Entrevista

Kwanza passou por dificuldades até atingir a maturidade

João Dias |

A moeda nacional, o Kwanza, foi criada há 35 anos, nos idos anos de 1977, a 8 de Janeiro. Foi das últimas missões do então ministro das Finanças, Saidy Mingas. Passou por um processo conturbado, difícil e complexo, até atingir o estado que tem hoje.

Administrador do BCI Leão Peres
Fotografia: Santos Pedro

A moeda nacional, o Kwanza, foi criada há 35 anos, nos idos anos de 1977, a 8 de Janeiro. Foi das últimas missões do então ministro das Finanças, Saidy Mingas. Passou por um processo conturbado, difícil e complexo, até atingir o estado que tem hoje. Em entrevista ao Jornal de Angola, o administrador do Banco de Comércio e Indústria, Leão Peres, fala das etapas da moeda nacional até chegar ao estágio em que se encontra. Autor da obra “A Moeda em Angola: subsídios para o seu estudo”, Leão Peres acredita na estabilização da economia nacional e da moeda nacional, que, como disse, tem cumprido bem as funções de meio de pagamento, unidade de conta e de reserva de valor.

Jornal de Angola - Quais foram as etapas mais importantes do Kwanza?

Leão Peres
- O Kwanza percorreu várias etapas em função do contexto económico que o país viveu. Foi a 8 de Janeiro de 1977 que se fez o lançamento do Kwanza, naquele que foi o momento de ruptura do país com o escudo colonial. Foi a maior operação de troca de moeda ocorrida no país.

JA - Quantos padrões monetários conheceu o Kwanza?

LP - A moeda nacional percorreu quatro etapas e por isso, conheceu quatro padrões monetários durante os anos da sua criação genuína. Em Setembro de 1990 houve necessidade de um reajuste monetário com a criação do Novo Kwanza, válido de Setembro a Julho de 1995. Depois disso, o novo Kwanza veio a ser substituído pelo Kwanza Reajustado que circulou de Julho de 1995 a Novembro de 1999, altura em que ressurge o Kwanza, na actual versão.

JA - Economia estável gera moeda forte?

LP - É evidente, na medida em que a moeda está fortemente relacionada com o sistema económico. Ela serve apenas para facilitar as trocas comerciais operadas entre os agentes económicos. A base económica de um país fortifica a moeda. O que corrói a moeda é a inflação e Angola conheceu, ao longo destes anos, vários tipos de inflação que justificaram os reajustes da moeda. Naquele período de 90, os níveis de inflação eram muito altos. O país vivia numa hiper-inflação, o que corroeu o poder aquisitivo da moeda.

JA - A constante inflação obrigou aos reajustes do Kwanza?

LP - Quando há inflação o poder aquisitivo da moeda cai. Foi nesta base que se fez este reajuste, principalmente do Novo Kwanza e Kwanza Reajustado através do corte de três zeros, o que veio a dar lugar ao Kwanza em Novembro de 1999 com o corte de seis zeros. Evidentemente, a autoridade monetária teve a necessidade de fazer o corte dos zeros para ajustar o valor facial da moeda ao volume de transacções e dessa forma, reduzir a quantidade de notas a transportar.

JA - Em 1995, a inflação atingiu três mil por cento, porquê?

LP - Porque houve uma perda do poder aquisitivo de forma acelerada. As pessoas recebiam os seus rendimentos ou salários e de imediato tinham de convertê-los em activos reais ou financeiros. Mercadorias ou divisas eram a solução. Foi nessa altura que começou a surgir no país a febre da dolarização. As pessoas pegavam nos kwanzas e convertiam-nos logo em dólares para se protegerem dos efeitos da depreciação do Kwanza ou inflação contínua. Foi em 1995 que começou a evidenciar-se o fenómeno da dolarização, altura em que o Banco Central autorizou a abertura de contas em moeda estrangeira, uma acção que vigora até hoje.

JA – Era mesmo necessário?

LP – Claro que sim. Não havia hipótese, porque a pressão era tão grande sobre a moeda estrangeira que houve necessidade de se abrir esta janela, para evitar que houvesse transferência de activos para o exterior. Ninguém queria ter contas em kwanzas em função da depreciação. A moeda é forte quando a economia se baseia na produção, evitando a sua criação no vazio, que em muitos casos, leva à chamada ilusão monetária. Aumentar salários e subsídios sem uma contrapartida baseada na produção é viver uma ilusão monetária. Deve haver uma correspondência entre a quantidade de moeda em circulação e a quantidade de bens e serviços.

JA - Quando é que a moeda nacional o kwanza começou a ser meio de pagamento?

