Entrevista

Miguel Hurst : “Acho que o Estado ainda está de costas viradas para o cinema”

Francisco Pedro

Com o surgimento da pandemia Covid-19, os “Lives” têm sido a saída preferencial para divulgação de eventos culturais, bem como a interacção entre produtores e consumidores de bens artísticos, com recurso à Internet. Em entrevista ao Jornal de Angola, o actor Miguel Hurst descreve quão emocionante tem sido conduzir os debates em “Cinema no Sete&Meio”, todas as quartas-feiras (18h00). Em dupla com o colega Orlando Sérgio, fala-nos dos seus sonhos, da falta de investimento ao sector do cinema por parte de alguns países africanos, que no seu entender se deve à grande falta de entendimento sobre as mais-valias económicas e sociais da indústria cultural.

Actor caracteriza as razões do fraco investimento à Sétima Arte
Fotografia: DR

Como surgiu a iniciativa “Cinema no Sete&Meio”?

A iniciativa começou em Março, a convite da KinoYetu, aceitei ser o curador de vários ciclos de cinema na Galeria e Jazz Bar Sete&Meio, na baixa de Luanda. Fizemos cinco exibições antes de entrarmos em Estado de Emergência por causa da pandemia que ainda nos assola. Em casa, ao falar com a minha namorada, Maria João Leitão, ela teve a ideia de eu fazer um “Live” devido às circunstâncias, era o formato que melhor se adequava. Falei com o actor Orlando Sérgio e surgiu a ideia dos “Lives no Cinema no Sete&Meio”.

Quem sustenta, ou paga, o sinal da Internet ao longo de duas horas de conversa?

A promoção das nossas conversas é assegurada pela Associação KinoYetu, que nasceu com a intenção de produzir, promover e divulgar o cinema angolano. Portanto, é esta associação que nos patrocina, tendo nós um apoio incansável da gerência do Sete&Meio. O Artur da Silva, no clique da minha câmara vagabunda, é o nosso técnico de apoio.

Como têm ultrapassado os constrangimentos que, às vezes, ocorrem no fornecimento de energia e no sinal da Internet?

Ultrapassar os constrangimentos causados pela instabilidade da rede de televisão a cabo que utilizamos tem sido frequente. Felizmente, usamos um “streaming” razoável que nos tem permitido fazer os “Lives” com poucas falhas. Há dias em que de repente desaparece um convidado, mas depois de algum tempo, ele consegue continuar a acompanhar a conversa. Mas para dizer a verdade, todas as quartas-feiras, dia do nosso “Live”, temos o nosso “coração nas mãos”, pois a rede da TvCabo não nos permite trabalhar com confiança. Falha constantemente.

Quais são os critérios de selecção dos convidados e temas?

Sou muito amigo e camarada de trabalho do Orlando Sérgio há mais de 40 anos. Além de termos feito várias produções em conjunto, a nossa convivência tem-se pautado muito, por preocupações nas áreas em que estudamos juntos no Conservatório de Lisboa-Escola Superior de Teatro e Cinema.
Portanto, o interesse e conhecimento que nos une gira muito à volta do sector do cinema e do teatro. Tendo isto em conta, é natural que depois de dois dedos de conversa, rapidamente nos lembremos de nomes a entrevistar e de temáticas a debater. O Kiluanjikia Henda, que acompanha esta aventura desde o pri-meiro convite formulado por ele membro da KinoYetu, também opina e discute o evento (Live) connosco.

Neste mês de Agosto, homenageiam Ruy Duarte de Carvalho. Essa homenagem ocorre com a participação dos cineastas Zezé Gamboa e Maria João Ganga?

A homenagem a Ruy Duarte de Carvalho foi estudada com muita cautela. Com Maria João Ganga e Zezé Gamboa tivemos, no dia 12, uma conversa sobre o trabalho dele e sobre o estado passado, presente e futuro do cinema angolano. Claro está que a homenagem a Ruy D. de Carvalho está presente em todos os nossos “Lives”.

"Perspectivas de Arquitectura" foi o tema de um dos “Lives” com Maria João Teles Grilo e Paula Nascimento. Por que a arquitectura em Cinema no Sete&Meio?

Tal como a escrita e a música, a arquitectura esteve sempre ligada à Sétima Arte. Desde os cenários aos espaços de filmagens exteriores, esta arte teve sempre uma ligação profunda com o cinema. Falar sobre cinema sem abordar perspectivas arquitectónicas, no contexto dos nossos “Lives” não faria sentido algum. As pessoas raramente entendem o cinema como tal, mas olhando para ele transversalmente, a arquitectura passa a ser uma temática obrigatória de ser abordada. Espaço, luz, cidades, cenários... A arquitectura é um dos elementos omnipresentes nos filmes. Temos de entender isso para saber interpretar o cinema, os filmes como devem ser interpretados.

