Entrevista

Jovens trouxeram aos Bombeiros outras qualificações profissionais

André da Costa |

Um instituto médio profissional de bombeiros vai surgir nos próximos tempos em Benguela. As obras estão a 85 por cento de execução física. O mesmo visa a formação em várias especialidades dos efectivos para melhor responderem aos desafios do futuro.

António Gimbe realça que com a juventude ansiosa por aprender a corporação vai impulsionar o desenvolvimento dos serviços
Fotografia: José Soares|Edições Novembro

O aumento de sete para 14 mil efectivos nos últimos sete anos, bem como a necessidade de reforço do trabalho preventivo seguem o leque de preocupações do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros. O comandante António Vicente Gimbe quer ver melhorados os serviços prestados em prol da salvaguarda da vida dos cidadãos. À leitura.
          
Jornal de Angola - Que análise faz em relação aos serviços prestados à população pelo Serviço de Protecção Civil e Bombeiros nos últimos cinco anos?

António Gimbe
- Caracterizar os serviços num quinquénio fica um pouco difícil por ser um período dinâmico com transformações a todo o tempo. Se tivermos que olhar àquilo que éramos em 2010/2012 até 2017, caracterizo em três momentos: primeiro, foi de um desafio concretizado. Segundo, uma nova missão que estou a cumprir. Terceiro, muita coisa ainda há por se fazer. Deveríamos ter feito um bocadinho mais naquilo que era nossa vontade, interesse do ponto de vista pessoal. Do ponto de vista institucional, algumas tarefas ficaram por se cumprir e outras deveríamos cumprir com melhor eficiência e qualidade.

Jornal de Angola - Comparativamente há cinco anos, como analisa a evolução do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros?

António Gime -
Houve uma mudança radical no Serviço de Protecção Civil e Bombeiros em termos organização, carácter jurídico e administrativo, condição operacional e disciplinar. Até cinco anos atrás, tínhamos sete mil efectivos e actualmente estamos com 14 mil. Crescemos do ponto de vista da quantidade e qualidade. Houve um rejuvenescimento do efectivo com ingresso de jovens talentosos que trouxeram outras valências em termos de recursos humanos.

Jornal de Angola - Até que ponto os quadros constituem mais-valia em termos de desenvolvimento do serviço?

António Gime -
Estes jovens que ingressaram no Serviço de Protecção Civil e Bombeiros trouxeram outra qualificação profissional em várias áreas do saber: desde a Medicina, Ciências Exactas, áreas do Direito e das engenharias. Hoje, o serviço está mais desafogado se comparado há cinco anos atrás.

Jornal de Angola - Estes novos quadros têm sabido responder às exigências do trabalho?

António Gime -
Há muita juventude na corporação que são irreverentes, apressados a descobrir caminhos e, essa irreverência, faz impulsionar o desenvolvimento dos nossos serviços por serem uma força humana que vai atrás dos sonhos. Nós temos que aproximar os nossos serviços daquilo que é a realidade de outros bombeiros a nível mundial e, nessa condição, diria que a nossa missão tem sido cumprida. Há muito sacrifício, empenho, porque a nossa actividade é essencialmente humanitária no sentido de salvar vidas e o património, quer do ponto de vista individual e do Estado, que é um bem comum.

Jornal de Angola - Quer dizer que tudo corre às mil maravilhas em termos de trabalho?

António Gime -
Não. Existe ainda uma certa frustração, se olharmos por aquilo que são as nossas estatísticas, no que diz respeito ao ponto de vista operacional. Trabalhamos numa condição doutrinária, primando sempre pela prevenção. Os nossos serviços têm que se estruturar numa pirâmide educativa de conhecimento no sentido de prever os fenómenos e trabalhar numa perspectiva de resposta. Os fenómenos ocorrem e há toda uma necessidade de estancar os efeitos das ocorrências e voltar à fase inicial.

Jornal de Angola - O serviço prima pela prevenção dos fenómenos e evitar graves consequências!

António Gime -
Trabalhamos para criar uma resiliência de em caso do fenómeno ocorrer uma ­segunda vez, tenhamos capacidade de responder e minimizar os impactos negativos que os fenómenos trazem como consequências que são os danos e percas humanas, como as mortes e feridos, destruições de estruturas físicas, quer para a própria economia ou para situação a económica ou financeira do Estado. São estas situações que, às vezes, criam uma certa frustração, porque os resultados ainda não são os mais esperados, porque, enquanto assistirmos pessoas a morrer, a nossa missão não pode estar cumprida.

Jornal de Angola - Em que fase se encontra a criação do instituto médio politécnico de bombeiros?

António Gime -
Quando falamos da nossa qualificação em termos de quantidade e qualidade, julgamos que a nossa actividade é de risco cuja  execução obriga a utilizar equipamentos técnicos e matérias pelos quais se deve ter domínio. Nessa condição, o bombeiro precisa de estar preparado para responder a  esses desafios e, só vai poder dar essa resposta através de conhecimento profissional que lhe permite encontrar sucesso no cumprimento das suas missões. Os recursos humanos constituem prioridade em quantidade e qualidade. E damos esta qualificação através de cursos profissionalizantes de formação nos vários centros do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros.
 
