Entrevista

Gustavo da Conceição: “Tóquio vai confirmar a descida iniciada no Rio de Janeiro”

Anaximandro Magalhães

Gustavo da Conceição, presidente do Comité Olímpico Angolano (COA) e líder da Comissão de Gestão “ad-hoc” da Federação de Basquetebol, aceitou conceder entrevista ao Jornal de Angola, sem se resguardar em respostas evasivas a questões mais delicadas. Reconhece a existência de dificuldades conjunturais, mas reclama maior assertividade nas grandes decisões políticas atinentes ao fenómeno desportivo. Sem hesitar, afasta qualquer responsabilidade do órgão que dirige na aposta das entidades governamentais, pois, no seu entendimento, está “voltada para infra-estruturas de algumas modalidades”, não podendo ser equiparada a um verdadeiro investimento no desporto, apoiado em bases científicas, de que seguramente resultaria maior e mais profícua amostra de praticantes. De permeio, deu a conhecer os números que suportam a gestão do COA, em termos financeiros, bem como a sua proveniência. Deixou assim uma perspectiva pouco optimista, mas realista, de satisfazer com serviços mínimos a demanda olímpica, em função dos parcos recursos disponíveis

Fotografia: DR

O que é o Comité Olímpico Angolano (COA) e que atribuições tem no desporto nacional?

É o ponto central do movimento associativo desportivo e olímpico nacional, com atribuições decorrentes da Carta Olímpica e da Lei, que se podem resumir no apoio ao desenvolvimento do movimento associativo, no quadro dos programas da Solidariedade Olímpica e na responsabilidade das missões olímpicas para os jogos sob a égide do Movimento Olímpico.

Quais são as responsabilidades do COA para com as selecções nacionais?

Há uma responsabilidade indirecta durante a olimpíada, já que o COA fornece bolsas para atletas e serviços de formação de dirigentes, de técnicos e de outros agentes, que podem ter impacto ou influenciar a performance de uma selecção. Há também uma responsabilidade mais directa, mas sempre partilhada com a Federação respectiva, quando esta se qualifica para os diferentes jogos do Movimento Olímpico, nomeadamente os Jogos Olímpicos e os Jogos Africanos; os Jogos Africanos de Praia, os Jogos Africanos da Juventude, os Jogos Mundiais da Juventude e os Jogos Mundiais de Praia.

Qual é o orçamento da instituição e a sua proveniência?

O nosso orçamento é composto por quatro partes a saber: uma que nos chega a partir da dotação do Estado (7. 999. 200.00 Akz) e outra que resulta dos programas financiados pela Solidariedade Olímpica (120. 000.000.00 Akz ), ao qual só temos acesso se realizarmos os programas no quadro pré-definido. A terceira parte provém da quotização dos membros (1. 200. 000,00 Akz) e a quarta das contribuições dos nossos patrocinadores (19. 000. 000.00), maioritariamente em serviços.

Que aportes financeiros recebe do Estado?

Recebemos aportes financeiros de duas dimensões. A dotação anual no valor de pouco mais de sete milhões de kwanzas, pois pertencemos ao penúltimo escalão do apoio do Estado às organizações do Movimento Olímpico em Angola. E um valor incógnito que recebemos no ano dos Jogos Olímpicos, fundamentalmente para participar no evento.Mas como vivemos uma situação de crise sem precedentes, não conseguimos vislumbrar quanto receberemos de um OGE com revisões em curso, nem como e quando isso ocorrerá.

Os Jogos Olímpicos foram adiados em mais de um ano, por causa do combate à propagação da pandemia da Covid-19. A suspensão é favorável a Angola?

Um tal adiamento não é favorável a ninguém. Atletas, técnicos e dirigentes trabalham por ciclo olímpico, que é composto pela olimpíada (o período de quatro anos), mais os Jogos que a celebram. Durante a olimpíada os atletas, técnicos e dirigentes expõem-se a sacrifícios mil, para cumprir os respectivos programas e aparecerem no melhor da sua performance. Ora, empurrar os Jogos é “prolongar o calvário” de todos os envolvidos no sistema olímpico. É como se no final de uma prova de atletismo, quando pensas que vais cortar a meta, alguém diz que faltam mais algumas centenas de metros.

