Entrevista

Intervenção do Chefe de Estado foi determinante

Gabriel Bunga |

Professor Doutor Ndonga Mfwa fala do angolano Emmanuel Esteves, autor da frase “Mbanza Kongo, cidade a desenterrar para preservar” e do processo que terminou com o reconhecimento do local como Património da Humanidade.

Fotografia: Contreiras Pipa|Edições Novembro

Como é que tudo começou para que Mbanza Congo fosse elevada a Património da Humanidade pela UNESCO?
Tudo começou com uma proposta feita pelo Professor Doutor Emanuel Esteves, enquanto docente na Faculdade de Letras e Ciências Sociais. Fez um trabalho na Universidade do Porto sobre o passado do Reino do Congo, então a ideia lhe veio para poder desenterrar essa vila de Mbanza Congo, esquecida hoje, mas que era uma cidade muito grande no passado, muito brilhante pela história devido ao facto da chegada dos portugueses. Essa vila já se encontrava num estado de organização muito avançado e reinava uma monarquia bem organizada que poderia ter um território muito grande que muitos países da Europa.

Quem é o Dr. Emmanuel Esteves?

O Dr. Emmanuel Esteves era um funcionário do Ministério da Cultura e foi estudar na Universidade do Porto, em Portugal. Depois de terminar o seu Doutoramento chegou a fazer parte do Centro de Estudos Africanos daquela universidade. Na sua investigação sobre o Reino do Kongo, chegou à conclusão e fez esta proposta que se resume na frase “ Mbanza Kongo- cidade a desenterrar para preservar”. Esta frase é da autoria dele. É isto que funda todo projecto de inscrição de Mbanza Kongo na UNESCO. Nós estaríamos no ano de 2008, quando o Professor Emmanuel Esteves começou a pensar nisso. Fez uma proposta ao Ministério da Cultura, com apoio de outros investigadores da República Democrática do Congo, do Congo Brazzaville, que apoiaram a iniciativa e o Ministério da Cultura abraçou. A partir de aí organizou-se o primeiro encontro sobre o tema em Mbanza Kongo e nós fomos seguindo os passos. O Dr. Emmanuel Esteves é do Uíge. Nasceu no município do Bembe. Ele é falecido, se a memória não me falha, desde 2011. Era professor da Faculdade de Ciências Sociais no curso de História e Antropologia.

Quem era na altura, da apresentação da ideia ao Estado, o ministro da Cultura?

Na altura o Ministro da Cultura era Boaventura Cardoso. O vice-ministro era Virgílio Coelho e outro ministro da Cultura, se a memória não me falha, julgo que era André Mingas. É essa a equipa que deu um dinamismo muito grande para o desenvolvimento do projecto. Depois a ministra Rosa Cruz e Silva abraçou o projecto que hoje conseguimos este resultado.

Quais foram os passos seguintes após a aceitação da ideia pelas autoridades governamentais?

Primeiro tinha de se trabalhar no processo em si, redigir as razões que levaram a considerar Mbanza Congo como um sítio a ser protegido e inscrito na lista prestigiosa da UNESCO. Tínhamos que dar esta justificação. Nós tínhamos que dizer exactamente porque tinha de se valorizar, porque se não todos os espaços no mundo tinham de ser protegidos. Tínhamos de apresentar valor universal a Mbanza Kongo. Nós tivemos que comprovar que Mbanza Kongo não pertence apenas a Angola, ao Reino do Congo. Hoje Mbanza Kongo representa uma herança universal porque a história do Reino do Congo foi além das fronteiras de Angola. Muitos países latino americanos e incluindo Estados Unidos da América têm muitos sítios com nome do Reino do Congo, sem falar do Vaticano, em muitos países nós temos este reconhecimento. No Brasil a herança da cultura Congo é presente, em vários grupos religiosos.

Para além da extensão territorial do Reino do Congo, em Angola, Gabão, República Democrática do Congo e Congo Brazzaville, que outras amostras científicas apresentaram para justificar a elevação de Mbanza Kongo a património da Humanidade?
Do ponto de vista arqueológico nós tivemos que demonstrar que a arqueologia do sítio tinha um valor universal, nós tivemos que demonstrar que todo aquele património material e não só, mas também o património imaterial de Mbanza Kongo é actual até hoje. Demonstramos também que a própria organização de Mbanza Kongo hoje pode ser salvaguardada para manter este testemunho do passado, ao invés de nós destruirmos o que foi feito no passado. O propósito era que Angola propusesse à UNESCO a protecção desse sítio que já não pertence apenas ao nosso país ou a África, mas ao mundo.

Foram desenterrados vários documentos no Reino do Kongo. Em que língua eram escritos estes documentos?

