Entrevista

Fomento agrícola reduz importação

Helma Reis |

O presidente da UNACA - Confederação das Associações de Camponeses e Cooperativas A­gro-Pecuárias de Angola , Albano da Silva Lussati, defendeu em entrevista ao Jornal de Angola que as restrições à importação de produtos agrícolas permitiu aumentar a produção em quantidade e com qualidade no mundo rural. As melhorias no sistema comercial permitem aumentar os rendimentos dos agricultores e geram recursos para mais investimentos.

A UNACA pretende organizar mais cooperativas e reforçar o crédito aos camponeses bem como levar a instituição um pouco mais longe com uma área de Relações Internacionais
Fotografia: Paulo Mulaza |

Jornal de Angola - A UNACA tem milhões de associados, como funciona esta realidade em termos práticos?
Albano da Silva Lussati – Temos na base as associações e cooperativas de produção, as uniões nos municípios, federações nas 18 províncias do país e a confederação a nível nacional. O processo é desenvolvido directamente no campo. Cada camponês tem a sua lavra, mas há uma associação a que recorre para resolver os problemas. A cooperativa é uma organização um pouco mais avançada, em que vamos encontrar a lavra colectiva, através da qual se cria um fundo para a aquisição de meios, como tractores e viaturas.

JA - Que diferenças existem entre a União Nacional dos Camponeses Angolanos (UNACA) original e a confederação de associações?

AL -
A UNACA é o conjunto das associações, cooperativas e federações. Todos formam a confederação. Não existem grandes diferenças entre camponeses e agricultores, mas tenho dito que o agricultor tem tendência para engolir o camponês. O agricultor usa mão-de-obra, que é o camponês, enquanto este se dedica directamente ao trabalho na terra.

JA - Qual é o perfil destes dois actores na economia nacional?

AL -
A base é a agricultura familiar, em que o camponês e a sua família são membros de uma associação e quando precisa de resolver os seus problemas, reúne-se com as demais famílias e daí sai um interlocutor que leva todas as inquietações ao Governo ou à UNACA.

JA - Muitos camponeses não estão afiliados. Qual estratégia para aglutinar essa força produtiva?

AL –
Temos mais de um milhão de camponeses filiados na UNACA, mas, se tivermos em conta a população do país, esse número é uma gota no oceano. Precisamos de trabalhar muito. Queremos criar um fórum para todos aqueles que intervêm no campo, de modo a não baralhar o camponês na altura de aderir a esta ou àquela organização. É preciso que todas essas forças se juntem para comungarmos do mesmo ideal. Vamos trabalhar também na formação de quadros e na criação de cooperativas modelo, que sirvam de espelho para as restantes. É um processo que leva tempo.

JA - Os camponeses  têm pouca formação académica, aceitam facilmente as ideias do associativismo e cooperativismo?

AL -
Existe o preconceito de que o camponês é analfabeto, o que não corresponde à verdade. Sou filho de um fazendeiro e quando concluí o liceu naquele tempo, comecei a esrudar cooperativismo. Em 1976, reunimos um grupo para formar uma cooperativa, que teve muito sucesso na província do Huambo, denominado Centro Lufefer. Hoje, o camponês está muito avançado, tem vontade de aprender, de ir a uma sala de alfabetização. O camponês é capaz de gerir bem o seu dinheiro, de preparar as sementes apenas com métodos tradicionais, como misturar cinza ao milho para este não apodrecer. Mas temos de apostar mais na formação e valorizar o campo, onde temos já técnicos agrários formados, filhos de camponeses.

JA - Quais são as principais linhas de força da UNACA no suporte aos agricultores e camponeses nacionais?

AL -
Pretendemos organizar mais cooperativas, promover a formação, reforçar o crédito ao camponês e levar a UNACA um pouco mais longe, com uma área de relações internacionais. No plano interno, estamos a evoluir. Com a chegada da paz, tudo mudou. Há áreas que não conheciam o trabalho de uma enxada e hoje têm acesso a fertilizantes. Há dificuldades em algumas áreas, devido, sobretudo, à falta de estradas. Um grande problema é a comercialização, mas começamos a ter resultados positivos com o surgimento do PAPAGRO. A UNACA defende que o programa atinja de forma directa as associações e cooperativas. Os camponeses devem ter armazéns próprios.

JA - Os mecanismos de financiamento são os mais viáveis para os camponeses e pequenos agricultores?

AL -
Neste campo, devo enaltecer a iniciativa do Presidente da República para a redução dos juros do Crédito de Campanha, que são hoje de dois porcento. Temos aqui muitos relatórios de camponeses que dizem que o financiamento foi importante, porque agora têm a vida mais organizada. Esta redução dos juros permite ao camponês obter rendimentos. Estamos todos alarmados por causa da baixa do preço do petróleo, mas temos uma oferta divina, que é a terra e essa não acaba. O que é preciso é ajudar e financiar o camponês, as cooperativas e as associações.

JA - Os créditos e financiamentos obtidos são reembolsados ou há incumprimentos?

AL -
Tivemos alguns problemas nos anos passados com o micro crédito e o crédito de campanha, por causa da seca que se registou nalgumas províncias, como foram os casos do Cunene, Benguela e Cuanza Sul. Mas o camponês é uma pessoa honesta e pesa-lhe a consciência porque tem vontade de pagar. Mesmo que os investimentos não tenham dado rendimentos, estão a pagar com muito sacrifício. Reconheço que há muitos que não conseguem fazer o reembolso e comunicamos às associações que quem não pagar fica sem a possibilidade de aceder a outros créditos.

JA - Até que ponto os camponeses estão preparados para a produção agrícola ?

AL -
O corte da importação de produtos que nos cá já produzimos, como frutas, legumes ou fuba foi uma boa medida. Agora temos que ajudar as pessoas a produzir para que se possam manter a produção estável, como foi nos anos de 2011, 2012 e 2013. O que determina a quantidade de água na panela é a fuba que temos e o que vai determinar o funcionamento do país é a forma como gerimos o pouco que temos e o aumento da produção.

JA - Que atenção tem sido prestada pela UNACA à mulher rural?

AL –
Mais de 60 por cento dos nossos associados são mulheres e muitas delas são líderes. Na terceira assembleia, realizada recentemente em Luanda, foi eleita a uma vice-presidente nacional e uma secretária, nas províncias temos presidentes de federações, como são os casos do Namibe, Cunene e Zaire. Temos muitas mulheres a liderar as cooperativas e associações.

JA - Os camponeses são uma força política incontornável, a UNACA é muito assediada para dar apoio aos partidos políticos?

AL -
Encontramos na UNACA membros filiados em vários partidos, não há diferenças, as portas estão abertas a todos. O camponês é livre porque se ele chegar e disser que vai a uma reunião do seu partido, ninguém o vai impedir. O importante é que todos comunguemos a mesma fé na a agricultura.

JA - Albano da Silva Lussati é um homem do campo, um dirigente associativo ou um político?

AL-
Eu sou associativista. Mas tenho o meu partido no coração. Isto é como nas igrejas onde há apenas um Deus mas todos comungam para um único objectivo.

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