Famílias camponesas aumentam no Bengo

Noé Jamba | Bengo
11 de Abril, 2017

Fotografia: Edmundo Eucílio | Edições Novembro

O director provincial da Agricultura do Bengo, Faustino Quissaque Ngonga, considerou satisfatórios, em entrevista ao Jornal de Angola, os níveis de produção alcançados pelos trabalhadores do campo, pelo que aguarda uma boa colheita na presente campanha agrícola.

Jornal de Angola - Qual é a situação actual do sector da agricultura no Bengo e o que espera da presente campanha agrícola?

Faustino Ngonga - A situação actual da agricultura no Bengo pode ser considerada como boa, apesar da crise financeira que o país vive devido à baixa do preço do petróleo, tendo beneficiado de grandes quantidades de sementes de milho, fertilizantes e sementes de feijão. Perspectivamos uma boa colheita na presente campanha agrícola, apesar das precipitações irregulares registadas na primeira época [entretanto, já superadas]. A nossa meta aponta para uma produção de 1.147.162 toneladas de produtos diversos e cerca de 406 mil ovos.

Jornal de Angola - A quantidade de chuva que tem caído vai ao encontro das expectativas dos agricultores?


Faustino Ngonga
- As quedas pluviais vão ao encontro das expectativas do sector. Podemos referir que a primeira época agrícola pode ser considerada aceitável, apesar de se ter registado pouca precipitação na faixa do litoral, que abrange os municípios do Dande e Ambriz. Durante a segunda quinzena de Novembro e a primeira de Dezembro, registou-se uma ausência de precipitações. Quebrou-se deste modo o normal ciclo vegetativo das culturas com maior pendor para o milho. Relativamente aos municípios do interior, não ocorreram irregularidades acentuadas de precipitações. Na segunda época agrícola, ocorreram precipitações de forma regular, o que se vai traduzir em colheitas de maior volume em relação à primeira época. De um modo geral, as precipitações foram boas.  

Jornal de Angola - Qual é a área total preparada para a presente campanha agrícola e qual o volume de produção prevista?

Faustino Ngonga - Para esta campanha agrícola foram cultivados cerca de 74.854 hectares com uma previsão de produção acima de 600.000 toneladas.

Jornal de Angola - A agricultura familiar domina o sector em todo o país. Qual é a realidade na província do Bengo em termos de percentagem?

Faustino Ngonga  - A província do Bengo é agrícola por excelência. Conta com uma enorme área com possibilidade de irrigação. Para a presente campanha agrícola, foram enquadradas 35.000 famílias. Os dados definitivos do Instituto Nacional de Estatística indicam que 43.651 habitantes praticam a agricultura, o que representa 51 por cento da população activa da província.

Jornal de Angola - Os últimos dados disponíveis apontam para 45 mil famílias camponesas na província. O número tende a crescer? Que apoios recebem do Estado?

Faustino Ngonga  - O número de famílias camponesas tende a crescer, sim, porque segundo as projecções do Instituto Nacional de Estatística, até 2022 a província vai ter cerca de 497.000 habitantes, o que vai de certo modo reflectir-se no aumento do número de famílias camponesas. O Estado tem dado o seu apoio institucional, assim como técnico e através da entrega de “insumos” agrícolas em quantidades aceitáveis.

Jornal de Angola - Como caracteriza o acompanhamento do sector agrícola cooperativo pela banca comercial?

Faustino Ngonga
- Em 2016, a província do Bengo beneficiou de crédito de campanha agrícola, tendo sido abrangidos os municípios do Dande e Ambriz. A Direcção Provincial da Agricultura, em coordenação com a UNACA, tem realizado seminários de capacitação a nível das cooperativas na reorganização e legalização jurídica, para que possam recorrer à banca no sentido de solicitarem financiamento. A província possui 187 associações de camponeses e 108 cooperativas agro-pecuárias, com um total de 16.190 membros, sendo 8.497 mulheres e 7.693 homens.

Jornal de Angola - Como se traduz na prática o envolvimento dos bancos comerciais no apoio ao sector empresarial agrícola?

Faustino Ngonga - A presença dos bancos no sector empresarial agrícola ainda não é das melhores, mas podemos afirmar que antes da crise económica que o país vive financiaram inúmeros projectos, com destaque para 11 programas do Angola Invest, que receberam apoio das dependências do Banco de Poupança e Crédito (BPC), Banco Internacional de Crédito (BIC), Banco Sol, Caixa Totta e o Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA). Este último financiou 13 projectos do sector agrícola.

Jornal de Angola - Como caracteriza o acesso ao crédito bancário pelo sector agrícola de uma forma geral e, em particular, pelas famílias do campo, cooperativas e empresários?


Faustino Ngonga
- De uma forma geral, o acesso ao crédito ainda não é dos melhores,  devido a vários factores, como a falta de elaboração de estudos de viabilidades das empresas e a própria organização de certas empresas. Mas, de um modo geral, muitos passos estão a ser dados para que haja mais incentivo ao ramo agrícola, porque com a diversificação da economia, a agricultura deve ter uma grande intervenção neste processo, porque até certo ponto vai reduzir a importação de bens alimentares, traduzindo-se em redução de gastos.

Jornal de Angola - A província do Bengo é cada vez mais apresentada como a “terra da banana”. Como avalia esta evolução?


