Entrevista

Médica especialista fala da hipertensão

Josina de Carvalho|

A implantação de “pace-maker” no coração para regular o ritmo cardíaco já está a ser feita no país por especialistas angolanos. A cardiologista Domingas Baião realiza com êxito este tipo de procedimento que melhora o estado de saúde dos pacientes.

A cardiologista Domingas Baião dá conselhos úteis aos portadores de "pace maker"
Fotografia: Kindala Manuel

A implantação de “pace-maker” no coração para regular o ritmo cardíaco já está a ser feita no país por especialistas angolanos. A cardiologista Domingas Baião realiza com êxito este tipo de procedimento que melhora o estado de saúde dos pacientes. Com o “pace-maker”, o paciente leva uma vida normal, devendo apenas ter alguns cuidados: não usar o telefone no mesmo lado onde foi colocado o dispositivo. Todas as vezes que for a uma consulta deve mostrar o seu cartão de portador de pace-maker, porque não pode fazer determinados exames, como o de ressonância magnética. A troca do “pace-maker” é feita depois de cinco a dez anos e a revisão no primeiro mês, terceiro e no sexto mês depois uma vez por ano.

Jornal de Angola - O que é um “pace-maker”?

Domingas Baião -
É um pequeno dispositivo implantado na zona peitoral esquerda ou direita por baixo da pele, que emite estímulos eléctricos de baixa intensidade, através de sondas introduzidas no coração para estimular o musculo cardíaco, manter ou regular o ritmo cardíaco.

JA - Em que circunstâncias uma pessoa com problemas no coração deve usar o aparelho?

D.B -
O “pace-maker” é prescrito quando o sistema de condução eléctrica do coração funciona mal e faz com que o coração bata muito lentamente. Esse ritmo lento dos batimentos cardíacos algumas vezes é descoberto durante uma consulta de rotina, sem o paciente ter conhecimento do problema. Outras vezes os sintomas variam: o paciente pode ter tonturas, respiração curta, fadiga, fraqueza, desmaiar ou sentir-se incapaz de realizar actividades físicas pesadas.

JA - Depois da implantação do “pace-maker”, o paciente tem uma vida normal?

DB –
Sim, mas deve ter alguns cuidados: não usar o telefone no mesmo lado onde foi colocado o dispositivo. Todas as vezes que for a uma consulta deve mostrar o seu cartão de portador de pace-maker, porque não pode fazer determinados exames, como o de ressonância magnética. Ao viajar também, para não passar pela máquina de detectores de metais, porque pode colocar em risco a vida do paciente. Deve ainda evitar passar em zonas em que existam cabos de alta tensão e o contacto com fios eléctricos não isolados ao engomar ou ao fazer uso de qualquer aparelho eléctrico, porque pode haver uma interferência.

JA - Quanto tempo funciona o “pace-maker”?

DB -
O tempo de funcionalidade varia, conforme o tipo do dispositivo e a condição do paciente. Geralmente entre cinco a dez anos. Existem pacientes que são dependentes totais deste aparelho e outros não.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          JA - O “pace-maker” pode falhar?

D.B -
Com o progresso da ciência, os aparelhos são cada vez mais perfeitos e seguros. As eventuais falhas, podem ser corrigidas através de um aparelho externo de programação. Raramente é necessário fazer outra cirurgia para resolver o problema.

JA - Com que regularidade é feita a avaliação do seu funcionamento e a troca?

D.B –
A avaliação é feita depois de um mês, no terceiro e sexto mês e depois uma vez por ano, para sabermos quando deve ser feita a troca. Este aparelho, que consome energia diariamente, indica em que dia ou mês deve ser substituído.

JA - De que países são importados os aparelhos?

DB -
Do Brasil, Alemanha, África do Sul e Estados Unidos da América.

JA - Como é feito o implante?

D.B –
Faz-se uma incisão no lado esquerdo ou direito do tórax para localizar a via de acesso ao coração. O “pace-maker tem um cabos que vão directamente para o coração. Estes cabos transmitem energia e ajuda a regular os batimentos cardíacos. A energia tem uma voltagem mínima de 3,6 a 4,0 volts.

JA - Depois do implante, há a possibilidade do paciente sentir-se mal?

DB -
Se isso acontecer, o paciente deve contactar imediatamente o seu médico.

JA - Quantos doentes são atendidos diariamente no seu consultório?

DB -
No meu consultório não faço implantes, apenas acompanhamento a três ou quatro pacientes por mês.

JA -  A doença pode ser diagnosticada em qualquer unidade de saúde?

DB -
Os técnicos de saúde e os médicos têm de ser treinados para apreender a interpretar um exame de electrocardiograma, para que possam encaminhar os pacientes aos especialistas no momento certo. Infelizmente, nem sempre têm meios de diagnóstico à sua disposição. O electrocardiograma é um exame fundamental para diagnosticar arritmias, que podem ser resolvidas com o implante do “pace-maker”.

JA - Porque razão os pacientes com doenças cardíacas tem recaídas constantes?

DB -
O tratamento é mais eficaz quando a doença é detectada precocemente. A hipertensão é uma doença crónica e com alta taxa de mortalidade. Os medicamentos devem ser de acesso fácil a todos, como são os do VIH/Sida. Porque muitas vezes faz-se a terapêutica, mas há incumprimento, por falta de recursos. Por isso, muitos retornam descompensados, agravando seu estado de saúde.

JA - O que pode ser feito como medidas de prevenção?

DB -
Deve haver em todas as unidades de saúde pelo menos um aparelho de electrocardiograma, para que sejam realizados diagnósticos simples e rápidos, e incentivo para os médicos fazerem cursos para melhor interpretar esse exame. Os medicamentos para as doenças crónicas cardiovasculares devem ser de acesso fácil. A nível pessoal, recomendo a realização anual de check-up cardiológico, a prática de exercícios físicos, dieta saudável, a evitar consumo de álcool e tabaco.

Especialista experiente

A cardiologista intervencionista Domingas Baião é, até ao momento, a única mulher angolana formada na sua especialidade. Estudou no Instituto Médio de Saúde de Luanda (IMSL) e fez a licenciatura em medicina na Universidade “Carol da Vila”, em Bucareste, Roménia. Depois do seu regresso ao país, trabalhou dois anos como médica de clínica geral no Centro de Saúde da Terra Nova.  Tem uma pós-graduação em cardiologia pelo Instituto do Coração do Hospital das Clínicas em São Paulo, no Brasil, onde também fez uma especialidade em Cardiologia de Intervenção (estimulação cardíaca artificial) através do “pace-maker” no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. A especialista trabalha em Angola desde o mês de Abril de 2010 e realizou com êxito a sua primeira cirurgia em Outubro do mesmo ano a um paciente de 61 anos, hipertenso e com arritmias no coração. Domingas Baião já implantou mais de doze “pace-maker”.

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