Entrevista

Líder angolano está a dar boas indicações

Manuel Rui |

Helen La Lime, a embaixadora cessante dos Estados Unidos, indica, em entrevista ao Jornal de Angola, passos a tomar para um melhor clima de negócios e de investimento no país, porque não se trata de os Estados Unidos “abrirem as mãos” para os dólares. A estratégia internacional americana e os papéis desempenhados pela SADC e União Africana também vieram à conversa:

Fotografia: Santos Pedro | Edições Novembro

Como viu as eleições em Angola? Sabe que se pode percorrer Angola de dia ou de noite por estrada, o que não acontece na maioria dos países da região?
Nós felicitamos o povo Angolano pelo exercício do seu direito democrático ao voto, nas históricas eleições gerais de 23 de Agosto. Já estamos a trabalhar com o Presidente João Lourenço e o novo Parlamento da República de Angola, para fortalecer ainda mais a nossa relação bilateral. Consideramos que Angola teve um processo ordeiro e bem organizado. Defendo que as inquietações levantadas por alguns partidos políticos e a sociedade civil, acerca do acesso desigual aos órgãos de comunicação social, devem ser abordadas antes de futuras eleições.Os Estados Unidos estão ao lado do povo de Angola nos seus esforços para construir instituições fortes, democráticas e inclusivas, que se dediquem a garantir um futuro próspero e pacífico para todos os Angolanos. Angola tem agora um novo Governo e um novo líder, que tem estado a dar boas indicações. Por isso, devemos manter a esperança. Há muitos desafios para tornar as coisas mais funcionais nos domínios económicos, sobretudo na diversificação da economia. A saúde deve ter maior investimento, para combater a falta de medicamentos nos hospitais. Investir na educação é outro desafio, para que se possa ter um país mais estável. 

Se Angola der melhores sinais, vê a hipótese dos USA “abrirem  mãos” para dólares ou investimentos?
Não se trata dos Estados Unidos “abrirem as mãos”, mas sim de Angola tomar passos que levem a um melhor clima de negócios e de investimento. O investidor, incluindo os bancos dos E.U.A., provavelmente, irá  favorecer os destinos de investimentos onde há maior potencial de lucros com riscos mínimos.  Angola ocupa a posição 186, num universo de 190 países no índice de execução de contratos e resolução de insolvência, publicado pelo Banco Mundial. Isto quer dizer que Angola ainda tem de melhorar mais o seu ambiente de negócios, para se tornar mais competitivo e atractivo. A título de exemplo, um processo judicial demora, em média, 1296 dias para receber uma resolução e custa 44 por cento do valor do caso.  Enquanto que, com a arbitragem, os litígios comerciais poderiam ser resolvidos de forma mais célere. E Angola já conta com o Centro de Resolução Extrajudicial de Litígios (CREL) do Ministério da Justiça e Direitos Humanos e pode dar passos significativos na melhoria da resolução de litígios. Angola também é membro da Agência Multilateral de Garantia dos Investimentos, a qual pode oferecer auxílio na resolução de litígios. Para ser muito claro, o governo dos E.U.A. não proibiu nenhum banco internacional de fazer negócios com bancos angolanos, nem o Governo dos E.U.A. influenciou a decisão de qualquer instituição financeira de fazer negócios em Angola. Pelo contrário, os Estados Unidos entendem a importância da interconectividade entre os Estados Unidos e as instituições financeiras de outras nações para o comércio e o investimento transfronteiriço e valorizamos os benefícios dessa integração. No entanto, essa inter-relação exige um alto nível de confiança por parte das instituições financeiras, para que as suas contrapartes mantenham controlos fortes contra o branqueamento de capitais e estejam sujeitos a supervisão efectiva.
Há necessidade de reformas no sistema bancário, para que as oportunidades sejam iguais para todos. O Governo deve reforçar, regularmente, as orientações destinadas a ajudar os bancos e outras instituições financeiras a avaliar melhor os riscos colocados por pessoas politicamente expostas (PEP), independentemente de serem nacionais ou estrangeiras, e aplicar padrões de diligência prévia aceites internacionalmente.
Angola tem as ferramentas exigidas para resolver os desafios do sector financeiro e da banca. A priorização do Governo para a  luta contra a corrupção endémica é um começo essencial para melhorar o clima de negócios de Angola e enfrentar os actuais desafios do sector bancário. Se estes assuntos forem elevados ao nível mais proeminente, a Unidade de Inteligência Financeira e os seus competentes responsáveis poderão liderar uma abordagem nacional mais efectiva contra a lavagem de capitais. De igual modo, uma liderança competente, qualificada e independente do BNA irá garantir a capacidade melhorada de supervisão da infra-estrutura bancária.