Faustino Ngonga - O Bengo é uma província com características peculiares em termos de produção da banana. Tem bons solos, temperaturas óptimas e bastante água para o cultivo. Além disto, todos os municípios produzem banana de qualidade. Temos o perímetro irrigado da Caxito Rega, com bons níveis de produção, estando neste momento a exportar o produto para Portugal e a República Democrática do Congo (RDC). Alguns estudos realizados por especialistas apontam para uma produção de 563.279,27 toneladas até 2022.

Jornal de Angola - O Bengo tem uma localização que se pode considerar privilegiada, dada a proximidade com Luanda. O facto traz alguma vantagem em termos de escoamento de produtos agrícolas?


Faustino Ngonga - Sem sombra de dúvida, traz muitas vantagens no escoamento dos produtos agrícolas. A título de exemplo, em cada edição da feira da banana, temos verificado o aumento dos volumes de venda e de negócio. De salientar que a maior parte dos compradores é proveniente da capital do país.

Jornal de Angola - A produção de café conhece um movimento de revitalização no país. Qual é a situação do Bengo neste capítulo?

Faustino Ngonga - A produção de café no Bengo ainda não é das melhores, mas de forma tímida os cafeicultores vão ganhando o seu espaço. A título de exemplo, em 2015 a produção foi de 126.135 quilogramas de café e no ano passado foi de 163. 249 quilogramas. Temos de reconhecer que a reabilitação de uma fazenda de café é dispendiosa. No período do conflito armado, quase todas as fazendas foram abandonadas, tornando-se autênticas florestas densas.

Jornal de Angola - Em termos de pecuária, fala-se em cerca de 19 mil cabeças de bovinos na província. Parece-nos um número irrisório, tendo em conta que o Bengo já foi mais interveniente neste sector. Está em curso um programa de repovoamento de gado bovino na província. Qual é a abrangência deste programa?

Faustino Ngonga - A nova divisão político-administrativa das ­províncias do Bengo e Luanda resultou na redução drástica do gado bovino, pelo facto dos municípios de Icolo e Bengo e Kissama terem passado a pertencer a Luanda, sendo estes os maiores detentores desta espécie. Actualmente, a província do Bengo conta com 17.197 animais diversos, dos quais 7.938 são bovinos. Havia a perspectiva de um programa de repovoamento de gado bovino na província, mas a crise financeira causada pela baixa do preço do petróleo fez com que o mesmo não se materializasse.

Jornal de Angola - Existe pessoal preparado para lidar com os animais?


Faustino Ngonga
- A província tem um departamento dos Serviços Veterinários que cuida deste sub-sector da agricultura e pecuária. Existem técnicos capacitados para atender a saúde animal, mas a grande contrariedade tem a ver com o reduzido número de técnicos para corresponder à demanda.

Jornal de Angola - Que precauções estão a ser tomadas em termos de vacinação animal?

Faustino Ngonga
- A situação zoo sanitária da província do Bengo é bastante satisfatória, porque temos realizado de forma regular as campanhas de vacinação contra as principais doenças, que são o carbúnculo sintomático, carbúnculo hemático, peripneumonia contagiosa e outras. Outro sim, a região debate-se com a falta de meios rolantes, mas está a ser feito um grande esforço para tratar condignamente os animais.

Jornal de Angola - Ouvimos falar com alguma insistência no carbúnculo sintomático. Porque é que esta e outras doenças do gado bovino são frequentes na região?

Faustino Ngonga - O carbúnculo sintomático é, entre outras doenças, a que afecta mais a saúde animal, além do carbúnculo hemático, a peripneumonia contagiosa bovina e as dermatofiloses. Ainda assim, a província do Bengo não é tão propensa à ocorrência desta patologia, se compararmos com as regiões Centro e Sul do país. Além disso, a regularidade das campanhas de vacinação assegura, em grande medida, a prevenção da ocorrência das enfermidades.

Jornal de Angola - Quais são as medidas que o sector que dirige tem levado a cabo para combater a doença do sono?

Faustino Ngonga  - A tripanossomíase faz parte de um grupo de doenças parasíticas do sangue que afectam todos os animais domésticos e selvagens. O tripanossoma, que é um protozoário que atinge a corrente sanguínea e os seus nutrientes, foi descoberto no continente africano. Actualmente, está distribuído por todos os continentes. A doença leva o animal a um rápido quadro de emagrecimento e anemia. Os demais sintomas são febre e quadro progressivo de letargia - os animais ficam deitados por muito tempo -,  entre outros. As medidas a nível da província do Bengo têm sido profiláticas, desde a colocação de armadilhas para a captura da mosca “Tse-Tse”, ao tratamento preventivo com o “Trypamidium”.

Jornal de Angola - Como avalia a devastação agrícola praticada por elefantes? 


Faustino Ngonga - Neste capítulo, pedimos maior vigilância aos camponeses, bem como a realização de queimadas na berma das fazendas ou lavras, e a colocação de cercas de arame farpado, com vista a afugentar os animais. De recordar que a Direcção Provincial da Agricultura é composta por três departamentos: Agricultura e Sivicultura,  Desenvolvimento Rural e Administração. O quadro de pessoal da Direcção prevê a existência de 48 funcionários, mas conta apenas com 29, dos quais três são técnicos superiores e 11 técnicos médios. Na província, existem representações de institutos tutelados pelo Ministério da Agricultura, como o Instituto de Desenvolvimento Agrário (IDA), Instituto Nacional do Café (INCA), Instituto dos Serviços de Veterinária (ISV), Instituto dos Cereais (INCER) e Instituto de Desenvolvimento Florestal (IDF), para além da Empresa de Mecanização Agrícola (Mecanagro).

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