Entrevista

“Luanda caótica é a musa das criações da nossa geração”

Matadi Makola

Co-realizadora e produtora do filme “Para lá dos Meus Passos” , Paula Agostinho fala, em entrevista exclusiva para este caderno, sobre a génese da obra, que segue o processo de criação do espectáculo “(Des)construção”, da Companhia de Dança Contemporânea de Angola. A cineasta afirma, entretanto, que o documentário vai mais longe, abarcando a caótica cidade de Luanda como o “derradeiro palco”

Fotografia: Paulo Mulaza | Edições Novembro

Começando pelo título, “Para Lá dos Meus Passos” é suficientemente óbvio para o que se quer retratar no documentário? E como chegaram a esse título?

O título de “Para Lá dos Meus Passos” pareceu-nos uma eficaz forma de simbolizar alguns dos temas principais deste documentário. Embora tenha como ponto de partida o espectáculo coreografado por Mónica Anapaz, e apresentado pela Companhia de Dança Contemporânea de Angola (CDCA), este documentário está para lá da dança. Reflecte, através dos cinco bailarinos, sobre a convivência da tradição com a modernidade, sobre o conceito de identidade e sobre o estado precário da cultura no país - reflexões transversais a muitos artistas e muitos angolanos e angolanas.

Aproximadamente 72 minutos. Não é bastante tempo? O tema e os recursos imagéticos justificam?

Não queríamos fazer uma reportagem, nem apresentar uma abordagem superficial do processo de criação de um espectáculo, nem tão pouco dos temas que dele transbordam. Queremos que o espectador sinta espaço e tempo para reflectir. Se num primeiro momento acompanhamos o processo de criação do bailado da CDCA, de seguida quisemos dar a conhecer os cinco bailarinos de forma mais íntima, e por último acompanhar a reflexão destes sobre as temáticas principais do filme e causar uma reflexão ponderada no espectador. Quisemos provocar essa postura crítica, traduzível pelo ritmo e poética certos, a seu tempo, passo a passo.

Todos pareciam estar num ambiente íntimo, num à-vontade doméstico. Foi um projecto abraçado à primeira? Ou seja, havia essa necessidade de se fazerem ouvir?

O projecto foi, desde o começo, bem recebido pela CDCA, pela coreógrafa Mónica Anapaz e pelos respectivos bailarinos. A intimidade com os nossos personagens foi-se consolidando ao longo dos quase dois anos de filmagem. Uma Companhia como a CDCA, com quase 30 anos de existência e com um currículo de criações extenso e importante, merece ser ouvida - não só no seu perfil criativo único, com um percurso de inovação e singularidade num contexto artístico conservador e frágil em termos de autoria coreográfica; como também na ruptura estética na cena da dança angolana, criando uma linha de trabalho de intervenção social, confrontando o público com as suas histórias e realidades. Este documentário está particularmente centrado nos bailarinos e no que eles pensam sobre a obra criada para a temporada de 2017, sobre a sua identidade como cidadãos deslocados da sua província natal e como bailarinos de uma capital com interesses económicos afastados de uma prioridade cultural.

Quais foram os detalhes, ao assistirem o referido espectáculo da Companhia de Dança Contemporânea de Angola, que vos induziu a um documentário? Ou foi a mera perspicácia de cineasta a falar mais alto?

A ideia surge quando vimos o espetáculo “Ceci N’est Pas Une Porte” da CDCA. Nessa altura vivíamos um clima político tenso e activistas tinham sido presos e condenados. O país parecia estar dentro de uma panela de pressão prestes a explodir a qualquer momento. Em palco, os bailarinos dançavam confinados a pequenas caixas fracamente iluminadas, lutando para se expressar dentro de um espaço apertado e sufocante. Foi no final desse espetáculo que se implantou na cabeça da realizadora a ideia de acompanhar os bailarinos neste processo de criação de um espetáculo da CDCA para aquela temporada, desde o surgimento da ideia até à sua transformação em movimentos de dança e coreografia. “Para Lá dos Meus Passos” usou assim o espetáculo como ponto de partida para acompanhar a reflexão dos bailarinos sobre os temas explorados ao longo da peça.

Ao produzi-lo, fez-se um efeito quase poético na sequência e nos detalhes das imagens. É regra de documentarista ou foi propositado?