Está o COA preparado para os Jogos de Tóquio’2020? Embora aconteçam somente em 2021.

O COA está sempre pronto para os seus desafios. Se me perguntasse se vai sempre nas melhores condições, eu diria que não. Mas a nossa filosofia de trabalho é garantir a ida com “serviços mínimos”, e ir melhorando a qualidade até ao ideal, à medida que conseguimos reunir recursos.

Se o arranque fosse na data prevista, o país estaria em condições financeiras?

Não sei, pois a informação que tenho da situação financeira do país e dos critérios de definição de prioridades é superficial e periférica. O que posso dizer é que ainda não recebemos as verbas e por isso, em termos da avaliação do cronograma de pagamentos do COA e da Missão Olímpica, estávamos atrasados. Agora com a Covid-19 e o consequente adiamento dos jogos, ganhamos algum tempo.

Que condições financeiras existem para facilitar a preparação das selecções nacionais e consequentemente a participação nos torneios de qualificação?

Por norma, o COA não tem responsabilidades com a qualificação. Tem responsabilidades depois das modalidades se qualificarem. Contudo, há casos excepcionais em que o COA se envolve, como no caso dos seus bolseiros. Nesta circunstância, temos dois bolseiros que conseguiram qualificar a vela, temos os bolseiros da natação que se não conseguirem marcas, estarão protegidos pela universalidade (princípio que para garantir a participação de todos os países do Mundo, permite que ao nível do atletismo e da natação se possa inscrever dois atletas, - masculino e feminino - mesmo sem os mínimos requeridos). Há ainda o caso da Diassonema Neyde, bolseira do judo, que precisa de cumprir o circuito internacional para pontuar. É certo que beneficiamos do apoio da Solidariedade Olímpica, mas por vezes para cumprir os circuitos é preciso o apoio do Estado. Tal como aconteceu no passado com a Antónia de Fátima “Faia”, gostaríamos de poder contar com o apoio do Governo para o efeito. Mas, para responder a sua pergunta, acho que as condições financeiras serão sobretudo insuficientes, e estarão em linha com as dificuldades financeiras do país, causadas pela Covid-19 e pela crise global.

O Executivo estará disponível para financiar a participação do país nos torneios de qualificação?

Não posso responder pelo Executivo. Mas devo esclarecer que neste momento, para além da Diassonema, só temos qualificação ao nível do basquetebol, da qual já não podemos desistir, sob pena de sanções desportivas e financeiras pesadíssimas. Portanto, a nossa participação no Torneio Pré-Olímpico de basquetebol pode ser transformada numa oportunidade para iniciar uma nova era na Selecção Nacional, com impacto transversal do “modus vivendi” ao “modus faciendi”. Pode também constituir um dos ciclos do processo de preparação da equipa que atacará os próximos campeonatos africanos.

Face ao actual quadro da pandemia, vários economistas antevêem uma crise sem precedentes. Existe um plano B, caso haja um eventual corte da verba ou disponibilidade tardia?

É claro que existe. Temos mesmo planos C, D e criatividade para reagir a situações inéditas e nos adaptarmos a realidades inesperadas, sem deixar de cumprir o nosso papel e atingir o principal objectivo, que é estar presente nos Jogos e ouvir o hino nacional a tocar e ver a bandeira de Angola a subir, na cerimónia de entrada da nossa delegação na Vila, estar no desfile das nações participantes e competir com dignidade e competência com as modalidades que for possível suportar financeiramente.

Quais são as probabilidades de Angola aumentar o número de equipas em Tóquio?

Há muito que se fala no incremento das modalidades individuais. Nenhumas. Angola já não tem possibilidades de aumentar o número de equipas. Com Tóquio confirmamos a queda que iniciou no Rio de Janeiro. Menor número de modalidades e de atletas. É um indicador que os envolvidos no desporto nacional devem levar em conta, quando analisarem o gráfico do desenvolvimento desportivo. Para aumentar aqueles números, temos de trabalhar arduamente nas modalidades, durante os três primeiros anos da olimpíada, no quadro de um macro plano de desenvolvimento desportivo, metodologicamente estruturado e financeiramente apoiado.

