Entrevista

Museus promovem turismo

Manuel Albano

O director nacional dos Museus, Ziva Domingos, defende acções de mo-dernização  no sector para atrair turistas nacionais e estrangeiros. Além de meio de socialização, disse, os museus desempenham um papel determinante na construção da identidade cultural dos povos. Hoje é Dia Internacional dos Museus.

Ziva Domingos recordou a importância de apostar na formação
Fotografia: João Gomes | Edições Novembro

Qual é a importância do museu no quotidiano nesta fase de globalização e como as pessoas lidam com este conceito actualmente?
O museu é uma instituição cultural de utilidade pública, que tem por missão realizar pesquisas, conservar, promover, documentar, inventariar, comunicar, valorizar e divulgar a memória colectiva de uma determinada sociedade, usando o seu acervo, e desenvolver outras actividades de educação e mediação cultural. Actualmente, há uma mudança de mentalidade, tanto por parte dos governantes como do próprio público. Hoje os museus não são instituições meramente investigativas e assumem cada vez mais um espaço significativo nas sociedades modernas, como factor de desenvolvimento de qualquer país.

Como um meio de socialização, os museus desempenham um papel determinante na construção da identidade cultural de um povo?

Nos últimos anos, principalmente desde o alcance da paz efectiva, tem existido uma adesão cada vez mais forte e permanente dos estudantes, es-
pecialmente das Universidades Agostinho Neto (UAN), Metodista e do Instituto Superior das Artes (ISART) à procura dos serviços museológicos no país. É esta diferença que faz a riqueza e a diversidade cultural a nível nacional e no mun-do. O facto de estas instituições de ensino terem implementado nos currículos o curso de Ciências Sociais tem ajudado a elevar o número da consciência dos cidadãos sobre a matéria e  é fundamental que se criem também cadeiras específicas sobre os museus.

 Já temos um público educado, se consideramos que o país viveu períodos difíceis? O que deve ser um museu no mundo de hoje?

Ainda não temos um público totalmente educado. O que temos constatado é o crescimento e o elevar das consciências, fundamentalmente nos investimentos que têm sido  feitos pelo Executivo para a melhoria e apetrechamento das instituições museológicas. É com o empenho de todos, com o envolvimento do sector público e privado que podemos dar passos positivos para melhorar a imagem dos museus em todo o país. Devemos ter museus capazes de prestar serviços de qualidade ao público, por forma a melhorar a conservação e divulgação do seu acervo e com  capacidade para tratar os problemas actuais da sociedade. E devem  ter capacidade para atrair  público, sobretudo turistas.

Os museus continuam a ser, como dizem alguns jovens, o local para as “coisas velhas”? O que está a ser feito para adaptar os museus aos novos tempos?
Os museus já não são instituições “velhas”, como muitos pensam. É um conceito ultrapassado porque o nível educacional aumentou e hoje são os jovens os que mais procuram os serviços prestados pelos museus. As pessoas procuram saber mais sobre o seu povo e a História universal. O que está a ser feito é a renovação dos principais museus de Angola, nomeadamente o Museu de História Natural, de Antropologia e o do Dundo, para imprimir uma nova imagem a estas instituições e permitir-lhes  melhorar o atendimento aos visitantes. Além da renovação das exposições permanentes, este processo é acompanhado pela construção dos depósitos para uma melhor conservação do acervo.

O projecto de criar museus comunitários, adaptados à História e realidade de cada município, como decorre?

O Executivo, por meio do seu Programa de Investimento Público (PIP) previu a construção de três museus no período 2018-2022. A falta de recursos financeiros  tem adiado a construção do objectivo. Esta seria também uma das formas de descentralização. Tudo depende  do interesse demonstrado pelos governos provinciais.

Qual é o papel dos museus  temáticos ou especializados? Há uma aposta neste sentido?
O surgimento de  serviços e a própria conjuntura vai permitir dar uma outra dinâmica ao mecenato. Já começamos a ter na Rede Museológica. O caso mais recente é o Museu da Moeda que divulga a História de Angola na sua componente económica e financeira e ao mesmo tempo di-versifica e enriquece a oferta cultural para o público angolano e estrangeiro. Outras iniciativas estão em curso, como  a  criação do Museu de Ciência e Tecnologia, que já se encontra numa fase bastante avançada. Há propostas  de criação dos Museus do Café, Petróleo e Diamantes. Todos eles vão ajudar a divulgar a cultura do país nas suas áreas de actuação.

