Entrevista

Médica alerta para cuidados a ter com as anginas

Rodrigues Cambala |

A cardiologista pediatra Sebastiana Gamboa afirma que a amigdalite, também conhecida por anginas, pode causar problemas ao coração se não for bem tratada.

Cardiologista pediatra Sebastiana Gamboa preocupada com as anginas ou amigdalites
Fotografia: Maria Augusta

A cardiologista pediatra Sebastiana Gamboa afirma que a amigdalite, também conhecida por anginas, pode causar problemas ao coração se não for bem tratada. Médica do Hospital Pediátrico David Bernardino, em Luanda, desaconselhou os pais a colocarem objectos na garanta das crianças para tratar as anginas ou cortar a úvula, vulgarmente conhecida por “calaca”ou “campainha”. Desde Março, foram operadas gratuitamente no país 176 crianças com cardiopatia congénita e adquirida. A médica alerta que as mulheres alcoólatras e as que padecem de epilepsia podem ter filhos propensos a sofrer de alguma cardiopatia. Pediatra há 18 anos, Sebastiana Gamboa acrescenta que a sua especialidade diagnostica, em cada 20 crianças, seis a sete casos de cardiopatia.

Jornal de Angola – O que provoca as cardiopatias às crianças?

Sebastiana Gamboa – Temos cardiopatias congénitas e adquiridas. As causas das congénitas não são totalmente conhecidas, 85 por cento não têm causas determinadas. Entre as causas conhecidas encontram-se o alcoolismo materno, doenças maternas, como a rubéola, que causa uma doença grave no coração, e algumas drogas que podem fazer mal durante a gravidez. As mães, por exemplo, que sofrem de epilepsia, se tomarem os medicamentos durante a gestação, isso pode afectar a criança. Existem também algumas doenças ligadas a cromossomas que sofrem alterações.

JA – E as cardiopatias adquiridas?

SG – São consequência de uma infecção da garganta, vulgarmente chamada anginas ou amigdalite. É provocada por uma bactéria que existe no ambiente. A criança tem dores de garganta e tem as amígdalas inflamadas. Se estas não forem bem tratadas podem causar lesões irreversíveis no coração.

JA - Em caso de amigdalite, as pessoas devem limpar a garganta com objectos?

SG – Essas práticas só ajudam à disseminação da bactéria e agravam mais o problema. O tratamento da amigdalite é feito com antibiótico, que deve ser tomado durante dez dias, embora ainda haja médicos que prescrevem um tratamento de sete dias, mas nesse período de tempo, embora até possamos tratar a infecção, não erradicamos a bactéria.

JA – As pessoas insistem nessas práticas?

SG – Tudo o que é mau é rapidamente seguido. Não sei porque recorrem a essas práticas, que conduzem a várias situações cardíacas. É necessário parar com elas porque são desaconselháveis.

JA – A úvula também é uma inflamação na garganta que as pessoas tratam com objectos, não é verdade?

SG – Não, a úvula é um órgão que temos ao terminar a orofaringe e tem a forma de um dedinho. As pessoas cortam-na e isso é muito perigoso, porque temos crianças que, às vezes, chegam com hemorragias e com infecções graves. Também é totalmente desaconselhado, porque provoca problemas no coração e causa danos a outros órgãos. Mas a consequência mais grave é a hemorragia, que provoca anemia severa às crianças.

JA – Quais são as outras doenças virais que causam problemas cardíacos?

SG – A Sida pode provocar uma dilatação no coração, que chamamos miocardiopatia dilatada. Temos uma doença que é muito frequente entre os africanos, a anemia de células falciforme, que também pode condicionar problemas de coração e hipertensão.

JA – São mais frequentes as doenças cardíacas congénitas ou as adquiridas?

SG – As congénitas são as mais frequentes.

JA – Actualmente regista-se um consumo excessivo de álcool e as mulheres têm o gráfico a aumentar. Que prejuízos tem isso para os filhos?

SG – Infelizmente sim. Não sei o que se passou, porque houve esta inversão de valores, mas a realidade é que a cada dia que passa temos quatro a cinco casos de cardiopatia congénita, sendo o álcool a causa de 15 por cento dos casos. Infelizmente há muitas mulheres a consumir álcool durante a gestação.

JA – E os homens que consomem bebidas alcoólicas podem afectar o filho?

SG – Nem tanto, mas pode ter alguma afectação, embora não directa. É mais o alcoolismo materno.

JA -Algumas cardiopatias podem ser hereditárias?

