Entrevista

Mbanza Kongo é vitória de todos

António Bequengue

Boaventura Cardoso considera a elevação de Mbanza Kongo a Património da Humanidade como o “coroar do sério e abnegado empenhamento de historiadores, arqueólogos, antropólogos e de especialistas de outras disciplinas”. O antigo ministro da Cultura lembra o “longo percurso” iniciado há dez anos, para destacar o envolvimento de organizações internacionais como a Unesco.

Historiador e antigo ministro da Cultura considera que a elevação de Mbanza Kongo contribui para o conhecimento da história do Reino
Fotografia: Santos Pedros | Edições Novembro

O que representa para si a elevação de Mbanza Kongo a Património da Humanidade?

É, antes de mais, o coroar do sério e abnegado empenhamento de historiadores, arqueólogos, antropólogos e de especialistas de outras disciplinas, que, desde há dez anos, iniciaram este longo percurso, com a indispensável participação e consultoria de organismos e organizações internacionais de que destaco a Unesco. É, igualmente, um passo importante e decisivo para o conhecimento, estudo, investigação e ampla divulgação da área cultural kongo que tem Mbanza Kongo como sede espiritual, como raiz da sua identidade cultural e que, estou certo, vai congregar todos os investigadores e estudiosos dos países que outrora integraram o antigo Reino do Kongo.

Quando começou a ser perspectivado este propósito?

Vale recordar que, depois da realização da mesa-redonda internacional sobre a área cultural kongo/teke, em Luanda, em Novembro de 1988, uma outra mesa-redonda internacional, desta feita inteiramente dedicada a Mbanza Kongo, foi realizada na capital da província do Zaire, em Setembro de 2007, que, de entre outros aspectos, recomendou: a inscrição de Mbanza Kongo na lista do Património Mundial; o reconhecimento, tanto ao nível nacional como internacional, do valor do Património Histórico-Cultural da antiga capital do Reino do Kongo; a criação de um centro de estudos da área cultural kongo.

Que outras acções foram empreendidas?

Outras acções, entretanto, foram sendo empreendidas de que destaco o colóquio internacional sobre a salvaguarda do património histórico-cultural após a guerra em Angola, que teve lugar em Paris, em Novembro de 2004; a nossa participação em vários seminários sobre o património material e imaterial, realizados pela Unesco e outras entidades afins; a elaboração e a aprovação da Lei do Património Cultural.
A par disso, importa dizer que, ao longo desse processo, o nosso país ratificou as principais convenções no domínio da cultura e do património cultural, nomeadamente: a convenção para protecção de bens culturais em caso de conflito armado (1954) e os seus dois protocolos; a convenção sobre medidas a serem tomadas para interdição de importação, exportação ilícita e transferência de propriedade de bens culturais (1970); a convenção sobre o património imaterial (2003); a convenção sobre a diversidade cultural (2005).

Porquê a escolha de Mbanza Kongo?

Vale aqui recordar que Mbanza Kongo foi a capital política e espiritual de um vasto reino, que ultrapassava as actuais fronteiras do nosso país e dominava amplas áreas da África Central. Era uma cidade opulenta, que fervilhava de gente e de novidade até ao século XVII. Hoje, dessa época gloriosa, restam-nos alguns testemunhos valiosos e o seu subsolo guarda inúmeros valores que, agora com a elevação de Mbanza Kongo a Património da Humanidade, pela Unesco, vai continuar a ser objecto de estudo e conhecimento das actuais e futuras gerações.

Como foi o trabalho de equipa na altura?

Aproveito esta ocasião para, desde já, manifestar o meu profundo reconhecimento a toda a equipa de colaboradores que comigo trabalharam na materialização deste sonho que agora se tornou realidade, muito em particular os historiadores Emanuel Esteves e Xavier Yambo, que tão cedo partiram para uma outra dimensão da vida.

O que a cultura angolana pode esperar daqui para frente, com este título?

Muito, se for desenvolvido todo um trabalho concertado com instituições de investigação, de educação e ensino, sem esquecer o papel determinante que podem ter os órgãos de comunicação social e as indispensáveis novas tecnologias de informação e comunicação. Esta questão remete-nos, necessariamente, para a importância e a pertinência da divulgação da história de Angola. É cada vez mais imperioso a mobilização da comunidade científica angolana para desenvolver projectos mais ousados que visem o aprofundamento das suas pesquisas para o enriquecimento das abordagens que se reclamam para a história de Angola.

Vê ganhos particulares para algumas áreas em específico?

Com certeza. Sobretudo para as disciplinas de história, documentação e arquivística, arqueologia e antropologia, sem esquecer o turismo.

Durante o seu mandato encontrou dificuldades ao trabalhar com este projecto? Quais?

