Entrevista

Guardas sem formação

André da Costa|

Falta de formação adequada do pessoal e existência de gestores interessados apenas na obtenção de lucros, foram apontadas pelo director para a Ordem Pública do Comando Provincial de Luanda da Polícia Nacional como causas do mau desempenho das empresas privadas de segurança.

Mateus André faz critica aos gestores
Fotografia: M.Machangongo

Em entrevista ao Jornal de Angola, o superintendente chefe Mateus André disse que a nova lei que rege esta actividade, aprovada em Outubro passado, é mais rígida em termos de organização e disciplina.


JA - Qual é a função das empresas de segurança e sistemas de auto-protecção?

MA- A Lei diz que as empresas privadas de segurança têm uma função subsidiária e complementar da actividade das forças e dos serviços de segurança pública do Estado.


JA - Quantas empresas de segurança estão registadas pelo Comando Provincial de Luanda?

MA - O Comando Provincial de Luanda tem registadas 713 empresas privadas de segurança e 810 sistemas de auto-protecção. Das empresas existentes, 504 são autorizadas e 209 têm os processos a seguir os trâmites legais. Dos sistemas de auto-protecção, estão autorizadas 222 e 588 estão também em análise pelos órgãos competentes.


JA - Ainda há roubos de armas aos seguranças por parte de marginais?

MA - Verificamos situações em que aos protectores são roubadas as armas quando em serviço. Na maior parte das vezes isso acontece por acção negligente dos guardas, mas também decorre da fraca ou quase inexistente preparação para o tipo de trabalho.

JA - O problema está na admissão do pessoal?

MA  - A admissão de pessoal pelas empresas privadas de segurança e sistemas de auto-protecção não obedece, muitas vezes, às recomendações da Polícia Nacional, segundo as quais, por ausência de centro de instrução, só são admitidos indivíduos com um passado militar ou policial, face à similitude das tarefas.

JA - O que têm verificado nas inspecções que realizam?

MA- Por não observarem alguns pressupostos essenciais na admissão dos candidatos a protectores, confrontamo-nos com a existência de indivíduos com passagem pela Polícia acusados da prática de crimes. O ideal é remeter a lista de candidatos à área dos registos e informação da Polícia para se  verificar o cadastro antes da admissão.

JA - Os assaltos a bancos têm aumentado. Até que ponto os seguranças podem garantir maior segurança aos funcionários e clientes?

MA - Nos últimos tempos são preocupações do Comando Provincial de Luanda as acções dos marginais dirigidas aos bancos, tendo como consequência a subtracção de somas avultadas de dinheiro e, em alguns casos, concorrendo com ofensas corporais por disparos de armas de fogo, em que são lesados funcionários e clientes. Concorrem para este tipo de situações, a ineficácia dos próprios protectores, mas também a inobservância de determinadas recomendações dirigidas aos bancos em matéria de segurança.

JA - Que recomendações concretas têm sido feitas?

MA - Além das medidas específicas de Polícia, temos apelado de forma reiterada para a ­necessidade de criação de sistemas internos e externos de vigilância, por via de câmaras de vídeo nas agências bancárias. Estes mecanismos são importantes na busca de provas.

JA - Qual o número de seguranças envolvidos em roubos?   

MA - De Janeiro de 2014 a Março do ano em curso, o Comando Provincial de Luanda tomou conhecimento do envolvimento de 73 protectores em roubos e furtos em estabelecimentos e objectivos sob sua protecção. A maior parte deles está detida e aguarda julgamento.

JA - Que outras questões de segurança a Polícia Nacional pretende ver melhoradas nos bancos comerciais?

MA - Recomendamos a aquisição de portas específicas, como as de bloqueio, para dificultar a acção dos marginais e permitir a intervenção das forças da ordem.

JA - Até que ponto os gestores das empresas de segurança valorizam os quadros operativos que estão no terreno?

MA - Existem empresas privadas de segurança cujos gestores só pensam na obtenção de lucros fabulosos, sem que lhes ocorra que estes só podem ter lugar de forma sustentada se, em primeiro lugar, valorizarem e dignificarem os seus trabalhadores, que são a peça fundamental para o êxito de qualquer estratégia empresarial.

JA - Que comentários faz em relação ao atavio de alguns seguranças nos postos?

MA - A falta de atavio ou aprumo dos protectores nos postos que guarnecem ilustra a situação de desordem a que a maior parte das empresas privadas de segurança e sistemas de auto-protecção se encontram votadas. Os responsáveis deviam privilegiar a reestruturação das suas empresas, tendo como ponto de partida o homem.

JA - Que elementos novos tem a Lei das Empresas Privadas de Segurança?

MA - Uma das novidades é que exige que os candidatos a seguranças devem possuir capacidade física e perfil psicológico necessários para o exercício das suas funções, comprovados por ficha de aptidão, acompanhada de exame psicológico obrigatório, emitida por médico do trabalho. Ter cumprido o serviço militar obrigatório e frequentado com aproveitamento o curso de formação. A recente lei é mais rígida em relação ao cumprimento de tarefas de natureza organizativa. Assim, as empresas que não cumprirem os requisitos estipulados estão sujeitas a pesadas multas ou ter as respectivas licenças cassadas.

 

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