Entrevista

Jacinto Tchipa defende maior valorização artística

Claudete Ferreira

Autor de temas como “África”, “Maié Maié” ou  “Cartinha da Saudade”, Jacinto Tchipa é uma das referências incontornáveis da música angolana. Emocionado, ao recordar o passado, o artista aponta alguns caminhos que podem contribuir para a maior valorização da música e dos cantores nacionais. Em entrevista à Angop, o antigo deputado considera necessário que sejam reconhecidos os artistas que deram contributo cultural nos últimos 40 anos e que se informe a nova geração sobre os esforços feitos para o alcance da liberdade.

Fotografia: Edições Novembro

Jacinto Tchipa está um pouco desaparecido dos palcos. A que se deve?
Após a independência, os artistas passaram a depender do Ministério da Cultura, que planificava toda a actividade cultural que surgia. Depois da mudança do sistema político, passámos a depender de empresários e de agências do género. Porém, hoje, os espectáculos já não são constantes, tendo em conta também a realidade financeira do país. Estou a falar de grandes músicos que tiveram muito sucesso, nomeadamente, Elias Dya Kimuezo, António Paulino, entre outros nomes de referência do mercado nacional.
Infelizmente, a situação atingiu toda a sociedade e o mercado afecta a todos.
Para se fazer alguma coisa, é necessário dinheiro e eu não o tenho para me promover, razão pela qual estou, digamos, meio desaparecido dos palcos. Contudo, isso não quer dizer que nada esteja a fazer, pois tenho alguns projectos que poderão, muito brevemente, ser colocados ao dispor dos amantes da música angolana.

Disse que está a preparar alguma coisa. Presume-se que se trata de uma nova obra. Para quando?
Estou a gravar um disco há aproximadamente cinco anos. Comecei por fazê-lo em Luanda. Ainda não concluí os trabalhos por falta de financiamento e, no país, para gravarmos, precisamos de 150 mil dólares, no mínimo, e os acabamentos são feitos no exterior. O produto é terminado no Brasil, em Portugal e na África do Sul.
O Ministério da Cultura não financia e têm sido os empresários a facilitar, com destaque para Bento Kangamba, que tem ajudado muitos músicos, principalmente, a juventude.

Em virtude da actual situação, de que forma pode ou está a contribuir para a afirmação e crescimento da cultura angolana?
Sinto-me um polivalente. A música é o meu trabalho. Toda a mocidade foi através dela, mas até hoje nada vejo. Neste momento, estou a trabalhar no sector agrícola, na produção de banana, na província do Cuanza Norte, a fim de daí tirar alguma coisa para custear as despesas que tenho com esta arte.

Tem alguma convicção de que ainda pode fazer algo pela cultura?
Sim! Continuo a compor. Infelizmente, não tenho dinheiro para gravar o que já tenho na manga. Falta apenas a gravação de quatro músicas para fechar um LP. Tenho solicitado apoios, mas, infelizmente, só têm sido promessas, nada de concreto que venha a abrir uma “luz no fundo do túnel” para a conclusão da obra.
Vivemos somente da música, mas não temos actividade todos os dias. Noutros países, os artistas não param, uma realidade bem diferente da nossa, pois conseguem ganhar a vida só desta arte, cantando em bares e em  casas nocturnas ou de lazer e cultura. Se o mesmo acontecesse cá, estaríamos todos a trabalhar para o engrandecimento da cultura. Falta uma legislação, para que, em todo e qualquer sítio público onde haja festa e entretenimento, o músico possa estar para ganhar o seu pão e fazer as suas economias.

Como é cantar para as tropas, na qualidade de militar?
Comecei por cantar numa fase muito difícil para o país, em que todo o artista era também militar. Em 1974, enquadrei-me nas FAPLA, era um dever obrigatório. E, como sempre, gostei de cantar. Animava as tropas na frente de combate. Não era só pegar na arma e disparar, pois havia também momentos de lazer. Cantava e fazia teatro e carrego comigo muitas lembranças desse tempo.

Quantos anos de tropa e de música?
Enquadrei-me nas FAPLA a 2 de Março de 1974 e continuo no activo. Mas um ano antes de entrar já cantava, daí o casamento da música com a tropa. A gravação do primeiro disco foi em 1976, na Valentim de Carvalho, um disco que fez muito sucesso. Lembro-me que, em 15 dias, a editora já não tinha mais discos para venda. Olha que fui bem pago! Foram 15 mil dólares e, deste valor, comprei o meu primeiro carro.

