Entrevista

Gastrite, a doença que aflige milhões

Vasco Guiwho

A gastrite é um problema de saúde, muito comum nos dias de hoje, que pode afligir milhões de pessoas e ter, a longo prazo, consequências funestas. Para conhecer um pouco sobre a doença, o Caderno “Fim de Semana” conversou com o gastroenterologista, especializado na área, Óscar Alfredo Paulo, que já exerce medicina há anos, inclusive chegou a ser um dos técnicos de saúde em serviço na célebre batalha do Cuito Cuanavale

Fotografia: Vasco Guiwho, Edições Novembro

 O que é gastrite?
É uma inflamação, ou erosão, que pode afectar a parede interior do estômago.

Quais são os principais sintomas?
A gastrite pode manifestar-se com um desconforto abdominal e a sensação de estômago cheio, mesmo quando se come pouco. É frequente ter uma dor tipo queimação na região epigástrica (boca do estômago), assim como náuseas e vómitos. Pode haver, também, perda do apetite e ter um mau hálito intenso.

Como podemos detectar se temos ou não uma gastrite?
O desconforto que sentimos pode transformar-se em dor, que às vezes dizemos estar na boca do estômago, porque se for mais abaixo é dor de barriga. Outros sintomas são os arrotos com muita frequência ou os refluxos, que acontecem quando a comida parece sair do estômago para a boca novamente. O mau hálito é outro indicados.

A doença pode evoluir?
Sim. Com certeza. A gastrite pode evoluir para úlcera péptica, que é uma ferida no estômago ou no duodeno, com sintomas mais intensos. E quando não tratada, pode criar complicações como sangramento ou perfuração. O pior é quando se torna um cancro gástrico.

Quais são as causas desta doença?
As mais comuns são o excesso de stress, que também é a causa de outros desconfortos gástricos, o consumo de alimentos contaminados, o uso de alguns medicamentos, o álcool e o cigarro.

O que aconselha para evitar estes constrangimentos?
Precaução. Geralmente, pensamos que nunca teremos problema de estômago. Uma outra vez, a pessoa sente dores. Mas até mesmo este pequeno sinal já é o indicativo de algo, principalmente se sentirmos um desconforto, ou mal estar.

Que exames têm feito para detectar casos do género?
Vários. Temos um simples e rápido feito por bafo. Mas há as endoscopias, ou a biopsia, que é um procedimento cirúrgico no qual se colhe uma amostra de tecidos ou células para posterior estudo em laboratório.

Há uma idade para fazer estes exames?
Aos 50 anos, mesmo sem sintomas, todos são obrigados a ir ver um médico de gastro, para fazer o rastreio, um exame que permite fazer a observação. É a melhor forma de prevenir o cancro do intestino. Mas não há um limite de idade para fazer uma endoscopia. Até bebés podem ser submetidos a exame. Há técnicas próprias para estes casos.

O que é o rastreio?

O rastreio é um exame que permite fazer observação e encontrar possíveis sinais de cancro. A ideia é descobrir a doença antes que esta avance para uma fase terminal, começar o tratamento mais cedo e assim aumentar as chances de cura.

Quantos doentes são diagnosticados diariamente?
No consultório recebo, diariamente, 50 pacientes por semana. Anualmente são no total, aproximadamente, 2.400 doentes.

A gastrite é transmissível?
Não. A doença como tal não. Mas há bactéria que causa a doença, a helicobacter pylori, sim, através do contacto com as mãos ou boca do doente.

Como podemos evitar esta contaminação?
Em primeiro devemos ter boas regras de higiene e lavar as mão constantemente, em especial quando for usar as casas de banho, ou espaços comuns, onde as bactérias têm grande capacidade de se alojar.

Há uma cura?
Sim. Com o tratamento certo. Depois de diagnosticado, o doente pode ser tratado. A única diferença vai estar na causa da gastrite, porque se for devido ao stress aconselhamos a procurar um psicólogo.

Disse que a gastrite pode evoluir para úlcera gástrica. Qual a diferença?
A úlcera já é uma ferida. Quer dizer neste ponto, o doente já tem uma ferida dentro da cavidade abdominal. Algumas podem sangrar. Outras não. Porém, quando elas agravam podem causar perfuração na parede do estômago e danificar parte do abdómen. Quando isso acontece é já um caso de emergência que requer cirurgia.

