Entrevista

Índia abre linhas de crédito

Edna Dala

O embaixador da Índia, Debraj Pradhan, está em Angola há um ano. Já se sente familiarizado com os angolanos e está empenhado em identificar novas áreas para a cooperação económica e comercial entre os dois países.

Chefe da missão diplomática da Índia
Fotografia: D. Bernardo

 Em entrevista ao Jornal de Angola, o diplomata afirma que existem linhas de crédito por aproveitar e revela que há produtos farmacêuticos na Índia que permitem a Angola fabricar genéricos. 
 


Jornal de Angola - Como avalia a cooperação com Angola?

Debraj Pradhan
- A cooperação é mais forte na economia, comércio e na área política. As nossas relações existem desde a independência de Angola. Em 1986, o então Primeiro-Ministro da Índia, Rajiv Ghandi, esteve em Angola e o Presidente José Eduardo dos Santos esteve na Índia, em Abril de 1997. Desde então, os dois países trocaram delegações ao mais alto nível, como os ministros das Relações Exteriores e dos Petróleos. Houve também visitas de missões empresariais dos dois países.

JA - Há acordos assinados?

DP
- Os dois países estão agora a trabalhar para concluir alguns acordos e memorandos de entendimento. Estamos a trabalhar em documentos para o reforço da cooperação e num acordo de protecção recíproca dos investimentos. Tenho a certeza de que a conclusão destes documentos vai contribuir para impulsionar ainda mais as relações entre os nossos dois países.

JA - Como está o comércio entre os dois países?

DP
- O comércio entre os dois países evoluiu muito nos últimos anos. Houve trocas de missões comerciais entre os dois países. Entre 2009 e 2010, as trocas comerciais entre os dois países situaram-se em 4,8 mil milhões de dólares. Entre 2011 e 2012, este número atingiu os sete mil milhões de dólares. A Índia tornou-se no segundo maior parceiro comercial de Angola e responde por 10,6 por cento das exportações de Angola. Este é o segundo maior fornecedor africano de crude para a Índia, depois da Nigéria.

JA - Que acções existem para ampliar esta cooperação?

DP
- A nossa cooperação com Angola é estratégica, principalmente no desenvolvimento de parcerias. Entre Abril do ano passado e Fevereiro deste ano, importamos 155 mil milhões de dólares de petróleo. Deste valor, Angola foi responsável por seis mil milhões de dólares. Isso representa quase cinco por cento das nossas importações de crude no mundo.

JA - Existem outras áreas além do petróleo?

DP -
Além do petróleo, estamos apostados na cooperação no sector do gás. Somos um potencial comprador. Também participamos no projecto Angola LNG, onde estão 1.500 técnicos indianos. Temos mil milhões de habitantes e a nossa economia está a crescer de uma forma muito rápida. Por isso, precisamos de muito petróleo e gás para uso doméstico e industrial.

JA - Em que outras áreas há investimentos indianos?

DP
- Há linhas de crédito disponibilizadas pelo Governo indiano para impulsionar o desenvolvimento de Angola, nos caminhos-de-ferro e no sector industrial. ­Actualmente duas linhas de crédito estão activas para o desenvolvimento da indústria local, como para a produção de algodão, em Malange, e o fornecimento de tractores.

JA -Existem investimentos privados indianos em Angola?

DP
- De momento não temos ainda investimentos específicos no sector industrial, mas temos 1.300 especialistas indianos a trabalhar no projecto de cimento, no Sumbe. Penso que é apenas uma amostra da nossa contribuição para a indústria angolana. Queremos envolver-nos mais. Estamos a encorajar os empresários indianos a investirem em Angola.

JA - Existem áreas preferenciais para investimentos?

DP
- Estamos a avaliar as possibilidades de investimento no sector mineiro. Temos uma vasta experiência na recolha de dados geológicos e mineiros e a nossa indústria de joalharira é rica. Vamos convidar o ministro da Geologia e Minas de Angola para visitar a Índia. Sabemos que Angola é o quarto maior fornecedor de diamantes brutos e a Índia está no topo da indústria de joalharia. Podemos fazer boas parcerias. Actualmente, mais de 90 por cento dos diamantes lapidados utilizados na indústria de joalharia provêm da Índia.

JA - Já existem contactos?