No documentário utilizamos os “momentos poéticos” pensados para que o espectador não só tivesse um momento de observação pura da beleza da coreografia como também atravessasse, ali, uma suspensão da narrativa e das entrevistas para um momento de reflexão crítica sobre o que teria acabado de ver ou ouvir. Estes momentos poéticos são também ilustrativos das temáticas centrais deste documentário em torno dos conceitos de identidade, tradição e modernidade, bem como na falta de apoio à cultura.
O documentário utiliza imagens de arquivo de danças tradicionais (Carnaval de Luanda, os Bakama, etc.), imagens de coreografia no Miradouro da Lua com recurso a imagens aéreas, um bailarino a dançar em vários espaços urbanos de Luanda e, no final, temos um bailarino imóvel no palco emblemático do Cine Karl Marx.

Ele saiu do espectáculo e seguiu a natureza local. Passeamos por imagens belíssimas de Angola. Quais foram precisamente estes locais? Este documentário foi o único pretexto para se chegar a estes locais? Vocês, cineastas, não se viram tentados a usá-los noutros projectos?

Angola tem paisagens de beleza indiscritível e inspiradoras para qualquer cineasta, nacional ou internacional. E o cinema deverá utilizar esta beleza com mais frequência para criar um imaginário junto dos espectadores e fazendo com que estes conheçam melhor o país. Como cineastas temos de ter a disciplina de sair da cidade capital e explorar lugares fora do centro que conhecemos, e por isso a utilização importante de imagens de arquivo de Cabinda, Zaire, Lunda-Norte e Huíla neste documentário, bem como imagens actuais captadas noutras regiões de Angola.

Luanda, o seu caos frenético, a sua postura camaleónica, a sua saúde financeira inverosímil, veio ao de cima. É certo concluir que Luanda foi um pouco o grande pano de fundo? Ainda assim, parece que ficou ali a “provocação” de um trabalho sobre esta Luanda caótica. Levanta-se essa possibilidade?

Luanda é uma personagem deste filme, tão importante como os bailarinos. Circunda-os, define-os, limita-os e desafia-os todos os dias. Como diz André Baptista no filme, de cada vez que entra para um ensaio, “o caos da cidade ainda está na (sua) cabeça.”
As imagens de natureza idílica do início do documentário contrastam, depois, com os prédios cinzentos e metálicos que crescem no centro da capital – veloz e agitada. Quisemos dar a Luanda este aspecto frio e frenético - e que causa uma mudança inevitável a quem aqui chega. Luanda - não tendo em si palcos, cinemas e teatros abertos e em condições para a apresentação de espectáculos da CDCA e quaisquer outros que se criem nesta cidade - é o derradeiro palco para este documentário. É a cidade que recebe estes cinco bailarinos, e os seus bairros, praias, velhos hotéis, campos de basquetebol e cinemas destruídos, são os espaços que acolhem as danças que filmámos. “Luanda caótica” é, desta forma, a musa das criações artísticas da nossa geração.

Contudo, manifestou a vontade de apresentar o documentário noutros pontos que não o centro da cidade. De quais locais e condições se refere, se já a partir do centro esta dificuldade se impõe?

O nosso objectivo principal a nível de distribuição é que o máximo de espectadores veja o nosso filme. Teremos uma estreia aberta ao público em Setembro, e até lá queremos levar o documentário a algumas salas de bairros da cidade de Luanda: Cacuaco, Cassequel, Cazenga, Rangel, Viana, Kilamba, etc. Para isso, é importante criarmos um novo modelo de levarmos o filme até aos espectadores - com um simples projector, colunas, um lençol branco e um ponto de energia.
Até ao final do ano gostaríamos também de levar o documentário a outras províncias do país e estamos abertos a colaborações com o circuito habitual de espaços culturais no centro do cidade: Casa Cultural Brasil Angola, Centro Cultural Camões e Mediatecas. A partir de 2020 daremos início à internacionalização do documentário, com candidaturas a festivais de cinema e posteriormente à colocação do documentário numa plataforma online de visualização.

Apesar de ser suportada por momentos de dança de determinados grupos tradicionais, a trilha ficou bastante patente. O que ditou a escolha da venezuelana Gotopo? Do ponto de vista sonoro, acreditam terem conseguido a relação mais próxima do ajustável entre som e imagens?

