Entrevista

"Mostramos ao Mundo uma Angola renovada"

António Bequengue |

Angola e Marrocos são os únicos países africanos com pavilhão próprio na Exposição Universal de Milão, os restantes estão confinados em espaços temáticos, disse ao Jornal de Angola a comissária-geral de Angola na Expo Milão.

A comissária-geral de Angola na Expo Milão 2015 faz o retrato da participação no evento e destaca a importância de atrair investimentos
Fotografia: Paulino Damião

Albina Assis, que também preside ao comité director dos comissários-gerais, garantiu que Angola é dos poucos países que respeitaram o tema central da Expo e o Pavilhão nacional tem recebido em média de seis mil visitantes por dia. À semelhança das edições anteriores, o país organizou uma série de actividades para assinalar o 25 de Maio, Dia de África.



Jornal de Angola - Além de comisária-geral de Angola, a senhora também preside ao comité director dos comissários-gerais da Expo Milão 2015. Quais as dificuldades que os países africanos apresentam?

Albina Assis  -  Alguns países africanos apresentam algumas dificuldades, porque estão a funcionar quase todos em espaços temáticos, sobretudo aqueles países que estão a ser ajudados pelo país organizador. As coisas não lhes correm a 100 por cento, por estarem a fazer a Feira de uma forma dependente.

JA – Que ajudas são essas?

AA
- São ajudados em termos de elaboração de pavilhão e hospedagem. São situações que às vezes não correm tão bem. De qualquer forma, os organizadores estão a tentar reduzir ao mínimo as dificuldades.

JA – Angola é um dos poucos países africanos com pavilhão independente na Expo Milão 2015.

AA
– Com pavilhão independente estamos nós e Marrocos. Todos os outros africanos estão em espaços temáticos. Mas também aí há diferentes níveis de participação e nem todos estão sob a mesma dependência. A Argélia está num espaço temático, mas fez o seu pavilhão. Muitos fazem, mas a maioria tem de depender de ajudas. Angola tem o seu pavilhão independente, mas não deixa de ser um país africano e tem algumas responsabilidades para com os seus irmãos africanos. Temo-los ajudado, não financeiramente, mas do ponto de vista de solidariedade social, como sempre temos feito. Por isso, dizemos sempre que o Pavilhão de Angola é a casa dos africanos.

JA – Antes desta Expo, que espaço tinham os países africanos?

AA
– Os países africanos ficavam num pavilhão comum, o chamado Pavilhão Africano. Esta Expo trouxe uma novidade, os espaços temáticos, que são pavilhões em que se associam grupos de países por temas. Por exemplo, o espaço temático do cacau associa não só os países africanos produtores, mas também os da América Latina e outros. Há vários espaços temáticos, como o do café, dos cereais, cacau, frutos, legumes, arroz, biodiversidade meditarrânica e da zona árida, em que se associam, além de países africanos, latino-americanos e asiáticos.

JA – A 25 de Maio comemorou-se o Dia de África. Que actividades  para assinalar a efeméride na Expo Milão?

AA
–Por tradição, comemoramos o Dia de África na Expo com manifestações conjuntas com os outros países africanos. Nós temos tomado a iniciativa, porque faz parte da nossa cultura. Costumo dizer que este Pavilhão é uma parte de Angola no exterior e, por isso, as nossas tradições são mantidas. Este ano, para o Dia de África, temos um programa, estabelecemos um programa e o lançamento da nova edição do livro de Óscar Ribas sobre alimentação regional.

JA – Porquê Óscar Ribas?

AA
– Escolhemos Óscar Ribas por ser o primeiro angolano que escreveu sobre gastronomia regional africana. Vamos ter também disponíveis algumas informações sobre o que representa para nós o Dia de África, a fundação da antiga Organização de Unidade Africana, que é hoje União Africana. Vamos convidar a comissária-geral do Zimbabwe, país que detém a presidência da União Africana, para proferir algumas palavras.

JA – Que outras actividades estão programadas?

AA –
Estamos a pensar escrever à organização da Expo para que nos autorize a realizar uma passeata, partindo do Pavilhão da Angola, passando por todos os espaços temáticos, sobretudo onde estão países africanos. Vamos levar os nossos batuques. Pensamos, no período da tarde, realizar um desfile de moda, em que vamos associar modelos de outros países africanos e europeus, porque achamos que o Dia de África é uma data global. Na última Expo, passou connosco uma congolesa e um coreano e foi bastante interessante esse envolvimento. Vamos ter também actividades culturais, em que vão participar o músico camaronês Blick Bassy e o nosso Gabriel Tchiema, um artista pelo qual temos muita simpatia por conseguir juntar o antigo e o moderno. São poucos os cantores que conseguem fazer isso. Gabriel Tchiema, quando lhe sobe a africanidade e amarra um pano à cintura, é lindo de se ver. Que eu conheça, em Angola só há dois casos: Gabriel Tchiema e Mito Gaspar. Vamos ter apenas uma pequena confraternização, devido aos problemas que estamos a viver.

JA – A nossa participação na Expo tem também como objectivo atrair investidores para o país.

AA
–Quando vimos cá para fora, o principal objectivo é mostrar uma Angola nova, uma Angola em movimento e, neste momento, devido à nossa situação sócio-económica, todo o angolano tem como missão tentar atrair investimentos para o país, porque a diversificação da economia só vai ser uma realidade se tivermos um grupo de investidores capazes de nos ajudar a reverter a situação de dependência do petróleo para a dependência de outros produtos renováveis. O grande mal do petróleo é ser um produto não renovável, que a seu tempo vai desaparecer. Temos de transformar os rendimentos do petróleo noutras situações de sustentabilidade, investindo na agricultura, pecuária e, sobretudo, na indústria agro-alimentar.

JA – Angola é dos poucos países que respeitaram o tema central da Expo, com o seu subtema “Alimentação e Cultura: Educar para inovar”.

AA
– Fomos considerados um dos países que respeitaram o tema. No centro do nosso Pavilhão, temos aquele embondeiro com imagens femininas. Procuramos colocar a mulher no centro das atenções, por ser ela a responsável, a todos os níveis, pela alimentação. Além de Angola, só a Itália, Santa Sé e uma empresa respeitaram o tema central da Expo Milão.

JA - Que balanço faz da participação angolana nas primeiras duas semanas de Expo?

AA -
O balanço é positivo. Numa Expo com tantos pavilhões e países, no segundo sábado depois da abertura tivemos mais de nove mil visitantes, sobretudo famílias. Isso significa que o nosso pavilhão tem algo que merece ser visto. A nossa média diária é de seis mil visitantes. As pessoas que visitam o nosso Pavilhão, pelo menos aquelas com quem tenho tido o prazer de falar, dizem que a nossa exposição é atraente e humana. Muitos dos visitantes nunca ouviram falar de Angola. Estamos a mostrar o tradicional e o moderno. Temos também os dois restaurantes, o popular e o laboratório. Todos os visitantes querem provar a comida angolana.

JA - Já está definido o que vai ser feito do Pavilhão depois da Expo?

AA
–Isso está definido desde o princípio. Nós levámos o projecto da participação de Angola na Expo ao Conselho de Ministros e foi decidido numa sessão da Comissão Económica que o Pavilhão retorna a Angola.Vai ser desmontado e levado de volta ao país. Se for decidido superiormente outra coisa, também vamos respeitar.

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