Entrevista

Governo de Madrid está aberto a Angola

José Ribeiro |

Espanha e Angola assinaram um Acordo Básico de Cooperação em 1987. Quase três décadas de cooperação guindaram Espanha a um dos principias parceiros de Angola, com contribuições muito significativas para o desenvolvimento do país. “Mas hoje a Espanha e a Europa enfrentam restrições orçamentais e Angola vive um crescimento económico sustentado.

García-Margallo chefia uma importante delegação ministerial
Fotografia: Jornal de Angola

Espanha e Angola assinaram um Acordo Básico de Cooperação em 1987. Quase três décadas de cooperação guindaram Espanha a um dos principias parceiros de Angola, com contribuições muito significativas para o desenvolvimento do país. “Mas hoje a Espanha e a Europa enfrentam restrições orçamentais e Angola vive um crescimento económico sustentado. A Cooperação Espanhola iniciou um processo de concentração para garantir a eficácia e o impacto da ajuda. Tudo isso obriga a repensar a cooperação”, disse o ministro das Relações Exteriores e da Cooperação, José Manuel García-Margallo,  que chega hoje a Luanda à frente de uma delegação ministerial espanhola.


Jornal de Angola - A crise da Zona Euro pode afectar a cooperação entre Espanha e Angola?

José Manuel García-Margallo -
Espanha e Angola assinaram o Acordo Básico de Cooperação em 1987. Temos, pois, quase três décadas de cooperação, nas quais Espanha se tornou num dos principias parceiros de Angola, com contribuições muito significativas para o desenvolvimento do país. É evidente que, em comparação com 1987, as circunstâncias mudaram. Espanha e a Europa enfrentam restrições orçamentais. Angola vive um crescimento económico sustentado. A Cooperação Espanhola iniciou um processo de concentração para garantir a eficácia e o impacto da ajuda. Tudo isso obriga a repensar a sua presença em Angola, como já o fizeram outros parceiros tradicionais, e a avançar para novas formas de colaboração que permitam consolidar e aprofundar as realizações de quase três décadas de cooperação.

JA - As regiões autónomas espanholas têm capacidade para desenvolver uma cooperação económica com Angola?

JMGM -
A cooperação económica é levada a cabo pelas empresas com os seus projectos e, nalguns casos, com as suas transferências de tecnologia e de “know how”. É uma cooperação do sector privado, sempre bem vinda. Estas empresas podem ser multinacionais espanholas, podem ser de âmbito nacional ou podem, dentro de Espanha, circunscrever a sua actividade às Regiões Autónomas. Mas, na realidade, o seu trabalho em Angola reveste-se do mesmo carácter e podem ser uma ponte de “joint ventures” triangulares com países terceiros.

JA - A cooperação no domínio da defesa e segurança vai ser reforçada durante a sua visita?

JMGM -
A cooperação no âmbito da segurança e da defesa sempre foi uma prioridade entre ambos os países e realizamos uma avaliação muito positiva de tudo o que foi feito até agora. Angola e Espanha têm compromissos importantes de actuações futuras para partilhar experiências e melhorar as capacidades no terreno da segurança e da defesa. Exemplo disto é a recente visita de uma delegação do Ministério do Interior de Angola a Espanha ou a próxima escala do navio “Relâmpago” em Luanda.

JA - A cooperação espanhola continua com o mesmo nível de capacidade para apoiar projectos em Angola?

JMGM -
O apoio financeiro não alcança os níveis de anos anteriores. Porque os nossos recursos são limitados e porque Angola conta, felizmente, com maior capacidade para assumir o seu próprio desenvolvimento. Mas a Espanha está disposta a continuar a colaborar com Angola através da transferência de conhecimentos e do fortalecimento de capacidades nas áreas prioritárias para o Governo de Angola.

JA - A Espanha pode abrir portas a Angola para o mercado ibero-americano?

JMGM -
Espanha é o segundo maior investidor externo na Ibero-América. Nalguns países, como a Bolívia, é o número um. Claro que se podem encontrar sinergias que favoreçam os nossos irmãos ibero-americanos e os nossos países. Não parece que seja tão difícil imaginar operações comerciais ou financeiras triangulares entre os três continentes, nos quais Angola e Espanha desempenhem o papel de “pivots” africano e europeu.