DP
- Participamos numa conferência promovida pela Endiama sobre o centenário do diamante em Angola e discutimos as possibilidades de cooperação na área dos diamantes. Olhamos com interesse para os diamantes e, também para o ouro. A Índia exportou seis mil milhões de dólares em ouro, fora a área de joalharia, que também tem ouro, diamantes e outros metais preciosos. No conjunto, as exportações perfazem mais de 43 mil milhões de dólares. Aqui também vemos uma janela para cooperação nos diamantes, ouro e outros metais preciosos que existem em Angola.

JA - Que outras áreas  interessam aos empresários indianos?

DP
- Estamos a expandir os negócios em todas as áreas. No mês passado recebemos em Luanda empresários indianos interessados na área do Turismo, na indústria hoteleira, agricultura, construção civil, e outras áreas.

JA - E na área da indústria?

DP
- A nossa indústria é muito desenvolvida. Podemos cooperar com as pequenas e médias empresas, que representam 40 por cento da facturação industrial. Elas são as principais fornecedoras das grandes indústrias. Produzem, geram capital e criam empregos. São estas indústrias que queremos ver em Angola. Temos também a indústria cinematográfica e de entretenimento. Estamos a programar uma Semana do Cinema Indiano, com instituições angolanas, para mostrar a cultura dos dois países.

JA - E na área da educação?

DP - Podemos também cooperar na educação. A índia produz milhares de engenheiros todos os anos. Estamos entre os maiores fornecedores de pesquisadores e talentos no mundo. São académicos e professores e outros profissionais das áreas do saber. Temos especialistas indianos em todo o mundo. Temos um grande número de professores a ensinar inglês, matemática e outras disciplinas aqui em África. Temos engenheiros angolanos em formação na Índia, como bolseiros da Sonangol. Num ano, o número de vistos de estudantes passou de 226 para 485.

JA – Existe algum projecto na área da saúde?

DP - É uma excelente área para cooperação. A Índia é um dos maiores produtores de medicamentos genéricos do mundo. Produzimos grandes quantidades, com boa qualidade e a preços baixos. Em muitas farmácias podemos encontrar medicamentos da Índia. Os angolanos podem importar produtos para produzir em Angola os medicamentos genéricos. É isso que a Índia faz com as grandes companhias. Isso contribui para o combate às doenças.

JA - A cooperação passa pelo fornecimento de tecnologia?

DP - Exactamente. Fornecemos alta tecnologia, mas a preço baixos. Temos bons hospitais públicos e privados e bons médicos. Existem doenças como a malária ou a dengue e podemos colaborar no fornecimento de medicamentos e equipas médicas para estes casos. Temos médicos indianos na área oncológica na Clínica Girassol. Trata-se de uma área de alta tecnologia. Sabemos que a língua ainda é um impedimento, porque em Angola trabalham médicos de Portugal, Brasil, Cuba, mas também médicos indianos.

JA - Angola pode contar com a Índia para se fazer ouvir nos BRICS?

DP - Tivemos uma reunião dos BRICS na África do Sul e discutimos o estabelecimento de projectos em África, incluindo Angola. Ouvimos também o ministro Georges Chikoti a anunciar que Angola vai trabalhar com os BRICS. Há um grande interesse da parte angolana para colaborar com os BRICS.

JA - Este é também o sentimento da Índia?

DP - A Índia está muito empenhada no reforço da cooperação com os países africanos. Temos um fórum Índia-África, como existe o Japão-África ou China-África. O fórum é realizado alternadamente em África e na Índia, com a participação dos Chefes de Estado e de Governo dos países integrantes.

JA - Estes projectos estão em curso em Angola?

DP
- Neste momento, estamos a ponderar dois projectos para Angola: um sobre ligações de internet e outro de processamento e transformação de alimentos. O primeiro é um programa por via satélite com três elementos. Uma linha de comunicação entre líderes africanos e a Índia, na qual podem trocar pontos de vista sobre determinados assuntos. O segundo elemento é de tele-medicina.

JA - Como vai funcionar?

DP
- Através de vídeo conferência, os médicos angolanos podem observar, conversar e trocar ideias sobre casos específicos com os colegas indianos. Os médicos indianos podem acompanhar os especialistas angolanos em cirurgias complexas, como transplantes de órgãos. O outro elemento é a educação à distância, para a graduação de estudantes angolanos ou participação em programas educativos, principalmente na área científica.

JA - Que políticas a Índia tem para o desenvolvimento?