Existe um plano para criar um museu de arte, para o trabalho da maioria dos artistas ficar gravado para a História?
No terceiro Simpósio sobre Cultura Nacional, realizado em 2006,  para focar a análise do processo da institucionalização do Conselho Nacional da Cultura iniciado em 1976,  foi proposta essa intenção, mas até agora a falta de recursos financeiros impossibilita a construção de um museu do género. Tornou-se uma necessidade, porque estas obras precisam de ser preservadas e divulgadas, por forma a aumentar a interac-ção com o público. É uma área muito dinâmica que podia aumentar e capitalizar mais recursos financeiros para os cofres do Estado, potenciando o turismo cultural.

Actualmente existe uma política de conservação e manutenção dos museus?

Qualquer museu que pretende continuar a existir deve primar por uma política de gestão do seu acervo. Os Museus de An-gola têm trabalhado neste sentido. Apesar da falta de recursos humanos especializados no domínio da conservação e restauro e de alguns recursos materiais apropriados, as equipas técnicas das instituições têm dado o seu melhor para manter o acervo em bom estado de conservação. Porém, há maiores desafios com a conservação do acervo do Museu Nacional de História Natural tendo em conta a sua fragilidade e sensibilidade aos factores ambientais.

“Estado dos nossos museus melhorou significativamente nos últimos anos”

Que políticas há para criar maior aproximação entre os museus e o público?
A estratégia da Direcção Nacional de Museus do Ministério da Cultura é a de consolidar a parceria com outras instituições nacionais e internacionais para continuar a incutir a cultura de visita aos museus nos alunos e jovens. Nesta perspectiva, os museus devem desenvolver programas de mediação cultural dirigidos às escolas e comunidades locais. Isso envolve um investimento permanente na formação de quadros, não apenas quantitativos mas sobretudo qualitativos. Temos parcerias com  várias embaixadas no país como as da Espanha e Alemanha,  no domínio da formação museológica, o que tem permitido aumentar o nível de conhecimentos dos técnicos nacionais.

Qual é o estado actual dos museus?

O lema internacional deste ano é “Museus interconectados, novas abordagens, novos públicos”. Isso tem-nos remetido para uma reflexão de como os museus devem ser actualmente. O esta-do dos nossos museus melhorou significativamente. Mas o ideal era renovar todos para dar uma nova imagem e acautelar os aspectos ligados à gestão do acervo, ao bom estado das instalações, à capacidade técnica do pessoal. Contudo, por causa da situação económica que o país atravessa, não é possível atingir a meta. No entanto, temos de solucionar os problemas gradualmente. Enquanto avançam as obras de renovação de alguns museus, temos de aproveitar o momento para capacitar os técnicos e melhorar a gestão institucional dos museus. Estamos a fazer  estudos de como tirar maior vantagem das redes sociais, com a criação de pequenos portais, onde o público pode encontrar  informações necessárias às suas pesquisas.

Os museus regionais têm cumprido o papel que lhes está destinado?
O Museu Regional do Dundo, pela renovação parcial, tem permitido oferecer serviços de qualidade. Com a divulgação do seu rico acervo, o museu tem  aumentado o número de visitantes nacionais e estrangeiros. Quanto aos Museus Regionais de Cabinda e da Huíla, os desafios  continuam a ser o da capacitação do pessoal e também o enriquecimento do seu acervo, bem como o melhoramento das infra-estruturas. A estatística actual diz que no ano passado, os nossos museus foram visitados por 150 mil pessoas, dos quais 130 mil nacionais e 20 mil estrangeiros, incluindo turistas. Para este ano, estamos a trabalhar para um incremento de dez por cento, ou seja temos de atingir no mínimo a cifra de 160 mil visitantes. O que mostra o grande trabalho que ainda temos pela frente na criação de condições para atrair mais visitantes. Queremos au-mentar o número para sete mil visitantes por ano.

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