Entrevista

Festival de Cultura à medida da Nação

António Bequengue|

O Festival Nacional de Cultura abre hoje às 19h00, no Estádio Nacional 11 de Novembro. Visa promover o intercâmbio e a excelência dos criadores, afirmou em entrevista ao Jornal de Angola, a ministra da Cultura.

Ministra da Cultura Rosa Cruz e Silva
Fotografia: Domingos Cadência

Rosa Cruz e Silva disse que no âmbito do festival vai ser inaugurado o Instituto Médio de Artes, em Luanda, uma obra emblemática que o Executivo concluiu e que abre no próximo ano lectivo. A ministra anunciou a construção do Teatro Nacional e a recuperação das salas de cinema e teatros em todo o país.

Jornal de Angola - Que vantagens Angola pode esperar do FENACULT?

Rosa Cruz e Silva -
Pretendemos, em primeiro lugar, promover o intercâmbio e a excelência dos criadores. Isso vai implicar que os consumidores das artes tenham produtos mais atractivos, mais elaborados. Todos têm expectativas de que a sua produção seja valorizada e divulgada. O festival permite o reconhecimento do seu trabalho.

JA - Esta é a melhor altura para realizar o festival?

RCS -
Penso que sim, porque o que esteve na base da não realização noutras ocasiões teve a ver com o impacto da guerra no nosso país: a desarticulação das famílias, destruição das infra-estruturas, dificuldade de circulação pessoas e bens. Agora podemos percorrer o país de lés-a-lés. É o momento ideal para realizarmos o FENACULT. No conjunto das nossas actividades, temos acções de âmbito nacional w não apenas na capital. Vamos ter teatro na província de Benguela com grupos provenientes de todo o país. O mesmo acontece com as vozes femininas, em Cabinda. Isto é para dizer que todos esses actores, protagonistas da cultura, vindos de distintas partes do país, vão encontrar-se num local onde podem partilhar, trocar experiências e conhecer a realidade local.

JA - Qual é o conceito básico   do FENACULT?

RCS -
Um dos conceitos do Festival Nacional de Cultura é que todo o mundo possa participar. Muitos participantes vão fazer viagens por estrada. Os agentes culturais de Cabinda vêm de avião até Luanda. Em Malanje vamos fazer o palco de música tradicional.

JA - Que imagem da cultura nacional se pretende transmitir?

RCS -
Queremos mostrar a grande diversidade cultural do país. Nem todas as comunidades dançam da mesma maneira. O que vamos mostrar em palco e em cada manifestação é essa diversidade. É verdade que nesse conjunto há sempre aspectos comuns. Este ano, realizámos o Dia da Cultura Nacional em Cabinda e a comissão organizadora convidou um grupo de Benguela que apresentou uma dança muito semelhante às de Cabinda. Os grupos acordaram fazer um intercâmbio.

JA - Que políticas vão ser adoptadas depois do festival?

RCS -
Estamos a executar a política cultural aprovada em 2011, que é um projecto para dez anos. Vamos fazer o ponto de situação da Cultura. Com essa avaliação, vamos estar mais preparados para pensar nas alterações a fazer, nos acréscimos, enfim, todos os dados que nos forem agora apontados sobre o estado da dança, da música, dos próprios criadores, são contribuições para melhorarmos a nossa política cultural.

JA - E em termos de ganhos?

RCS -
Em termos de ganhos posso dar alguns exemplos: uma das nossas grandes dificuldades eram as instituições, nomeadamente as museológicas. Tínhamos e ainda temos museus a funcionar em instalações que não foram concebidas para o efeito. Foram feitas adaptações para que elas pudessem comprir essa função, mas ainda não estamos satisfeitos. Vamos abrir os nossos museus com exposições renovadas, que obdecem a critérios, normas e regras internacionais. No Museu da Escravatura, uma casa que pertenceu a uma família escravocrata, incluímos algumas peças para retratar o tráfico e a escravatura em Angola. Há uma mudança em termos de conteúdos e estética. Vamos ter mais visitantes, até atraídos pelo catálogo que lhes vai ser oferecido em várias línguas.

JA - Como está o Museu Regional de Cabinda?

