Entrevista

Laços com a China cada vez mais fortes

A China tem sido um parceiro importante na reconstrução do país e na formação de quadros angolanos, disse o embaixador Garcia Bires. O diplomata garante que a missão diplomática angolana na China tem estado empenhada em desenvolver acções que visam captar investimentos públicos e privados.

Chefe da Missão Diplomática angolana na China defende a diversificação de investimentos
Fotografia: JA

O diplomata destaca o papel do ‘gigante asiático’ no processo de reconstrução de Angola e perespectiva uma maior intervenção deste país na diversificação da economia angolana.

Pergunta: Que balanço faz do estado das relações entre Angola e a China?

Resposta:
De um modo geral o balanço é positivo. Como exemplo inegável, se olharmos o que era o nosso país antes de Março de 2004, data em que o nosso Executivo, por força do acordo assinado com o Eximbank da República Popular da China, recebeu o primeiro financiamento, vemos que o país mudou em vários aspectos. Verificamos que os matos desertos hoje estão a ser transformados em aldeias, vilas e cidades modernas. As estradas, que eram um quebra-cabeças, são autênticas pistas e outras novas infra-estruturas surgem em cada canto do nosso país. No ano passado, as trocas comerciais bilaterais tiveram um balanço de 37 milhões de dólares.

P: Além da construção e reabilitação de infra-estruturas, em que outras áreas deseja ver a participação de empresas ou parcerias chinesas?

R:
As novas áreas de cooperação que o nosso Executivo perspectiva desenvolver com a República Popular da China podem ser as da agricultura, pecuária, exploração de jazigos minerais e das pedras ornamentais. Na agricultura, queremos desenvolver pequenas e médias indústrias de transformação, tendo em conta que no nosso solo e subsolo existem produtos de excelente qualidade que, para além de abastecer o mercado nacional e melhorar a dieta alimentar das nossas populações, são exportáveis. A China tem muita experiência no cruzamento e multiplicação de animais. É do nosso interesse aprendermos essa matéria e trocarmos experiências na piscicultura e fruticultura. A exploração mineira e de rochas ornamentais são outras áreas que, em conjunto, podemos explorar. O mercado internacional, para além do diamante, conhece muito bem e aprecia esses produtos.

P: Que papel pode a China e as empresas chinesas desempenhar no processo de industrialização de Angola?

R:
A China tem conseguido, com sucesso, superar atrasos estruturais e económicos para competir, com êxito reconhecido, no cenário internacional. A China é uma das economias com mais rápido crescimento e afirma-se todos os dias nos mercados mundiais. No nosso país, o sector da indústria continua a ser afectado por debilidades estruturais ligadas, fundamentalmente, aos baixos índices de produção e de competitividade. A experiência que a República Popular da China tem pode contribuir para o fomento da nossa produção industrial, sobretudo na indústria de transformação, para melhor aproveitamento das matérias-primas agrícolas e minerais, de forma a incrementar o valor acrescentado nacional e a diversificação da nossa economia.

P: Que trabalho tem desenvolvido a Embaixada de Angola na China para persuadir os empresários chineses a investirem no sector da indústria pesada e ligeira no nosso país?

R:
Conciliar as actividades da Embaixada com as novas exigências é uma das apostas. Priorizámos acções que visam conquistar mais investidores públicos e privados. Queremos dar corpo à diplomacia económica. A realização de seminários – o primeiro por ocasião do 37.º aniversário da nossa independência e o segundo pelo 30.º aniversário do estabelecimento das relações diplomáticas – foram algumas das actividades desenvolvidas para persuadirmos a classe empresarial chinesa no sentido de investir no nosso país. Nesses eventos, temos tido a colaboração de técnicos da Agência Nacional de Investimentos Privados (ANIP), do Ministério das Relações Exteriores e de profissionais do Centro de Estudos Estratégicos de Angola.

P: Qual o grau de execução do Acordo-Quadro de cooperação entre Angola e a China, assinado em 17 de Dezembro de 2008?

R:
O grau de execução do acordo pode-se considerar satisfatório, porque a presença chinesa em Angola já ultrapassou a área da construção civil, que foi o sector que abriu portas ao gigante asiático. A presença chinesa em Angola já é trazida também pela vontade própria dos agentes económicos chineses para investir em Angola. Temos estado a assistir a um aumento da presença chinesa no sector privado na área da construção civil e da agroindústria, e temos já manifestações de intenção na área dos serviços financeiros. Isso quer dizer que a presença chinesa está a diversificar-se e é crescente.