Jornal de Angola - Mas os efectivos do Serviço de Protecção Civil e Bombeiros desempenham uma actividade profissional… 

António Gime -
Sim. E sendo ela uma actividade profissional tem de ter um “stander” que, além de padronizar, tem de definir a que nível ela pode ser qualificada no âmbito da sua estrutura de avaliação. É assim que projectamos a criação no município da Baía Farta, província de Benguela, do Instituto Médio Técnico Profissional dos Bombeiros cuja obra, do ponto de vista físico de execução, já deveria ter sido concluída há anos, mas por razões financeiras está por se concluir. As obras estão numa percentagem de 85 por cento de construção e acreditamos que nos próximos tempos vai ser concluída.

Jornal de Angola - A sua conclusão é para este ano ou nem por isso?

António Gime -
Não posso precisar o tempo, devido às razões financeiras. Mas tenho fé que todos os esforços vão ser feitos para terminar a obra. A escola vai ter cerca de 500 alunos numa primeira fase. Numa fase posterior, vai acolher cerca de 1.800 em regime de aquartelamento. O instituto constitui mais-valia para formação que é a nossa maior necessidade. Os formandos são provenientes das 18 províncias do país em regime interno. Temos estado a pensar numa perspectiva de regime aberto. Por exemplo, brigadistas nas áreas de extinção de incêndios, e outras áreas que o instituto vai formar, poderem participar em regime externo.    

Jornal de Angola - Senhor comandante, as actuais estruturas físicas do serviço satisfazem as necessidades?

António Gime -
Não satisfazem. Estamos hoje com uma cobertura operacional de cerca de 48 por cento a nível do país, onde o Serviço de Protecção Civil e Bombeiros deveria estar. Estamos a falar de 18 províncias e cerca de 163 municípios. E esse crescimento devia ser acompanhado com a construção de estruturas físicas para poderem albergar os nossos serviços. Não obstante a isso, julgamos que o esforço feito até aqui é satisfatório, apesar de não acomodar as nossas necessidades.

Jornal de Angola - Há necessidade de expansão dos serviços de bombeiros?

António Gime -
Hoje sentimos esta necessidade de expansão dos serviços em  todos os centros comunitários, onde houver desenvolvimento económico e social que justifique a nossa presença. A nossa divisão administrativa está a sofrer alterações, desde municípios, distritos, bairros e comunas. Essa evolução administrativa é um indicador. O Serviço de Protecção Civil e Bombeiros tem responsabilidade naquilo que são os fenómenos contra extinção de incêndios, socorros a calamidades, que têm a ver com a gestão de riscos de desastre, assistência médica pré-hospitalar. Os cidadãos devem ser os primeiros a participar voluntariamente na sua própria segurança e garantir a existência do seu património.

Jornal de Angola - Os cidadãos estão preparados para participar na sua própria segurança?

António Gime -
Preparados e capacitados não estão, mas eles têm esta necessidade. Devemos transferir estas habilidades para que os cidadãos consigam responder, numa perspectiva de segurança, àquilo que são as necessidades na base de desafios e riscos que existem.

Jornal de Angola - O Serviço de Protecção Civil e Bombeiros precisa de construir mais quartéis?

António Gime –
Sim, precisamos construir mais quartéis, mais destacamentos, mais estruturas que nos aproximem dos cidadãos.   

Jornal de Angola - Os meios rolantes existentes satisfazem as necessidades operacionais dos vossos serviços?

António Gime -
A nossa frota técnica de meios de extinção já é razoável se comparada ao ano 2010. Neste período, tínhamos uma frota avaliada em 120 viaturas e actualmente estamos com cerca de 400 viaturas. Ainda assim, não são suficientes. É preciso ver os custos que a manutenção dessa frota impõe em termos de valor financeiro. Daí a necessidade de primarmos pela disciplina e racionalização dos meios.
 
Jornal de Angola - Vários cidadãos queixam-se da chegada tardia dos bombeiros quando solicitados ao local do sinistro. A que se deve este factor?

António Gime -
Este factor se deve à interpretação daquilo que é a doutrina dos bombeiros. Os cidadãos vêem os bombeiros como um elemento de resposta. O bombeiro deve ser visto como um elemento de prevenção. Os bombeiros devem prevenir a ocorrência dos fenómenos através da ciência, da previsão e avaliar os factos. Dentro dessas avaliações ditarem medidas que podem minimizar os impactos em termos de percas humanas e danos materiais.

Jornal de Angola - E é aí onde vai a responsabilidade da sociedade em interpretar os bombeiros como salvadores...


António Gime -
Os custos são maiores, porque há um conjunto de factores estruturantes que, infelizmente, nós ainda não temos, quer do ponto de vista cultural, de estruturas físicas, que não facilitam os bombeiros a prestar de forma eficaz o seu serviço.

Jornal de Angola – A que factores se está a referir de concreto? 

António Gime -
Estou a referir-me na estruturação das cidades, na urbanização dos bairros. Trabalhamos em vários ambientes desde o rural, urbano e, se olharmos para os dois ambientes em que somos obrigados a ­intervir, há um conjunto de constrangimentos que não permitem trabalhar de forma facilitada. Por exemplo, não temos linhas de emergências, não temos áreas técnicas de reabastecimento próximo dos locais onde ocorrem os incidentes. Todos estes factores acabam por pesar de forma negativa, naquilo que é a qualidade de resposta como bombeiros.

Jornal de Angola - Além destes factores existem outros?

António Gime -
Outros factores têm a ver com o mau treinamento do nosso efectivo, a ausência de equipamentos à altura, isto em função das necessidades, dadas as actuais, que as infra-estruturas  apresentam hoje.

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