Entrevista

Grandes desafios tecnológicos acontecem em Angola

Leonel Kassana|

Líder da produção petrolífera em Angola, A Total, Exploração & Pesquisa  Angola, do Grupo Total, continua a inovar na exploração de hidrocarbonetos em águas profundas e ultra profundas no país. Após o início das suas operações com o projecto Girassol, em 2001, seguiram-se-lhes o Dália e, mais recentemente, o Plazflor, todos no bloco 17 no “offshore”.

Jean-Michel Lavergne garante que a estratégia consiste em trabalhar com a comunidade
Fotografia: Leonel Kassana

Líder da produção petrolífera em Angola, A Total, Exploração & Pesquisa  Angola, do Grupo Total, continua a inovar na exploração de hidrocarbonetos em águas profundas e ultra profundas no país. Após o início das suas operações com o projecto Girassol, em 2001, seguiram-se-lhes o Dália e, mais recentemente, o Plazflor, todos no bloco 17 no “offshore”. Em 2014, arranca o projecto CLOV, que vai fechar todo um ciclo de descobertas no Bloco 17. Em recente entrevista ao Jornal de Angola o director-geral Total E & P Angola, Jean-Michel Lavergne, falou dos desafios tecnológicos da empresa, a começar pelo Plazflor.

Jornal de Angola – Chegou a Angola, recentemente e já teve a oportunidade de ser recebido pelo Presidente da República. Como decorreu essa audiência?

Jean-Michel Lavergne –
Sim, é verdade. Cheguei em Setembro, para exercer as funções de director-geral da nossa filial em Angola e tive a oportunidade de me encontrar com o senhor Presidente, quando ele recebeu em audiência uma delegação da nossa empresa, por ocasião da inauguração do Pazflor, em Novembro último. Claro que não pudemos deixar de falar sobre o Projecto Pazflor.
Este projecto, agora já a produzir, ficará na história da indústria petrolífera mundial como um projecto que conseguiu combinar grandes inovações tecnológicas com o respeito pelos custos e pelo cronograma. O Pazflor é o primeiro a fazer a separação submarina gás/líquido em grande escala para produzir dois tipos de petróleo numa única instalação de produção a bordo dum navio chamada FPSO (Unidade Flutuante de Armazenamento e Exportação).
Só o projecto Plazflor representa um investimento global de nove mil milhões de dólares norte-americanos, cerca de 4500 pessoas trabalharam nele, realizando um total de 32 milhões de horas de trabalho em quatro continentes.
Os grandes desafios tecnológicos na indústria petrolífera estão, pois, a acontecer em Angola e é estimulante para a Total participar nessas inovações. Outro assunto que também abordámos com o Sr. Presidente foi a angolanização.

JA – Qual é a posição da Total E & P Angola sobre essa matéria?

JML –
A Total é apologista da diversidade, que considera uma riqueza suplementar. Em todos os países onde operamos, os quadros nacionais são a nossa base de funcionamento, só reforçada por mão-de-obra estrangeira quando não existem no país as competências necessárias.
Em Angola, tem sido feito um esforço substancial para aumentar o número de trabalhadores nacionais. Integrar competências locais a todos os níveis é um dos pilares do nosso “conteúdo local” e uma componente chave da nossa política de recrutamento.
Possuímos, já desde 2007, por vontade própria, uma norma interna denominada “Carta de Angolanização”, que espelha o nosso compromisso com o recrutamento e formação de colaboradores nacionais, e isso a todos os níveis. Em finais do ano de 2010, por exemplo, tínhamos 1100 colaboradores angolanos, 400 dos quais ocupavam cargos de chefia. Continuamos a recrutar uma média de 100 novos colaboradores angolanos por ano.
Este ritmo de admissões vai continuar, visto que as actividades da nossa empresa em Angola assim o exigem. Felizmente, o mercado angolano já começa oferecer um número razoável de quadros com formação para dar resposta às exigências do nosso sector de actividade e que esse número tem tendência a aumentar. Claro que, após o recrutamento, as empresas têm de garantir a formação contínua desses colaboradores, pois a indústria petrolífera tem especificidades muito próprias.

JA - E como é feito o processo de formação dos quadros na Total E & P Angola?

JML -
Esta formação pode ser realizada no exterior do país ou no nosso centro de formação profissional Pazflor Luanda, dependendo do tipo de formação e do número de pessoas a formar. Neste centro, são ministradas matérias ligadas às geociências e operações petrolíferas, e ainda cursos adaptados às nossas diversas áreas de apoio. Os formadores são angolanos ou estrangeiros, conforme os cursos e a existência ou não de recursos com qualidade em Angola.
Mas devo referir que a nossa aposta não se limita aos nossos colaboradores. Educação e formação estão no centro das prioridades da Total E&P Angola. Os objectivos são ambiciosos, mas a empresa mantém-se atenta à evolução do mercado e tem consciência da nossa responsabilidade social enquanto empresa. Em 2008, por exemplo, assinamos uma parceria com o Ministério da Educação para a realização de um programa integrado de construção e gestão de quatro escolas do segundo ciclo nas Províncias do Bengo, Kwanza-Norte, Malanje e Cunene.

JA – O que são as escolas Eiffel, de que muito se fala na vossa Companhia?

JML –
São escolas patrocinadas pela Total E & P Angola e são geridas pela Missão Laica Francesa, uma ONG que tem grande experiência na área do ensino. Ela garante uma gestão rigorosa das escolas e maior qualidade dos professores angolanos por via da sua formação contínua. O conteúdo curricular, na área das ciências exactas, é o do Ministério da Educação, embora enriquecido com aulas complementares em ciências e línguas estrangeiras, e o ensino é completamente gratuito.
Estudam nestas escolas 576 alunos por ano, que são rigorosamente seleccionados por meio de um exame de admissão. Os primeiros diplomas foram entregues no final de 2011 e decidimos oferecer 20 bolsas de estudo para o ingresso em estabelecimentos de ensino superior em Angola e no estrangeiro. Estes jovens, bem preparados, poderão garantir a continuidade da indústria petrolífera angolana.

