Entrevista

"Luanda tem tudo para dar certo"

João Dias|

O espanhol Dan Embarek é especialista em desenvolvimento de planos de negócios regionais e internacionais.

Fotografia: Kindala Manuel

Na semana passada deu um seminário, no Salão Nobre do Governo Provincial de Luanda, sobre “Barcelona Cidade Inteligente de 2015”. No ano passado, Embarek integrou o júri que classificou as cidades do mundo melhor posicionadas no que toca à gestão.
Em entrevista ao Jornal de Angola, o especialista sublinha que Luanda tem condições e potencial que a podem tornar numa cidade de referência mundial na base da resiliência, eficiência e sustentabilidade. Mas refere que são os modelos de gestão o pano de fundo para que as cidades sejam consideradas inteligentes e funcionais.
Dan Embarek defende que a gestão de uma cidade se faz com a participação dos munícipes, como intervenientes e contribuintes. Além disso, é apologista de que o sistema de governação da cidade deve sempre adequar-se à realidade dos novos tempos. O entrevistado convidou os angolanos a visitarem Barcelona, a primeira “smartcity” (cidade inteligente) do mundo.

Jornal de Angola – Hoje as cidades são construídas para serem integradas, eficientes e funcionais. Deste ponto de vista, dada a sua experiência, podíamos falar na existência da cidade ideal?

Dan Embarek –  Esta questão da cidade ideal é inalcançável do ponto de vista de realização e satisfação do homem enquanto ser com singularidades. Penso que, como seres humanos, nunca estaremos satisfeitos. Andaremos sempre atrás da perfeição, mas ela nunca chegará. Mas, se falarmos da cidade ideal como tentativa de criar algo em que nos espelhemos, então direi que existe, só que não na acepção em que pergunta. Devido à natureza humana, não chegamos a este nível. Mas há um ideal que é alcançável desde o momento em que a participação de todos munícipes se torna efectiva, porque a construção da cidade é uma soma de aspirações e vontades cristalizadas num contributo. Ainda assim, não conseguimos a cidade ideal em parte alguma, porque dificilmente ela há-de satisfazer todos em simultâneo e ao mesmo nível e proporção.

Jornal de Angola – Mesmo aquelas com uma gestão e funcionamento que se aproximam da perfeição não estão dentro do padrão de cidade ideal?

Dan Embarek – Ainda assim, não. Olhe, se lhe oferecer um fato, primeiro, terei de saber quais são as suas medidas reais e a preferência quanto à cor e ao estilo. Sem estas, por mais que queira, posso não conseguir satisfazer-lhe o gosto e a necessidade. A construção das cidades deve ser feita a olhar para as verdadeiras necessidades dos munícipes. Por isso é que insisto em dizer que a participação dos cidadãos é necessária, na medida em que eles têm sempre uma palavra a dizer. É fundamental que se tenha o contributo de cada cidadão para que se chegue a um modelo quase perfeito, que grande parte dos cidadãos se revejam na cidade e no que ela tem e dá.

Jornal de Angola – Está há poucos dias em Luanda, mas provavelmente terá procurado pesquisar um pouco mais sobre a capital angolana quando lhe foi feito o convite para cá vir. Como Luanda deve ser gerida para alcançar o nível de uma cidade inteligente e funcional?

Dan Embarek – Antes de chegar aqui pesquisei muito sobre Luanda, interagi e fiz comparações. O que devo dizer é que Luanda está no caminho certo. Luanda passa por uma etapa em que muitos países já passaram, mas penso que Luanda tem muitos aspectos importantes a seu favor e tem também o que considero ser um elemento necessário para se tornar numa cidade de referência. Angola ultrapassou um longo conflito armado, agora está em paz, estável e tem o suficiente para poder lançar-se numa verdadeira empreitada própria de uma grande “smartcity”.

Jornal de Angola –  O que o leva a dizer isso?

Dan Embarek
–  O que quero dizer com ter o suficiente? Quero dizer que Angola tem recursos petrolíferos, diamantíferos e minerais para avançar. Mais do que tudo isso: Angola é, sobretudo, um país jovem. Tenho as minhas raízes em África e sinto-me orgulhoso sempre que venho ao continente e encontro países como Angola, que dependem de si mesmos para vencer. Sinto que todo este processo está a ser feito de uma forma evolutiva  – Angola está a passar por um processo de evolução notável. O que notei é que aqui existe um sentido convergente em direcção a um porto seguro. Sinto que aqui está a ser construído um progresso, que pode ser visto como lento para alguns, mas que pode ir sem sobressaltos. O fundamental é que todos participem na construção de uma cidade que seja uma referência mundial. Quando a administração está ligada ao munícipe e ouve o necessário do cidadão, e este, por sua vez, acautela, acompanha e sugere, estão lançadas as bases para o êxito. Muitas cidades tornaram-se referência porque foram construídas nesta perspectiva. Angola tem estabilidade e todas as condições para tudo dar certo.

