Entrevista

Luanda constrói morgues municipais

André da Costa

Dois dos maiores cemitérios da província de Luanda já chegaram a receber, cada um, entre 100 a 150 funerais por dia. .

Filipe Mahapi informou que o número de funerais está a baixar na capital angolana
Fotografia: Eduardo Pedro

Dois dos maiores cemitérios da província de Luanda já chegaram a receber, cada um, entre 100 a 150 funerais por dia. O elevado número tem vindo a baixar, nos últimos tempos, para uma média de 50, segundo o director dos Serviços de Cemitérios do governo provincial de Luanda, Filipe Mahapi, para quem o actual número é reflexo da redução do índice de mortalidade em Luanda.

Jornal de Angola – Quando é que é entra em funcionamento o cemitério de Benfica?

Francisco Mahapi (FM) – Segundo as nossas previsões, as obras terminam no final deste ano. Estamos a fazer uma obra de raiz. Neste momento, os trabalhos já atingiram mais da metade da área prevista.

JA – Vai ocupar a área em que  havia um cemitério clandestino. Que destino, afinal, foi dado aos cadáveres enterrados no local?

FM – Quando os órgãos da administração do Estado chegam a um determinado local, os cemitérios clandestinos têm tendência a desaparecer. É feita a transladação dos restos mortais do cemitério clandestino para os que estão a ser construídos ou para os cemitérios municipais.

JA – Senhor director, o registo dos corpos enterrados  foi feito?

FM – Em 2005, convocámos os familiares das pessoas sepultadas naquele cemitério. Alguns apareceram e outros não. Com o andar do tempo, por causa das chuvas, muitas campas desapareceram. Continuamos a chamar os familiares com parentes ali sepultados, por via de anúncios no jornal e na rádio. Alguns restos mortais existentes vão permanecer no mesmo sítio e outros vão para outros cemitérios.

JA – Quem deve acabar com os cemitérios clandestinos?

FM – Quem tem de estancar esse problema é a Polícia, por serem cemitérios ilegais. Antigamente, as autoridades coloniais chamavam a esses locais de cemitérios para indígenas. Estamos a trabalhar para a construção de novos cemitérios em cada município de Luanda, onde houver espaço, e acabar com os cemitérios clandestinos.

JA – Quando entra em funcionamento o velório provincial?

FM – Dentro em breve. O velório provincial de Luanda vai estar localizado junto ao Cemitério de Sant’ Ana.
  
JA – Quantos funerais por dia são realizados?

FM – De 2000 a 2002, nos cemitérios da Camama e da Mulemba chegámos a fazer 100 a 150 funerais por dia. Actualmente, estamos a fazer cerca de 50, o que quer dizer que o índice de mortalidade em Luanda está a baixar. Actualmente estimamos entre 15 e 20 mil funerais por ano
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JA
– Qual é o cemitério que mais funerais recebe?

FM – É o da Camama, por ser o mais recente e o mais disponível. Já houve épocas em que chegou a fazer mais de 150 funerais por dia. Actualmente, é o mais disponível, porque também já está a fazer exumação de corpos. Todos os corpos que fazem cinco anos, e quando as campas não são requeridas pelos familiares, são desenterrados para darem lugar à recepção de novos corpos. As ossadas são enterradas em local apropriado.

JA - Os cemitérios de Sant’Ana e Alto das Cruzes só recebem corpos que são sepultados em campas familiares?

FM – Esses dois cemitérios foram, durante muito tempo, o suporte da cidade. Actualmente, encontram-se superlotados, por isso é que existem poucos funerais neles. Durante um mês podemos ter apenas quatro a cinco funerais, feitos em campas familiares e em locais não requeridos.

JA – A lei diz que o Estado pode vender os jazigos abandonados durante mais de 30 anos. Existem jazigos à venda?
  
FM – Não há venda de jazigos em Luanda. O governo provincial de Luanda nunca alienou jazigos que se encontram nos cemitérios da capital angolana. Temos um regulamento que diz que só depois de 50 anos é que passam para a posse do governo. Nesses jazigos estão urnas com restos mortais. Só por esse motivo é que o governo provincial nunca os alienou.

JA – A construção de uma  incineradora e de gavetas é um projecto viável?

FM – As gavetas estão feitas. Já temos uma incineradora, mas estamos a ver a questão do espaço para que seja montada. Mas, no novo cemitério, vai haver um crematório. Os ambientalistas já estão a fazer o seu trabalho para que não polua o meio ambiente.

JA – Do ponto de vista legal, já é possível proceder à remoção de corpos de soldados do exército colonial português?

FM – Pelos contactos feitos com o adido militar da Embaixada de Portugal em Angola, esses corpos não vão ser retirados. Tive o cuidado de prestar atenção a essa matéria e conclui que existem poucos casos de soldados genuinamente portugueses. São, na sua maioria, luso-angolanos, cabo-verdianos, guinenses e santomenses.

JA – No âmbito da bio-segurança, que materiais são usados pelos coveiros?

FM – O governo provincial de Luanda tem tido o cuidado de comprar material, como vestuário, luvas, botas, máscaras, capacetes. Mas os coveiros, alguns, não o usam. Muitas vezes é preciso andar sempre a aconselhá-los a usarem o material.

JA – Há défice de coveiros?

FM – Já houve esse problema. Nem todos os cidadãos querem fazer esse tipo de trabalho. Dificilmente um jovem vai a um cemitério procurar emprego. Este ano o governo provincial admitiu, por intermédio de concurso público, alguns coveiros, entre os quais muitos jovens.
 
JA – Compensa?

FM – Até há bem pouco tempo, auferiam o equivalente a 150 dólares. Actualmente, já existem coveiros a ganharem 30 mil kwanzas. Reconhecemos que o salário ainda não satisfaz o actual custo de vida. No final de cada ano, temos dado incentivos aos coveiros.
 
JA –  Que novos projectos existem para a construção de mais casas mortuárias em Luanda?

FM – Todos os hospitais têm morgues. A que fica junto ao hospital Josina Machel tem capacidade para mais de 200 corpos. Estamos a construir uma nova casa mortuária no mesmo local, com capacidade para 400 corpos. Quando estiver concluída, vamos reparar a actual casa mortuária
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JA – Vão estar em todos os municípios de Luanda?

FM – Em Cacuaco foi construída uma grande casa mortuária, com capacidade para mais de 150 corpos. Está a ser equipada. Temos planos para, brevemente, construirmos casas mortuárias em todos os municípios. Estava em instalação uma casa mortuária em Viana, mas, devido à sua localização, as obras estão paradas. Os equipamentos que estavam para ser montados ali foram transferidos para a morgue do Kilamba Kiaxi.
 
JA
– O que gostava de ver melhorado nos seus serviços?

FM – As condições sociais dos funcionários, entre as quais consultas periódicas. Os trabalhadores têm de ter fé de que um dia as condições vão melhorar.

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