JA – Qual é actualmente a participação da Total E & P Angola na produção petrolífera em Angola?

JML –
Somos, neste momento, o operador que mais produz em Angola. Como sabe, o Pazflor é o terceiro pólo de desenvolvimento do Bloco 17 e tem uma capacidade de produção instalada de 220 mil barris de petróleo por dia. Embora o Pazflor ainda não tenha atingido o plateau, ele já elevou para mais de 600 mil barris de petróleo por dia a produção diária do Bloco 17, aumentando assim em cerca de 10 por cento a capacidade de produção do País.
Além do Pazflor, operamos também o FPSO Girassol, que  processa 190 mil barris/dia e o Dália que produz uma média de 240 mil barris por dia.

JA – Quais são os próximos desafios da Total E & P Angola, sobretudo em águas ultra profundas?

JML -
Esperamos iniciar as operações do campo Clov, também no Bloco 17, em 2014. Com a entrada em produção deste campo, a produção operada da Total E&P Angola vai subir para 800 mil barris, o que é muito significativo.
Grande parte dos equipamentos de produção para esse campo será fabricada em Angola, em Porto Amboim sobretudo. E isso é muito importante pois, além da criação de empregos, esse processo acrescenta valor à indústria angolana, que beneficia assim da transferência de tecnologia.

JA -Além do Bloco 17, que outros campos petrolíferos a Total opera em Angola?

JML -
Em Dezembro último, assinámos dois novos contratos para virmos a operar os Blocos 25 e 40, que se situam no offshore profundo da Bacia do Kwanza, no famoso pré-sal angolano. A Total também assinou um terceiro contrato num bloco da bacia do Kwanza como parceiro, o Bloco 39. E já éramos também operadores nos blocos 17/06, que se situa perto do bloco 17, assim como nos blocos 32 e 33.
É no Bloco 32, onde temos uma participação de 30 por cento, que as nossas actividades estão mais adiantadas. Já lá realizámos 13 descobertas, que confirmam o seu potencial. Estudos conceptuais de desenvolvimento estão em curso para o primeiro projecto na região centro sudeste do bloco (Kaombo). O campo vai estar ligado a duas unidades flutuantes de produção, armazenamento e descarga de petróleo – os chamados FPSO – e a produção média de cada um será de 100 000 barris de óleo por dia. O primeiro destes FPSO deve começar a operar em 2016 e o segundo um ano depois.

JA – Qual é o nível de participação da vossa Companhia no projecto Angola LNG?

JML –
A nossa participação no projecto Angola LNG, é de 13,6 por cento na construção de uma fábrica de liquefacção, perto do Soyo. Este grande projecto do Governo Angolano vai valorizar, em primeiro lugar, o gás associado dos blocos 0, 14, 15, 17, 18, 31 e 32 e contribuir para uma redução drástica da queima de gás em Angola. Como sabemos, a construção da fábrica está em curso e prevê-se que a sua produção comece em 2012.

JA – Gostaríamos que nos falasse, também, dos programas de responsabilidade social da Empresa e o valor global investimentos nessa área.

JML -
Mais do que empresa responsável, eu diria que somos, neste momento, o primeiro produtor em Angola e estamos conscientes da necessidade de contribuir, ao nosso nível, para o desenvolvimento do país. Temos um sector da empresa inteiramente dedicado a esta temática. A nossa estratégia de acção passa por desenvolvermos programas direccionados para as comunidades, conduzidos em parceria com ONG, e de acordo com as políticas definidas pelo Governo Angolano.
A nossa contribuição global cresceu gradualmente e nestes três últimos anos foi multiplicada por cinco: passamos de 9,5 milhões de dólares em 2006 para 30 milhões de dólares em 2010.

JA – Como é que está a Total em termos de segurança ambiental nas áreas onde realiza as suas operações petrolíferas?

JML -
As nossas prioridades são a segurança e a saúde dos nossos colaboradores e das comunidades que vivem perto dos nossos projectos, bem como a integridade das instalações e do ambiente. Por isso, os projectos da Total E&P Angola só são lançados após uma avaliação dos riscos ambientais que cubra todo o ciclo de vida do projecto. Procuramos assim preservar a qualidade do ar nos locais de trabalho, os recursos hídricos e a biodiversidade.
Como exemplo desta política, foram realizadas campanhas de avaliação do impacto das nossas actividades de perfuração nos blocos 3, 17 e 32, em parceria com os Ministérios dos Petróleos, do Ambiente e do INIP (Instituto Nacional de Investigação Pesqueira). Essas campanhas foram resumidas num livro e numa base de dados denominada MANGO (Monitorização Angola) que procuram divulgar os dados ambientais recolhidos nas campanhas de monitorização e partilhar as descobertas sobre o ambiente marinho com o público em geral. A base de dados engloba ainda os resultados e dados científicos das monitorizações ambientais realizadas pela Total E&P Angola entre 1998 e 2010.

JA – Que avaliação faz do futuro da indústria petrolífera angolana?

JML –
Assumi há alguns meses as  minhas funções de Director Geral mas já tinha efectuado deslocações de trabalho a Angola há cerca de 11 anos. Pude constatar logo ao chegar o enorme crescimento que se está a operar neste país e gostaria apenas de salientar que sinto muito orgulho por a minha empresa estar associada a esse progresso. Associada porque somos um produtor de petróleo de destaque, mas também pela nossa presença em projectos de desenvolvimento social, industrial e humano.

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