O muro com os mexicanos vai ou não vai?
Os Estados Unidos e o México trabalham juntos para gerir e proteger a nossa fronteira comum de mais de 3218 quilómetros, na qual se podem encontrar 48 pontos de entrada oficiais. Juntos, combatemos as ameaças comuns de segurança colocadas por organizações transnacionais de tráfico de drogas, armas, moeda e de seres humanos. Por isso, cooperar em questões sobre migração, nos esforços de aplicação da lei, e facilitar a circulação lícita de bens e de pessoas é fundamental para a nossa segurança partilhada e prosperidade económica. De qualquer modo, a decisão final sobre a construção do muro será do Presidente e do Congresso.

Desde o primeiro momento em que tive a honra de a conhecer, deu-me a impressão de que já respirava Angola antes de ser nomeada Embaixadora para aqui. Quando é que bebeu pela primeira vez a nossa água? E como foi a sua vida de colégio em Luanda? Tem referências de pessoas, acácias e do mar?

Antes de mais, quero agradecer o vosso convite para esta entrevista.
De facto, quando era criança, eu vivi cá em Angola por seis anos. Cheguei com seis e saí daqui com doze anos de idade. O meu pai era funcionário da Texaco e, por isso, a minha infância está ligada a este país. Nesta altura, morei primeiro no Lobito e depois em Luanda.
Fiz os estudos primários na escola São José de Cluny, aqui em Luanda. Foi aqui que comecei a me conhecer como pessoa do mundo.  Sim, tenho-me lembrado de pessoas com quem cresci, mas foi há muitos anos . Mas alguns amigos de infância têm voltado a Angola, sabendo que eu estou cá.  Foi nos anos cinquenta e sessenta. Lembro conhecer uma cidade de Luanda linda, pequena e acolhedora. As árvores, como as acácias, chamavam a atenção das pessoas que por cá passavam. Eram lindas e transformavam a cidade, dando uma identidade mais acolhedora.  Quanto ao Lobito, a lembrança é da praia e dos pinheiros nas praias da baía do Lobito. Também reencontrei várias casas, onde nós vivíamos no Lobito e em Luanda. Uma experiência muito comovente foi revistar o Clube de Ténis  dos Coqueiros, onde o meu pai jogava quando morávamos em Luanda. Por outro lado, regressei ao  Parque Nacional da Kissama. Seria maravilhoso ver o parque repopulado com mais animais, especialmente, a Palanca Negra. Penso que isto acontecerá tarde ou cedo assim que a diversificação económica progrida mais.  

Revisitou lugares? Conhece Kalandula ou outro lugar que a tenha marcado?
Nestes três anos, desde que cá cheguei, tive a oportunidade de visitar muitos locais em Angola.  E claro que voltei ao Lobito e a Benguela. As duas cidades são lindas, com grande potencial turístico. Sim, visitei Kalandula, mas também fui ao Namibe ver a Welwitschia Mirabilis. Fui à maravilhosa Tundavala, no Lubango.Vou muito a  Cabo Ledo. Os meus filhos ficaram encantados com essa praia e o “surf”. Enfim,  sinto-me privilegiada, por ter tido a oportunidade de visitar 14 províncias de Angola. Olha que só me faltam 4 para conhecer o país todo! Rsrsrsrs.
A paisagem verde, as montanhas, os mares, os rios, os quimbos de Angola tornam o país uma potência para o turismo. Também aqui, é preciso mais atenção e investimento. Acredito que, bem planificado, o turismo pode oferecer um novo meio de subsistência para muitas comunidades locais.  Eu visitei muitos lugares no país e enquanto Angola tem muito para oferecer, em termos turísticos, o país deve investir mais para disponibilizar infra-estruturas funcionais com preços razoáveis.  Por exemplo, Kalandula é uma maravilha natural, mas lá não há parqueamento organizado; não há guias turísticos acreditados, com preços estabelecidos, e existem poucas opções razoáveis de alojamento para visitantes nacionais e estrangeiros. 
Ora, à medida que esses locais forem desenvolvidos para o turismo, Angola deve sempre olhar para a redução do seu impacto sobre a beleza que os tornam valiosos para o turista, bem como procurar manter a sustentabilidade de cada projecto.  O desenvolvimento integrado pode criar todo o tipo de emprego para as comunidades locais, tais como na segurança, restauração, produção de artesanato e cientistas ambientais.
O país precisa proteger a sua beleza natural e os ecossistemas que o tornam lindo. As comunidades devem ser educadas sobre o valor das suas plantas nativas e dos animais selvagens, para que possam defender os seus recursos locais contra o desflorestamento e a caça furtiva. Sublinho aqui que a National Geographic concluiu o Projecto Okavango Selvagem (Okavango Wilderness Project), que descreve a beleza das bacias hidrográficas do Cubango e do Cuito, e como são nascentes de um vasto ecossistema que cobre metade da África Austral. Contudo, esta beleza é frágil e ameaçada pelo desenvolvimento indiscriminado e a  poluíção que perturbam o equilíbrio natural, entre a terra e a água. Décadas de subdesenvolvimento protegeram a beleza natural de Angola -  e advogo que qualquer desenvolvimento destes recursos deve objectivar a preservação desses aspectos únicos de Angola, que é a real atracção de turistas para o país.