LP - Em 1999, quando se fez a troca do Kwanza Reajustado pelo Novo Kwanza. O propósito era deixá-lo desempenhar as suas funções. Por força dos efeitos da guerra, o processo só ganhou corpo com a paz definitiva. Em 2005, o país consolidou a estabilidade macroeconómica a que temos assistido até agora, o que reflectiu a queda dos níveis de inflação para três dígitos ao contrário de 1995 em que foi de 3.000 por cento. Está-se a trabalhar até agora para a sua redução. Prova disso é que até Novembro de 2011, a inflação estava em nove por cento.

JA - A inflação num dígito deve ser a meta?

LP - O objectivo é atingir a inflação de um dígito, o que garante estabilidade. Vamos atingir este nível. Já se assiste a alguma estabilização macroeconómica e ela deve impulsionar o crescimento, que por sua vez estimula o desenvolvimento. É fundamental a combinação deste trinómio: estabilização, crescimento e desenvolvimento económico e social. Este é o caminho que qualquer economia deve percorrer.

JA - Em que fase estamos?

LP - Já conseguimos a estabilização macroeconómica e agora é fundamental assegurá-la para promover o crescimento para que este se traduza em desenvolvimento, minimizando as assimetrias, pois predomina ainda o sector petrolífero. Tudo isso pode levar a que o Kwanza seja uma moeda forte e que venha a desempenhar na plenitude as suas funções de instrumento de troca, unidade de valor e reserva de valor.

JA - As perspectivas são boas face aos novos cenários?

LP – São boas e tendem a melhorar ainda mais. Em Outubro do ano passado a nível da política monetária, o Banco Nacional de Angola criou o Comité de Política Monetária, que vai permitir uma maior transparência do mercado monetário. Com este comité vai ser possível tomar decisões com bases mais sustentáveis. O comité é também responsável pela definição da taxa de juro de referência do BNA. Os agentes tomam as suas decisões dentro de um padrão mais concreto. O BNA sempre exerceu a política monetária mas era um exercício feito numa base de discricionariedade.

JA – O que quer dizer com discricionariedade?

LP – O que quero dizer é o que o BNA intervinha pontualmente sempre que a inflação subisse. Não havia uma linha que servisse de base para orientação. Com o Comité de Politica Monetária, um instrumento que muitos países já têm há muito tempo, vai ser possível dar maior transparência ao mercado. Sempre que o BNA definir novas políticas monetárias, os agentes económicos vão saber orientar-se através de uma linha reitora.

JA - Essa medida associada à aprovação do novo regime cambial para as petrolíferas melhora as perspectivas?

LP - Este é um marco e vai colocar o país dentro da normalidade. O regime já se fazia sentir mas as receitas ficavam fora do país. Só não se adoptou isso antes porque não tínhamos um sistema bancário eficiente e capaz de gerir quantidades enormes de recursos e propor as melhores soluções. O que aconteceu é que os recursos de Angola financiaram outras economias. Com entrada em vigor deste regime, os bancos nacionais vão passar a ter mais recursos e mais capacidade para emprestar. Este é um bom indicador para este ano.

JA - Os depósitos das petrolíferas em kwanzas fortalecem a moeda nacional?

LP – Num país normal, nenhum cidadão ou empresa fica com moeda estrangeira. Mas tudo isso resultou do alto nível de inflação dos anos 90. Se calhar ainda se vai permitir que as pessoas tenham dólares nas suas contas. A desdolarização da economia não deve ser feita de forma brusca, porque é possível que singulares e as instituições necessitem de divisas e ocorrer que os bancos não tenham. A desdolarização deve ser um processo contínuo e tal não se deve operar por decreto, porque pode ter efeitos perversos.

JA  O Kwanza começa a merecer confiança?

LP - Já começa haver mais confiança na moeda nacional e é só ver que os pagamentos hoje são feitos em kwanzas. O que motiva a corrida a divisas é o sentimento de que alguma coisa vai escassear e este é um comportamento normal dos agentes económicos.

JA - Como vai ser ultrapassada esta permanente resistência à utilização das moedas metálicas?

LP - Há factores na base dessa resistência. O reduzido poder aquisitivo da moeda, a falta de cultural, a magnitude dos preços e a informalização da economia são factores que influenciam na resistência à utilização das moedas metálicas. As moedas são apenas utilizadas para trocos. A Lei das Infracções Económicas criminaliza a recusa de moedas no pagamento nas transacções, no caso do mercado formal. O mesmo não se pode dizer do mercado informal.

JA - Qual é a relação entre o  Kwanza e a SADC do ponto de vista de convergência?

LP - Para uma relação é preciso que os países façam um pacto de convergência. A integração regional passa por este elemento. Os países têm de atingir o mesmo nível de estabilização e terem o controlo do défice orçamental. Sem este pacto não há possibilidade de integração nem comparabilidade da moeda.

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