Decidimos ter uma equipa nuclear feminina, com realizadora, co-realizadora/produtora, editora, coreógrafa e também compositora, mulheres. Procurávamos, com a Gotopo, uma colaboração internacional, e uma musicalidade simples e minimalista que complementasse as nossas imagens ao invés de disputar por algum protagonismo com elas. A Gotopo, compositora venezuelana residente em Berlim, surgiu-nos como a pessoa certa - não só pelo perfil estético das suas composições minimalistas e electrónicas como também pela procura identitária que faz através das suas composições, criando um paralelismo temático com este documentário.

Ficou-se com a ideia de que este documentário ajudará a “descomplexar” o entendimento que se tem sobre a dança contemporânea em Angola. Ou seja, é, em parte, um meio de a melhor entender?

Esperamos, claro, que este filme ajude a entender e a conhecer melhor o excelente trabalho da CDCA. Contudo, este documentário - como o próprio título sugere - aborda temas para lá da dança contemporânea em si, explorando os conceitos de tradição, cultura, memória, identidade, questionando a transformação e a desconstrução destes temas nas próprias vidas dos bailarinos.

No final, a poesia pretendida pelas imagens surgiu, literalmente, em texto, declamado por uma mulher. Foi preciso?

O poema, com o título “I Travel Home" da poetisa nigerina e americana Iyeoka Okoawo, tinha já sido uma escolha da Mónica Anapaz para o espectáculo “(Des)Construção”. Mas por conter a reflexão sobre temas que são fundamentais neste documentário - a questão da tradição, de um passado altruísta e de memória da natureza em contraste com o frenetismo ruidoso da cidade e de um presente materialista e egoísta - quisemos prolongar a nossa colaboração internacional, incluindo também Iyeoka, para além da venezuelana Gotopo, na banda sonora. Para nós é importante este aspecto colaborativo do cinema, em que diferentes artistas - mesmo com vivências diferentes e distantes – poderão trazer camadas de sensibilidade e riqueza importantes.

Sabemos que foram aproximadamente dois anos de produção. Quanto custou o documentário?

Este documentário teve o custo total de cerca de 10 milhões de kwanzas. O investimento principal foi feito pela produtora Geração 80 e os restantes investimentos foram de contribuições particulares. É importante salientar que devido à falta de apoio financeiro ao cinema - e por não haver até hoje um concurso ou edital estadual transparente de apoio à produção cinematográfica - muitos dos produtos artísticos lançados contam com a solidariedade de profissionais que acreditam nos seus projectos e na sua concretização, independentemente das dificuldades de produção associadas.

Rebento da produtora Geração 80

Apresentado à imprensa e convidados na passada terça-feira, 16, no anfiteatro do Banco Económico, “Para Lá dos Meus Passos” é o mais novo rebento da produtora Geração 80.
Co-realizado por Paula Agostinho e Kamy Lara, a longa-metragem é um documentário que explora, em 72 minutos, o processo de criação do espectáculo “(Des)Construção”, da Companhia de Dança Contemporânea de Angola. Por outro lado, como assevera o crítico de Arte Adriano Mixinge num texto a propósito, publicado na edição da última terça-feira do Jornal de Angola, “parece ser um exercício ao mais puro estilo do cinema verité de Jean Rouch, com a sua vontade de observação e de seguimento do dia-a-dia da vida real de um grupo de cinco bailarinos”.
Paula Agostinho nasce em Angola na década de 80. Com interesse pela música, cinema e fotografia, muda-se para Portugal quando contava 17 anos, onde frequenta o curso de Artes do Espectáculo na Faculdade de Letras de Lisboa. Em 2007 termina a sua formação superior e integra diversos cursos técnicos na área da música, frequenta aulas de engenharia de som na Restart e formações de canto em aulas particulares, no espaço Evoé e no Hot Clube de Portugal.
Em 2013 regressa a Luanda, integrando a equipa da produtora Geração 80 e produzindo inúmeros vídeos corporativos e institucionais, publicidade e videoclipes, destacando-se o álbum de Nástio Mosquito - “Gatuno, Eimigrante & Pai de Família” – com o realizador Fradique.
Actualmente, participa na produção da longa-metragem de ficção de Fradique, “O Reino das Casuarinas”, em desenvolvimento; e como realizadora desenvolve o projecto de curta-metragem “Só Belo Mesmo”, ao lado do director de fotografia Sérgio Afonso.

Tempo

Multimédia