Entrevista

Manuel Silva "Gi" defende campeões

Vivaldo Eduardo |

Depois de ter conduzido a Selecção Nacional Sub-16 masculina de basquetebol ao primeiro título africano, em 2013, Manuel da Ressurreição Figueiredo da Silva “Gi” orientou igualmente o cinco angolano de Sub-18 que no dia 31 de Julho, em Kigali (Ruanda), recuperou o troféu continental perdido há 28 anos.

Treinador da Selecção de Basquetebol diz que os jovens campeões merecem mais carinho
Fotografia: Maria Augusta

Desde os primeiros passos como atleta do Grupo Desportivo da Banca à transição para o Ferroviário, com passagem pelo Petro de Luanda, Física de Torres Vedras e Queluz, ficamos a conhecer os detalhes da sua carreira desportiva como jogador profissional, que terminou quando completou 36 anos.

Jornal de Angola – Depois destes dois importantes títulos continentais, que visão tem do futuro. Há condições para continuar na senda das vitórias?


Manuel Silva
– Procuramos, acima de tudo, promover a melhoria técnica, táctica e mental desses jovens. A participação regular em competições de nível continental e mundial vai, certamente, ajudar muito. Começámos com o grupo de Sub-16 em 2013, onde conquistámos um título africano até então inédito. No Mundial, em 2014, já nos Sub-17, notámos uma acentuada progressão e conseguimos a melhor classificação do país obtendo o 11º lugar.
Em 2016 resgatámos o título de Sub-18, que nos escapava há quase 30 anos. Esta sequência de trabalho não está alheia à evolução e às possibilidades de continuar a trazer bons resultados para o país.

Jornal de Angola – Qual a previsão em termos de afirmação desses jogadores no escalão de seniores?

Manuel Silva – A responsabilidade pela afirmação desses jogadores, no escalão principal, está repartida entre nós e os clubes onde jogam. Como sabe, a progressão desportiva deles tem estreita relação com a possibilidade de jogar nos seus clubes. Eles trabalham cerca de três meses sob nossa orientação, quando há compromissos internacionais, e na maior parte do tempo ficam nos clubes. Alguns até evoluem fora do país. Portanto, isso vai depender muito da forma como trabalharem nos seus clubes e como vão encarar esta nova etapa da sua vida. Alguns vão encontrar muitas dificuldades, porque vão deixar de jogar no escalão Sub-18 e ingressam nas equipas principais. Vai depender também da coragem que os treinadores tiverem de os lançar ou não, mas sei que o talento existe. No imediato, pelo menos três jogadores daquele grupo devem despontar rapidamente e conseguir impor-se, segundo as minhas previsões.

Jornal de Angola - Que incentivo receberam depois da conquista do último Afrobasket?

Manuel Silva - Temos de ser honestos e não tentar escamotear a verdade. Fizemos o nosso trabalho que, por ser com jovens, é mais difícil do que trabalhar com seniores. Há muita gente à volta deles. Pais, irmãos, amigos, que influenciam muito a sua mentalidade. Quando estão connosco, durante a preparação, temos um relativo controlo sobre eles. Conseguimos sensibilizá-los para as dificuldades que o país atravessa, incentivando-os para os sacrifícios necessários. Também nos sacrificamos para que eles não se desviem do foco. No fim, eles cobram. Trabalhámos três, quatro meses com dificuldades e conseguimos ultrapassá-las. Viajámos com dificuldades, encontrámos outras dificuldades na competição e superámos todas. Depois disso, sobretudo pelo facto de serem jovens, deveriam ser agraciados, pelo menos com uma recepção, como forma de agradecimento. Existem pessoas e instituições com esta responsabilidade, mas nada disso aconteceu.

Jornal de Angola – E qual foi a reacção dos jogadores perante essa situação?

