Entrevista

Fronteiras mais seguras

André da Costa |

A Polícia de Guarda Fronteira comemora hoje 35 anos desde a sua criação, em 1976, numa altura em que o combate à imigração ilegal constitui a sua principal aposta.

António Kandela tem meios modernos
Fotografia: João Gomes

O seu comandante, comissário-chefe António Pedro Kandela, afirma, ao Jornal de Angola, que estão em curso acções para instalação de meios modernos e sofisticados para garantir a segurança da fronteira angolana, numa cooperação com a Rússia. Pedro Kandela denuncia ainda a existência de grupos organizados de cidadãos nacionais e estrangeiros que auxiliam a imigração ilegal.


Jornal de Angola – Como está a segurança nas fronteiras do país?

António Pedro Kandela -
O sistema de segurança da fronteira ainda é débil devido a falta de meios adequados para a sua protecção. Precisamos de meios rolantes e aquáticos, como lanchas e botes, para patrulhamento da costa marítima. Alia-se a isso as deficientes infra-estruturas e uma fronteira terrestre extensa e complexa com 5.188 quilómetros e uma orla marítima de 1.650 quilómetros.

JA- Há estabilidade na fronteira angolana?


APK-
A situação é estável. Temos 166 postos fronteiriços e preocupam-nos as províncias de Cabinda, Zaire, Lunda-Norte e Cunene, porque os estrangeiros tentam a todo custo entrar ilegalmente por elas para chegar até Luanda e desenvolverem actividade comercial. Na Lunda-Norte, por exemplo, eles dedicam-se ao garimpo de diamantes. Já na província do Cunene, a nossa preocupação prende-se com a fuga ao fisco.

JA- A imigração ilegal em Angola é preocupante?

APK-
É preocupante por ser feita fora dos parâmetros recomendáveis. Muitos imigrantes pretendem atingir o tecido económico e social do país. Outros até se envolvem no tráfico de drogas. Muitos introduzem seitas religiosas não reconhecidas pelo Estado angolano, uma situação que inquieta o Ministério do Interior e a Polícia da Guarda Fronteira.

JA- Que medidas estão a ser tomadas para se inverter o quadro?

APK-
Com os meios e efectivos disponíveis temos feito todos os esforços para travar a violação da fronteira. Contamos com auxílio de outras forças, como o Serviço de Migração e Estrangeiros, a Polícia Fiscal e uma grande contribuição das Forças Armadas Angolanas.

JA- O número do efectivo e postos fronteiriços são suficientes para um controlo eficaz?

APK- O número não é suficiente. Temos 166 postos fronteiriços e escassas infra-estruturas, como disse. Para normalizar o controlo, elegemos os principais eixos de infiltração de imigrantes com colaboração da população residente ao longo da fronteira e temos alcançado níveis aceitáveis de operatividade. Estão em curso diligências para o recrutamento e selecção do novo efectivo para reforçar o controlo da fronteira terrestre e o melhoramento em recursos tecnológicos.

JA- Os recursos tecnológicos são suficientes?

APK- Não. Mas no âmbito do desenvolvimento da Polícia de Guarda Fronteira para o período 2013 e 2017, vamos ser potenciados com meios modernos sofisticados, no âmbito da cooperação existente entre Angola e a Rússia. Esses meios vão ajudar a reforçar a segurança na fronteira. São meios ópticos, aquáticos entre outros. 

JA- Quando é que estes meios chegam?

APK-
Temos maximizado a nossa capacidade operativa com a implementação de uma nova estrutura organizativa e reestruturação do dispositivo policial ao longo da fronteira com a instalação das estruturas em falta e a elevação do nível de formação técnico e profissional do efectivo.

JA- Que procedimentos os estrangeiros devem observar para entrar em Angola?