As dificuldades encontradas decorreram do contexto em que vivíamos. Devido ao conflito armado, o sector da Cultura dispunha de um magro orçamento para as ingentes tarefas que tinha. Para além disso, havia um número limitado de quadros competentes, sobretudo historiadores e arqueólogos.


Qual é a sua opinião sobre a questão de formação de quadros, especialmente na materialização de projectos de “grande vulto” que ajudam a divulgar a imagem de Angola além-fronteiras?

Esta questão é crucial. Precisamos de mais investimentos em todas as áreas da cultura, embora reconheça o esforço que o Executivo tem vindo a empreender desde a conquista da paz em 2002. O panorama hoje é muito diferente do que tínhamos há vinte anos em matéria de quadros para o sector da Cultura.

E quanto aos ligados às demais artes?

A internacionalização da cultura nacional, no que diz respeito a áreas específicas como a música, a dança, o teatro, o cinema e o audiovisual, por exemplo, tem de passar pelo profissionalismo. Preocupa-me muito o generalizado auto-comprazimento da maioria dos nossos artistas, o que conduz, inevitavelmente, à mediocridade dos seus trabalhos. Mas a Cultura, por ser um sector muito específico, tem um qualificador de ocupações profissionais muito particular. Carece de quadros formados noutras áreas de que pouco ou nada falamos. Refiro-me aos museógrafos e museólogos, restauradores, paleontólogos, entomólogos, bibliotecários, documentalistas.

Como vê hoje o fenómeno da globalização, acredita que com a elevação de Mbanza Kongo os jovens tenham mais interesse pelo que é “nosso”?

A globalização impõe-nos a estar no mundo com uma identidade cultural própria que, enraizada na nossa história e na do nosso continente, esteja aberta ao património de valores que já pertencem a toda a humanidade. Estamos, hoje, perante novos e renovados desafios a que não podemos estar alheios sob pena de soçobrarmos como nação, num contexto mundial cada vez mais globalizado. Estamos, hoje, sob o impacto e influência directa de uma cultura cosmopolita pós-moderna, alicerçada em poderosos meios de comunicação e telecomunicação que, para além de significarem oportunidades de progresso, de poder renovar e reinventar novos valores contemporâneos, é um desafio porque cria profundas assimetrias, uniformiza, homogeneíza, marginaliza e empobrece os valores das culturas ditas periféricas. E, aqui, os desafios centram-se no domínio da cultura (também ela mundializada sobretudo na decorrência das inovações tecnológicas) e da comunicação social, cujos meios atingem uma dimensão sem fronteiras que, por outras palavras, transcendem as suas territorialidades.

Quais são, para este caso, os principais desafios?

Os desafios são grandes e o sucesso da sua concretização só ocorrerá se todas as entidades intervenientes, as organizações, instituições e os cidadãos se mobilizarem em favor do desenvolvimento cultural. Só assim, poderemos competir em pé de igualdade com os outros povos do mundo. Como foi dito na conferência de Estocolmo sobre políticas culturais, realizada em 1998, “não podemos lutar contra a mundialização, mas podemos guiá-la e reduzir o seu impacto negativo. A mundialização não é um processo metafísico, mas um processo regido por forças económicas e tecnológicas.” Para que a elevação de Mbanza Kongo a Património da Humanidade resulte em maior interesse para o que é “nosso”, é indispensável, antes de mais, tirar proveito dessa vitória da nossa diplomacia cultural.

Agora a cultura nacional é chamada no seu todo. Como avalia a questão da identidade nacional?

Parece-me, antes de mais, importante recordar que somos portadores de várias expressões identitárias no contexto nacional, sendo igualmente multiforme o modo de expressar a angolanidade. Do mesmo modo que podemos encarar a identidade nacional como um fenómeno cultural colectivo, a angolanidade, no sentido mais lato, é a síntese dos vários modos em que os angolanos expressam a sua especificidade cultural. Há que referir que, nas camadas mais jovens, há uma grave crise de identidade. Para a juventude dos centros urbanos, as referências culturais são constituídas por subprodutos culturais que são objecto de uma forte e desmedida mediatização. Os seus códigos e comportamentos não reflectem senão aquilo que os media promovem sobretudo em termos de música e de formas de estar que nada têm que ver com a nossa realidade. Porque a sociedade angolana está em interacção com o mundo moderno, há que assinalar os efeitos da cultura planetária que vão aportando às nossas terras. Se a um certo desapego pelos valores nacionais, acrescermos  a ausência de uma educação patriótica, concluiremos que a nossa juventude urbana, em particular, vive completamente desorientada, ou orientada exclusivamente para a assimilação acrítica de valores de outras culturas em detrimento dos valores culturais nacionais. Raros são os jovens que sabem, por exemplo, o que foi a gesta da luta contra o colonialismo português, quem são os nossos antepassados, os nossos heróis, numa palavra, quem somos nós.

