Entrevista

Janela de oportunidades para pequenas empresas

João Dias |

A baixa vertiginosa do preço do barril do petróleo no mercado internacional sugere mudanças radicais no modo de agir e actuar da micro, pequena e média empresa (MPME).

Samora Kitumba fala em oportunidade soberana
Fotografia: Kindala Manuel

Os tempos exigem adaptação e uma filosofia voltada para o investimento na diversificação da economia nacional. O administrador do Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas (INAPEM), Samora Kitumba, em entrevista ao Jornal de Angola fala na necessidade de mudança de postura do pequeno empresário. Apesar do cenário adverso, a situação representa uma grande janela de oportunidade para as PMEs se afirmarem no actual contexto económico, numa altura em que a sua expressão no PIB e em receitas fiscais é pouco significativa.  

Jornal de Angola – Com o preço do barril de petróleo a sofrer uma b aixa drástica, vai ser fundamental que as PMEs assumam uma nova visão de fazer negócio no país?

Administrador Samora Kitumba
– A situação económica sugere mudanças e se apresenta agora numa grande janela de oportunidade para as pequenas e médias empresas se afirmarem no actual contexto económico do país. Até ao momento a expressão das PMEs na economia ainda é pouco significativa, seja no seu contributo para o Produto Interno Bruto, seja na componente fiscal, mas já existe uma legislação específica para que as PMEs despontem e se afirmem no mercado nacional. Todo esse processo é ainda embrionário.

JA - As PMEs vão resistir ao novo cenário económico com que o país se defronta?


SK – Acreditamos que sim, apesar disso. Estamos perante uma oportunidade soberana para que se dê maior vigor e robustez as PMEs, pois são elas que estão no dia-a-dia junto do cidadão, geram emprego e têm uma abrangência geográfica acentuada. Elas devem assumir um papel fundamental nessa fase, cuja implantação e afirmação no mercado vai contribuir para o incremento do PIB e no aumento das receitais fiscais a nível do sector não petrolífero.

JA - A expressão das PMEs na economia angolana é pouco substancial pela falta de políticas voltadas para sua potenciação ou faltam iniciativas da parte dos empresários?


SK- Uma coisa condiciona a outra. Mas já identificamos alguns aspectos que estrangulavam o surgimento e afirmação das PMEs, principalmente as questões ligadas a falta de financiamento e taxas de juros muito altas. Para a micro, pequena e média empresa era um suicídio recorrer ao sistema de financiamento da banca nessas condições. O excesso de burocracia para a criação de novos negócios criava uma série de dificuldades, o que juntando a aspectos como fraco incentivo a produção nacional, agravava ainda mais a situação.

JA- Tem de se tomar medidas que estimulem a produção nacional de bens e de serviço?


SK - Obviamente. Mas não estamos a falar de políticas protecionistas. Pretendemos medidas que incentivem o consumo de produtos feitos localmente, numa altura em que as pequenas e médias empresas surgem, em muitos casos, de estrutura familiar, cujo nível de qualificação dos gestores não é dos mais desejáveis. Precisamos ultrapassar factores de estrangulamento que têm a ver com o elevado índice de informalidade dos nossos negócios. Há muito dinheiro fora da banca comercial e também muitos negócios feitos sem o controlo do Estado.

JA - Estão tomadas medidas para ultrapassar essa situação?

SK
- Foram tomadas algumas medidas nos últimos anos que visam ultrapassar esses factores de estrangulamento. Pensamos que a criação de condições especiais para acesso ao crédito e soluções menos onerosas para os empresários constituírem os seus próprios negócios e a facilitação na obtenção de licença para o exercício de actividade económica, são acções e medidas de estímulo às PMEs, que se repercutem positivamente na produção nacional, reforçando o programa “Feito em Angola”. Todas estas medidas visam mudar o quadro.

JA-Estas medidas bastam?

SK-Ainda não é suficiente para inverter na totalidade o quadro, mas estão tomadas as medidas objectivas e acreditamos que em breve vamos começar a ter sinais visíveis de uma maior afirmação das PMES. O cenário internacional da baixa do preço do petróleo vai fazer com que em termos fiscais se comece a olhar para fontes alternativas. O sector não petrolífero vai ter de se organizar e preparar-se para estes desafios porque o seu papel vai ser fundamental para a estabilidade económica do país.

JA-Que sectores têm sido até agora mais apetecíveis para o investimento das PMEs?


SK-Até agora temos verificado pelo número de empresas que nos procura, que há uma tendência em optar pelo sector do comércio e serviços, porque à partida são sectores que apresentam menos riscos e são de curto prazo e não exigem uma grande captação de recursos financeiros e mesmo em termos de conhecimento técnico não são de grande profundidade. É muito mais fácil importar mercadoria e vender. Só que ao mesmo tempo esses sectores não beneficiam em larga escala o equilíbrio da balança comercial actual, pois o país tem importado tudo ou quase tudo. Esta tem sido a tendência e o Executivo vai inverte-la.

JA-De que modo e com que medidas?


SK - Direccionando e orientando as iniciativas para o sector produtivo numa perspectiva de médio e longo prazo. O sector produtivo gera emprego e em termos de cadeia de valor, abrange produção, distribuição e comercialização.

