Entrevista

Matriz da kizomba na visão de Petchú

Jomo Fortunato|

Membro fundador do Ballet Tradicional Kilandukilu, Pedro Vieira Dias, “Petchú”, criou um método baseado num diagrama geométrico de ensino da kizomba, adoptado por escolas de dança na Europa.

Pedro Vieira Dias é Membro fundador do Ballet Tradicional Kilandukilu
Fotografia: DR

Em entrevista ao Jornal de Angola, o coreógrafo e bailarino, falou da sua carreira enquanto professor e do crescente interesse pela kizomba em todo o mundo.

Jornal de Angola - Da umbigada da massemba aos passos actuais da kizomba houve alguma evolução? No fundo, quais foram os grandes momentos históricos das danças luandenses?

Pedro Vieira Dias -
É claro que houve uma evolução desde a massemba, a grande matriz. No entanto, não podemos esquecer a influência do colorido do Carnaval, através dos grandes grupos: Kabocomeu, União Mundo da Ilha, Feijoeiros do Ngola Kimbanda, União Kiela e os Cassules do Maculusso, onde comecei, sob direção da Dona Boneca e da Dona Rosita, coordenadoras da Comissão do Bairro Maculusso, que nos contavam histórias sobre as danças de Carnaval, a sua origem e influências. Fomos o grupo vencedor do primeiro Carnaval do pioneiro no Kinaxixi, em 1979. Nessa altura eu tinha 11 anos, era percussionista e dançava como gentio. Aí começa a minha carreira artística.

JA - Com o crescente movimento internacional da kizomba, há algum risco desta dança ser absorvida por estrangeiros, refiro-me aos professores e dançarinos, ou a matriz da dança continua a ser angolana?

PVD -
A matriz da kizomba continua e vai ser sempre angolana. Existe um grande movimento na Europa de angolanos, cabo-verdianos, portugueses, guineenses, moçambicanos e são-tomenses, muitos deles residentes em Portugal, a capital da kizomba na Europa. Claro que existe uma preocupação, para que ela não seja descaracterizada pelas influências. Para que se mantenha a matriz, incluímos nos conteúdos do curso, questões relacionadas com a cultura, turismo, usos e costumes, evolução das diferentes danças angolanas, num curso denominado “Semba, Kizomba e outras danças de Angola”. Angola vai ser sempre a fonte onde as pessoas vão beber a água pura da kizomba.

JA - Conte-nos a sua história. Como entrou para o universo da dança?

PVD -
Comecei no grupo de Carnaval os Cassules do Maculusso, tinha 11 anos, com amigos e a minha irmã, Ana Maria, em 1978, para ensaiar, e depois para desfilar, em 1979, no Carnaval da Vitória no Kinaxixi. Sou da época da revolução das danças, nos anos 80, com o surgimento da vaiola, kapreco, sakaiosso, bungula, e kabetula, altura em que nasce a kizomba, período que marcou a nossa juventude. Em 1983 nasceu o Grupo de Dança Kilandukilu, do qual sou fundador, coreógrafo, director artístico, bailarino e formador, onde estou há 30 anos. Tenho 35 anos de carreira, resido em Portugal há 18 e levei para a Europa não só a kizomba, como o semba, o kuduro e a rebita.

JA - Actualmente, é possível falar da existência de uma metodologia e de paradigmas coreográficos definidos, voltados para o ensino da kizomba?

PVD -
Sim, é possível falar de uma metodologia, porque para ensinar temos de ter um objecto de ensino, ou seja, onde começa e onde acaba o passo, incluindo a fusão de passos, para que haja uma passada completa. Criei, em 1998, uma forma de ensino, que vinha da minha experiência enquanto bailarino e coreógrafo, aproveitando o que já sabia, com outra abordagem técnica, denominada “A Geometria da Kizomba e Metodologia do Mestre Petchu”, que é uma abordagem com seis passos básicos da kizomba, técnica que, actualmente, está mais desenvolvida.

JA - Tem alargado os seus contactos com professores e dançarinos de kizomba em Angola e no mundo?

PVD -
Tenho alargado o meu contacto com bailarinos, professores, antropólogos, estudantes, sobretudo os que estão no fim das suas licenciaturas, apoiando teses sobre danças africanas, relacionadas com a kizomba ou o semba. Acompanho, por vários países da Europa, o Dilson Kizomba e a Bernadeth Mabungo, um casal de bailarinos que vive em Angola e foi campeão da edição de 2009 do concurso de kizomba realizado em Angola. Esse casal já venceu o Campeonato Internacional da Kizomba, no âmbito do projecto “África Dançar” e está neste momento em digressão pela Europa, desde Abril até Dezembro. Gostava de fazer isso com mais bailarinos, mas para que tal aconteça preciso de apoios. Gostava de dar aos novos talentos da dança o que não tive no passado.

JA - No decurso do seu trabalho como professor de dança tem tido preferência por determinado cantor e compositor? Há algum que se ajuste melhor à pedagogia e aos passos coreográficos das suas aulas?

PVD -
Não tenho preferências e a razão é muito simples: enquanto professor, acho muito importante a diversidade musical dos cantores e compositores, embora cantem, muitas vezes, o mesmo estilo, mas acabam por oferecer várias escolhas. No entanto, a cadência rítmica é importante para alternar os compassos. Distinguir entre o velho e o novo, do ponto de vista musical, é uma estratégia que pode dar bons resultados.

JA - Qual é a sua opinião em relação à fusão da kizomba com outras danças, como o tango, salsa e vertente clássica, ou seja, com a dança contemporânea?

PVD -
Há um lado positivo nas fusões, porque trazem para a dança mais elementos, na sua componente artística, mas é preciso saber fazer, sobretudo a fusão dos passos. Não podemos fugir da matriz tradicional da dança, para não perder a sua originalidade, enquanto arte de raiz. Actualmente, quando vemos a nossa juventude interpretar o chamado “semba show”, notamos a base do semba tradicional, dançado nos anos 50 e 60. O novo estilo, de há dez dez anos inclui alguns ingredientes da rumba cubana, componentes do tango, ou da milonga, ritmos que nasceram em zonas habitadas por escravos. Hoje há um retorno, com novas formas de expressão, para o nosso bem-estar espiritual e físico.

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