Manuel Silva
– Ainda há pouco perguntou qual a nossa previsão em relação ao futuro deles. Pois, em função disso, alguns não garantem que em próximas ocasiões estejam disponíveis para deixar os estudos e vir representar o país. Estive no aeroporto a despedir-me dos jogadores que iam para os Estados Unidos, que me disseram: “coach, até daqui a quatro anos!”. Mas eles sabem que temos um compromisso no próximo ano, que é o Campeonato do Mundo. Se calhar foi apenas ironia, mas pode não ter sido. São miúdos e, quando trabalhamos com eles, temos a obrigação de ter sempre presente esta responsabilidade.
Merecem um pouco mais de carinho, tal como dedicamos aos nossos filhos. Já não estamos a falar dos Sub-16, mas sim dos Sub-18, cujo próximo escalão é o de seniores. Creio que as entidades responsáveis deveriam recebê-los, dar-lhes um aperto de mão e, no mais breve espaço de tempo possível, premiá-los, de acordo com aquilo que estipula a lei. Porque eles também fazem planos. E, na generalidade, não têm uma vida estável, a ponto de poderem esperar um ano ou mais, para que caia o prémio. Lembro-me que em 2013, quando ganhámos o título de Sub-16, um dos jogadores que vivia em péssimas condições, com o valor do prémio construiu um quarto no quintal do irmão, onde vive até hoje. Fui para lá constatar isso e fiquei muito satisfeito, porque afinal o jovem deu um passo importante. Neste momento, por mais que eu queira começar a trabalhar daqui a um mês, por exemplo, para o Campeonato do Mundo, não tenho como confortá-los, porque as dificuldades durante a preparação são muitas. Mas, caso recebam o prémio da competição anterior, eles têm motivação para voltar ao trabalho já amanhã, se for o caso, e traçarmos objectivos mais ambiciosos. No entanto, é necessário que a outra parte faça aquilo que é devido.  

Jornal de Angola -  Como está o projecto que dirige no Ferroviário? Quando pensam chegar ao Alto Rendimento?

Manuel Silva – Fomos contactados em Março. Em Abril arrumámos a casa, criando condições efectivas para começarmos a trabalhar, e no mês de Maio arrancámos. Isto é fruto do trabalho de várias pessoas, desde o presidente Bráulio de Brito, passando pelo grande promotor e patrocinador do projecto de basquetebol no Ferroviário, que é o senhor Jorge Abreu, a vice-presidente Palmira Barbosa e praticamente toda a família do Ferroviário, incluindo os treinadores de andebol. No primeiro dia de trabalho tínhamos três jogadores, mas uma semana depois já eram 30. Nesta altura temos 130 praticantes e estamos a competir nas provas da Associação Provincial de Luanda, para os Sub-14, em masculinos. Já treinam também 30 meninas, às terças, quintas e sextas-feiras. Na generalidade, somos muito exigentes connosco e, por arrasto, com os outros agentes ligados à modalidade. Apesar do pouco tempo de trabalho, conseguimos apresentar toda a documentação dos nossos jogadores, dentro dos prazos que nos foram indicados e fazemos questão de assegurar que outros clubes cumpram estes pressupostos, visando realçar sempre a necessidade de primarmos pela organização e também para combatermos a adulteração das idades. As outras equipas participaram no Torneio de Abertura, em Março e Abril, quando nós ainda não existíamos. Entrámos directamente para o Campeonato Provincial, onde encontrámos os outros já rodados, mas ainda assim não estamos muito aquém deles. Estamos a preparar as meninas e os Sub-12. Para os femininos temos feito convívios com outros clubes, no âmbito da sua formação.
 Quando terminar a época, queremos organizar um torneio em memória de uma figura ímpar desta casa, que foi Wlademiro Romero, para agradecer por tudo o que fez pelo clube e pelo país. Vamos encetar contactos com a Associação, Federação e a família do falecido professor Romero, para que nos autorizem a implementar esta ideia. Na próxima época, para além dos Sub-14, teremos também as meninas e os Sub-16. Não queremos pensar já no Alto Rendimento. O nosso projecto é longo, com pelo menos quatro anos, onde a ideia inicial era começar com os Sub-12 e levar este grupo até aos Sub-18. Depois vamos fazer um balanço e decidir se optamos pela Alta Competição ou nos mantemos como escola de basquetebol.

Jornal de Angola – Na generalidade, os treinadores de basquetebol de Angola têm impulsionado também a progressão doutras disciplinas desportivas. Que sugestões tem sobre os caminhos a seguir pelo nosso desporto rei?


Manuel Silva
– Antes de mais, importa salientar que ninguém fica feliz quando o nosso futebol tem um mau desempenho. Isso afecta todas as outras modalidades. E por isso temos de estar solidários com o futebol. Tenho acompanhado e fico feliz pelo resultado alcançado pelos Sub-17. Estou certo de que vamos passar a eliminatória e chegar ao CAN. Há pouco tempo estivemos perto disso em Sub-20. Agora, o que precisamos evitar é que estas oportunidades apareçam esporadicamente, como que por acaso. Quase ninguém prestou atenção à equipa de Sub-17. Provavelmente as pessoas despertaram quando eles apareceram nas duas últimas eliminatórias. É fundamental acautelar as suas condições de trabalho, proporcionar a possibilidade de se gizar um plano bem direccionado a médio e longo prazos. E os intervenientes devem estar bem sincronizados. Por exemplo, a Associação de Luanda marcou recentemente alguns jogos dos clubes, que impediram os jogadores de estar na Selecção Nacional a poucos dias do compromisso internacional.

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