JA - O que é fundamental orientar para a actual fase económica em que o país está?


SK
-Neste momento a prioridade deve incidir para o sector produtivo, sendo a agricultura e o agro-negócio, imprescindíveis para o crescimento económico. São estas actividades que dão azo à indústria transformadora. Mas tem de haver um sector forte de apoio à produção. Para o nosso caso, não tem havido muita apetência pelo sector produtivo por se projectar numa perspectiva de médio e longo prazo e aportar maior risco e conhecimento técnico. Os empresários estão mais preocupados com o imediatismo.

JA-Como assim?

SK-Querem lucros e retornos rápidos. Estão identificadas as razões dessa cultura do imediatismo e do lucro rápido. É preciso orientar e estimular também a competitividade. Temos de dar algum tempo para que se adaptem aos novos desafios. Mas nesse processo, a banca nacional tem de se qualificar melhor para que optimize e mantenha uma boa relação de crédito com os empresários, sendo fundamental que baseie a sua relação num conhecimento profundo da realidade e das actividades das PMEs.

JA - É fundamental a existência de medidas e incentivos para “desconstruir a resistência ao sector produtivo?


SK-Nesse aspecto, o fundamental vai ser continuar a reforçar as medidas de aconselhamento às PMEs e dizer-lhes que é preciso que tenham uma postura de rigor, controlo interno, racionalização e cumprimento de procedimentos de natureza fiscal. As PMEs devem pagar os impostos, créditos e devem ganhar nova mentalidade e fazer contabilidade. Para desfazer a actual resistência das pequenas empresas ao investimento no sector produtivo, os empresários devem ganhar nova mentalidade, mas também é preciso que as condições sejam favoráveis.

JA - Esta propensão dos empresários ao imediatismo representa uma dura batalha?


SK
- É e vai continuar a ser. Quando aconselhamos os nossos empresários, verificamos que há uma certa resistência quando se apercebem, que investindo no sector produtivo, só poderão obter lucros dentro de três ou quatro anos. É sempre uma situação que provoca desagrado. Daí a tendência para o sector de comércio.

JA-Porque razão se verifica ainda a “morte” de grande parte das MPMEs à “nascença”?


SK
- Essa situação nos levou a criar programas específicos para as MPMEs face a taxa de mortalidade das PMEs que era muito elevada. Há cerca de três anos, verificamos que em 100 empresas existentes, ao fim de dois ou três anos, apenas duas a cinco é que permaneciam no mercado. Muitas delas têm projectos, que bem acompanhados e bem dirigidos, podem dar bons resultados. Com as medidas que tomamos hoje em dia, o número de novas empresas é cada vez maior e actualmente elas conhecem toda a legislação e têm bem definidos o seu escopo. No próximo ano vamos reavaliar as metas que tinham sido estabelecidas.

JA-Quantas pequenas e médias empresas estão registadas no INAPEM?


SK-Temos registadas dez mil empresas (não são todas as que existem). Segundo a última inventariação, em Angola existem 50 mil empresas. Queremos que até 2017 esse número alcance os 70 mil. Nessa altura estaremos em condições de fazer um balanço muito mais aturado de qual tem sido a taxa de mortalidade das empresas e saber se continuam a morrer dois anos após a sua formação ou se têm conseguido sobreviver.

JA - Sente que existe uma cultura empresarial entre os empreendedores?


SK-Cada vez mais, o empresário tem necessidade de estar actualizado no que diz respeito a legislação. Tanto quanto sabemos, esse desconhecimento é mais visível no interior e leste do país. Mas tem havido maior vontade do empresariado em participar mais de modo mais estruturado na economia nacional ao contrário do que vinha a ser prática ao longo dos últimos anos em que se tinha como indicador o “cash flow” das empresas e não na base de rácios contabilísticos, que indicam a performance económica e financeira de uma empresa.

JA - Que empresas o país precisa para o seu desenvolvimento?


SK
- Precisamos de empresas que invistam na agricultura pela sua abrangência e dado o grande potencial do país. Mas nessa fase é também fundamental que as empresas invistam na indústria transformadora, essencial para a produção de bens de consumo e transformação das matérias-primas tiradas do campo. Agricultura e indústria transformadora devem caminhar de mãos dadas. Mas é preciso que a agricultura tenha suporte tecnológico e se abandone a velha agricultura de subsistência. Isso desencoraja. O outro sector importante a investir actualmente é o dos materiais de construção.

JA - Satisfeito com o Angola Investe?

SK
-Estamos sim. Mas temos de ser realistas. Fomos exageradamente optimistas quando estabelecemos as metas iniciais. Queremos um programa estruturado que garanta que as grandes ideias e acções se transformem em grandes negócios no futuro. Não atingimos o que almejamos, mas em 2015 vamos estar a meio do programa e vai ser boa altura para reavaliar as metas, sendo necessário um trabalho de fundo para mudar a situação. O Angola Investe tem 330 projectos aprovados pela banca, dos quais 160 estão financiados. Gostaríamos que fossem mil ou dois mil projectos aprovados. Vamos reavaliar o actual quadro.

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