu palco. Dezenas de artistas plásticos angolanos já aí expuseram as suas obras.  A geração vanguardista de 80, que referes, é apenas mais um elo nessa longa cadeia de criadores artísticos que por lá passaram. De tal modo que até o jornal francês ‘Le Monde’ pôde caracterizar o Elinga como o “haut lieu de la culture angolaise” (26/9/12).

Como referiu, o espaço viu-se órfão da Lei do Património Cultural que até então visava protegê-lo. Acredita que foi um episódio ditado pelo contexto? Ou a cultura é mesmo “parente pobre e vulnerável” do Estado?

Não há contexto que consiga explicar como é que “razões de natureza histórica” podem deixar de subsistir, quando, com a passagem do tempo, maior importância deviam adquirir. O que se passou, e continua a passar, é que os interesses imobiliários dos promotores do novo projecto que visa substituir o Elinga são mais fortes do que quaisquer razões culturais. O argumento de que o Elinga poderá dispor no futuro edifício de um novo teatro, mais moderno e equipado com todas as condições técnicas e de comodidade, não colhe nem tem fundamento. Eliminar a memória histórica e afectiva da cidade (a mais antiga a sul do equador em África!) e dos seus habitantes, para a substituir por edifícios idênticos a todas as cidades do mundo, não só é fruto da ignorância e da ganância. É um crime, que não devia ser permitido. Mas, infelizmente, é o que se está a passar em todo o centro histórico de Luanda.

Por exemplo, o já saudoso Teatro Avenida, desaparecido na promessa de se erguer o Complexo Teatro Avenida, num prazo de 36 meses, isto ainda em 2009, e que até agora nada se viu ou ouviu. Esta possibilidade do Elinga um dia cair por terra, para dar lugar a um edifício ‘moderno’ ainda existe? Ou já se pode respirar de alívio?

Como já referi, só a crise adiou a programada destruição do Elinga. Se não houver uma reacção adequada, por parte das autoridades competentes, as que zelam (ou deviam zelar!) pelo património da cidade, o Elinga vai mesmo ser derrubado e substituído por um edifício ‘moderno’, onde os carros poderão dispor das melhores condições para estacionar. Por essa razão, respirar de alívio só os proprietários das viaturas. Haverá algo mais importante do que ter mais um espaço para estacionar na Baixa de Luanda?

Enquanto director de teatro e habitante de Luanda, que destino deseja ao Elinga, a contar com a transformação progressiva que vai sofrendo a Baixa de Luanda e arredores?
Com a destruição, mais do que transformação, da Baixa de Luanda e do centro histórico da cidade, não vejo, pelas razões já invocadas, que o destino reservado ao espaço do Elinga seja muito brilhante. Se, por qualquer milagre, as autoridades culturais do país voltarem a requalificar como património cultural os edifícios que ainda sobraram no Largo Matadi, aí seria importante que o Elinga pudesse dispor de todo o espaço, incluindo o rés-do-chão, para então podermos fazer as obras de melhoramento que se impõem e criarmos um verdadeiro centro cultural no centro da cidade, aberto a todos os interessados.

“As seitas religiosas são mais activas na criação de espaços para as suas representações”

Às vésperas
do Dia da Cultura Nacional, quais as suas sugestões e recomendações para uma Luanda que ainda não possui uma sala de teatro digna da sua ‘modernidade’?
O Elinga tem estado a pôr as suas instalações à disposição dos grupos de teatro da capital, mediante um acordo prévio. A segunda edição do Circuito Internacional de Teatro, promovido pelo grupo Pitabel, pôde já encontrar no Elinga um espaço complementar ao da Liga Africana para os seus espectáculos. Muitos outros grupos aí se apresentaram durante o ano. A inexistência de salas de teatro à altura não só da ‘modernidade’, mas também da população da capital, é algo que ninguém consegue entender. Ter uma população avaliada em seis milhões de habitante e não possuir uma única sala de espectáculos com condições técnicas, para quem actua, e de comodidade, para quem assiste, não abona muito a favor da visão que se pretende para a cultura do país.

Como é possível, por exemplo, construir uma nova urbanização como a Cidade do Kilamba e não prever a construção de uma sala de espectáculos ?
Até as seitas religiosas são mais activas do que o Estado na criação de espaços para as suas ‘representações’.
Há alguma iniciativa plausível?
Um projecto construído de raiz pela Maria João Ganga, a ‘Casa das Artes’, em Talatona, reúne já as condições que referiste e revela como até mesmo a iniciativa privada consegue sobrepor-se a uma obrigação que cabe, em primeiro lugar, ao próprio Estado. Tive oportunidade de propor, formalmente, a criação de espaços funcionais multidisciplinares (um simples armazém com bancada e palco amovíveis, com um mínimo de condições técnicas servia) em todos os municípios da cidade e o projecto nunca mereceu sequer a atenção das autoridades competentes. Vamos ver o que os novos tempos nos reservam. Mas nunca acreditei em milagres, apesar de essas novas seitas mercantilistas prometerem que os fazem até com hora marcada...

Perfil

José Mena Abrantes
Nascido em Malanje, em 1945, iniciou a actividade teatral em 1967, no grupo cénico da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, cuja direcção pertenceu e com a qual participou, em Maio de 1970, no primeiro Festival de Teatro Independista.
Formação
Licenciado em Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Profissão
Dramaturgo, jornalista e escitor de ficção
Outros cargos
Foi chefe do sector de informação e divulgação da Cinemateca Nacional.
Reconhecimento
Prémio Sonangol de Literatura em 1986, 1990 e 1994. Prémi Nacional de Cultura e Artes em 2012.

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