DP
- O nosso Governo está comprometido com o desenvolvimento e a justiça social. Estamos fortemente apostados na educação e nas questões sociais. O crescimento económico indiano está na ordem dos seis por cento. As previsões do Governo apontam para uma taxa de oito por cento ao ano. Tal como Angola, a Índia é uma democracia multipartidária. Temos vários partidos e a oposição tem o seu espaço.

JA - O que está a ser feito para atrair investimentos? 

DP
- Estamos a aplicar vários programas de incentivos para atrair investimentos em áreas específicas. Fruto destas medidas, a economia está a crescer fortemente, principalmente nas Parcerias Público Privadas (PPP). Estamos entre os países avançados, a par da China, EUA, Japão e Brasil. Apesar de termos começado tarde, estamos entre os dez países mais industrializados do mundo. Todo este progresso se deve à visão do Governo da Índia, principalmente por ter focado a sua acção no desenvolvimento das pessoas.

JA - Que políticas existem para combater a pobreza?

DP -
Ouvi o Presidente José Eduardo dos Santos falar de aposta na educação, na saúde, na justiça social, no desenvolvimento dos recursos humanos. É muito importante ouvir isso. Os nossos líderes apontam como prioridade o combate à pobreza. Porque também temos uma grande parte da população a viver em áreas rurais, aproximadamente 70 por cento, qualquer coisa como 750 milhões de pessoas. São necessários programas específicos, elaborados por diferentes ministérios, como Agricultura, Pescas, Desenvolvimento Rural, Indústria. Mas o grande foco é a educação, porque permite criar massa crítica e oportunidades de emprego.

JA - Qual a importância das novas tecnologias no desenvolvimento da Índia?

DP
- O Governo indiano investe muitos recursos no desenvolvimento tecnológico. Desde a independência que a Índia se começou a preocupar com as tecnologias. Desde 1947, seguimos uma política de industrialização. Desenvolvemos o programa espacial, energia nuclear, energias renováveis, electrificação e tecnologias de informação, sem esquecer as telecomunicações, que é outra área que cresceu muito. A área da Comunicação Social também. Hoje vemos uma Comunicação Social activa. Temos na Índia um Instituto de Comunicação Social, que pode ajudar na formação técnica, caso Angola manifeste interesse.

JA - Qual o lugar que Angola ocupa no intercâmbio económico e comercial da Índia com África?
 
DP
- Angola é muito importante para a Índia e a cooperação sobretudo no sector da energia. Depois da Nigéria, Angola é um dos principais fornecedores de petróleo à Índia. Estamos ao mesmo tempo a procura de mecanismos de transformar Angola no maior parceiro comercial da Índia, depois da China. Em breve pretendemos cooperar no sector do gás, mas também explorar a cooperação no domínio das minas, construção de habitações, abastecimento de água e saúde. E no domínio do ensino da língua inglesa para os angolanos e da língua portuguesa para os indianos.

JA - Angola pode contribuir para a expansão e consolidação dos negócios em África?

DP -
A índia está em vários países africanos. A nossa cooperação tem bases sólidas. Queremos garantir que quanto mais presentes estivermos em várias actividades, maiores são as oportunidades de expandir os negócios. Recentemente tivemos um encontro com a Câmara de Comércio de Angola e mantemos encontros para nos familiarizarmos com os homens de negócios de Angola e explorar áreas onde podemos investir. Estamos interessados na construção de hotéis em Luanda e em outros pontos do país para promover os negócios, principalmente o turismo.

JA - A Índia tem empresas privadas a trabalhar em Angola?

DP
- Temos poucas empresas. Trabalham na produção de uniformes militares e produção de cimento e no sector petrolífero, mas precisamos de empresários que venham trabalhar em Angola, estamos a concluir acordos de cooperação particularmente para a criação de uma comissão mista e um acordo geral de cooperação cujo objectivo é identificar novas áreas e estimular a cooperação em outras áreas.

JA - Quais são as prioridades do embaixador?

DP
- Trabalho em Angola há um ano e já me sinto familiarizado com o país. A minha principal missão é finalizar acordos de cooperação que já temos, o entendimento para cooperação em todas as áreas particularmente na agricultura, na educação, e queremos acelerar a cooperação no domínio da produção de petróleo e gás, onde já temos um memorando de entendimento. Queremos apoiar a formação, na Índia, de quadros angolanos e oferecer bolsas em universidades indianas.

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