Entrevista

Mortes por doença do sono reduzem no Kwanza-Norte

Manuel Fontoura| Ndalatando

A província do Kwanza-Norte registou, em 2010, um baixo índice de mortalidade por tripanossomíase graças às campanhas de prospecção activa e passiva realizadas pelos técnicos locais do Instituto de Controlo e Combate à Tripanossomíase (ICCT), apoiados pelo Ministério da Saúde e o Governo da província.

Chefe de Departamento Francisco Manuel
Fotografia: Manuel Fontoura

A província do Kwanza-Norte registou, em 2010, um baixo índice de mortalidade por tripanossomíase graças às campanhas de prospecção activa e passiva realizadas pelos técnicos locais do Instituto de Controlo e Combate à Tripanossomíase (ICCT), apoiados pelo Ministério da Saúde e o Governo da província. O Jornal de Angola traz à estampa uma entrevista com o chefe de departamento provincial do Kwanza-Norte do ICCT, Francisco António Manuel, que nos faz compreender melhor a situação desta doença, que é endémica nesta província.

Jornal de Angola - Depois de muitos anos de luta contra a doença do sono, o quadro continua a ser preocupante?

Francisco António Manuel -
O combate e controlo da doença do sono na província do Kwanza-Norte continua. A situação continua a preocupar-nos, dada a especificidade da doença. É do interesse do Estado e do Executivo, assim como dos técnicos, autoridades administrativas e população em geral, ver esta enfermidade erradicada. Isso é possível. Seria um grande ganho erradicar esta doença do território da província, em particular, e do país, em geral.

JA - Que passos concretos estão a ser dados para atingir este objectivo?

FAM -
Temos estado a registar dificuldades nas actividades que têm a ver com a consciencialização da população. Dada a acalmia que se faz sentir nos últimos tempos, à volta desta patologia, há quem pense que a doença do sono já não existe. E isso não é verdade, porque a doença do sono ainda é uma realidade na nossa província. É bem verdade que já não se morre tanto de doença do sono como no passado. Isso está a fazer com que algumas pessoas interpretem isso de forma diferente, como se fosse o fim da doença.

JA – Quais são os dados da doença do sono relativamente ao ano de 2010, no Kwanza-Norte?

FAM –
No ano passado, registámos 56 novos casos da doença, com um morto, num universo de 59 mil e 923 indivíduos prospectados. Isso não deixa de ser um progresso, se olharmos para o passado, em que anualmente registávamos entre 30 e 50 óbitos. Significa dizer que o esforço do Ministério da Saúde, do Governo provincial e das autoridades sanitárias da província tem surtido os efeitos desejados. Queremos melhorar cada vez mais os nossos serviços para, de uma vez por todas, deixarmos de registar óbitos.

JA - Todos os municípios dispõem de centros de diagnóstico e tratamento?

FAM -
Ainda não. Apenas os municípios de Cazengo, Lucala, Cambambe, Kikulungo, Golungo Alto e Ambaca dispõem desses serviços. Nos outros municípios temos problemas de infra-estruturas e de falta de pessoal técnico. Ao estendermos a nossa actividade a todos os municípios vamos precisar de muito mais pessoal. Mas isto não nos cria embaraços porque nas áreas que até aqui não cobrimos as populações recorrem aos chamados  centros estratégicos. As populações do Ngonguembo, por exemplo, são atendidas no Golungo Alto. Kikulungo joga um papel estratégico porque pode atender o Bolongongo, Banga e Samba Cajú. É nosso sonho voltar a ver as instalações do centro de tripanossomíase do município do Samba Cajú recuperadas, por ser dos maiores do país e que foi destruído durante a guerra.

JA - A província toda é considerada endémica? Qual é o município mais afectado?

FAM -
O município de Cazengo, pelo número de habitantes, continua a liderar a lista de casos, seguindo-se o de Cambambe, onde cerca de 50 por cento dos doentes diagnosticados e tratados são provenientes da vizinha província do Kwanza-Sul. Devo dizer também que a fraca adesão das populações nos tem dificultado o controlo dos doentes escondidos nas várias comunidades. Enquanto a nossa população não mudar de consciência e entender a necessidade urgente de lutarmos para uma rápida erradicação desta doença, vai ser muito difícil obtermos bons resultados.