Na época, tinha como um dos propósitos levantar o moral das tropas. Será que a mensagem passava?
A mensagem passava. Tinha as tropas como grandes adeptos, que me fizeram ganhar dois “Top dos Mais Queridos”.

Fica a sensação de que deveria trabalhar mais com a nova geração?
Com a nova geração tenho grande cooperação. Quando solicitam os meus préstimos, estou sempre ao dispor e de braços abertos. E vice-versa. Temos de dar o devido apoio aos jovens e passar o legado, para que possam continuar. Tenho uma música gravada com Big Nelo, uma experiência muito enriquecedora para mim, uma vez que ajudou a dar o meu contributo, em termos de ideias e acção, ao trabalho de um cantor que tem sido uma grande referência no mercado musical angolano.
 
Como concilia a vida artística e a militar?
Não é fácil. A música nunca foi um bicho de sete cabeças. Sei separar os momentos. Fui privilegiado, nalgumas vezes, por representar o país no estrangeiro e isso nunca interferiu na minha carreira militar.

Que análise faz da música angolana?
Tem registado grande evolução, quer melódica, quer de mensagens ou ritmo. A nova geração tem contribuído bastante para o sucesso que se regista. Não podemos ficar atrás.
O Mundo está em constante mudança. Temos grandes talentos e, a cada dia, temos de agradecer à força da juventude que tem trabalhado em prol da melhoria, aceitação e divulgação da música angolana. São ganhos que não devem ser menosprezados.

Teve problemas nas cordas vocais. Já os superou?
Tive muitos problemas de saúde. Fiquei afónico, mas operaram-me com sucesso numa das clínicas de Luanda e estou bem. No entanto, lembro-me de que, num dos espectáculos na província do Namibe, não consegui cantar. Felizmente, está ultrapassado e encontro-me em condições de continuar a dar o meu contributo para a promoção, valorização e divulgação da cultura angolana, em geral, e da música, em particular.

Como enquadra a família na sua vida profissional?
A família é indispensável. A força que recebo é incalculável. Não há valores que paguem nem gesto para retribuir o carinho e o respeito que me são dados. Se não fosse o apoio familiar, não sei onde poderia chegar, quer em termos profissionais, quer familiares.

Numa altura destas, que conselho dá aos artistas angolanos?
Devemos continuar a lutar para o bem da cultura; que não se deve desistir até que consigamos vencer todas as barreiras, para o engrandecimento da nossa cultura diante de tantas dificuldades. Temos de lutar, a fim de que tenhamos uma vida  igual  aos  artistas do resto do mundo.

Com quem, nesta altura, desejaria partilhar o palco?
Muito sinceramente, com Yola Semedo, Pérola, Anselmo Ralph e Eduardo Paim.

 

  “Incursão na política foi uma experiência muito positiva”

Teve uma incursão na política. Dezasseis anos como deputado da Assembleia Nacional, pelo grupo parlamentar do MPLA. A experiência foi boa?
É verdade! A experiência foi boa e muito positiva. Na Assembleia Nacional defendíamos todos os problemas da Nação, não só da cultura, mas no geral. Culturalmente, dei o meu contributo sobre propostas ligadas a esta área, entre as quais a fundação de um Museu da Música. Infelizmente, não passou. Porém, seria bom que tivesse sido aceite, porque a ideia era a criação de um espaço dedicado à música e aos seus criadores.

PERFIL

Jacinto Tchipa
Notabilizou-se no panorama nacional durante a década de 80, quando foi vencedor, duas vezes consecutivas (1986 e 1987), do concurso “Top dos Mais Queridos”, organizado pela Rádio Nacional de Angola.
O músico nasceu em 1958, na Caála, província do Huambo, e começou a sua carreira artística em 1973, quando gravou o primeiro disco de vinil “África”. Temas como “Maié Maié”, ou “Tchivale Tchivale” integram o repertório do artista. Lançou três discos em vinil na década de 80, intitulados “A Cartinha do Soldado”, “Sissi Ola” e “Reconstrução Nacional”.
Já nos anos 90 apresentou  “Os Meus Sucessos” e “África”.

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