Que recomendações dá para se evitar a gastrite?
A primeira é ter uma boa alimentação. Muitas situações de gastrite que temos são causadas por má nutrição. As pessoas devem ter, no mínimo, três refeições por dia. O hábito alimentar deve ser uma frequência. O outro é consumir bastante água, desta forma estaremos também a ajudar nas defesas do corpo.

A água também é importante no combate a gastrite?
Sim. É preciso ter muito cuidado no consumo dos alimentos e da água. Temos de beber água potável, ou tratada. Claro que a água nem sempre é responsabilidade pessoal. Na maioria das vezes é do Governo. Mas é fundamental se rever está questão, pois as localidades onde os habitantes vivem sem água tratada. Ali os métodos básicos de tratamento da água devem vigorar.

O tipo de alimento é fundamental?
Sim. Devemos ver o tipo de comida que consumimos. Tem de ser alimentação saudável. Alguns só são para encher a barriga. Não têm nutrientes. Quando falamos das doenças de estômago, o aspecto fundamental é a alimentação. Depois vem outros como a gestão do stress. Mas é preciso ter muito cuidado com a comida, em especial as saladas e as vendidas a céu aberto, com risco de serem contaminadas.

Porque escolheu a profissão?
Escolhi porque, na altura, haviam muitos casos de doenças ligadas ao aparelho digestivo. Na província do Uíge onde trabalhei eram muitos os problemas de doentes que chegavam já com hemorragia digestiva e úlceras. Alguns eram vítimas do vírus do Marburg, que assolou o país, especialmente aquela região. Todos estes factores foram decisivos para mim, pois queria ter conhecimentos e a capacidade de responder esses casos. Por isso, depois de terminar a formação no Brasil me senti pronto para dar o meu contributo ao país.

Há quanto tempo trabalha como médico?
Já um bom tempo. Hoje gosto de dizer que estou a fazer carreira na saúde. Fiz o curso médio de saúde, há 40 anos, no Instituto Medido de Saúde (IMS). Depois comecei a trabalhar como técnico médio de saúde e fiz a especialização em gastroenterologia. Em 2006 recebi a carteira da Ordem dos Médicos de Angola.

Teve algum episódio marcante antes de fazer a formação superior?
Sim. Houve um período que tive de abandonar os estudos para cumprir o serviço militar. Nesta altura servi nas Forças Armadas Angolanas (FAA) e acabei por participar na Batalha de Cuito Cuanavale, como técnico de saúde dos hospitais da campanha.

Que opinião tem sobre a qualidade do serviço prestado neste sector?
A qualidade não é boa, porque existe muita procura e pouca oferta. Temos uma população galopante e poucas instituições para atender a demanda. Pessoalmente criei o Consultório Médico Paullus para tal. Como a população é maior que o número de médicos então a qualidade do serviço não pode ser boa. O facto não se limita apenas aos recursos humanos, os materiais também. Por exemplo, na área de gastro são poucos os hospitais com equipamentos para fazer uma endoscopia digestiva.

E que projectos tem no geral para combater esta doença? Têm feito campanhas de sensibilização?
Sim. Na província do Uíge, onde trabalhei por anos, tivemos uma iniciativa de impacto social. Como haviam muitos pacientes a reclamarem, mesmo fora do hospital e diziam que não eram atendidos, então passamos a ir ao encontro destes nas localidades. Um dos problemas, já na altura, era a falta de médicos. Decidi então fazer campanhas para descobrir e formar potenciais médicos da província e incentivava os profissionais do Uíge a voltarem para trabalhar na província. A maioria não voltou.

Que solução encontrou?
Refiz o projecto. Decidi apostar numa solução a longo prazo, que incluía a formação de quadros. Hoje, o projecto cresceu e a província já conta com mais médicos. Na altura eram 26 jovens, com o ensino secundário concluído, que abraçaram o projecto. Os enviamos para estudar Medicina em Malanje. Destes 12 foram aprovados. Agora estão a dar o contributo em prol do Uíge.

E quanto a sensibilização?
Também temos feito. Realizamos palestras até hoje. Saímos muitas vezes de Luanda e vamos ao encontro das pessoas para falar sobre algumas doenças, em especial a gastrite. Esta iniciativa resultou na criação do Instituto Angolano de Educação para Saúde, com uma equipa de jovens que, semanalmente, dão palestras.

Tempo

Multimédia