Entrevista

Falta manutenção regular dos prédios

Rodrigues Cambala |

O chefe de Departamento de Construção Civil da Faculdade de Engenharia da Universidade Agostinho Neto, Resende Nsambu, defendeu em entrevista ao Jornal de Angola que os edifícios devem beneficiar de manutenção regular para a sua preservação e segurança.

Resende Nsambu incentiva a maior fiscalização dos edifícios para se evitarem acidentes
Fotografia: Jornal de Angola

Para tal, afirma, é da responsabilidade dos donos dos edifícios e da Junta de Habitação manterem os edifícios em bom estado. De acordo com o docente,  doutorado em reabilitação, reparação e reforço das estruturas de betão armado, é necessário dotar as instituições e imobiliárias com mecanismos para corrigirem e melhorarem a vida e o estado dos prédios. Resende Nsambu desencoraja o uso de jardins à volta da parede dos edifícios e residências, para evitar que a água atinja as sapatas e crie danos a infra-estruturas.

Jornal de Angola (JA) - Que factores levamà rápida degradação dos edifícios?

Resende Nsambu (RN)-
Algumas anomalias advêm dos projectos mal concebidos. Muitas vezes a construtora não observa alguns pormenores previstos no projecto, com a agravante de não haver um fiscal para acompanhar a obra. Se o fiscal não prestar muita atenção aos erros cometidos pela construtora, em pouco tempo a infra-estrutura começa a apresentar problemas. Os edifícios construídos no tempo colonial eram acompanhados por fiscais, a sua degradação ocorre por falta de manutenção. Quando não se elabora um plano de manutenção, verificamos fendas em pouco tempo.

JA -Além da falta de manutenção, os moradores fazem obras de fundo sem aprovação técnica…

RN-
Inúmeras vezes. Alteram o funcionamento do edifício, retirando uma parede, sem saber que a viga vai ficar sem resistência. Há outros erros, como transformar um edifício habitacional numa escola. Um edifício escolar tem o dobro de reforço em relação a um habitacional. Essa alteração faz com que aos poucos se comece a registar degradação no edifício. Se as acções no edifício aumentam, os pilares e as sapatas não respondem às novas solicitações. O projecto da rede de esgotos e de água potável da cidade de Luanda foram dimensionado para um número menor de população. O país estava em guerra e todos vinham para Luanda. Estas redes perderam capacidade por causa da sobrecarga. Falta um serviço para regularmente controlar o funcionamento da rede de esgotos.

JA – Como resolver estes problemas?

RN - Numa visita de trabalho à Alemanha, eu verifiquei que cada bairro tem as suas infra-estruturas para não dependerem do governo central. É preciso descentralizar para que cada município tenha uma área de vistoria dos edifícios.

JA – Mas tecnicamente podem-se fazer obras nos apartamentos…

RN -
É sempre bom contactar um especialista em construção civil. Aliás, apenas ele pode aconselhar. Pode-se optar por remover toda ou uma parte da parede, mas antes precisa-se saber se a viga pode ser projectada sem parede na parte inferior.

JA- Que tipo de reabilitação se pode fazer nos edifícios?

RN-
Existe a reparação cosmética que é a reabilitação ligeira, e a reparação estrutural que corrige anomalias mais profundas, como por exemplo a armadura à vista, inundação do tecto e nos casos em que o betão perde a sua aderência. Antes da reparação é possível avaliar o custo da reparação. No entanto, se exceder o custo da construção de um edifício de raiz, o melhor é demolir e fazer outro. Também é importante a preservação da memória. Um edifício emblemático não pode desaparecer sem ter de arranjar uma forma para a sua reparação. Estamos a perder muitas memórias na cidade de Luanda por causa disso.

JA - Como resolver o problema da rede de esgotos e água nos prédios?

RN-
Pelo tempo que ficaram com problemas de esgotos e água nos andares de cima, é necessário que se faça uma reabilitação. Primeiro, devemos saber se existe a planta. Depois, observar a canalização e remover a camada que protege a mesma, para verificar o seu estado. Seria um erro voltar a alimentar esse edifício nesta condição, sem antes saber o estado da tubagem. Os edifícios começaram a ter habitantes a mais. É preciso educar a população, porque muitas vezes ao invés de utilizar o papel higiénico, utilizam roupa e, rapidamente, danificam a tubagem. É possível melhorar a rede de esgotos, reparando as caixas de visita.

JA- Alguma vez foi chamado para dar um parecer técnico na reabilitação de um apartamento?

RN- Lembro-me que tinha sido chamado por um senhor que pretendia remover uma parede da sala, para ter maior espaço. Fui confrontado com a falta da planta. Nessas situações não podemos alterar nada sem ver o que está definido no projecto. Surge sempre uma solução, mas que exige outros elementos técnicos como a aplicação de um pilar ou fazer um roço para calcular os diâmetros dos varões. O objectivo é saber se a viga resiste sem a parede.