RCS -
O Museu Regional de Cabinda está em instalações que também não foram concebidas para ser museu, é uma adaptação. O Governo Provincial investiu, melhorou e até aumentou o espaço. Vamos ter lá duas exposições importantes, além do acervo que guarda. Uma delas tem a ver com as esculturas em pedra, uma arte pouco divulgada, e nós temos um acervo grande, de 1.500 peças, no Museu de Cabinda, que abarca a região norte. Cabinda vai ter também no Museu as flores do Maiombe.

JA - O Museu Nacional de História Natural em Luanda continua em obras?

RCS -
As obras ainda não terminaram. É uma instituição antiga. Do ponto de vista da infra-estrutura, a intervenção está concluída, mas vamos trabalhar na alteração do modelo expositivo das espécies e aumentar o acervo. Incluímos no programa do FENACULT uma exposição sobre a palanca negra gigante, em que vamos mostrar os esforços que o Executivo vem fazendo para recuperar o habitat desse animal para preservá-lo como símbolo nacional. Essa exposição também vai ser catagologada e interactiva. O Museu da Huíla também foi reestruturado. Vai ficar para trás um período pouco conseguido do ponto de vista museológico.

JA - Em que estado estão as bibliotecas públicas?

RCS -
Aprovamos um diploma que regula a actividade das bibliotecas. No âmbito do FENACULT, o Huambo vai inaugurar a biblioteca provincial. Não é uma adaptação, foi construída de raiz. Vamos ter os depósitos, as salas expositivas, de leitura, os auditórios, tudo dentro do edifício. Luanda já tem mais três bibliotecas públicas. A outra infra-estrutura que queremos inaugurar no âmbito do FENACULT é o Instituto Médio de Artes, em Luanda, uma obra emblemática que o Executivo concluiu. Estamos a apetrechá-lo para a inauguração.

JA - Quais são as medidas imediatas para colmatar a falta de espaços para as artes do palco?

RCS -
Os centros culturais que estão a ser construídos e inaugurados têm espaços para esse efeito. Mas ainda não é o que pretendemos. Está também em curso o projecto para a construção de um teatro nacional e a recuperação das salas de cinema e teatro que já funcionaram.

JA - O Arquivo Nacional de Angola vai ter novas instalações?

RCS -
O novo edifício do Arquivo Nacional está a ser construído na Camama, junto ao Campus Universitário. Dentro de dois anos, vamos inaugurá-lo. As actuais instalações, que não foram construídas para Arquivo, vão ser entregues ao dono porque são arrendadas. No âmbito do Programa de Investimentos Públicos, as províncias estão já orientadas para incluírem bibliotecas públicas e centros culturais nos seus projectos.

JA - Porque faltam espaços para as artes nas novas centralidades?

RCS -
Estamos a trabalhar para suprir essa dificuldade em todos os espaços urbanos, daí ter dito que os Governos Provinciais estão orientados para avançarem com essas infra-estruturas. No caso das bibliotecas, é preciso ter em conta a densidade demográfica e o número de escolas e instituições públicas. Uma biblioteca é um espaço para albergar os interesses científicos e culturais, não apenas para os estudantes, mas para o público interessado em geral.

JA - Qual o estado do património material e imaterial?

RCS -
No caso do património material, a situação não é boa, porque as infra-estruturas antigas, que na capital datam dos séculos XVI e XVII, reclamam uma recuperação. O Executivo tem estado a atender a essas preocupações. É só olharmos para a Fortaleza de S. Miguel, construída no século XVII, o Museu da Escravatura, um edifício do século XIX, a antiga fábrica da Congeral, que vai ser um museu. Há também intervenções noutras províncias. Não conseguimos ainda ter uma intervenção em todas as infra-estruturas que estão classificadas, mas estamos a fazê-lo de forma gradual.

JA - O que vai ser feito no âmbito do festival?

RCS -
No âmbito do FENACULT, em parceria com a Odebrecht, vamos assinar um protocolo para recuperar a Fortaleza de Cambambe. A construtora está a intervir naquela área e assumiu o compromisso de nos apoiar na recuperação do monumento. Temos outras empresas que se associam a nós para a recuperação de monumentos, visto que o Estado tem as suas responsabilidades, mas estas não são únicas do Estado. Para esse efeito, trabalhamos para a aprovação da Lei do Mecenato, que felizmente já está regulamentada e esperamos que possa incentivar o empresariado para acções dessa natureza.

JA - As intervenções imediatas são nas fortalezas?

