Entrevista

Internacionalizar o negócio

Fula Martins |

A criação da Comunidade de Empresas Exportadoras e Internacionalizadas de Angola faz parte da estratégia do Executivo para desenvolver negócios além fronteiras, com o objectivo de levar o “Feito em Angola” a todo o mundo, uma forma de valorizar os produtos nacionais.

Agostinho Kapaia anunciou que a prioridade passa entre outros pelos mercados da SADC
Fotografia: Paulo Mulaza

Agostinho Kapaia lidera o grupo empresarial Opaia e é o primeiro responsável da instituição. Formado em economia e pós graduado em gestão de empresas pela universidade Nova de Lisboa, Agostinho Kapaia revelou em entrevista ao Jornal de Angola as apostas da Comunidade de Empresas Exportadoras e Internacionalizadas de Angola.

Jornal de Angola - A Comunidade de Empresas Exportadores e Internacionalizadas de Angola foi criada há quatro meses. Qual a razão da sua existência?

Agostinho Kapaia
- A associação nasce da vontade de várias empresas, empresários e profissionais do sector privado, de alargar o número de empresas angolanas exportadoras de produtos e serviços para os mercados internacionais. Queremos apoiar as empresas que já se internacionalizaram e aumentar as oportunidades daqueles que o pretende fazer. O objectivo é criar condições para levar a bandeira ‘Feito em Angola’ além fronteiras.

JA - Quantos associados já tem a instituição?


A K
- Neste momento a associação conta com 19 empresas fundadoras. A Angonabeiro, BIC, Banco Privado Atlântico, Comfabril, Gesteflora, Grupo Bartolomeu Dias, Grupo Bongani, Grupo Opaia, Lamilon, Macon Transportes, Miracel, Organizações José Veríssimo, Pomobel, Refriango, Taritábua, Vidrul, Visamar, World Wide Internacional e o Instituto do Fomento Empresarial.

JA
- Grandes empresas como a Sonangol, a TAAG e a Endiama estão fora, porquê?

AK
- Estamos a negociar com essas empresas porque são as bandeiras angolanas que vão impulsionar esta comunidade. Estamos à espera que processos burocráticos sejam resolvidos. Estão em fase de adesão mais seis membros que consideramos importantes: Sonangol, TAAG, Endiama, Banco BAI, Banco BPC e o Grupo Chicoil. São empresas que dignificam o país e representam a nossa capacidade empresarial. Temos membros dos diversos sectores desde a banca aos transportes, logística, construção, agricultura, indústria vidreira, cafés e ambiente.

JA - Quais os requisitos para ser membro da associação empresarial?


AK
- Para pertencer à Comunidade de Empresas Exportadores e Internacionalizadas de Angola é preciso ser exportadora ou estar internacionalizada ou ainda ter a pretensão de o ser. São os requisitos normais de qualquer processo de ingresso numa associação.

JA - A associação é do sector privado ou estatal?


AK
- As empresas que fazem parte dos membros fundadores pertencem ao sector público e ao sector privado. O lançamento desta associação contou com o apoio do Instituto do Fomento Empresarial, tutelado pelo Ministério da Economia.

JA - O Estado incentivou e os privados concretizaram?


AK
- Sim cabe aos privados concretizar os objectivos que levaram à criação desta associação empresarial. O Estado serve para regular e impulsionar mas o sucesso final destes projectos não pode estar dependente do Estado. Qualquer organização que se lance no mercado deve contar primeiro com os seus recursos humanos e financeiros e só depois com os apoios do Estado.

JA - Quais são os apoios ou ajudas que espera obter das entidades estatais?


AK
- Temos o apoio financeiro do Instituto de Fomento Empresarial. É fundamental que as Embaixadas de Angola ajudem as empresas angolanas a estabelecerem-se lá fora. A rede de embaixadas existentes tem a missão de facilitar as relações bilaterais entre os países.

JA - As embaixadas de Angola no mundo têm capacidade para fazer diplomacia económica?


AK
- Os nossos diplomatas estão altamente capacitados para promover e defender os interesses económicos de Angola. O reforço dos laços políticos e económicos tem sido muito bem conduzido pelos nossos representantes lá fora, que são vistos como um primeiro elo de ligação para quem quer investir no estrangeiro. Os diplomatas angolanos têm desempenhado muito bem essa função.

JA - A associação trabalha com associação Industrial de Angola?


AK
- A Associação Industrial de Angola e a nossa associação têm focos de acção distintos. A AIA canaliza os seus esforços para apoiar as empresas localmente e a Comunidade de Empresas Exportadores e Internacionalizadas de Angola pretende ajudar as empresas a internacionalizarem-se. Mas isso não impede uma cooperação entre as duas organizações. Mas para já não temos nada planeado.

JA Quanto valem actualmente as exportações angolanas e quais são principais países para onde Angola exporta?


AK
- As exportações representam um valor de cerca de 66 mil milhões de dólares. Sendo o petróleo continua a dominar as exportações do país representa cerca de 95 por cento das exportações e é sobretudo destinados a china, Estados Unidos e Índia. No entanto, isto é uma tendência que naturalmente vai alterar a medida que as empresas angolanas se solidificam e dão provas da sua capacidade de produzir bens e serviços suficientemente bons para se internacionalizarem.

JA - Normalmente as empresas exportadas são confrontadas com o problema de financiamentos. A banca está a par das necessidades desses empresários?


AK
- É preciso entender que o sector bancário angolano está num processo de evolução e amadurecimento. Os bancos têm sido parte fundamental na reestruturação económica do país, que foi um sucesso. Agora é altura da banca acompanhar a vontade das empresas de se internacionalizarem. Os financiamentos devem ser canalizados para os sectores produtivos da economia angolana em condições favoráveis, prazos de pagamento longos e flexíveis e taxas de juro baixas.

JA - A ajuda que a banca pode dar passa exclusivamente pelo financiamento ou existem outros incentivos?


AK
- O apoio da banca pode não passar exclusivamente pelo apoio financeiro. A experiência internacional de alguns bancos angolanos permite apoiar as empresas através de conferências e seminários sobre legislação e temas relacionados com o comércio internacional.

JA - Tem identificadas as maiores dificuldades com que as exportações angolanas se debatem?


AK
- Os entraves podem ser muitos e de diferente natureza, desde exigências de certificação a taxa aduaneiras ou factores cambiais. Existem muitos factores limitativos e que podem fazer resfriar a intenção de uma empresa se expandir para fora do país.

JA - Já estão identificados os mercados das exportações?


AK
- Vamos dar prioridade aos mercados da SADC, resto de África, América Latina, Europa e Ásia.

JA - O espaço lusófono é prioritário para as exportações angolanas?


AK
- Sem duvida que pode ser um ponto de partida para as empresas, uma vez que não se coloca um grande problema, que é a língua. Mas não nos podemos limitar somente a este mercados. A escolha de um mercado tem de ser feita com base nos objectivos da empresa e não por causa da facilidade da língua.

JA - A estratégia de internacionalização passa pela aquisição de empresas no estrangeiro?


AK
- É um caminho viável adquirir negócios já estabelecidos, porque o risco é menor. No entanto, o volume de investimento pode ser maior porque estamos a adquirir um modelo de negócio com sucesso.

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