JA - Quais as estratégias de combate à doença e ao seu vector, a mosca tsé-tsé (glocina palpales)?

FAM -
As estratégias montadas pelo Instituto de Controlo e Combate à Tripanossomíase têm a ver, primeiramente, com a prospecção e exame rápido de rotina, por parte daqueles que recorrem às consultas externas nos municípios onde existem centros de diagnóstico e tratamento, para se saber se são ou não doentes. Só depois eles devem marcar as suas consultas. Isso está a fazer com que um maior número de doentes seja prospectado nas campanhas passivas, que são realizadas nos centros.

JA – Que outras medidas estão a ser tomadas?

FAM –
Uma outra medida tem a ver com a campanha, que será retomada a partir dos próximos dias, de prospecção activa, da luta antivectorial e da criação de novas estratégias montadas em todos os municípios, através dos responsáveis de sectores e centros de saúde. É importante que a luta antivectorial seja feita em simultâneo com as prospecções activas, para que, realmente, os trabalhos de combate à doença do sono tenham um impacto positivo.

JA – Quantas armadilhas foram colocadas no ano passado, em toda a província?

FAM -
Foram colocadas cerca de duas mil e 295 armadilhas em quase toda a extensão da província, excepto no Bolongongo, onde fomos distribuindo apenas algumas armadilhas aos fazendeiros que recorreram aos nossos serviços, reclamando contra a presença de muitas moscas à volta das suas aldeias e campos agrícolas.

JA –  E como estamos, quanto à luta antivectorial?

FAM -
  Na última reunião de balanço que fizemos, na presença do ministro da Saúde, foi baixada a orientação de que as campanhas deviam ser realizadas, se necessário, durante onze meses, apesar do facto das chuvas provocarem dificuldades de acesso e destruírem grande parte das armadilhas montadas. Em termos de luta antivectorial não estamos tão mal porque o Executivo foi definindo novas estratégias. Para além das armadilhas, temos outras armas de combate contra o vector. Lançámos em Calulo, no ano passado, um programa de fumigação e pulverização nas áreas endémicas.

JA – Qual é o contributo da máquina "Dinafog" disponibilizada pelo Ministério da Saúde?

FAM -
O Ministério da Saúde disponibilizou para o Kwanza-Norte uma máquina "Dinafog", que nos está a ajudar na luta contra o vector. A máquina funcionou em finais do ano passado em várias localidades e fazendas do município de Cazengo, para além de algumas áreas de Cambambe e Lucala. Este ano, vamos estender os trabalhos aos restantes municípios, no sentido de proteger grande parte da população da mosca tsé-tsé. Esta actividade vai funcionar em paralelo com a colocação de armadilhas, para apanharmos as moscas que, passados alguns dias, podem vir de outros locais. Este ano, contamos com mais um aparelho de pulverização, para assim atingirmos todas as áreas endémicas.

JA – Fala-se em sabotagem das armadilhas, por parte de alguns populares. Isso é verdade?

FAM –
É verdade. Esta situação acontece em algumas zonas, por pessoas desconhecidas, criando assim imensas dificuldades às equipas. Para nós é melhor que as armadilhas se mantenham onde foram colocadas, porque foram postas ali com uma estratégia e conhecimentos científicos. É em tais locais que devem permanecer. O baixo nível de captura da mosca tsé-tsé, nos últimos tempos, resulta da falta de colaboração dos cidadãos.

JA – Qual é o número de armadilhas sabotadas?

FAM -
Foi saqueado um total de 185 armadilhas. Quando colocámos as armadilhas, orientámo-nos através de um mapa, para depois conseguirmos lá chegar para fazer a recolha. Mas fomos vendo que, em muitos locais, as armadilhas são retiradas por pessoas desconhecidas. O grande problema é que estas pessoas não sabem que o Executivo gasta muito dinheiro para adquirir este material. Cada armadilha pode custar entre dez e 17 dólares, dependendo do país de origem.

JA –  Pode dizer-nos o número de moscas capturadas em 2010?

