Entrevista

Municipalização do desporto torna as equipas mais fortes

Vivaldo Eduardo |

António Pedro Garcia Monteiro “Bambino”, secretário-geral do Comité Olímpico Angolano (COA), assume, sem hesitação, que o Olimpismo não está suficientemente disseminado em Angola e aponta o dedo a quem entende que seja responsável:

António Pedro Garcia Monteiro “Bambino” avança ideias para melhorar o desporto em Angola
Fotografia: Eduardo Pedro | Edições Novembro

Que intervenções tem o COA agendadas, ao longo da presente Olimpíada, junto das modalidades que nos têm representado nos Jogos Olímpicos, no sentido de optimizar o desempenho desportivo dos atletas ao longo do Ciclo 2017/2020?

O Comité Olímpico é responsável pelos atletas, depois destes se qualificarem para os Jogos Olímpicos. Esta é a norma e, prevalecendo estas regras, que não foram alteradas, tem sido esta a prática. Enquanto eles não se qualificam, não estão sob nossa alçada. Estas são as regras definidas desde a constituição do COA. Obviamente, entendemos que isto não chega e procuramos estender o nosso apoio para lá deste aspecto legal. É neste sentido que temos procurado apoiar todas as modalidades. Reconhecemos que não temos conseguido, como é normal, chegar a todas elas como desejaríamos, mas pelo menos temos conseguido centrar-nos naquelas que entendemos que possam de alguma forma apurar-se para os Jogos Olímpicos. Ainda assim, não conseguimos ainda implementar uma velha estratégia do Comité Olímpico que é a elaboração de contratos-programa, que precisamos de instituir no país e deverão prevalecer por um período de quatro anos, para permitir que potenciais atletas qualificáveis aos Jogos Olímpicos tenham melhores condições de preparação e de apuramento.

E qual tem sido a dificuldade? Depende de que condições?
Até ao momento, temos de reconhecer que ainda não fomos suficientemente expeditos e capazes de implementar esta estratégia. Precisamos de estabelecer uma parceria com o Governo. A verdade é que ainda não conseguimos, mas continuamos a trabalhar nesse sentido, ainda que tal aconteça somente na próxima Olimpíada, pois, para a presente, já estamos atrasados.

Que alternativas têm usado para poder efectivar este apoio ao longo do Ciclo Olímpico?
Temo-nos socorrido de outras valências que existem junto do Comité Olímpico Internacional, que são as bolsas desportivas concedidas aos atletas. Infelizmente, isso só acontece nos últimos dois anos, antes dos Jogos Olímpicos. Para Tóquio’2020 as bolsas começam a ser concedidas apenas em 2018, e não em 2016, como desejaríamos e seria o ideal, para termos atletas a prepararem-se para os Jogos durante todo o Ciclo. Obviamente, estas bolsas de dois anos devem ser bem encaminhadas àqueles atletas com boas possibilidades de se apurarem, como é, de resto, o objectivo das próprias bolsas.

Essas bolsas podem elevar a qualidade dos atletas apurados?
O foco do Comité Olímpico Internacional é precisamente ter cada vez mais atletas apurados, com marcas que vão permitir a manutenção da habitual qualidade competitiva do evento. Tudo fazemos para que os nossos atletas tenham acesso a estas bolsas. É  mais fácil centramos a obtenção destas bolsas nas modalidades individuais, pois é muito complicado fazê-lo para as modalidades colectivas, embora haja outro tipo de apoios que possam ser conseguidos para as disciplinas colectivas, durante a fase de apuramento. E já o fizemos. Num passado recente fizemo-lo com o basquetebol e andebol, modalidades que foram apoiadas durante a fase de preparação. Foi, essencialmente, de ordem financeira, porque ainda não conseguimos definir um quadro para materializar de outra forma o apoio às modalidades colectivas.

Como tem sido a relação com as modalidades individuais?
Com as modalidades individuais tem acontecido com naturalidade. Já beneficiaram o ténis, a natação, o judo, o tiro e o atletismo. Quase todos os atletas que beneficiaram das mesmas conseguiram chegar aos Jogos Olímpicos, o que nos prova que esta estratégia tem sido bem adoptada. Reconhecemos que isso não é suficiente. No futuro temos de fazer mais, para assegurar maior número de atletas apurados para os Jogos Olímpicos e mais modalidades.

Porquê que na prática esta ideia não se concretiza?