JA- Grande parte dos edifícios necessita de manutenção?

RN- Em princípio sim. Naqueles edifícios onde se verifica infiltração de água é necessário. Parece-me que falta uma entidade que devia velar por esta situação. E seria responsabilidade dos donos dos edifícios e da Junta da Habitação. Acredito que a Junta de Habitação não tem uma área para fazer o controlo e manutenção dos edifícios sob a sua jurisdição. É necessário que se comece a dotar as instituições e algumas instituições escolares de áreas técnicas para garantirem a manutenção dos prédios.

JA - Como saber se o edifício necessita de manutenção?

RN- A manutenção é necessária e os novos conhecimentos já nos permitem estimar a vida útil do edifício. Se a vida útil é de 50 anos, não vamos esperar este tempo para fazer a manutenção. Temos de definir um calendário, para num período de cinco ou dez anos verificarmos o comportamento do edifício. Um caso recente, quando da realização do CAN de futebol no país, fez-se um grande esforço para a construção destes campos. A maioria não é monitorizada. Nos dias de hoje, o projectista da obra, e com a tecnologia do GPS, pode à distância receber uma informação sobre uma parte da estrutura que está com problemas. Após o jogo, é possível controlar o estado das bancadas e como funcionou durante o jogo, de modo a prevenir situações menos boas. As construções são sempre feitas numa zona de exposição: perto do mar, numa zona muito quente e em áreas em que chove regularmente. Daí que os materiais usados devam corresponder a esta zona.

JA – Acredita que tem havido falha na fiscalização das obras?

RN-  Tem falhado muito, sobretudo nas obras do Estado. O Laboratório de Engenharia de Angola é o primeiro fiscal das obras do Estado, mas não é tido em conta. Já vi uma obra em que o projectista era ao mesmo tempo fiscal. Não se pode gastar dinheiro em obras que em menos de dez anos têm de se demolir por apresentarem problemas.

JA- Como engenheiro, está preocupado com o estado de muitos prédios?

RN- Isso deve preocupar toda a sociedade. Na década de 90, fiz parte de um grupo técnico que foi criado por despacho do Presidente da República para o programa habitacional. Na cidade de Luanda, visitámos o prédio da Cuca e o Sujo. O edifício que mais preocupava era o da Cuca e naquela altura recomendámos a evacuação dos moradores e a sua demolição. Só que demorou uma década, mas pelo menos salvaram-se vidas humanas. Lembro-me que havia puxadas de energia e com o pavimento completamente molhado. O prédio Sujo naquela altura precisava de uma reabilitação cosmética, coisas leves, como remover o encobrimento e ver as canalizações. Neste momento não sei qual é a situação real. Há alguns anos registámos a queda do prédio da DNIC, afinal não se tinha observado bem o projecto. Lembro-me que nos anos 70 e 80 era um edifício de três pisos e depois de algum tempo, verificamos o aumento de mais andares. Depois daquela queda, passei por lá e observei que um prédio não cai daquela forma. Devia cair numa das laterais e não na vertical. Concluí que faltavam pilares para suportar o edifício. Se tivesse pilares devia desabar num dos lados. São erros que alguém deixou passar e depois pagamos.

JA- O perigo continua em muitos prédios, onde os moradores fazem a construção de novas casas em terraços e nos espaços de lazer?

RN- Este é o problema da fiscalização. Se acontece é porque alguém está a permitir que se faça. Se construirmos no terraço, estamos a aumentar as acções dos edifícios. Estes tipos de construções devem sempre merecer um parecer técnico. É sempre bom saber se o terraço é acessível para a realização de uma festa, por exemplo. O contrário não é aconselhável.

JA- Que medidas devem ser tomadas para evitar uma degradação dos prédios das centralidades?

RN- Acho que a comunicação social é chamada a realizar programas para reeducar os moradores, para manterem os edifícios em condições. Esperamos que as pessoas não deitem água pela janela e outros comportamentos que contribuam para a rápida degradação. A manutenção deve partir antes no conhecimento da vida útil destes edifícios. Daí pode-se fazer uma planificação para corrigir os problemas que vão surgir. É importante saber que à volta das paredes e pilares dos edifícios não devemos ter jardim e canalização, porque a água pode afectar as sapatas e criar rachaduras. Em relação às pontes, por exemplo, temos um aparelho de apoio que geralmente é mudado depois de dez anos. O dono da obra deve alertar o construtor para fazer a mudança deste equipamento. Para tal é preciso que o dono da obra seja fiscalizador.

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