O que podemos ou devemos fazer para potencializar a identidade nacional nesta era de globalização?

A identidade nacional é um processo dinâmico, sempre em mutação e contínua interacção com outras identidades. Ela é multidimensional e comporta várias identidades específicas. Por isso, penso que continua válido e actual o pensamento de Agostinho Neto segundo o qual “será necessário aprofundar as questões que derivam da cultura das várias nações angolanas, hoje fundidas numa”.

“O património cultural é, de um modo global, um recurso turístico a ter em conta”

Um dos ganhos possíveis com a elevação de Mbanza Congo é o sector do Turismo. Acredita que os criadores nacionais também vão poder ganhar mais com esse título?

Como já disse, tudo depende da dinâmica que se empreender a partir de agora. O património cultural, sob a forma de museus, monumentos, locais históricos e paisagens, é, de um modo global, um recurso turístico a ter em conta. O turismo cultural, actualmente considerado como uma categoria do património cultural, tem vindo a ampliar gradualmente o seu conteúdo a pontos de, hoje, o seu exercício exigir quadros com formação específica sobre o turismo e alimentar imensas e variadíssimas publicações específicas. A par disso, há que reconhecer que o turismo cultural requer um certo grau de profissionalismo associado a práticas modernas de marketing cultural. A promoção de produtos de turismo cultural exige modernização o que, em termos práticos, passa pela edição e publicação de informação documental e visual em suportes que nos oferecem hoje as novas tecnologias de informação e comunicação. No nosso contexto, o turismo cultural apresenta-se como um suporte decisivo para o desenvolvimento económico e social por ser gerador de riqueza e de emprego essencialmente para a juventude. Para que tal aconteça, é indispensável que a política económica tenha também uma dimensão cultural, por um lado, e, por outro, que a política cultural seja considerada uma componente essencial de uma política de desenvolvimento.
 
Que vantagens este processo pode trazer à identidade nacional?

De qualquer modo, a complexidade do conceito de identidade nacional decorre do facto de o mesmo se prestar a muitas associações, a outros tipos de identidade colectiva, como sejam, por exemplo, as de natureza cultural, étnica e religiosa. Desse facto, resulta que a identidade nacional não possa nunca circunscrever-se a um único elemento.
Afirmar ou questionar a nossa identidade só tem sentido se admitirmos a interacção com outras identidades, se reconhecermos a existência do “outro” que, apesar de diferente, é com ele que, necessariamente, temos que nos relacionar. Sem esse relacionamento, nem sequer se pode falar em identidade seja de qualquer tipo. Não há identidade em si, fora do confronto com outras identidades. É sempre pela alteridade que qualquer identidade se afirma.

“Hoje daria prioridade à Palanca Negra Gigante ameaçada pela caça”

Na sua opinião, existem mais outros pontos, locais ou aspectos da cultura que devem ser propostos como parte do acervo da humanidade?


Existem sim. Em 2006, o Ministério da Cultura perspectivava inscrever na lista do Património Mundial da Unesco três sítios, a saber: a cidade histórico-arqueológica de Mbanza Kongo, o sítio arqueológico de Tchitundu-Hulu e o Corredor do Kwanza.

Entre o vasto património nacional, material e imaterial, histórico e cultural, com os seus imensos recursos naturais, qual é o que vê como prioridade para ser elevado a Património da Humanidade pela UNESCO?

Mas eu hoje daria prioridade à Palanca Negra Gigante, no Parque Nacional de Kangandala. Esse antílope, único em todo o mundo, está reduzido a pouquíssimas dezenas de indivíduos e está ameaçado pela caça furtiva e, por essa via, poderá extinguir-se se não forem tomadas medidas sérias com vista à sua preservação e conservação.

Acredita que poderemos criar medidas fortes para assegurar a protecção da maior parte deste património nacional, particularmente aquele que está em risco de desaparecer muito em breve?

De qualquer modo, convém ter em consideração que a nossa Lei do Património Cultural consagra novos conceitos patrimoniais que abrangem desde o património arqueológico ao património cultural imaterial. Isto para dizer que a lista poderá ser alargada a outros bens culturais, passíveis de serem considerados naquela lista.

PERFIL

Boaventura da Silva Cardoso
Filho de Sebastião dos Santos Cardoso e de Rita da Silva Cardoso, nasceu em Julho de 1944.

Formação
Licenciado em Ciências Sociais pela Escola Superior do Partido e pela Pontifícia Universidade de São Tomaz de Aquino - “Angelicum”- Roma.

Ocupação
Deputado à Assembleia Nacional; presidente da Academia Angolana de Letras.

Cargos anteriores

Director do Inald;
Secretário de Estado da Cultura; ministro da Informação;
Embaixador de Angola em França,na Itália e em Malta; Ministro da Cultura
e Governador de Malanje.

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