Jornal de Angola – Com as variáveis a que fez referência sobre o país em geral e Luanda em particular, quer dizer que, se aliarmos a estas vontade e engenho, podemos alcançar o nível de uma cidade sustentável, eficiente e inteligente?

Dan Embarek – Angola, em particular Luanda, está no caminho certo e tem um futuro promissor e conta com uma juventude que está disposta a trabalhar. Tem todo o potencial. Andei um pouco por Luanda, conversei com os dirigentes e visitei a cidade do Kilamba, que, para mim, é espectacular, apesar do que se tem dito sobre ela no estrangeiro. Existem aqueles que depreciam o projecto. Passei por lá e notei que é um lugar de convergência, na medida em que representa a coesão do país, porque acolhe cidadãos vindos de todas as partes do país. Só este facto é um ponto forte para os angolanos. Mas, respondendo à pergunta que me faz, diria que falta um pouco de autonomia dos municípios para que eles próprios tracem programas que se adequam  às suas necessidades e realidade.  O país tem potencial e recursos humanos. Naqueles casos em que os recursos humanos nacionais não responderem aos desafios, pode-se recorrer à terceirização. Quando o país sente que não tem capacidade para realizar determinadas tarefas, deve buscar peritos internacionais. Acho que Luanda tem tudo para o grande êxito como cidade de referência. Tem praias bonitas, clima favorável, cultura e um povo acolhedor. O fundamental é que o sistema de governação se adapte também aos desafios da construção de cidades sustentáveis, eficientes e inteligentes.  A situação que se coloca em muitas cidades na actualidade é que o sistema de governação tem de se adaptar aos novos tempos, em que os desafios são outros e as necessidades das cidades também. Digo isto no sentido de se dar uma certa autonomia aos municípios para poderem liderar a resolução de problemas que lhes dizem respeito e não esperarem sempre que tudo venha da Administração Central ou do Governo Central. É preciso deixar que os municípios façam a gestão dos seus próprios problemas, isso seria uma mais-valia.

Jornal de Angola –  Falou reiteradas vezes das cidades inteligentes. Actualmente, está em voga a questão das chamadas cidades resilientes. Olhando para o perfil de Luanda, o que nos diz?

Dan Embarek – Não posso adiantar soluções sem que saiba a fundo os reais problemas de Luanda. Os únicos que estão em condições de dizer com profundidade os problemas que vivem são as populações e são elas que podem levar também os projectos a bom porto, com a sua participação.
Mas, para a grande mudança, é preciso remover barreiras, que existem não pelo facto da ausência de vontade em fazer a mudança, mas simplesmente porque existem aquelas perguntas que ainda não foram respondidas. Por isso, convido-vos a irem à Barcelona para verem o que conseguimos alcançar. Desta forma, muitas questões vão ser levantadas sobre os métodos e o caminho usado para que Barcelona chegasse ao nível de primeira “smartcity” mundial. Por mais retórica e conhecimento que tenha, não posso, assim de repente, dizer o que Luanda precisa ou não. O mundo está globalizado e temos tudo para fazer um intercâmbio válido e eficaz. Só fazendo visitas a Barcelona é que vão poder ver o que vos interessa para Luanda. O que importa é trocar experiências e dialogar. Tudo está preparado para o êxito, mas é preciso remover as barreiras.

Jornal de Angola – Hoje fala-se das políticas de gestão de cidades assente em modelos holísticos e estratégicos. Qual é o significado e o alcance destes conceitos?

Dan Embarek
– Quando se fala em modelos baseados em sistemas holísticos e estratégicos de cidades, estamos a falar de modelos que são vistos como um todo. O mundo mudou de tal forma que gerir uma Administração Municipal não deve ser visto como se via antigamente. Tem de ser visto como um empreendimento. Neste sistema, o Administrador Municipal é visto como uma espécie de Presidente do Conselho de Administração de uma empresa e tem que ver quais são os investimentos que devem gerar retornos satisfatórios. Aqui, o retorno não é visto numa perspectiva de rendimento pecuniário, mas na melhoria da qualidade dos serviços e na qualidade de vida dos cidadãos. Neste sistema, o lucro é traduzido na satisfação dos munícipes. Quanto mais satisfeitos estiverem os munícipes, mais dispostos estarão em investir no município.

Jornal de Angola – Existem, de facto, muitas cidades que se tornaram referência em todo mundo. Muitas vezes mal falamos dos países de que fazem parte. Na sua opinião, Luanda caminha para aí?

Dan Embarek – A cidade de Luanda tem tudo para alcançar outro nível. Isto está claro. Mas parte da estratégia da cidade de Luanda deve girar em torno da questão de saber como ela se pode tornar numa cidade de referência.
Hoje não se fala tanto dos países como se fala das cidades. Fala-se em Nova Iorque e não nos Estados Unidos, fala-se de Londres, Paris e Roma, e pouco se fala dos respectivos países. Por que não falar de Luanda, nos próximos anos?  
Essa é uma política que deve ser preparada agora para os anos vindouros. Temos muito boas cidades em Angola, mas a cidade de Luanda devia servir de referência para os outros países africanos, e não só. Mas para isso, é preciso promover um forte intercâmbio e, mais do que isso: quando se fala de estratégia não falo apenas da nossa experiência. Luanda tem tudo de bom. Está tudo aqui, é só decidirem o que utilizar e o que fazer.