Eram escritos em Português e alguns em Latim. Português antigo e outros em Espanhol. Todas as equipas que vinham para o Reino do Kongo, principalmente os missionários tinham uma certa iniciação em Latim de forma a facilitar-lhes a língua local. Na parte linguística nós concluímos que o Reino do Kongo contribui muito para o conhecimento das próprias línguas bantu. O Kikongo deu a primeira gramática de todas a línguas bantu existentes, deu os primeiros dicionários, deu praticamente todas as descrições tal como nós, hoje conhecemos, as descrições bantu. Deu uma grande contribuição. Penso que com este reconhecimento, muitos centros de investigação estarão dispostos a trabalhar connosco para poderem reorganizar os documentos antigos, que eram escritos em Espanhol e outros em Português antigo. Na zona de Cabinda os documentos eram escritos em francês, por causa da presença francesa.

Enquanto linguista, com a elevação de Mbanza Kongo a Património da Humanidade, haverá interesse do estudo da Língua nacional Kikongo por parte dos investigadores?
Interesse já há! Os primeiros linguistas que chegaram a África fizeram um trabalho enorme sobre a Língua Kikongo. Existem hoje trabalhos de referência, incluindo o meu, quando se trata do dialeto falado em Mbanza Kongo. Na altura na corte real, o Kixi Kongo, acho que nós vamos ter ainda mais interesse por parte de colegas em conhecer esta língua para poder fazer a primeira relação que existia entre o Kikongo e a língua latina e as línguas espanhola e  portuguesa. Portanto estes trabalhos todos poderão ser retomados para beneficiar o conhecimento actual.

O Doutor viveu fora do país e é professor de língua nacional Kikongo. Como são encaradas as línguas bantu nos grandes centros de estudos na diáspora?

Nós temos um grande centro de estudos de línguas bantu na Bélgica. Lá estuda-se o Kikongo e outras línguas. Temos na Inglaterra, a escola de estudos asiáticos e orientais. Temos em Paris várias escolas que ensinam a língua Kikongo. Temos nos Estados Unidos da América, grandes centros que se dedicam ao estudo do Kikongo, além de outras línguas. O Kikongo figura na lista das línguas escolhidas pelos americanos. Com esta elevação, vamos promover a imagem do Kikongo, tal como se conhece o Quissuaíli, é uma língua muito conhecida, porque também tem uma história muito rica por parte da Tanzânia e Zanzibar. O Kikongo vai merecer estudos aprofundados. Nós próprios aqui no país não vamos deixar passar esta oportunidade. Neste momento em que estamos a falar temos uma equipa que foi ao Kimbele.
Recebi a mensagem agora que já chegaram ao Kimbele, para aprofundarmos a parte do Kikongo em Angola. Saber que tipo de dialecto se falava e se fala nestas regiões. Pretendemos fazer estudos comparativos entre dialectos de Kimbele, da Damba, Maquela do Zombo, Bembe, Buengas etc. Estes trabalhos estão a ser sistematizados, com os nossos próprios esforços como linguista da Faculdade de Letras. Teremos oportunidade de trabalhar com outros colegas nacionais e estrangeiros, para aprofundarmos estes estudos, porque o Kikongo é uma língua de referência. Hoje não se pode falar das línguas bantu sem falar primeiro da língua Kikongo, porque é a que deu os primeiros dicionários e gramáticas. Até hoje continua a ser citado desde o século XVII. 

Que importância tem para os angolanos a elevação de Mbanza Kongo à Património da Humanidade?

Traz muitas coisas. Primeiro, do ponto de vista cultural é um ganho. Segundo, é reconhecimento. A cultura é um bem comercial. Nós podemos vender a nossa cultura e rentabilizá-la do ponto de vista económico. O reconhecimento de Mbanza Kongo como sítio internacional pela UNESCO vai trazer ganhos a nível da província do Zaire e do país. Os maiores louros são económicos porque nós teremos um fluxo de turistas para Angola, por causa da existência desse bem. Há turistas que vão ter esta informação na lista da UNESCO como um espaço da Humanidade em Angola e que estarão certamente interessados em visitar o nosso país por causa disso.

O que é que a UNESCO oferece aos Estados que têm sítios elevados a Património da Humanidade?

O que nós esperamos da UNESCO é principalmente a protecção do bem. Por exemplo, nós vimos na Síria, quando destruíram aqueles monumentos. A UNESCO e a Comunidade Internacional, reagiram pelo facto de ser um sítio classificado. Houve uma reacção oficial de protecção. Caso se verifique danificação do bem nós temos o direito de beneficiar dessa ajuda e de assistência para poder reconstruir e melhorar a sua protecção. Portanto, do ponto de vista da assistência internacional nós temos toda a legitimidade de poder justificar, por exemplo uma intervenção internacional monetária e económica. O facto de Mbanza Congo ser reconhecida pelas Nações Unidas dá-lhes direito de cobertura das despesas do projecto.

A elevação de Mbanza Kongo a Património da Humanidade é uma iniciativa académica. Que apelo gostaria de deixar para a juventude ligada à investigação científica?

Eu gostaria de convidar os jovens a serem bastante criativos. O projecto de Mbanza Kongo é fruto da criatividade de alguém, de uma pessoa. Imagina que ele aprendesse Antropologia na Universidade do Porto, sem ter a capacidade de criar, de promover um projecto, hoje nem sequer estaríamos a falar deste ganho para Angola. As novas gerações devem demonstrar uma certa criatividade. Nós temos a questão das línguas nacionais. Imagine que se nós não tivéssemos uma pessoa como Dr. Ndonga, que estudou fora e vem ao país com o projecto das línguas nacionais na academia e depois na sociedade... Portanto não teríamos o avanço que temos hoje no ensino das línguas nacionais. Então a Juventude não poder ser simplesmente repetitiva. A juventude tem que criar.

