Entrevista

Namibe chama investidores

Geraldo Quiala | Angop

Várias acções estão em curso para o desenvolvimento do Namibe. O governador Rui Falcão fala, em entrevista à Angop, da energia, água, educação, turismo e estradas.

Governador do Namibe anuncia projectos
Fotografia: Rogério Tuti

Ainda este ano são inauguradas casas para atrair quadros. No próximo ano deixa de haver crianças fora do sistema de ensino. Há projectos para requalificação das cidades e vilas e em Abril ou Maio está previsto um encontro com a juventude para auscultar os problemas. Estes e outros aspectos são tratados na entrevista.

Angop - Sente-se seguro ao leme de um navio do porte do Namibe?


Rui Falcão
- Absolutamente tranquilo. Primeiro, porque estou na minha p terra. Segundo, porque tenho uma equipa que se vai entrosando cada vez mais e tem correspondido às minhas expectativas. Terceiro, porque há condições para fazermos um bom trabalho.

Angop – Que mudanças pretende imprimir no sector da educação e ensino?


RF
- Duas questões distintas. Uma tem a ver com a necessidade de, tão rápido quanto possível, abarcar todas as crianças da província. Do levantamento feito, temos pouco mais de sete mil crianças. No OGE para 2014, particularmente no Programa de Investimentos Públicos (PIP), temos condições de fazer este ano salas para mais de dez mil alunos. Isso dá-me algum conforto, sabendo que mesmo em 2015 este número pode aumentar. Mas, se formos ágeis, podemos minimizar as dificuldades que hoje temos. Outro aspecto tem a ver com o Ensino Superior e a necessidade de o diversificarmos na província. Temos hoje as ciências mais teóricas. Estamos agora a tentar trabalhar com o pólo universitário no sentido de derivarmos para cursos mais técnicos, sabendo que tudo indica que em 2015 vamos inaugurar a Academia de Pescas, que integra mais quatro unidades de formação superior.

Angop - Como está a saúde no Namibe?

RF
- Temos uma cobertura satisfatória na província. Mas o sector carece de muitos quadros, ainda temos insuficiências. Temos infra-estruturas, e algumas muito boas, ao nível das administrações municipais e nas comunas. Mas, infelizmente, ainda temos uma carência gritante de quadros neste domínio.

Angop - Qual o actual quadro da energia eléctrica?

RF
- Nas áreas urbanas, cobrimos quase 80 por cento, nas áreas suburbanas há ainda muitos problemas, mesmo aqui no município sede. Decidimos este ano diversificar as fontes energéticas. Vamos tentar ao máximo rentabilizar os recursos que temos para a aquisição de energia fotovoltaica, para consumo público e a iluminação das nossas cidades, derivando para o consumo domiciliar o pouco excedente que vamos tendo, sendo que este excedente é ilusório, porque quanto maior for a nossa rede, mais dificuldades temos para satisfazer as necessidades das pessoas.

Angop - Qual é a estratégia?


RF
- É preciso desenvolver fontes energéticas, não só para resolver o problema do consumo domiciliar, mas essencialmente para resolver o problema do consumo para o desenvolvimento. Não há desenvolvimento se não tivermos energia disponível.

Angop - Que balanço faz do combate à pobreza?


RF
- Temos estado a fazer muito. No domínio da água, por exemplo, ainda este fim-de-semana levámos água a mais um bairro da cidade. Nas administrações municipais, temos resolvido muitos problemas. Mas é preciso entender que estamos numa zona desértica. Aqui não chove há três anos. Portanto, temos de ser persistentes, mas adoptar políticas realistas. Temos de sair do ciclo de emergência para a criação de infra-estruturas para dar suporte à acção futura. Estamos a trabalhar para a captação de mais caudais de água, no sentido de distribuir mais e melhor. É preciso dar água às pessoas, dar água aos animais, porque temos o segundo ou terceiro rebanho nacional de bovinos. Temos o primeiro rebanho nacional de caprinos, temos uma área agrícola que está em expansão. Precisamos alimentar todos estes sectores, para minimizar  os efeitos da seca.

Angop - O sector pesqueiro é o principal suporte económico da província?