APK- Para os residentes ao longo da fronteira, há a possibilidade de tratarem um documento que lhes dá possibilidade de entrar no país até 30 quilómetros. Aqueles que pretendem realizar outras actividades têm de se legalizar. Boa parte dos estrangeiros, principalmente oeste-africano, vindo da República Democrática do Congo e do Congo Brazzaville, utiliza vias inapropriadas para entrarem em Angola. Muitos utilizam pequenas embarcações, correndo inclusive risco de vida no mar. />
JA- Corre-se o risco de essas pequenas embarcações naufragarem…

APK - Isso já aconteceu o ano passado. Um grupo de imigrantes tentou, numa pequena embarcação, sem condições, entrar no país e naufragou na costa. Os 44 elementos que capturámos há dias passaram três dias no mar, do Congo para Angola, e chegaram desnutridos, incluindo uma senhora com uma criança.

JA- Há grupos organizados que acolhem estrangeiros ilegais em Angola?

APK- Existem, na República Democrática do Congo e no Congo Brazzaville, comités de angariação de estrangeiros que são submetidos à aprendizagem básica da Língua Portuguesa. Estudam a geografia do país, os hábitos e costumes do bairro ou município onde se vão alojar, os hábitos alimentares e as línguas nacionais. Estes grupos, em coordenação com os comités de recepção no país, principalmente em Luanda, recebem os estrangeiros nos pontos combinados e dão-lhes alojamento.

JA- Há angolanos inseridos nesse negócio?
       

AK- Existem redes organizadas de auxílio à imigração ilegal. Chamo a atenção aos angolanos envolvidos nessa prática no sentido de serem mais patriotas e não se deixarem levar por dinheiro, que pode colocar em causa a segurança do país. Este comportamento resulta em problemas sérios para a segurança e economia do país. 

JA - O número do efectivo para controlar a fronteira é suficiente?

APK-
Precisamos de mais efectivo, mas trabalhamos com o disponível e temos realizado as nossas operações de forma normal. Acredito que anualmente vamos reforçar o número de efectivos.             

JA- Como está a formação na Polícia de Guarda Fronteira?

APK-
Temos um centro de instrução denominado “Mártires de Môngua”e vamos, nos próximos tempos, evoluir para uma Escola de Formação de Polícia de Guarda Fronteira. Este centro já formou muitos quadros que têm dado o seu contributo à corporação. Para a formação, contamos com técnicos cubanos e angolanos. Brevemente vamos contar também com os russos.

JA- Como estão as infra-estruturas?

APK–
Precisamos de muitas infra-estruturas, mas vamos construindo, de forma paulatina, mais unidades para melhorarmos as condições de trabalho. No programa de Investimentos Públicos para o período 2013 e 2014 está prevista a construção de unidades policiais em Cabinda, Zaire, Lunda-Sul, Malange, Namibe, Moxico e Kuando-Kubango. 

JA- Qual é o seu grande desejo enquanto comandante?

APK- É  ver as fronteiras mais seguras, que se criem condições sociais para o nosso efectivo e que se coloquem à nossa disposição os recursos financeiros e logísticos necessários ao trabalho.

JA- É possível comparar a Guarda Fronteira actual à de há dez anos?

APK- Há uma grande evolução, até porque as tácticas de entrada também evoluíram. Desde a altura em que o país se tornou mais seguro, caminhando para o desenvolvimento, muitos estrangeiros tentam a todo o custo entrar no país, uns de forma legal, outros ilegalmente, usando várias tácticas.


Perfil do comandante


António Pedro Kandela está na Polícia desde 1992, transitado das Forças Armadas Angolanas, onde ingressou em 1976 e terminou com a patente de coronel. Cumpriu tropa nas províncias do Bié, Huambo, Kuando-Kubango e Benguela. Na Polícia Nacional, o comissário-chefe António Pedro Kandela desempenhou as funções de comandante provincial da Polícia Nacional no Huambo, Benguela, Luanda, Cabinda e Namibe. Ao reconhecer evolução na Polícia de Guarda Fronteira, o comandande Kandela afirma que o seu desejo maior é ver as fronteiras mais seguras, que se criem condições sociais para o efectivo e que se coloquem à sua disposição os recursos financeiros e logísticos necessários ao trabalho.

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