Entrevista

Instituição é líder em Portugal no turismo social

Adalberto Ceita

Ribeiro Mendes é o presidente do Instituto Nacional de Aproveitamento dos Tempos Livres (INATEL) em Portugal. Está de visita ao nosso país e em entrevista exclusiva ao nosso jornal disse que pretende expandir para Angola o seu leque de serviços turísticos.

Ribeiro Mendes considera que o mercado turístico angolano tem grande futuro
Fotografia: Jornal de Angola

Com um historial com mais de 78 anos em actividades turísticas e de lazer, o objectivo do INATEL passa pela promoção do turismo social com recurso

Jornal de Angola - Como é que nasceu o INATEL?

Ribeiro Mendes - A instituição nasceu ligada à vida dos sindicatos portugueses, com o propósito de tornar acessível à grande massa de trabalhadores, a ocupação dos tempos livres. Tradicionalmente, essas actividades só eram acessíveis às pessoas com grande poder de compra. Desde então, a acção do INATEL tem permitido que milhares de portugueses possam também ter acesso ao lazer através das viagens turísticas. A nossa fundação é pública e possui em várias regiões de Portugal uma rede de 17 unidades hoteleiras de três e quatro estrelas, equipamentos desportivos nas principais cidades, parques de jogos e pavilhões para actividades desportivas.

JA - Como se mantém um nível aceitável de serviços na rede de equipamentos?

RM - Em primeiro lugar está a diferenciação. Hoje, os consumidores de turismo e lazer são cada vez mais exigentes, têm muito mais informação. Sabem o que se passa a cada minuto no mundo, através dos meios de comunicação social e da Internet. Para obtermos sucesso temos que comprovar que os serviços que prestamos são diferentes e interessantes. Em segundo lugar, procuramos atender às dificuldades económicas do consumidor e propor serviços que sejam acessíveis do ponto de vista monetário. É óbvio que o mercado oferece serviços muito caros que interessam a segmentos muito restritos e essa não é a vocação da nossa fundação. Há espaços para todos e isso não esgota o mercado pois cada vez mais cresce o grupo de pessoas que quer beneficiar de propostas acessíveis e que satisfaçam um equilíbrio de vida.

JA - Quantos funcionários tem o INATEL?


RM - Empregamos mil funcionários, desde recepcionistas, tratadores dos quartos, guias turísticos, organizadores e programadores de viagens, promotores culturais e monitores de formação desportiva. São pessoas que desenvolvem esses serviços e trabalham directamente para nós. Além de proporcionarmos esses serviços, temos uma relação privilegiada com as pessoas que se tornam associadas, desde que para o feito paguem a sua quota anual.

JA - Que tipo de parcerias o INATEL sugere a Angola?

RM - Apesar da minha deslocação a Angola não ser de âmbito oficial, temos vindo a estabelecer contactos com as autoridades angolanas. Há alguns meses tivemos a oportunidade de receber na cidade de Lisboa o senhor ministro angolano da Assistência e Reinserção Social, João Baptista Kussumua, que tomou conhecimento da nossa actividade e o mesmo tem acontecido com outros responsáveis ligados ao sector do turismo em Angola. Fruto disto, fomos convidados e já confirmámos a nossa participação na Feira Internacional do Turismo que a cidade de Luanda acolhe no próximo mês de Outubro do ano em curso.

JA - O que pode dar o INATEL à feira do turismo?


RM - Não somos um operador turístico igual aos outros, porque incidimos a nossa actividade em sectores da população com mais dificuldades de aceder a actividades de turismo, lazer, desporto e cultura. Pelos contactos que temos vindo a estabelecer e caso se concretize a intenção das autoridades angolanas em facilitar essa possibilidade, estou convencido de que há oportunidade para a que população angolana com menos recursos possa fazer o que denominamos de turismo social.

JA - Quais são as particularidades do turismo social?


RM - A nossa fundação tem uma experiência interessante, o turismo sénior, que é dirigido à população com mais de 70 anos. É claro que Portugal tem uma população envelhecida ao contrário de Angola, que tem uma população jovem. Mas também há idosos em Angola e sinto que existe um grande interesse das autoridades angolanas em relação a essa experiência. É um turismo que se caracteriza por ser mais acessível, é subsidiado pelo Estado e além da vertente do lazer promove culturalmente as pessoas em excursões que podem ser de uma semana.

JA - Por norma quantos turistas compõem as excursões?


RM - Normalmente, os grupos têm 45 a 50 turistas, que envolvemos em programas construídos em função dos interesses do próprio grupo.

JA - Em função da realidade angolana qual o estrato social que tem interesse em apostar?


RM -
A população deficiente, devido à sua mobilidade reduzida, faz parte de uma linha de actuação com a qual trabalhamos. É o que chamamos de turismo para todos, numa vertente específica: “abrir as portas à diferença”. Não somos todos iguais e existem pessoas com necessidades especiais porque não conseguem subir as escadas, escutar uma explicação do guia ou ver. Para essas pessoas elaboramos programas que ajudam a usufruir do lazer e da actividade de tempos livres de uma forma adaptada à sua necessidade especial. Todas estas experiências podem ser interessantes para o incremento do turismo em Angola.

JA - Que apreciação faz do mercado turístico angolano?


RM
– Conheço apenas a cidade de Luanda, mas é um mercado nascente, emergente e ainda difícil por causa dos custos de acomodação. Mas começa a haver um tratamento muito cuidadoso do património cultural do país, que é riquíssimo, e isto conforma pontos de interesses para atrair turistas. É preciso ter uma perspectiva de médio e longo prazo. Estou convencido de que os caminhos do desenvolvimento deste país vão abrir possibilidades a mais segmentos da população angolana, de aceder aos meios turísticos e também tornar mais acessível a entrada e o acolhimento de turistas estrangeiros.

JA - Que experiência o INATEL pode transmitir a nível da formação profissional?

RM - Temos uma grande tradição na hotelaria, que eventualmente pode servir no plano da colaboração na área específica em que actuamos. Estamos em condições de auxiliar no plano de formação a quem esteja interessado e queira desenvolver ou intervir no turismo social.

JA - O que mais se pode dizer quanto ao turismo social?


RM – É preciso chamar à atenção para um aspecto que resulta da nossa experiência. Muitas vezes as actividades ligadas aos tempos livres, lazer e em particular ao turismo são vistas como actividades agradáveis, mas que não são importantes e fundamentais. A nossa experiência mostra o contrário: essas actividades são fundamentais para o desenvolvimento da personalidade de cada um de nós. Se não tivemos a oportunidade de conhecer outros povos e culturas, ficamos cada vez mais pobres. Para uma cidadania plena, o turismo é fundamental e o turismo social é a resposta para o conjunto das populações, quenão podem aceder a pacotes turísticos com preços elevados.

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