A olhar para o volume dos investimentos feitos no desporto, faz sentido afirmar que Angola procura com tostões alcançar resultados de milhões?

O resultado desportivo não depende de “milhões”. Por vezes pode-se ter milhões e não obter resultado desportivo. É certo que o resultado desportivo precisa de investimento, mas precisa muito mais de conhecimento científico, de foco, de planeamento, rigor e comprometimento. Não se pode confundir investimento no desporto com aposta em infra-estruturas desportivas para algumas modalidades. Nem pensar que investimento no desporto se esgota nos limites da actividade desportiva federada. O investimento deveria seguir uma estratégia de desenvolvimento que estimulasse o crescimento do número de praticantes, de modalidades e a competitividade entre si.

O andebol feminino tem estado a bater à porta da elite do andebol mundial. Acredita na possibilidade de vir daí uma medalha olímpica?

Acredito nessa possibilidade. Reconheço enorme potencial no andebol feminino e lamento o facto de não conseguirmos contribuir mais para que essa Selecção possa ter todas as condições (particularmente as financeiras), no sentido de materializar os ciclos de preparação necessários ao desafio de chegar às medalhas.

Como vê o facto de o país investir pouco em equipamentos desportivos?

Com mais de 20 milhões de habitantes, apenas se conhece a piscina de Alvalade. O atletismo não tem um “tartan”.

Reflecte o valor e a importância do desporto e o seu lugar no leque de prioridades que o país tem.

Vocês apostam de igual modo em todas as modalidades ou privilegiam aquelas com mais possibilidades de medalhar?

O COA tem que trabalhar nas duas direcções e para o benefício de todos os seus membros, sem qualquer distinção. Apostamos na horizontal, em todas as modalidades, e na vertical, naquelas que provam ter mais capacidade para chegar à vitória desportiva.

Em Fevereiro o COA avançou a possibilidade de deixar de fora a Selecção de andebol, por causa do orçamento da prova. Cem milhões de kwanzas.

Ainda não sei. Vamos ver o que diz o futuro e a revisão orçamental. O que sei é o que disse em Fevereiro e mantenho. Por exemplo, num cenário dramaticamente drástico de só ter dinheiro para seis pessoas não consigo levar 20.

Como o COA pretende resolver essa questão?

Na perspectiva de diminuição de custos, já temos uma base no Japão, fruto de negociações com a prefeitura da cidade de Tamana, com quem assinámos um acordo para a missão fazer a climatização.

A falta de um Centro de Alto Rendimento (CAR) impede o salto do país para a conquista da excelência no desporto?

Pode não impedir, mas condiciona bastante. Mas o CAR isolado também não será solução mágica para o salto a que se refere. Medidas avulsas não ajudam e podem revelar-se desastrosas, mais cedo ou mais tarde. Como há outras coisas que também condicionam, a diferentes níveis, era preciso buscarmos soluções integradas que atacassem os focos de estrangulamento, para garantir que possamos atingir os objectivos pretendidos.

O que irá o Comité Olímpico fazer para que em Angola, a exemplo das grandes potências desportivas, o desporto escolar se configure como suporte do Alto Rendimento?