P: E do lado de Angola?

R:
Do nosso lado, verifica-se um intenso movimento de compatriotas que escalam as grandes regiões comerciais da China. Era bom que os nossos homens de negócios promovessem os seus produtos nas feiras que se realizam na China, fizessem um marketing convincente, permanente e divulgassem as potencialidades dos seus sectores com mais garra e assiduidade. As deliberações saídas da última reunião ministerial do Fórum de Cooperação China-África abrem alguns caminhos. Sabemos aproveitar todas as oportunidades?

P: Além da produção de arroz, segmento agrícola em que já se verificam alguns resultados, que outras culturas o Governo angolano quer ver desenvolvidas com a cooperação e parceria chinesa?

R:
Angola dispõe de condições privilegiadas para a produção agrícola. Tem solos aráveis que podem suportar até duas colheitas por ano, facilitado pelo seu potencial fluvial. Tem uma temperatura média amena, entre 19 e 26 graus centígrados. Com a experiência chinesa que, é um dos grandes produtores e exportadores de bens facilmente adaptáveis ao nosso clima, o nosso Executivo aposta em desenvolver outras culturas como a cana-de-açúcar, o algodão e o café, nas quais o nosso país é conhecido mundialmente.

P: Os acordos de financiamento dos programas de reconstrução que são assegurados pelo Eximbank da China já persuadiram o empresariado bancário chinês a apostar na abertura de representações financeiras de crédito no nosso país?

R:
Temos promovido junto da classe empresarial chinesa a abertura deste tipo de instituições no nosso país. Tenho conhecimento de que existem algumas manifestações de intenção neste sentido. O vice-presidente do Banco de Comércio e Indústria da China, o maior banco do mundo, afirmou, quando da sua visita a Angola, que acredita no crescimento sustentável da economia angolana e está aberto à cooperação com o nosso país.

P: Que apoio a China pode conceder a Angola, enquanto membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, na pretensão do nosso país de ganhar um assento naquele órgão como membro não-permanente?

R:
No âmbito das relações internacionais modernas, a China apresenta-se cada vez mais activa na cooperação com os seus parceiros. Nesta senda, esperamos que a República Popular da China esteja do nosso lado, ajudando a convencer os governos a apoiar a nossa pretensão: a de ocupar um lugar como membro não-permanente deste importante órgão das Nações Unidas. O Executivo angolano espera que a China tenha um papel activo nesta caminhada que Angola se propôs.

P: Como pode a China aumentar o seu apoio na formação de quadros angolanos, tanto em Angola como no próprio território chinês?

R:
A China tem sido um dos parceiros na formação de quadros angolanos com nível universitário. Anualmente, para além de receber bolseiros através do INAGBE (Instituto Nacional de Gestão de Bolsas de Estudos), também aceita estudantes angolanos que concorrem para bolsas concedidas pelo governo chinês. Os técnicos chineses estão a formar angolanos em várias áreas. Assim, eles vão conhecendo novas técnicas em múltiplas especialidades e amanhã vão manusear os equipamentos oriundos da China e, ao mesmo tempo, são os fiéis difusores do mandarim em Angola.

Acordos


Em Janeiro último, o jurista da Agência Nacional Para o Investimento Flávio Inocêncio afirmou, em Pequim, que as relações entre Angola e a China têm potencial para crescer. Flávio Inocêncio falava sobre “Investimento Privado em Angola”, durante uma conferência realizada em Pequim para saudar os 30 anos das relações diplomáticas entre os dois países. As relações sino-angolanas, disse o jurista, têm potencial para crescer, considerando as sinergias entre os dois países e o facto de Angola precisar do conhecimento chinês e do acesso aos capitais, enquanto a China necessita de petróleo angolano. Lembrou que a maior parte do investimento chinês em Angola, de 2002 a 2012, foi negociado directamente pelo Governo angolano com o Internacionl Fundo Limited (CIF) e com o Banco de Exportação e Importação da China (Eximbank). Estes acordos, referiu o jurista, abriram linhas de crédito enormes para Angola, após o fim da guerra em 2002,  colocando a China como um dos impulsionadores da rápida recuperação de Angola após a destruição da infra-estrutura nacional pela guerra.

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