Entrevista

“Medidas eficazes de prevenção diminuiram a intensidade da transmissão e adiaram o pico da curva epidémica”

O coordenador residente do sistema das Nações Unidas em Angola, Paolo Balladelli considera que as acções preventivas levadas a cabo pelos Governos africanos, para aumentar o distanciamento social, o cancelamento de voos para diminuir a disseminação do vírus, bem como os testes aos viajantes, a quarentena ou isolamento dos casos confirmados e os seus contactos directos, o uso obrigatório de máscaras em locais públicos, têm-se mostrado estratégias eficazes para diminuir a intensidade da transmissão e adiar o pico da curva epidémica do novo coronavírus na região, e em Angola, em particular. “Mas não podemos desleixar a atenção às medidas de controle pois haverá, após esta, uma fase mais acelerada de transmissão”, alertou

Coordenador residente do sistema das Nações Unidas em Angola, Paolo Balladelli
Fotografia: DR

Quais foram os elementos que permitiram diminuir até agora a velocidade da transmissão em África?

O mundo continua a atravessar momentos difíceis face à pandemia da Covid-19, com mais de oito milhões de casos confirmados e mais de 400 mil mortes, até ao momento. Em África, por várias razões, a epidemia chegou mais tarde. Por um lado, a densidade populacional é mais baixa, os intercâmbios comerciais e o turismo menos intensos que nos países ocidentais. A combinação de temperaturas elevadas e climas secos, mesmo que ainda sejam precisos estudos mais profundos, pode ter sido um factor que tenha inibido uma proliferação agressiva do vírus no continente. As acções preventivas levadas a cabo pelos Governos, para aumentar o distanciamento social, o cancelamento de voos para diminuir a disseminação do vírus, bem como os testes aos viajantes, a quarentena ou isolamento dos casos confirmados e os seus contactos directos, o uso obrigatório de máscaras em locais públicos, têm-se mostrado estratégias eficazes para diminuir a intensidade da transmissão e adiar o pico da curva epidémica do novo coronavírus na região, e em Angola em particular. Até ao momento a pandemia encontra-se numa fase ainda inicial em vários países africanos, inclusive em Angola onde os casos confirmados da Covid-19 actualmente não chegam ainda a 200 infectados.Mas não podemos desleixar a atenção às medidas de controle pois haverá, após esta, uma fase mais acelerada de transmissão.

Quais são os factores chave para melhorar a resposta do país à Covid-19?

As medidas preventivas tomadas pelo Executivo provaram ser eficazes porque diminuíram de forma oportuna o alastramento da pandemia no país, proporcionando mais tempo às entidades nacionais para adquirir mais materiais de biossegurança e reagentes no país, treinar as equipas, preparar os hospitais, como o que foi construído em Viana e do qual participámos na visita com o Presidente da República, João Lourenço. Agora há que preservar os ganhos e não debilitar a resposta para evitar um ressurgir da pandemia no país. Um factor chave neste tipo de crise para a sustentabilidade dos ganhos é que haja boas parcerias entre as entidades nacionais e internacionais, de forma a permitir uma excelente coordenação na busca por melhores resultados. A ONU teve, desde os primeiros momentos de emergência, em Fevereiro deste ano, acesso à Comissão Intersectorial e a todos os Ministérios envolvidos, e até ao Presidente da República, o que foi importante para contribuir tecnicamente nas medidas adoptadas para enfrentar a crise. As Agências do Sistema da ONU, para além do apoio prestado ao Governo, continuam a colaborar com os demais parceiros. E,para contribuir para o desenvolvimento sustentável do país em tempos de Covid-19, foi criado um grupo de trabalho, composto por parceiros internacionais para o desenvolvimento, que têm partilhado informações e experiências para acelerar a cooperação com o país e apoiar a resposta nacional.

Qual é o contributo das Nações Unidas na resposta à pandemia?