RCS -
Falei das fortalezas, mas temos também as igrejas, os amuralhados, que são de antes do período colonial. Estamos a trabalhar na sua divulgação e valorização internacional, daí que, para o património material e imaterial, estamos a trabalhar com a UNESCO para a inclusão na lista do património mundial de Mbanza Congo, das pinturas rupestres de Chitundohulo e o Corredor do Cuanza, onde se inclui a Fortaleza de Massangano, a Muxima e outros bens que estão a ser identificados, como os túmulos que foram encontrados na região de Laúca, onde está a ser construída a barragem. Há ainda um trabalho vasto a ser feito para o levantamento de todo esse património material.

JA - E o património imaterial?

RCS -
Em relação ao património imaterial, estamos a trabalhar principalmente na problemática das Línguas Nacionais. Está a ser feito um novo mapa em zonas onde era tradição falar  uma determinada língua e hoje já existem outros contextos lingísticos, outras comunidades. Na província de Malange, uma região de quimbundo, hoje convivem também pessoas que falam kicongo, cokwé e umbundo. Mas há outras expressões do património imaterial, como a culinária, os mitos, provérbios, as tradições, literatura oral e a poesia, em cuja recolha e publicação estamos também a trabalhar.

JA - Que vantagens traz a inclusão desses projectos na lista da UNESCO?

RCS -
Qualquer país que inclua um bem na lista do património mundial está a torná-lo mais visível  dentro do próprio país, mas a visibilidade exterior, porque há um público amante da cultura e do património que faz turismo para esse efeito. Não podemos perder essa oportunidade. O trabalho é árduo e as nossas equipas estão a trabalhar. Tal como outros países inscrevem os seus bens no património mundial, Angola vai inscrever alguns, numa perspectiva de valorização e partilha. A importância dos países também se revela no valor que atribuem ao seu próprio património natural ou cultural.

JA - O que se tem feito para divulgar a cultura nacional nesta era da globalização?

RCS -
Temos instituições vocacionadas para a divulgação do nosso património e estamos a trabalhar para a internacionalização da nossa cultura, fazendo participar os nossos criadores e agentes culturais em acontecimentos internacionais. Em 2013, os artistas plásticos trouxeram um Leão de Ouro. Houve um reconhecimento do trabalho artístico no nosso pavilhão em Veneza. Penso que é dessa forma que os nossos artistas partem para o diálogo com os demais. Ficamos mais conhecidos por ser um palco internacional.

JA - A cultura angolana está a ganhar espaço internacional?

RCS -
Temos feito um esforço para incluir em actividades internacionais escritores, músicos, artistas plásticos, com o suporte do Ministério e de instituições que ajudam a promover o nome de Angola no exterior. Há instituições que se preocupam com a realização de festivais de dança, para a divulgação do kizomba, do kuduro, e muitas vezes com o apoio do Ministério. Estamos a dar passos lentos, mas seguros na perspectiva do diálogo com os outros povos e culturas, fazendo referência e marcando a nossa identidade.

JA - Quais os projectos do Ministério para os próximos anos?

RCS -
O principal objectivo para os próximos anos é a formação. Estamos a trabalhar com o Ministério da Educação para a realização de cursos de superação dos professores que devem leccionar no próximo ano no Instituto Médio de Artes, nas disciplinas de Música, Dança, Teatro, Cinema e Artes Plásticas. Precisamos de técnicos para os museus, bibliotecas, arquivos e em todos os domínios das nossas áreas.

JA - Temos poucos técnicos na área da cultura?

RCS -
Infelizmente, não foi feita uma formação massiva para podermos ter quadros mais qualificados. Essa é uma das nossas prioridades. A segunda prioridade tem a ver com as infra-estruturas porque não as temos em quantidade para atender às necessidades gerais em todos os domínios das artes, mas fizemos estudos que, a serem aprovados, vão levar à construção dessas infra-estruturas culturais.

JA - O que está previsto na área das infra-estruturas?

RCS -
Posso referir a inauguração de um grande Centro Cultural no Huambo em 2015, ou uma biblioteca na província de Malanje. O Bié, Zaire, Cunene, Lunda Sul têm em curso projectos de construção de bibliotecas e centros culturais e penso que até 2017 vamos inaugurar muitas infra-estruturas. Vamos fazer o acompanhamento metodológico, a formação de técnicos, a gestão desses equipamentos culturais e melhorar o desempenho das instituições museológicas.

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