FAM –
No último ano foi possível recolher apenas 23 mil e 941 moscas, o que não nos satisfaz. Mas não acreditamos que seja apenas este o número de moscas capturadas, porque tivemos problemas com a sua recolha, por falta de captores.

JA – E o que aconteceu com os habituais captores?

FAM -
São pessoas que não são funcionários públicos. São pessoas imbuídas de boa-fé, que nós sensibilizamos para nos ajudarem e a quem contemplamos com alguma coisa. No ano passado, por exemplo, disponibilizámos algumas bicicletas para facilitar a sua movimentação. Mas à medida que o tempo foi passando, eles foram exigindo de nós uma remuneração, coisa que não temos onde tirar. Daí que começámos a encontrar dificuldades. Sem o pagamento que pretendiam, os mesmos começaram a abandonar os trabalhos. Tentámos explicar-lhes que a única forma de os ajudar era inseri-los no programa da luta antivectorial, para que, quando os técnicos fossem remunerados, eles também beneficiavam. Mesmo assim não obtivemos sucesso e em muitas áreas não pudemos recolher as moscas, como pretendíamos.

JA – E qual é a situação dos medicamentos e meios técnicos?

FAM -
Em termos de material de apoio e fármacos não temos razões de queixa. O Difluor Metil Ornidyl (DFMO), introduzido no âmbito de uma estratégia internacional para o tratamento da tripanossomíase africana, vulgo doença do sono, tem chegado à província de forma regular. O DFMO é reconhecido internacionalmente como medicamento de primeira linha para o tratamento da doença do sono. Substitui o Arsobal, que era mais tóxico e influenciava a taxa de mortalidade. Para além desse tipo de fármaco, a província dispõe de outros medicamentos específicos para o tratamento da doença do sono e outros de suporte, que servem para combater as patologias associadas à pandemia. Como sabe, os sintomas da doença do sono assemelham-se aos da malária, febre amarela e outras doenças.

JA – Qual é a duração do tratamento da tripanossomíase?

FAM -
O tratamento é feito em apenas 14 dias, em quatro doses diárias, de seis em seis horas. O indivíduo é submetido a um controlo pós-tratamento de, pelo menos, dois anos, para se saber se, de facto, o tratamento surtiu os efeitos desejados. O paciente submetido ao tratamento da doença do sono não pode ser portador de outras patologias. Se for portador, eliminamos primeiro essas patologias e só depois o submetemos ao tratamento específico da doença do sono.

JA – Quanto tempo é possível viver com a doença do sono?

FAM -
As pessoas podem viver com a doença do sono mais de cinco anos, com sintomas ligeiros que as mesmas ignoram, deitando culpas ao plasmódio, que causa a malária. Acabam muitas delas por falecer devido ao avançado estado da doença e à chegada tardia ao hospital. O indivíduo infectado ou doente é uma fonte iminente de propagação da doença do sono. Um doente numa determinada comunidade pode constituir um perigo para os outros membros, uma vez que é a fonte principal da doença.

JA – Para a realização do vosso trabalho, quanto é que o Instituto de Combate e Controlo da Tripanossomíase gastou no Kwanza-Norte, em 2010?

FAM -
Os gastos do ano passado rondam os sete milhões de kwanzas. Ainda não é suficiente para levarmos a cabo a nossa actividade, pois, segundo uma estimativa feita localmente, são necessários 17 milhões de kwanzas anuais para cobrirmos as populações de toda a província e apoiarmos, condignamente, as quatro estações móveis, que são compostas por dez técnicos cada.

JA – E quanto à questão de recursos humanos e viaturas? As necessidades estão satisfeitas?

FAM –
Ainda não temos pessoal técnico suficiente. O estatuto do nosso departamento prevê cerca de 105 profissionais, mas neste momento temos apenas 84 em toda a província. Destes, 52 são enfermeiros e muitos prestam serviço no laboratório, embora não estando devidamente formados para o efeito. O resto é pessoal de apoio. Temos quatro viaturas a funcionar em bom estado. Outras viaturas estão avariadas, mas estamos a tratar da sua reparação, para que estejam a funcionar antes do início das actividades deste ano. Nesta altura, precisamos de carros fechados, que permitam o transporte dos técnicos para o campo.

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