Da culinária angolana: escolha entre muzongué, feijão de óleo de palma ou muamba de galinha. Usa jindungo?
Rrsrsrsrs, olha uso muito jindungo nas minhas refeições cá em Angola. Gosto de muamba de galinha com funge. Aliás, na nossa Embaixada, temos uma pequena cafetaria, onde todas as quintas servem funge. A comida angolana é  deliciosa. Já provei um pouco de tudo em Angola, incluindo a kizaca, o feijão de óleo de palma, o muzongué, que é o caldo, não é? E outros pratos típicos de Angola.

  “As Nações Unidas devem adaptar-se a um mundo em mudança”


Todos os dias morrem pessoas a atravessar o mediterrâneo. Frequentemente há atentados na Europa e ninguém esquece o Setembro. Viajar de avião é uma tragédia, por causa das medidas de segurança. Isto vai mudar pela força ou pela palavra, pela força das ideias?

Conflitos desestabilizam estados e fronteiras, reprimem o crescimento económico e tiram dos jovens africanos a oportunidade de educação e de uma vida melhor. Grupos extremistas violentos baseados no norte do Mali, na Nigéria e na área da bacia do Lago Chade, no Quénia, na Somália e em todo o Sahel mostram-se resistentes, capazes de se adaptarem e de lançarem ataques além das fronteiras em países vizinhos. Para responder a esta ameaça, os Estados Unidos anunciaram, no dia 30 de Outubro, um apoio de USD 60 milhões para os esforços da Força G5 Sahel de contraterrorismo. Apoiamos uma abordagem abrangente para enfrentar o extremismo violento – uma abordagem que contemple as preocupações legítimas das populações minoritárias, ao mesmo tempo que proporciona uma resposta de segurança forte que respeite os direitos humanos de todas as pessoas. Toda a nossa abordagem governamental reflete um entendimento comum de que os terroristas não serão derrotados apenas com a força das armas. Reconhecemos que construir instituições civis e do sector de segurança fortes, bem como tratar dos factores subjacentes que alimentam o extremismo, é essencial para permitir que os africanos assumam a total responsabilidade pela luta contra o terrorismo.

O fim da segunda guerra mundial, com a vitória dos aliados, “partiu” a Coreia em duas. Não é possível a força das palavras? E reunificar as Coreias para uma só?
Sobre este assunto, a nossa principal prioridade  é proteger os Estados Unidos e o mundo contra a agressão norte-coreana. Os programas de mísseis nucleares e balísticos ilegais da Coreia do Norte representam uma ameaça inaceitável para os Estados Unidos e à segurança internacional. Os Estados Unidos pedem que a comunidade internacional, incluindo Angola, se  comprometa a implementar, de forma fiel e completa, todas as resoluções pertinentes do Conselho de Segurança da ONU e aumente, significativamente, a pressão diplomática e económica sobre o regime norte-coreano, para mudar o curso.