O Secretário Geral da ONU, António Guterres, lançou em Março deste ano o Plano Global de Resposta Humanitária de USD 2 bilhões de dólares para combater a Covid-19 nos países já fragilizados com situações humanitárias anteriores à pandemia, e por isso mais vulneráveis, que foi mais tarde revisto e actualizado para USD 6.7 bilhões de dólares. Este plano é o principal instrumento da comunidade internacional para a captação de recursos na resposta aos impactos humanitários da pandemia. A ONU formulou também a nível mundial um Quadro para a Resposta Socioeconómica que,complementando a resposta médica liderada pela OMS, define 5 pilares de intervenção; Saúde, Protecção Social, Economia e Recuperação, Macroeconomia e Colaboração Multilateral, Coesão Social e Resiliência das Comunidades. Em Angola, a resposta da ONU e parceiros assenta na resposta médica e nos pilares das soluções económicas, alinhando-os e integrando-os nas acções relativas à Covid-19 às áreas definidas no Quadro de Cooperação com o Governo de Angola para o período de 2020-2022.
Para a resposta inicial, foram reprogramados fundos deste quadro de parceria na ordem dos 12.5 milhões de dólares para actividades relacionadas à Covid-19, que actualmente são complementados por 3.5 milhões de dólares para um apoio humanitário para reforçar a resiliência e segurança alimentar das famílias das áreas rurais no Sul do país afectadas pela seca.OMS, FNUAP, UNICEF e FAO estão a implementar essa iniciativa humanitária nas províncias do Cunene, Namibe, Huíla e Cuando Cubango, que dá continuidade a um projecto anterior, financiado pelo mesmo escritório no valor USD 6.5 milhões de dólares.
A melhoria na capacidade de testes, equipamentos médicos e tratamento, estão a ser tratadas pela OMS com o Ministério da Saúde (MINSA), e outras agências da ONU têm participado em intervenções directas com o Governo em diversas áreas. No âmbito de materiais e suprimentos médicos, está actualmente disponível um Portal Virtual, ao qual têm acesso o Governo e parceiros internacionais para realizarem aquisições críticas para enfrentar a pandemia no país. Esse sistema é implementado pela OMS, outras agências da ONU e parceiros, e está integrado num serviço global de voos gerido pelo PAM que permitirá transportar tanto os materiais de biossegurança como outras necessidades.
A FAO tem trabalhado com o Governo, Instituições Financeiras Internacionais e o Sector Privado para aumentar a produtividade agrícola,salvaguardando as condições de segurança face à Covid.O PNUD, UNICEF, FNUAP, ACNUR, PAM, ONUSIDA e as demais agências, têm apoiado com questões ligadas à manutenção de direitos fundamentais e protecção de grupos vulneráveis,e dos mais pobres em geral. Como mencionado antes, é extremamente importante evitar que se agravem condições de vulnerabilidade das camadas mais pobres da população nesta fase de crise.
No âmbito do mercado informal, principal responsável pela segurança alimentar de milhões de famílias, a ONU tem apoiado o Governo na adaptação dos mercados para que as actividades comerciais sejam realizadas em segurança. O PNUD está também a apoiar na capacitação de facilitadores no âmbito policial, para melhorar a compreensão e comportamento das forças de segurança com a população em cenários de emergência, e tem ainda apoiado na formação de jovens e no programa acelerado de ‘incubação’ de pequenas e médias empresas.O UNICEF por sua vez tem apoiado o Ministério da Acção Social, Família e Promoção da Mulher (MASFAMU) para reforçar a protecção social da população, incluindo a implementação de um projecto piloto de transferências sociais monetárias financiado pela União Europeia.

A ONU acha que seja oportuno continuar com medidas sanitárias quando o problema actual da população é mais de tipo económico?

O dilema e a necessidade de escolha entre a luta médica contra a Covid-19 e a economia do país é apenas aparente. A Saúde e Economia são um binómio inseparável: sem uma economia saudável não será possível criar bem-estar para a população angolana, e sem saúde não é viável o funcionamento da economia. Por esta razão, a transição de Estado de Emergência para o de Calamidade, em que se mantêm várias medidas de segurança e prevenção anteriormente sugeridas no Estado de Emergência, como o distanciamento físico, mas volta-se gradualmente à vida normal com a integração dos protocolos estabelecidos, é uma decisão lógica e acertada, sendo importante não diminuir a atenção de todos para evitar uma futura aceleração da transmissão do vírus e, consequentemente, do aumento de infectados. Temos que aprender a conviver com o vírus.
No plano internacional estão a decorrer várias iniciativas de apoio aos países no âmbito do financiamento e para melhorar a sustentabilidade da dívida externa. No âmbito da solidariedade internacional também há que considerar o acesso à vacina para a Covid-19 para a qual ainda serão necessários vários meses de estudo e testes clínicos para de seguida produzí-la em quantidades que garantam o acesso universal, sendo um exemplo de um “bem público global”.

Não seria melhor focar exclusivamente nas necessidades da nossa população, em vez de ter Angola preocupada do que acontece no plano internacional?

A pandemia mostrou-nos de forma muito clara que vivemos num mundo globalizado, no qual já não é possível trabalhar isoladamente, e que as soluções devem ser colectivas e abrangentes. Por este motivo, trabalhar num contexto nacional sem procurar reforçar a coordenação da pandemia a nível global, determinaria que alguns países que não responderam de forma séria e eficaz afectassem também os que têm vindo a trabalhar bem. Nesse âmbito, a ONU, e em particular a OMS, com outras entidades multilaterais têm procurado trabalhar com os governos para reforçar as acções globais, regionais e nacionais.

Uma última pergunta: qual é a sua opinião sobre a origem do vírus?

Acredito que o novo coronavírus é o resultado negativo de uma gestão global não sustentável de recursos O. A aceleração artificial e exagerada de processos naturais com o uso de hormonas e outras substâncias na produção de carnes e ovos, a transformação genética de plantas e alimentos, assim como a exploração insensata e poluição ambiental, determinam maiores riscos de mutações em organismos animais e vegetais. Este vírus poderia ser interpretado como uma resposta da natureza para se proteger de uma atitude predadora do homem, virada exclusivamente aos interesses económicos e de poder. De alguma forma esta é uma mensagem que a natureza nos envia para repensarmos a forma como vivemos, cuidarmos da natureza e aprendermos a conviver com ela.

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