É preciso fazer uma retrospectiva em relação à política do país relativamente a este assunto. Ainda no tempo do ministro Barrica, após os Jogos Africanos de Joanesburgo, em 1999, percebendo que ficámos muito aquém do objectivo preconizado, no quadro de medalhas, entendeu-se a necessidade de maior apoio às modalidades individuais. Nós, oriundos destas modalidades (eu era presidente da Federação de Natação), obviamente ficámos satisfeitos e expectantes de que uma posição nossa, de muito tempo, fosse materializada, face à compreensão demonstrada pelo governante.
Acreditámos que esta política iria finalmente ser implementada. Debalde! Isso não aconteceu e não acontece até agora, passados quase 20 anos. Continuamos ainda a pensar dessa maneira, mas sem nada fazer nesse sentido. Quando digo isso, não é com intenção de desinvestir em alguma modalidade desportiva. Sabemos que as disciplinas individuais são aquelas que permitem um apuramento mais rápido e mais facilitado. Nunca conseguimos apurar-nos no futebol, no voleibol de campo, etc. Só temos conseguido chegar lá nas duas modalidades em que somos campeões de África. Nas restantes, não.

Mas, a aposta nas modalidades individuais é um desejo antigo?
As disciplinas individuais têm muitas medalhas em disputa. Logo, se quisermos ficar bem colocados no quadro geral, sabemos todos que, enquanto uma modalidade colectiva vale apenas uma medalha, um atleta individual pode conquistar três ou quatro. Nos Jogos Africanos de Abuja’2003, a Tunísia levou um nadador que ganhou oito medalhas e, por si só, ficou à frente da maioria dos países do continente, com excepção da África do Sul e da Nigéria. Portanto, não temos dúvidas em relação a isso. Mas não podemos ficar apenas pelas palavras. Temos que materializar esta nossa intenção de investir mais nas disciplinas individuais! Vejamos o apoio directo às federações. Aquelas que gerem os desportos individuais recebem menos apoio financeiro do Estado.

Que lógica sustenta essa política na alocação de recursos?
Tem sido esta a prática. Aqui tem havido uma faca de dois gumes. O Governo desafia as federações a obterem resultados desportivos relevantes, para merecerem mais apoio. Estas, por seu lado, referem que para obter melhores resultados precisam de mais apoio. E aí ficamos a tentar inverter este quadro, o que não tem sido fácil, ainda que, ocasionalmente, se note o grande esforço das federações e dos clubes, principalmente na progressão técnica dos seus atletas, facto que se pode transformar, mais tarde, no topo da pirâmide, numa melhor qualidade dos nossos representantes para os Jogos Africanos e Olímpicos.

Diante deste quadro, faz todo o sentido afirmar que o problema é financeiro?

O grande “handicap” do nosso Comité Olímpico é a falta de capacidade financeira, que nos torna completamente dependentes das dotações do Estado. Na Ásia e Europa os comités são muito fortes, porque são completamente independentes do poder político dos países. A “sponsorização” que têm permite-lhes fazer uma preparação com dignidade e qualidade, seja qual for o número de atletas que apurem. Por exemplo, o Comité Olímpico dos EUA fica com dez por cento de todas as receitas que conseguem obter para o Comité Olímpico Internacional. Estamos a falar de receitas que ultrapassam os cinco mil milhões de dólares. O Comité Olímpico norte-americano tem acima de 500 milhões de dólares para apoiar a sua empreitada olímpica, além de outros patrocinadores directos que elevam esta fasquia para valores próximos dos mil milhões de dólares. Portanto, é um Comité Olímpico que não precisa do seu governo para preparar os atletas olímpicos. Consegue fazer as coisas de forma segura e atempada, porque sabe qual é o caminho. Nós também sabemos, tal como as federações desportivas igualmente conhecem estes procedimentos. Infelizmente, não temos meios para achar este caminho. Os americanos, europeus e asiáticos conseguem isso.

Que falta aos países africanos para dar tal salto?

Em África temos o velho problema de a “sponsorização” não ser ainda capaz de dar independência económica aos comités olímpicos e continuamos dependentes do apoio que o Estado possa fazer chegar ou juntar aqueles apoios que vamos conseguindo fora, junto do Comité Olímpico Internacional, para tentarmos potenciar e melhorar os nossos atletas. Fazemos um levantamento das nossas principais modalidades individuais, com possibilidade de se apurarem, tendo como base dados que, se calhar, não serão muito justos para aquelas modalidades que nunca se apuraram e que eventualmente tenham alguém com possibilidade de o fazer. Mas, atendendo aos meios que dispomos, são esses dados que nos permitem capitalizar os esforços para essas modalidades. Fizemos um levantamento e temos na Base de Dados o atletismo e a natação, porque são as modalidades da Universalidade dos Jogos, o tiro, o judo, o boxe e a canoagem. Na nossa estratégia inicial não incluíamos a vela, nem o remo, que passaram a estar incluídas para o Ciclo 2016/2020, fruto da boa prestação que tiveram nos últimos quatro anos. Não constavam da estratégia gizada para os Jogos do Rio de Janeiro, mas fomos agradavelmente surpreendidos com a sua qualificação, e ainda bem que assim foi.

