Entrevista

Governo precisa de comunicar mais e melhor

O ministro da Comunicação Social, João Melo, concedeu recentemente uma entrevista por e-mail ao Jornal de Negócios, de Portugal, na qual abordou aspectos políticos, económicos, sociais e, sobretudo, da abertura que se regista na Comunicação Social angolana. Siga a conversa:

“Não foi preciso gastar milhões para melhorar a imagem do país”
Fotografia: Mota Ambrósio | Edições Novembro

Desde que João Lourenço tomou posse como Presidente da República, é visível que a comunicação social do Estado se tornou diferente. Mais plural e até mais crítica e menos oficial. Houve orientações da tutela para que esta mudança se verificasse?

 Isso consta, desde logo, do programa eleitoral do MPLA, que a maioria do eleitorado sufragou em 2017; logo, é para ser cumprido. Por outro lado, o Presidente João Lourenço não só o reiterou amplamente no seu discurso de tomada de posse, como o tem feito de maneira clara em várias outras ocasiões. Portanto, a tutela não poderia agir em sentido contrário.

 

De que forma a comunicação social pode contribuir para o processo de transformação do país que o Presidente parece querer aplicar?

Pessoalmente, considero que a comunicação social angolana - quer a estatal quer a privada - tem uma responsabilidade comum: prestar aos angolanos um verdadeiro serviço público de comunicação. De facto, eu sou daqueles que considera que o serviço público de comunicação não deve apenas ser prestado pelos órgãos do Estado. O que é que isso significa? Coisas básicas: primeiro, prover aos cidadãos uma informação completa (todos os factos socialmente relevantes são dignos de ser noticiados e não apenas, como defendem alguns, apenas os factos negativos, extravagantes ou aberrantes ou, então, as eventuais falhas do governo), fidedigna (verdadeira, bem apurada e correctamente enquadrada), sóbria, equilibrada e atraente, sem, entretanto, ceder ao sensacionalismo barato; segundo, separar claramente informação e opinião (o "jornalismo editorializado" é um dos piores males da profissão); terceiro, exercer o seu papel crítico de maneira objectiva e factual; e, quarto, em termos de opinião, dar espaço a todas as vozes, dentro dos limites constitucionais.

 

Em 2015, numa entrevista ao site Rede Angola, disse o seguinte: “A esmagadora maioria dos meios de comunicação angolanos sofre de um vício de base: a parcialidade, a falta de objectividade e a falta de contraditório. É um mal geral e não é justo acusar apenas os órgãos públicos”. Este diagnóstico mantém-se actual? 

De um modo geral, a imprensa pública angolana tende, neste momento, a ser mais equilibrada, objectiva e diversificada do que os meios privados, pelo menos do que a esmagadora maioria destes últimos. Sem dúvidas.

 

Nota que a comunicação social estrangeira está também a olhar para Angola de forma diferente?

Sim. Para isso, não foi preciso gastar milhões em propaganda. Bastou apenas que o Presidente João Lourenço e o novo governo começassem a fazer as coisas certas. Mas, precisamos de aumentar os esforços para comunicar mais e melhor.

 

Quais são as suas prioridades enquanto ministro da Comunicação Social? 

Continuar a trabalhar no sentido de criar as condições para a existência de um sistema de Comunicação Social aberto, plural e diversificado, em termos de propriedade, perfil e linha editorial. Reestruturar e modernizar as empresas públicas de comunicação social. Contribuir para melhorar a comunicação institucional do Executivo, interna e externa. Fomentar a imprensa local e comunitária.

 

O Presidente da República e você já usam as redes sociais, Twitter e Facebook, para comunicarem. Quais são os objectivos que se pretendem atingir com este recurso às redes sociais?

Eu só estou no Twitter. A minha página, na verdade, é meio pessoal e meio institucional. Do ponto de vista institucional, o meu objectivo é valorizar as mudanças positivas que estão a acontecer em Angola. Nos tempos que correm, os políticos não podem estar ausentes das redes sociais. É urgente impedir a ditadura dos algoritmos (e, obviamente, dos seus detentores).

