Entrevista

Morangos da Humpata têm uma grande procura

Estanislau Costa | Lubango

Quais têm sido os maiores desafios dos produtores?

Neste momento, os principais desafios são a aquisição de divisas para a importação de plantas e todos os insumos (matéria-prima) necessários para produzir o fruto, como por exemplo as cuvetes, o plástico e os adubos.

Fotografia: Estanislau Costa | Lubango

Por outro lado, é preciso não esquecer, que as plantas têm de ser encomendadas com um ano de antecedência e só são produzidas com o pagamento de um depósito. Tentamos ultrapassar os desafios diariamente e fazer o nosso trabalho o melhor que conseguimos. 

Como avalia a produção de morangos em Angola?

A produção de morangos ainda é escassa. Que eu saiba, só a fazenda Jamba, da qual faço parte, e a Agrolider é que produzem morangos. Para nós, este foi um bom ano, pois aumentámos significativamente o número de plantas e, consequentemente, contamos com grande produção do fruto, para conseguirmos dar resposta ao Candando, o qual tem sido a nossa maior aposta. 

Porquê a aposta neste produto?

Apostamos neste produto porque temos bons solos e bom clima. A fazenda está situada a 2.000 metros de altitude onde, no Verão, temos temperaturas baixas durante o dia, facto que não condiciona a produção. Já no Inverno, as temperaturas são baixas e o clima é seco, incentivando também a produção de flores. Por outro lado, temos uma nascente natural que usamos para regar os morangueiros e solos com o PH ideal para a produção de fruto grande e doce.

Como é que o mercado tem recebido este fruto?

Tem recebido muito bem. A fazenda Jamba já está na produção de morangos há 12 anos e sempre houve muito boa recepção do nosso produto por parte dos clientes. Agora, alargámos mais a nossa produção, com a ajuda prestada pelo Candando. Com as vantagens climáticas e geográficas, conseguimos produzir um fruto saboroso que muito agrada aos clientes.

O produto nacional tem qualidade para exportação?

Sim, sem dúvida. Produzimos produto com qualidade igual ou superior a muitos países que já visitei e não ficamos nada atrás no que diz respeito à qualidade. Com o clima que temos, podemos produzir morangos mais meses por ano e, assim, podemos ter o fruto em alturas diferentes de outros países e é uma opção para exportar.
 
Quais são as possíveis aberturas de mercado para o morango angolano?

Como disse, com o clima propício à cultura de morangos, podemos ter produção de qualidade o ano quase todo e, assim, exportar para Portugal por exemplo, que tem uma janela limitada de 4 a 6 meses por ano no Verão para a produção. Realço ainda que a vizinha Namíbia não produz morangos, recebe os que vêm da África do Sul. Assim, podemos competir com a África do Sul, pois a nossa fazenda está a 1.000 km da capital da Namíbia - Windhoek e, desta forma, fornecemos para este país com mais qualidade e a preços mais baixos do que eles.

Qual tem sido o preço dos morangos nos últimos meses?

O preço dos morangos aumentou por causa da situação económica do país. Temos de fazer algumas importações, nomeadamente os morangueiros e as cuvetes, entre outros materiais. Contudo, estamos a estudar a forma de começar a fazer as mudas de morangueiros em Angola, pois isso iria diminuir o preço drasticamente.

Que investimentos estão a ser feitos para os próximos anos nesta produção?

Este ano, já plantámos 12 hectares de morangos, investimos em sistemas de bombas e outras variáveis para irrigar e plantar 40 hectares, que é o nosso plano para o próximo ano. Aí, teremos uma produção significativa e evitamos a importação.

Como é que os produtores estão a enfrentar a crise económica?

A crise teve impactos negativos e positivos. Pelo lado negativo, quase levou à paragem completa da produção de morangos na fazenda Jamba. Só para exemplificar: o ano passado, apenas plantámos 64 mil plantas, comparado com as 400 mil que costumávamos plantar. Mas nem tudo foi mau. Conseguimos arranjar um contrato exclusivo com o Candando e estamos a vender toda a produção de morangos. O ano passado, não tivemos produção suficiente para saciar as encomendas.

Que acordo estabeleceu com o Candando e qual o impacto que esta iniciativa teve na produção e nos lucros do produtor?

O Candando fez com a fazenda Jamba o que sempre sonhei ter: um contrato de entrega exclusivo de produção. Para mim, é o ideal, pois, nos anos passados, tínhamos de produzir, transportar, distribuir e depois fazer cobranças. Com o surgimento do Candando, posso fazer o que mais gosto que é produzir e entregar com qualidade e já não tenho de me preocupar com mais nada. Assim, tenho dedicado mais tempo na melhoria da cultura e qualidade do fruto. Saliento que o Candando fornece-nos as caixas normalizadas para o transporte do morango, garante-nos o transporte aéreo do produto, fazendo com que ele chegue à loja em menos de 24h00 após ser colhido e também ajuda na aquisição de muitos insumos necessários para a produção. Além disso, os pagamentos são justos e sem demora. Não podia ser melhor.

  Redução da importação levou o sector a aumentar a eficiência

De que forma, acordos semelhantes estão a induzir a aplicação de tecnologia para a produção no campo?

Com a grande redução de importação, temos de aumentar a nossa eficiência na produção nacional para podermos saciar a escassez de frutos, cereais e hortaliças.

Que vantagens o acordo com o Candando trouxe ao sector neste sentido?

Este acordo com o Candando permite que tenhamos logo a produção vendida e ajuda-nos também na aquisição de novas tecnologias e apoia-nos na gestão. Assim, aumentamos consideravelmente a produtividade e a qualidade dos produtos, tornando também Angola num país auto-suficiente em produção nacional e não só.

Como antevê o futuro da Fazenda Jamba nesta nova dinâmica?

Após a consolidação efectiva do acordo com o Candando, prevemos que a fazenda faça um aumento gradual da sua produção actual, o suficiente para aumentar consideravelmente os postos de trabalhos e especiá-los na produção do fruto.

Tem algo interessante que gostaria de revelar?

Convidamos os consumidores a preferir mais a fruta, fundamentalmente a nacional, pelo elevado valor na manutenção da saúde e melhoria constante da boa disposição. Assim por ser também uma oportunidade dos produtores nacionais mostrarem todo o seu potencial criativo nesta época de crise financeira mundial, em que a agricultura desempenha um papel fundamental. Hoje podemos mostrar que além do petróleo temos potencial para produzir e exportar outros produtos.

Perfil

Nome
Yudo Borges

Idade
34 anos

Formação
Bacharel em Gestão de Fazendas

Curso
Universidade Metropolitana Nelson Mandela, África do Sul

Hobbies
Fazer mergulho, andar de mota e ginásio

Leituras
Aprecia livros motivacionais

Casado e pai de um casal

Tempo

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