Que leitura faz da realidade angolana sobre a Sétima Arte?

Tive o prazer de ter aceite o convite e de assumir o cargo de director do Instituto Angolano de Cinema, Audiovisual e Multimédia (IACAM) a 16 de Agosto de 2003. Foi uma altura em que o cinema angolano mostrou a sua nova existência. Desde então, tenho vindo a assistir a um novo fôlego no cinema feito por angolanos e no cinema feito em Angola. Houve três fases distintas com: “Herói”, “Na Cidade Vazia”, “Batepá” (primeira fase). “Assaltos em Luanda” (segunda fase). Agora, estamos numa nova fase que tem 3 a 4 anos. Posso dizer que tem havido ousadia, persistência, coragem, “savoir faire” e uma enorme paixão no fazer cinema num país e num Estado que não apoia esta arte.

Tem esperança de que Angola possa, um dia, construir uma verdadeira indústria do cinema?

Depende de como definimos a palavra "indústria!. Se entendermos indústria como um conjunto de actividades relativas à transformação de matéria bruta (neste caso filmes, câmaras, som, luz etc.) em bens de produção e consumo, tenho a impressão que estamos ainda muito longe de termos algo parecido com uma indústria. Porém, acho que as produtoras e as produções estão a ganhar qualidade. Acho que o excesso de quantidade ainda mina a linguagem que pode um dia alavancar o nosso cinema. Tenho cuidado em utilizar o termo "indústria" pois creio que este somente poderá ser afirmado, quando tivermos políticas culturais que nos permitam ter uma constância de produção, um mercado conquistado e uma qualidade inequívoca.

Na sua opinião, por que é que os empresários e estadistas africanos não investem quase nada neste sector?

Acho que a generalização desta pergunta não corresponde ao panorama global do nosso continente. Temos países africanos em que o investimento, tanto público quanto privado, é melhor que noutros. Basta olhar para a África do Sul, Tunísia, Egipto, Burkina Faso, Senegal. Nestes países, há compreensão dos chefes de Estado e dos chefes de Governos para um apoio inequívoco na área da Sétima Arte. Nós, aqui em Angola, infelizmente, não podemos festejar este facto. Porquê? Acho que tem havido, por parte do Estado, uma postura incrédula para com os artistas. Acho que o Estado ainda está de costas viradas para o cinema e não só. Tenho a impressão que existe uma grande falta de entendimento absoluto, sobre as mais-valias económicas e sociais que uma indústria cultural forte e bem estruturada pode dar de benefício a Angola.

É indispensável a prática de associativismo no sector do cinema e audiovisual?

O associativismo é, por si só, uma manifestação de um interesse comunitário. Sendo o trabalho na área do audiovisual, em que o cinema se engloba, um trabalho de grupo, penso que o associativismo é necessário em variadas vertentes. Com isso, defendo que as áreas técnicas e criativas deveriam ter estas manifestações sociais e colectivas bem acentuadas e apoiadas pelo Governo.

“É um erro canalizar esforços criativos somente para datas comemorativas”

Algum plano em “Cinema no Sete&Meio” para a celebração dos 45 anos de Independência Nacional?

Somos artistas e agentes culturais. Respeitamos a soberania do nosso Estado e valorizamos a nossa Independência. Isto não quer dizer que tenhamos de celebrar, artisticamente, todos os aniversários do nosso país. Creio que é um erro tremendo cana-lizar os esforços criativos e artísticos somente para a celebração de datas comemorativas de um país. É uma postura pouco lógi-ca, incongruente, nada inovadora e de uma gestão económico-social muito pobre e devastadora.

Qual é o seu sonho enquanto actor?

Hummm... Ter o papel principal em variadas produções cinematográficas e teatrais, com realizadores e encenadores sensíveis, cultos, atrevidos, astutos, rebeldes e... simpáticos.

Sente-se, realmente, um profissional do cinema?

Sim. Também me sinto, “realmente”, um profissional do teatro!

...E o teatro tem sido ocasional?

Sempre fiz teatro, tanto como produtor, encenador e actor. Esta minha paixão jamais será ocasional. A verdade é que vivemos num país em que as nossas expressões são renegadas a um estado ocasional. Somos os “profissionais do de vez em quando”.

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