Qual é a parte do processo que mais vos chamou a atenção?

NM – A parte histórica foi a mais pesada, porque tivemos de investigar vários documentos desde a época colonial, as correspondências entre o Reino do Kongo e Roma, as correspondências entre o Reino do Kongo e as potências coloniais de Portugal, Itália, Bélgica e França. Essa foi a parte mais pesada, onde tivemos que discutir muito para clarificar questões de modo a não sermos criticados, porque a história não é apenas de Angola.

Técnicos angolanos trabalharam com especialistas estrangeiros

Quantos técnicos angolanos estiveram envolvidos neste processo?

Penso que éramos mais de 15 técnicos, integrados numa Comissão de redacção. Mas não são os únicos envolvidos. Há um trabalho de fundo que o Governo Provincial do Zaire teve que efectuar, com o Ministério da Cultura e as instâncias superiores do Estado. O Presidente da República, José Eduardo dos Santos, envolveu-se muito, na promoção de Mbanza Kongo como Património Nacional, primeiro, antes de ser elevada como património internacional. E do ponto de vista da diplomacia fez-se trabalho a nível dos PALOPs, que abraçaram o projecto. Os países amigos, vizinhos e quase todos os Estados africanos, influenciados pela diplomacia da República de Angola. Conseguiu-se deste modo,  ultrapassar certas dificuldades que nós tínhamos na apreciação do valor desse bem, convencendo inclusivé algumas potências ocidentais como França. Portugal também envolveu-se, e isto deu o resultado que temos hoje.

Que especialistas estiveram envolvidos no processo?
Participaram principalmente especialistas em Arqueologia, História, Línguas, Arquitetura e os técnicos de Antropologia. A Antropologia chegou a determinar a cultura daquele povo no passado, do ponto de vista histórico tivemos que justificar a organização política ou administrativa do Reino do Kongo.

Para além de especialistas angolanos, houve também a participação de estrangeiros na parte científica?
Exactamente. Nós tivemos a assistência da própria UNESCO através do Instituto do Património Cultural, que delegava os seus especialistas, peritos, para virem trabalhar connosco, porque eles conhecem as normas e sabem de que maneira um projecto dessa natureza deve ser preparado. Tivemos peritos vindos dos Camarões, Cabo Verde, da França, que tiveram que trabalhar connosco para dar alguns esclarecimentos sobre o projecto.

  Razões para a fundamentação da tese de elevação da antiga capital dos Reis do Kongo

Qual é a razão da fundamentação da tese em três documentos?
O primeiro documento denomina-se Proposta de Inscrição no Património da Humanidade, onde relatamos todas as razões para a elevação de Mbaza Kongo a Património da Humanidade. O segundo documento é onde nós comprovamos que Mbanza Kongo tem o suficiente para ser protegido e demonstramos os elementos do Centro Histórico a ser preservado. O terceiro documento é o Plano de Gestão, uma vez reconhecido o que é que será desse bem. Também não ficaria bem à UNESCO reconhecer um bem, que depois ficaria negligenciado.

Por que razão os três documentos estão escritos na Língua Francesa?
Porque o francês é uma das línguas de trabalho da UNESCO. Nós poderíamos escrever os documentos em língua portuguesa, só que o português não é uma língua de trabalho da UNESCO e como você sabe a própria sede da UNESCO está em Paris.

Qual será o próximo passo para que os angolanos tenham acesso a estes documentos históricos sobre a antiga capital do Reino do Kongo?
A nossa proposta será, a nível do Ministério da Cultura, traduzir esta documentação toda. A documentação pode ser distribuída em francês, mas poucos angolanos terão acesso à informação que consta nos documentos.

Que propostas concretas têm estado a ser preparadas para permitir um maior acesso de todos as informações sobre Mbanza Kongo?
Para facilitar o acesso nós temos a proposta de traduzir a documentação em português e em inglês, distribui-la e colocá-la na Internet. Penso que vai-se criar um sítio na Internet especificamente para  Mbanza Kongo. É uma história muito conhecida e nós tínhamos de ter a certeza de que o nosso processo não iria contradizer-se com outros textos já publicados noutros sítios internacionais. 

 

perfil

Nome
Ndonga Mfwa

Idade
59anos

Formação
Fez o ensino secundário em Mbanza Ngungu (RDC) 1971-1976. A licenciatura em Inglês na Universidade de Lubumbashi (RDC), de 1976 a 1981. O mestrado em Linguística Africana foi obtido em 1987 na Universidade de Paris (França). Tem doutoramento em Linguística Africana pela Universidade René Descartes Paris V, em França.

Ocupação
O linguista é professor associado na Faculdade de Letras e director do Centro de Estudos e Investigação em População da Universidade Agostinho Neto.

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