 

Em Dezembro escreveu no Twitter: “Só de 2016 a 2017, o Estado foi lesado em 800 mil milhões de kwanzas, 60 milhões de dólares e 15 milhões de euros”, pelo que “a luta anti-corrupção em Angola é para levar a sério”. A corrupção é o pior problema de Angola? Porquê?

Além de um problema económico, pois desvia recursos que o Estado poderia usar para resolver os problemas das nações, a corrupção é um gravíssimo problema social, na medida que pode criar um estado de anomia geral, em que os comportamentos ilícitos passam a ser considerados “normais”. Em Angola, estávamos à beira desse ponto. O Presidente João Lourenço percebeu claramente o risco em que estávamos e fez da cruzada anti-corrupção a sua grande bandeira. Precisa, pois, de ser apoiado por todos os angolanos de bem.

 

Em 2001, no conto “O Elevador”, escreveu: “(...) enquanto foi ministro, conseguiu duas casas em Luanda e uma quinta em Viana, além de ter montado uma autêntica frota de carros de vários tipos, cores e tamanhos (turismos utilitários e de luxo, jipes, carrinhas, etc.) sem ter gasto um tostão, mas apenas abatendo à carga veículos do próprio Ministério”. São estes os marimbondos de que falou o Presidente da República? O que se está a fazer para alterar este estado de coisas? O facto da conjuntura económica não ser a mais favorável pode dificultar o processo de transição e abertura política?

Essa personagem do conto a que se refere pode ser considerada, na verdade, um “marimbondinho”. Afinal, estávamos em 2001, praticamente no início do processo... A prioridade dada ao combate à corrupção pelo Presidente da República é o grande sinal do que está a ser feito para alterar esse quadro. É visível, igualmente, o empenho dos órgãos policiais e da Justiça na luta contra esse tipo de práticas. Ninguém deve esquecer, por fim, o maior escrutínio por parte dos cidadãos, graças não apenas às mudanças políticas, mas também tecnológicas (as duas estão profundamente imbricadas). As dificuldades económicas podem complicar esse processo, mas não o travarão. Aliás, para sair da crise económica, o país precisa de abrir-se. 

Por exemplo, não haverá investimentos directos externos ou diversificação económica interna a sério (o que implica a existência de mais empresários e empreendedores em geral), sem combate à corrupção e sem abertura. Mesmo que alguém pense que basta abrir economicamente, a abertura económica será, nas actuais condições de Angola, geradora de mais abertura política, desde logo porque criará uma classe média que, em princípio, não quer repetir os 38 anos de controlo e dirigismo quase absolutos.

 

Depois da visita do Primeiro-Ministro português António Costa a Angola e do Presidente angolano João Lourenço a Portugal, as relações bilaterais parecem ter entrado  numa rota de normalidade. Quais as áreas em que considera possível vir a existir melhorias?

De acordo. Uma dessas áreas foi expressamente apontada pelo Presidente João Lourenço: Angola precisa que os pequenos e médios empresários portugueses venham investir no país e não se limitem ao import-export. Eu apontaria mais duas: a livre circulação de pessoas (todas as pessoas) e o intercâmbio científico, artístico e cultural. 

 

É também escritor. Nesta qualidade como é que avalia o actual panorama literário angolano? Visto de fora, a sensação que predomina é a de que existem menos valores emergentes por comparação com a geração de Pepetela e Manuel Rui, entre outros.

Essa percepção é, quanto a mim, correcta, se se estender à geração posterior à dos autores que citou. Isso está ligado a um problema geral: o défice de educação. Literatura é, acima de tudo, educação. Claro que um sistema deficiente em termos de educação não impede o eventual surgimento de bons escritores e artistas em geral (até de génios), mas isso é a excepção que confirma a regra.


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