Este é o melhor critério para a melhoria que procuram?

Salvo melhor opinião, este tem sido o critério que assumimos ser discutível, mas que só falhou em duas ocasiões. Nos casos da vela e remo, no Rio de Janeiro, e no caso da Selecção Feminina de Basquetebol, em Londres, onde tínhamos as baterias viradas para a qualificação da Selecção Masculina e quem o conseguiu foi a Feminina. Reconhecemos que a nossa estratégia é susceptível de falhas, tal como são todas as outras, mas basicamente temos acertado naquelas modalidades que elegemos como tendo fortes possibilidades de se apurar…
Em Londres também o voleibol de praia se apurou sem estar nas contas…
Exactamente, foi uma teimosia de dois atletas, que não se pouparam a esforços para conseguir o apuramento. Estiveram fora de Angola durante muito tempo. Vinham ao país buscar recursos para se manterem nos circuitos internacionais, porque esta era a única forma de se qualificarem. Teriam de pontuar nestas provas. Dos nossos parcos recursos, nós, Comité Olímpico, financiámos duas participações nestes circuitos, porque acreditávamos nos atletas, na sua determinação e no objectivo que eles tinham fixado, embora as possibilidades não fossem grandes. Na verdade, as hipóteses eram mínimas. Tanto foi assim que conseguiram o apuramento seis dias antes dos Jogos começarem.

Foram obrigados a fazer uma inscrição já no palco dos Jogos?

Já tínhamos a caravana olímpica quase toda em Londres e os atletas não estavam ainda apurados. Tivemos de fazer essa inscrição, assim, à última hora, e ainda bem. Foi uma experiência boa para eles, algo que teve um final feliz, sendo uma boa forma de terminarem as suas carreiras. Mas foi realmente na base da determinação dos atletas, obviamente apoiados sempre pela sua Federação e por pessoas anónimas que apoiaram financeiramente a participação da dupla nos circuitos internacionais, numa altura em que já havia indícios da crise financeira que acabaria por se agudizar.

“A pretensão do Comité Olímpico Internacional é evitar estabelecer concorrência”

E o futebol. Por que terá o desporto rei pouca representatividade no olimpismo angolano?
Até ao momento, o futebol ainda não tem, ao nível do olimpismo, o poder mediático que tem, por exemplo, nos campeonatos da Europa ou do Mundo. Não é alheio a isso a pretensão do próprio Comité Olímpico Internacional de evitar estabelecer concorrência do Torneio Olímpico de Futebol com o Campeonato do Mundo. É por esta razão que nos Jogos só podem participar atletas Sub-23, acompanhados de dois acima desta idade. O interesse pelo futebol nos Jogos Olímpicos cresceu um pouco nas últimas edições. Porém, está longe das principais atracções. Por exemplo, os bilhetes para o atletismo, para a natação e a ginástica esgotam-se um ano antes dos Jogos começarem e os do futebol não. Mesmo tendo em conta que a capacidade dos estádios é maior, é visível que o interesse ao nível do olimpismo ainda não é tão grande.

O futebol tem grande popularidade entre nós?
Reconhecemos que é o desporto-rei e, internamente, mantemo-lo sempre nas nossas expectativas de qualificação. É a única modalidade que integra essa perspectiva de apuramento desde sempre e que, infelizmente, até ao momento nunca conseguiu a vaga olímpica. Acredito que uma qualificação desta modalidade iria, seguramente, despertar maior interesse dos Media, da “sponsorização”, do olhar do mundo desportivo, etc., porque não podemos descurar a força que o futebol tem.
E o COA equaciona a possibilidade de catapultar o futebol nacional, por via do apoio directo à Selecção Olímpica?
Isso é um facto, mas ainda não conseguimos encontrar uma forma de potenciar um apoio directo ao futebol. Estamos a falar de uma modalidade que trilha os seus caminhos, tem uma competição interna regular e boa no escalão principal, mas não está tão bem nos escalões de formação. Não temos um campeonato regular no escalão de juniores. Normalmente, juntam-se por 15 dias numa província e jogam uma competição que define um campeão. Deveria disputar-se uma prova regular no escalão de juniores, juvenis e infantis. Só assim poderíamos ter uma Selecção Olímpica forte, com boas hipóteses de conseguir o apuramento. Isso iria implicar um esforço, dos clubes em primeiro lugar, e não sei se existe algum clube com capacidade financeira para suportar as despesas inerentes a esse quadro competitivo. Uma competição semelhante à dos seniores para os juniores e juvenis, pelo menos.