Não acha obsoleto o veto no Conselho de Segurança da ONU? Não deveria ser proibido os estados terem bases militares fora do seu território?
O nosso governo defende e apoia muitas reformas propostas para as Nações Unidas e veremos aonde as discussões sobre tais tópicos irão levar-nos. Há uma grande variedade de acordos de defesa entre nações soberanas em todo o mundo. Esses acordos devem ser feitos com o consentimento de nações soberanas e não devem violar leis ou convenções internacionais. Os EUA só têm uma base militar em África, no Djibouti (Jibuti). Com permissão e apoio do Governo da nação anfitriã e ao lado de bases militares similares da França e da China, o Camp Lemonier fornece uma plataforma para desenvolver a segurança e a estabilidade na África Oriental. Estamos de acordo que a ONU tem de se reformar, para responder aos desafios do século 21 de forma mais eficaz, utilizar os recursos eficientemente e de oferecer maiores benefícios aos estados membros. Os Estados Unidos vão trabalhar com o Secretário-Geral, com outros estados membros que têm a mesma visão e organizações de advocacia para apoiar essas reformas críticas das arquitecturas e procedimentos de paz, segurança, desenvolvimento e gestão da ONU.

Como observa a África Austral, com derrapagens como as de Mugabe, no Zimbabwe, Nzuma, pela nomenclatura contra a meritocracia e, mais recentemente, o Quénia?
A África é um continente jovem, que tem 54 países que já demonstraram que querem democracias transparentes. A democracia e a construção de instituições fortes levam tempo. Levou uma quantidade significativa de tempo à América para desenvolver as instituições fortes que temos hoje. Nenhum país é perfeito. Eu acredito que uma parte importante do processo de democratização é que os países incentivem a participação plena nos processos democráticos, como o direito ao voto por cada cidadão com capacidade eleitoral.
Também encorajamos os governos a dialogarem com a sociedade civil e as organizações regionais, pois podem desempenhar um papel importante no fortalecimento das normas e instituições democráticas. Tanto a União Africana (UA) quanto a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) são instituições regionais relativamente jovens, mas desempenham um papel cada vez mais influente nos esforços para promover e realizar a democracia em todo o continente.
A União Africana tem sido muito pro-activa, nos últimos anos, a condenar os golpistas e tomou medidas punitivas, como suspender os estados membros que foram tomados por governos golpistas. Da mesma forma, a SADC está a  desempenhar um papel importante para ajudar a fortalecer a democracia no continente, incentivando o diálogo regional para resolver o impasse político na República Democrática do Congo e os recentes problemas no Lesoto. Enquanto as instituições africanas continuarem a desenvolver-se e servirem de controlo contra o autoritarismo e a corrupção, tenho as melhores expectativas em relação ao futuro democrático da África.

  As letras e as artes angolanas são cheias de beleza estética


Por fim, o que me pode dizer das letras e artes em Angola e um pedido: para quando blues?

As letras e as artes Angolanas são cheias de beleza estética e com informação muito rica sobre o país. Durante este tempo que cá estou - infelizmente, já estarei a sair do país no final de Novembro -, fui ao teatro, assisti a concertos musicais e  visitei muitas exposições de artistas plásticos. Enfim, tive a grande oportunidade de conhecer Angola pela sua cultura rica e poderosa. Olha, até tentei dançar um pouco do Semba, no Chá de Caxinde.
Uma nota de realce em termos de cultura é a Trienal de Luanda, no Palácio de Ferro. Tive a oportunidade de visitá-la muitas vezes e notei que esta iniciativa valoriza e preserva a cultura angolana. Lá aprendi muito sobre Angola! Também visitei muito o Instituto Camões, para apreciar artes angolanas e o bom humor angolano ou a sátira política. São iniciativas que devem merecer mais apoio. 
Tive o privilégio de conviver com a arte fabulosa de muitos artistas angolanos de mãos cheias. A arte e a cultura africanas fazem parte da minha família. A minha filha, Adriana, trabalha na área de arte africana contemporânea em Londres e deslocou-se algumas vezes a Angola para interagir com artistas e instituições de artes e cultura angolanas. Fruto desta interacção em Angola, ela trabalhou num leilão do Sotheby’s de arte moderna africana em Londres, que teve peças de artes angolanas, incluindo do António Ole.  O meu filho Matthew também está a fazer uma pesquisa científica em Conacri, sobre a história contemporânea africana.
Quanto ao blues ou Jazz, nós já trouxemos a Angola várias bandas ou grupos de jazz, não de blues. Quem sabe se a minha sucessora consiga fazer isto. Nós brindámos o público angolano com bandas civis e militares, incluindo uma de Nova Orleães. Essas bandas actuaram grátis cá em Luanda. Infelizmente, por causa da logística, não fomos às outras províncias.
A política do Governo americano obriga a que nós não cobremos pelos espectáculos das bandas que vêm ao país, porque eles recebem subsídios do contribuinte norte-americano.

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