JA - Em que aspectos se tem diferenciado a cooperação espanhola em Angola?

JMGM -
Nos últimos anos tentámos, em constante diálogo com as autoridades angolanas, concentrar a nossa actividade em Angola nalguns sectores prioritários: fortalecimento institucional, descentralização e desenvolvimento rural. Penso que o resultado foi positivo, pois essa concentração permitiu melhorar o impacto das intervenções. Além disso, trabalhámos sempre na base de três princípios muito claros: alinhamento com as prioridades das autoridades angolanas, sustentabilidade das actividades e um claro compromisso com a promoção dos direitos das mulheres.

JA - Angola está num estádio de desenvolvimento em que necessita de tecnologias. Espanha tem capacidade para acompanhar essa necessidade?

JMGM -
Espanha lidera hoje uma impressionante lista de tecnologias avançadas. Das dez empresas de construção de grandes infra-estruturas mais importantes do mundo, há sete espanholas, entre as quais as cinco  primeiras do “ranking”. Somos líderes indiscutíveis em energias renováveis.  A Repsol tem uma tecnologia própria para a exploração dos chamados hidrocarbonetos não convencionais, como o petróleo e o gás de xisto e das areias betuminosas.

JA - E na área da informática?

JMGM -
No mundo da organização e da gestão informática temos provavelmente a empresa mais avançada do planeta, a INDRA, presente em 120 países e com soluções para o controlo do espaço aéreo, militar e civil, até ao controlo electrónico de fronteiras terrestres e marítimas, passando pelos sistemas de contagem de votos em eleições - como as que realizaram com muito sucesso aqui em Angola - ou sistemas de pagamento electrónico e automático de portagens.

JA - O que tem Espanha para oferecer na área dos transportes?

JMGM -
No transporte por caminhos-de-ferro, temos várias empresas entre as mais avançadas do planeta e, nesta altura, somos o país que fabricou mais comboios de alta velocidade no mundo. Na aeronáutica, somos parceiros da Airbus, da Airbus Military e da EADS. A nossa Indústria Naval, civil e militar, tem uma grande capacidade de inovação.

JA - Angola tem necessidades nas áreas da saúde e agricultura. Espanha tem respostas para isso?

JMGM -
Concebemos e gerimos aquele que é considerado o melhor e mais rápido sistema do mundo para transplantes de coração, fígado, rins, pulmões e até rostos. Na agricultura, desenvolvemos tecnologias inovadoras e muito rentáveis de produção agrícola sem terra - as culturas hidropónicas de Almeria ou das Canárias - e encontrámos fórmulas para incrementar as culturas tradicionais.

JA - Espanha é conhecida como uma grande potência desportiva. Angola pode beneficiar de uma ajuda nessa matéria?

JMGM -
De forma cada vez mais evidente, os clubes espanhóis de futebol e basquetebol vão-se apercebendo da evolução do desporto angolano. De momento está-se a levar a cabo uma cooperação desportiva pontual, fruto da qual jovens talentos angolanos têm bolsas de estudo em Espanha e experiências em clubes, alguns dos quais têm transitado para as ligas profissionais, como é o caso do avançado da seleção angolana Manucho, actualmente no Valladolid.

JA - A cooperação cultural pode ser desenvolvida?

JMGM -
A cooperação espanhola em Angola  procura potenciar a função da acção cultural como aglutinante social, fomentando a convivência e reforçando a identidade de Angola dentro da sua diversidade cultural. Promove-se a cooperação em áreas relacionadas com a recuperação e a revalorização do património do país, com a  capacitação profissional no âmbito do desenvolvimento cultural e da concepção de políticas públicas culturais, no quadro de um modelo de cooperação cultural que  consolida o papel da cultura como motor do desenvolvimento.

JA - Está prevista alguma deslocação de uma embaixada cultural e desportiva a Angola durante o Campeonato do Mundo de Hóquei em Patins?

JMGM -
A Selecção Espanhola de Hóquei em Patins tem vontade de participar no campeonato do mundo que se realiza em Luanda no próximo ano. Nessa altura, a não ser que haja algum imprevisto, podemos dizer que sim.

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