“Estamos amarrados às regras do Comité Olímpico Internacional”

Essas dificuldade são sentidas até na principal competição?
No próprio Girabola. Muitos clubes enfrentam dificuldades para terminar a prova. Paira sempre o espectro da desistência. Se isto acontece no escalão principal, não custa imaginar o que pode ocorrer nos escalões mais jovens. Uma das possíveis soluções seria a municipalização do desporto. Precisamos de ter municípios fortes, numa modalidade que seja. Nem sempre terá de ser um clube multidesportivo. Basta que tenha alta qualidade no andebol, no basquetebol ou no futebol. Que na modalidade eleita bata o pé aos clubes de referência do país.

E como efectivar esse desiderato?

Para isso acontecer, o município onde o clube é criado deve beneficiar do apoio de todos os extractos sociais locais. Falo numa só equipa, para que não pese financeiramente no orçamento do município. Mas penso que é perfeitamente possível formar uma equipa forte em cada município do país. Já aconteceu no passado. Tivemos uma equipa do ARA da Gabela, muito forte, apoiada essencialmente por fazendeiros locais e a indústria do café. Tivemos a mesma experiência no Namibe, com o Independente do Porto Alexandre, etc. Este poderá ser um caminho a seguir, para que possamos ter esses campeonatos a funcionar. Se os municípios principais tiverem equipas, rapidamente poderemos ter o desporto com maior qualidade e deixaremos de ter campeonatos de basquetebol e andebol feminino com meia dúzia de equipas. Essa municipalização iria permitir que os campeonatos fossem jogados por períodos mais longos.

O COA apoia quando as modalidades conseguem o apuramento. O basquetebol feminino qualificou-se, com alguma surpresa, para Londres’2012 e a seguir decaiu bastante, em termos competitivos. A responsabilidade é apenas da Federação ou repartida com o COA?
Relativamente à selecção de basquetebol, posso dizer que, sem querer fugir das nossas obrigações, quase que a cem por cento deve ser imputada responsabilidades à própria federação, ou aos agentes desportivos do basquetebol. Porque não há como o Comité Olímpico intervir na competição interna e nas respectivas selecções. O nosso apoio é prestado após o apuramento. Se quisermos apoiar, estamos amarrados às regras do Comité Olímpico Internacional. Só o podemos fazer, por exemplo, na sua caminhada para a competição de apuramento aos Jogos. Nesta competição pode haver um apoio do COA. Nas restantes, não. Esta última prova, onde ocupamos o 6º lugar, não é qualificativa aos Jogos Olímpicos e, obviamente, estava fora da nossa alçada. Ainda assim, como espectador atento, devo dizer que a Selecção teve muito azar, porque tudo correu mal no dia em que nada deveria correr mal. Antes tivemos uma prestação excelente e vencemos todos os jogos da fase preliminar. Creio que Moçambique perdeu três jogos e acredito que aquele plantel, em dez jogos com Angola só ganharia um, que foi precisamente aquele.

Sente que o Olimpismo está bem disseminado pelo país desportivo, indo de acordo com a real dimensão dos Jogos Olímpicos?
Não! Digo isto, assumindo todas as consequências do que digo. Não está. Nem o Ministério da Juventude e Desportos. Por exemplo, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, o Minjud menosprezou, subvalorizou, a maior competição desportiva do Mundo. Não deu a devida importância a essa competição e, por isso, aconteceram os problemas que aconteceram, quando da nossa participação nos Jogos de 2016. Dito isto, vindo do Ministério, espero que o país tenha aprendido com esses jogos, o que pode e o que não pode fazer. Olho para esta questão e vejo a seguinte explicação, perdoem-me, mas não consigo ver outra. Esta é a única competição que não tem intervenção directa do Ministério. Não é gerida pelo Minjud. É gerida pelo COA. Por esse motivo, foi menosprezada. Vou mais longe. No Mundo desportivo de hoje, são cada vez mais os países onde as participações desportivas, a todos os níveis, ficam sob a alçada dos respectivos comités olímpicos. É assim na Europa, na Ásia, em grande parte do continente americano. Só assim não acontece em África.

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