Entrevista

“Na escola chamavam-me fantasma”

Edna Dala

No dia em que foi eleita, declarou que vai trabalhar numa campanha contra a discriminação dos albinos. Como pensa desenvolver esse desejo?
Penso desenvolver esta campanha de maneira positiva e pretendo realizar palestras, para as quais gostaria imenso de ter o apoio da Associação dos Amigos Albinos de Angola e de pessoas que tenham conhecimento sobre o assunto. Se possível for, gostaria também de escrever e fazer vídeos para as redes sociais. Penso, igualmente, fazer projectos direccionados à criança, de forma a que elas possam aprender, desde cedo, sobre o albinismo e saibam que é algo normal e que não há nada de errado com o tom da pele da pessoa. Relativamente ao lema da campanha, confesso que ainda estou a maturar a ideia. Tão logo tenha, vou divulgá-lo.

Andreia Muhita, Miss-Angola Supranacional

Como encara a política de inclusão do Estado de pessoas que são discriminadas na sociedade, como as pessoas com deficiência, os albinos e outras?
As políticas estão ali, mas precisam de ser reforçadas e aplicadas, pois nas políticas do Estado não há discriminação. A discriminação é um crime e é necessário que as pessoas saibam que a discriminação não é apenas com os albinos, mas também com outras pessoas portadoras de alguma deficiência.
Conhece bem a realidade dos albinos em Angola?
Sim, conheço. Mas tenho um conhecimento básico. Sei, por exemplo, que uma das dificuldades dos albinos prende-se com a falta do protector solar, uma necessidade básica para quem tem a pele muito sensível. Infelizmente, este protector é extremamente caro no mercado angolano. Além disso, normalmente, precisamos de ajuda para adquirir os cremes. Outra realidade dura que enfrentamos é a discriminação de amigos, colegas de escola e de trabalho e até mesmo dos empregadores. Há pessoas que não percebem muito bem essa questão do albinismo e os mitos tomam conta destas pessoas. Elas acreditam que, se empregarem alguém com albinismo, podem ter má sorte e uns crêem que um encontro entre albino e gémeos resultaria em conflito. São mitos que estão à nossa volta e não permitem uma convivência normal na nossa sociedade.

Tendo em conta essas necessidades, que tipo de apoio gostaria de receber do Estado?
Gostaríamos de ter um centro onde pessoas com albinismo e sensíveis, desde que estejam registadas ou cadastradas, tivessem acesso grátis a esses produtos ou a um preço reduzido, porque é uma questão de saúde dos albinos. Não é justo que alguém que precise de protector solar, como necessidade básica, tenha de pagar um preço exorbitante.

Angola é, felizmente, um dos poucos países da Comunidade de Desenvolvimento das África Austral (SADC) onde o nível de discriminação é baixo, em comparação com outros países. Mesmo assim, acha que não é fácil um albino ter uma vida normal em Angola?
Todos nós temos dificuldades e obstáculos e o albino, dependendo da sociedade em que está inserido, pode ter uma ou outra dificuldade. Felizmente, tive a sorte de não ter muitas dificuldades na infância, tendo em conta que não cresci em Angola. Ainda assim, enfrentei "bullying" na escola onde algumas crianças chamavam-me "fantasma". Eram crianças angolanas que apresentavam esse tipo de comportamento.

Como encarava esse tipo de atitude?
Acreditava que, se num país estrangeiro, os angolanos faziam aquilo comigo, em Angola devia ser pior. Infelizmente, as pessoas com albinismo recebem nomes e algumas têm muitas dificuldades. Esse tipo de comportamento baixa a auto-estima e acaba por fazer com que a pessoa lesada se sinta inferiorizada. Devemos aprender a contribuir para a elevação da auto-estima das pessoas, para que se sintam amadas e inseridas na sociedade, dando-lhes a oportunidade de mostrar o seu real potencial. Acredito que Angola tem potencialidades para dar uma vida melhor para os portadores de albinismo.

Como conseguiu combater o estigma e a discriminação e encarar com naturalidade o facto de ser albina?

Vivo sob o conceito de que nada que alguém disser sobre mim vai influenciar a minha vida, a não ser que sejam críticas construtivas. Quanto mais as pessoas nos prestarem apoio e carinho, mais nos sentimos capazes de ultrapassar qualquer obstáculo.

O preconceito, às vezes, começa em casa, onde o albino é rotulado de várias formas. A sua família ajudou, de alguma maneira, a combater o preconceito que ainda existe na nossa sociedade?
Tenho e sempre tive o amor da minha família, o que me dá muitas forças para perseguir com quaisquer desafios. O facto de saber que eles me apoiam e estão sempre comigo é suficiente.

Já passou por um momento de grande constrangimento na vida, devido à sua pele?
Sim, já passei por situações de constrangimento, por conta do meu tom de pele. Recordo-me que, quando mais pequena, aos nove anos, e frequentava o ensino primário, tive uma professora que me dizia que eu não podia frequentar uma escola normal. Chegava ao ponto de me pressionar, alegando que eu não estava em condições de frequentar o ensino normal. Além deste episódio, nunca tive constrangimentos que me afectassem de forma a me derrubar. Consigo enfrentar qualquer coisa, principalmente, em pleno século XXI, onde não deveria existir discriminação contra ninguém, quer seja pela cor da pele, quer pelo género ou orientação sexual. Acredito que Angola está pronta para dar este grande passo.
 
Na sua luta contra a discriminação, que resultados espera alcançar? 
              
Gostava de ver mais pessoas com albinismo destacadas na sociedade, desde grandes médicos, professores e cantores, pois uma figura representativa nos fortalece e nos permite ter a capacidade de enfrentar os nossos medos e mostrar o nosso real potencial.

Qual é o seu maior sonho?
O meu maior sonho é ser uma modelo internacionalmente reconhecida, fazer publicidades e desfilar para grandes nomes do mundo da moda. Também gostava de ser uma actriz. Considero-me uma pessoa amante dos artes e palcos. Enquanto estive no ensino médio,  sempre participei das peças teatrais. Gostava imenso de estar no palco e influenciar pessoas contando histórias.

Tem recebido apoios do Estado?
Sim, por enquanto, tenho recebido apoio moral, que seja de forma directa, quer indirecta, em particular do Governo Provincial do Cuando Cubango, dos colegas da universidade e de pessoas singulares. Gostava de ter o apoio financeiro do Estado, porque os projectos acarretam custos, particularmente, a participação no concurso Miss-Supranacional. Tenho ainda muita coisa por aprender e o apoio financeiro do Estados e outras entidades particulares ajudar-me-iam muito.

Tempo

Multimédia