Os grandes campeões, os que se impõem ao nível global, suscitam valores incomensuráveis na sociedade. Honram a cidadania. Por isso todos os países do mundo se preocupam com isso. Hoje, descobrimos e construímos os nossos campeões a partir do desporto federado, isto é, do trabalho nos poucos clubes que o país tem e (algumas “academias”). Quer dizer que, no geral, os nossos campeões só se submetem ao rigor da regra desportiva, técnica, metodológica e disciplinarmente falando, a partir dos Sub-14. E o número dos que se submetem é restrito, porque a oferta é limitada. Se tentássemos descobrir os nossos campeões a partir da escola, através das aulas de Educação Física e do Desporto Escolar, por professores bem formados e metodologicamente orientados, no quadro de um programa nacional de preparação física e desportiva, poderíamos começar a detectar a partir dos seis anos, ganhando oito anos de prática dos gestos técnicos e das habilidades motoras. Alargaríamos substancialmente o número de crianças integradas, criaríamos condições para descobrir mais campeões, teríamos uma população mais longe do sedentarismo e do risco de obesidade, mais comprometida com o movimento e por isso mais saudável. Portanto, o COA vai continuar a alertar à sociedade e aos poderes públicos, para a necessidade de mudança de paradigma e para o devido reconhecimento da importância da aula de Educação Física em todos os níveis de ensino, assim como do Desporto Escolar e do Desporto Universitário.

Numa perspectiva menos optimista em termos financeiros, no pós Covid-19, o COA não equaciona a redução do número de modalidades a beneficiar de apoio do Estado, até para garantir alguma qualidade na preparação das disciplinas mais representativas?

Se estamos a falar de pessimismo em termos financeiros então o problema é financeiro. Não é nem associativo nem desportivo. Então a solução deve ser financeira. Por isso, se o dinheiro é pouco, ao invés de se limitar o número de modalidades, deve-se aproveitar introduzir maior transparência na sua utilização, maior capacidade de remanejamento entre os itens orçamentais, revisão dos programas de apoio ao desenvolvimento e redefinição de níveis de acesso a verbas deixando este exercício de ser meramente administrativo e passar a ser baseado em critérios de crescimento, de desenvolvimento e de competitividade.

Como está a ser tratada a questão dos prémios dos Jogos de 2016?

Há um reconhecimento da dívida e há vontade para resolver. Mas a solução está a chegar a passo de cágado. Gostaria que esse problema fosse resolvido antes dos Jogos de Tóquio.

A acumulação do cargo da liderança do COA com responsabilidades federativas não cria embaraços?

Cria. Particularmente embaraços a nível pessoal. É uma experiência que já vivi, por vontade própria, por ganhar eleições nos dois organismos (FAB e COA). Hoje, faço esse exercício pelas circunstâncias particulares da modalidade e pelo convite dos associados. Também é preciso desmistificar essa dupla responsabilidade, não só pela complementaridade das actividades, mas também porque o COA é fundamentalmente uma emanação das federações, por isso, o seu presidente será sempre alguém das federações ou com forte apoio destas.

Será candidato à renovação do mandato?

Ainda é cedo para tomar estas decisões. Estou preocupado em cumprir as promessas eleitorais feitas no início deste mandato e perceber as vicissitudes dos processos eleitorais que antecedem ao do COA, nos clubes, associações e federações, num contexto pós Covid-19.

Pelo capital acumulado dos anos de gestão desportiva, aceitaria, caso um dia fosse convidado, ser ministro dos Desportos?

Não sei. Sei que um tal convite muito me honraria e que esta seria uma decisão muito importante da minha vida. E essas foram sempre tomadas da mesma forma. Depois da avaliação do desafio, da reflexão sobre o meu potencial para o abarcar e depois de ouvir opiniões de pessoas que me são próximas e queridas (família e amigos). Portanto, se fosse convidado, seguiria esses passos e tomava uma decisão.


Perfil

Nome Completo:

Gustavo Dias Vaz da Conceição

Data de nascimento:

8 de Março de 1957

Profissão:

Sociólogo, Professor Universitário

Filhos:

Sete

Estado Civil:

Casado

Currículo académico:

Licenciatura em Sociologia e Gestão Desportiva, Mestrado em Direcção e Enquadramento de Estruturas e Organismos Desportivos

Percurso da carreira desportiva:

(clube e selecção nacional) Clube Atlético de Luanda, Benfica de Luanda, TAAG e 1º de Agosto

O que gosta de fazer nos tempos livres?

Ler, conversar e descobrir

Equipa:

Los Angeles Lakers (NBA)

Jogador preferido:

Lew Alcindor (Kareem Abdul Jabbar)

Modalidade:

Basquetebol

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