SG – Algumas cardiopatias têm uma tendência familiar. Dentro das congénitas, temos a comunicação entre os dois aurículos que é de grande tendência familiar. Muitas vezes, quando temos crianças com comunicações entre os aurículos, perguntamos se existe alguma pessoa na família com essa cardiopatia. Todas as mães que têm uma criança com cardiopatia congénita, não interessa qual, têm uma grande probabilidade de, nas próximas gestações, ter filhos com cardiopatia congénita. Quan­do existem informações da mãe, é realmente mais fácil, porque nos cingimos directamente ao problema.

JA – Como são tratadas as crianças com problemas cardíacos?

SG – A maior parte tem tratamento cirúrgico, excepto as miocardiopatias dilatadas, principalmente aquelas que têm uma má função cistólica. Esse tratamento cirúrgico é muito difícil por obriga a transplante cardíaco. As outras podem ser operadas, inclusive em Luanda, onde já estamos a fazer cirurgias cardíacas a crianças na clínica Girassol e no Hospital Josina Machel. Infelizmente, algumas cardiopatias atingem uma fase que não permite a cirurgia. Nessas situações, fazemos um tratamento médico para manter a criança em vida, essencialmente à base de medicamentos para o coração, para melhorar a função cardíaca.

JA – Que sinais devem alertar os pais para a possibilidade de o filho ter um problema cardíaco?

SG – Existem vários sinais que apontam para uma eventual patologia cardíaca a crianças menores de cinco anos. Depois do nascimento, podemos notar uma dificuldade na amamentação. Se forem crianças que apenas são amamentadas, tanto a peito como a beberão, elas largam muitas vezes a mama para poder respirar, porque se sentem muitas vezes cansadas e com dificuldade respiratória. Isso pode ser um sinal de doença cardíaca. Noutras situações, é uma criança que não tem um crescimento linear. A criança com cardiopatia congénita tem um crescimento inadequado para a idade. É mais pequenina do que as outras crianças da mesma idade, com défice de altura e peso. Além das interrupções frequentes nas amamentações, é uma criança que quando está a alimentar-se faz um esforço e transpira muito.

JA – As crianças apresentam algum comportamento muito específico?

SG – Mesmo com ar condicionado, transpira muito, sobretudo quando está a amamentar. Esse pode ser um sinal de cardiopatia congénita. À medida que cresce, por existir defeito a nível do coração ou do músculo cardíaco, o coração tende a aumentar de tamanho. Esse aumento leva a que o peito não seja uniforme e fique deformado, causando uma assimetria no tórax. Aquilo a que as mães chamam tradicionalmente “giba”. As crianças com esse inchaço podem ter uma tuberculose óssea.

JA – Quando ocorre essa inflamação no tórax, os pais levam as crianças para fazer massagens?

SG – Isso é errado, porque também pode ser um sinal de doença cardíaca. As crianças maiores já são mais fáceis. Elas mesmas dizem que ficam cansadas quando fazem um pequeno exercício, que estão a respirar mal e sentem dificuldade respiratória. Se tiverem deficiência cardíaca nota-se perfeitamente o inchaço na cara. Nessas situações, as pessoas devem procurar um médico antes de qualquer tratamento caseiro. Ao pressionar o tórax está-se a causar um mau funcionamento do coração e a agravar a situação da criança.

JA – Quantos casos recebem diariamente?

SG – Por dia, são diagnosticados seis a sete casos de cardiopatia em cada 20 consultas. Antes da pediatria ter os serviços de cardiologia pediátrica, o diagnóstico era feito noutros hospitais.

JA – Há previsões de quando será possível fazer transplantes em Angola?

SG – Não sei dizer se há previsões, porque as cirurgias cardíacas simples começaram a ser feitas há uns dois ou três anos. No exterior há a vontade de se fazer transplante cardíaco, mas o material é inexistente. Encontrarmos um coração saudável e que seja compatível com a pessoa que vai ser transplantada é muito difícil e a lista de espera é enorme.

JA – Já houve muitas cirurgias cardíacas?

SG – O projecto com Israel para as cirurgias cardíacas existe desde 2008. É um projecto gratuito. Naquela altura não tínhamos cirurgia em Angola e alguns médicos israelitas vinham cá para nos ajudar a fazer diagnósticos antes de viajarem. Desde Março, altura em que surgiu a cirurgia cardíaca na clínica Girassol, coordenada por uma equipa da Cruz Vermelha, já foram operadas 176 crianças. Em Israel, desde 2008, foram operadas 71. No Josina Machel já se operaram 30 crianças com cardiopatias adquiridas e congénitas.

JA – Depois das operações, elas são acompanhadas?

SG – As crianças são seguidas pelos médicos durante dois a três anos. Se estiverem bem, têm alta da cardiologista. Aquelas que depois da cirurgia mantêm lesões residuais são seguidas. Há crianças cujo estado se agrava e depois têm de ser submetidas a uma segunda cirurgia. O tratamento de crianças com problemas de coração é grátis.

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