Jornal de Angola – É hora de começar a traçar o caminho para os grandes palcos mundiais e dar a conhecer a perspectiva de Luanda como cidade eficiente e funcional?

Dan Embarek – Organizámos em Barcelona, todos os anos, o encontro de cidades inteligentes. Por que razão Luanda não realiza o encontro de cidades africanas, em vez de ser sempre na Europa? Os europeus também deviam vir cá e “beber” da experiência e conhecer mais a realidade de Luanda. É o que digo: Angola tem tudo para ter cidades de referência mundial. Por que não servir do que temos aqui para ir em frente. Estou a dizer isto  porque Luanda não é a primeira cidade que passou por experiências do género. O que era o Dubai e o Qatar há pouco anos? Serviram-se do que têm e agora tornaram-se em grandes placas giratórias e é quase obrigatório passar por elas. Tiveram limão nas mãos e fizeram limonadas. Luanda tem o suficiente para fazer o mesmo. Tem em construção um grande e moderno aeroporto, tem cultura, tem história, religião, línguas e grupos étnicos. Tem tudo para se tornar numa cidade de passarelas – uma cidade que atraia o mundo! É isso que os angolanos devem ambicionar fazer e ter uma visão que traga as pessoas para conferências, “workshops” e outros grandes eventos. Luanda deve começar a jogar já nos grandes palcos mundiais.

Jornal de Angola – Geralmente, as cidades são construídas na base de metas meticulosamente delineadas. O Plano Director Geral Metropolitano de Luanda traduz isso?

Dan Embarek – Traçar metas é fundamental para a construção. Mas é também preciso rigor, disciplina e compromisso. O Plano Director Metropolitano de Luanda é fantástico, mas deve adiantar-se no tempo e tirar proveito dos recursos que existem. Obtive muita informação sobre o plano e, pelas informações que encontrei, devo deixar aqui louvores. Porém, devo acautelar que, apesar do projecto ser bom, o modelo de governação tem de se adaptar ao desenvolvimento que se pretende. Seria contraproducente construir uma cidade que teria dificuldades de gestão. O importante é criar uma cidade que se torne a longo prazo auto-suficiente e que preste serviços aos munícipes, que, por sua vez, devem ser os que sustentam a estrutura através de impostos e taxas. Mas a estrutura não pode fazer cobranças sem prestar um serviço de qualidade. É aí onde tem de se começar a ver o modelo de gestão a ser aplicado. Podemos desejar ter cidades inteligentes, mas é preciso haver uma reflexão séria e profunda sobre os desafios da sua gestão. Há uns 50 anos Dubai não tinha grandiosidade e imponência.  Hoje é invejada. Porque ouviu os seus munícipes.

Jornal de Angola – Então, quer dizer que a participação dos munícipes na concepção e posterior gestão da cidade é fundamental?

Dan Embarek – Os munícipes devem ser intervenientes nos projectos da cidade. Quanto a Luanda, parece-me estar num momento propício para se lançar no grande objectivo. Luanda tem 15 anos para amadurecer. O Plano Director 2015/2030 traça caminhos para este crescimento e amadurecimento.

Jornal de Angola – Uma cidade inteligente é, necessariamente, tecnológica?

Dan Embarek
– As tecnologias fazem parte do sistema, mas elas por si só não tornam uma cidade inteligente. Não é apenas a tecnologia que faz a cidade inteligente. Quem constrói a cidade inteligente são os munícipes como parte do sistema que tem a tecnologia como factor de facilidade na sua relação com a administração. As tecnologias fazem parte do século XXI e por isso não devem ser descuradas. Passei por algumas partes de Luanda e notei que a iluminação pública está deficiente. Que resultados é que a falta de iluminação pode trazer à cidade? Muitos acidentes na via, para não falar da segurança do cidadão. Esses são aspectos interessantes quando se fala de uma cidade inteligente. Os munícipes e as autoridades devem velar por isso. Mas aqui, se calhar, a solução passaria pela instalação de sistemas eficientes de iluminação inteligente. A tecnologia é importante, mas é o ser humano que faz as cidades inteligentes. A tecnologia é apenas um elemento que favorece o desenvolvimento humano.

PERFIL

Dan Embarek nasceu em França. Viveu durante dez anos em Londres e um ano na Alemanha. Vive há 13 anos em Barcelona. Viaja pelo mundo e desloca-se à Argélia com frequência para acompanhar o projecto de iluminação inteligente de Argel, a capital, onde tem um escritório. Em Inglaterra, trabalhou em projectos de telecomunicações e cabos de fibra óptica.

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