RF
- Sim, naquilo que tem a ver com a pesca familiar. A nossa ambição é muito maior. É recuperar os índices de produção que tínhamos ao nível industrial e na indústria transformadora. Tômbwa vai despertando do longo sono que teve  nas últimas décadas e, felizmente, já há alguns investimentos que permitiram criar mais emprego, reduzir, ainda que de forma muita pequena, os problemas do dia-a-dia. Vamos continuar a apostar nisso. Há boas vontades, há muita gente a querer investir na província do Namibe, particularmente no sector das pescas.   Temos de criar condições para que a indústria se desenvolva, mas que os preços no consumidor não sejam insuportáveis para a população. É nesse equilíbrio que temos de encontrar o nosso rumo de desenvolvimento, melhorando os níveis de produção energética na província. Essa é a saída que temos.

Angop - Como encurtar as distâncias entre o Namibe e o resto do país?


RF
- Não temos essa dificuldade. Temos a Estrada Nacional 280 com todas as condições. É uma estrada que tem de ser alargada, melhorada. Infelizmente, a ponte pequena de Giraúl de Cima continua a não constar  dos projectos de construção para este ano e provavelmente não será, se continuarmos assim, em 2015. É uma preocupação premente. Mas temos o Porto do Namibe, o aeroporto, o caminho-de-ferro e a estrada.

Angop - Namibe está bem servida em transportes?


RF
-Está bem servida, mas é preciso melhorar. Por exemplo, no transporte aéreo é preciso honrar as frequências e os horários, sob pena de estarmos a penalizar esta província. Infelizmente, nos últimos tempos tem acontecido.

Angop - O porto comercial do Namibe responde às exigências?


RF
- Tem correspondido. Há uma falsa notícia que tem circulado, segundo a qual o Porto do Namibe é o mais caro do país. Isto não corresponde à verdade. Ainda esta semana recebi o responsável do porto para falarmos sobre esta matéria. O Porto do Namibe ainda está aquém daquilo que os outros portos cobram. Temos de fornecer qualidade de serviços suficientemente atractiva para que os comerciantes enviem as suas mercadorias para este porto.

Angop - A circulação do comboio trouxe vantagens?


RF
- O caminho-de-ferro é extremamente importante para nós porque liga a província a outros pontos do país e porque nos permite uma extracção rápida da mercadoria do porto. As províncias vizinhas beneficiam muito do caminho-de-ferro do Namibe e, agora, com o incremento que vai haver, finalmente a economia começa a ter mais oxigénio para se desenvolver rapidamente.

Angop - Como tem sido combatido o roubo de gado?

RF
– O Namibe tem um dos maiores rebanhos nacionais de bovinos e o primeiro rebanho nacional de caprinos. Felizmente, há aqui duas vertentes. Uma vertente, roubo propriamente dito, outra tem a ver com hábitos e costumes do nosso povo. Nesta região, para que os jovens se imponham como adultos têm de praticar alguns actos. Camucuio e Bibala são os principais pontos dos efeitos do roubo. Felizmente, a situação está mais controlada do que no passado. Agora, muito dificilmente chegam notícias de roubo do gado. Isso dá-nos alguma tranquilidade.

Angop - Que atractivos a província do Namibe tem para trair investimentos?


RF
- Tudo e mais alguma coisa. O Namibe é das províncias com mais condições para atrair investidores e turistas. Esse desenvolvimento passa pela atracção dos investidores nacionais e estrangeiros. Estamos a fazer um esforço muito grande no sector imobiliário. Temos duas novas áreas de desenvolvimento urbano, o bairro “5 de Abril”, e junto da estrada para o aeroporto e na Praia Amélia. Estamos a fazer dois mil fogos em cada um desses espaços. Isso vai resolver o problema de habitação para os nossos quadros. Também estamos a ver com o Governo Central a possibilidade de guardar uma parte desses espaços, para atrair investimento e trazer quadros mais jovens.

Angop - Como está o sector mineiro na província?

RF
- Somos apenas entreposto, porque até o ferro é da Huíla. Queremos colocar na província alguma indústria transformadora, que produza meios para desenvolver a região, como o mercado imobiliário e outros. Isso é um vector. Em termos de minerais, temos a céu aberto as nossas rochas ornamentais, embora tenhamos também no subsolo muitos recursos.

Angop - Quais são os principais projectos em carteira para a dinamização do sector turístico?


RF
– Felizmente, estamos a fazer um trabalho muito positivo com o Ministério do Turismo. Há um plano especial que vai agora começar a ser estruturado, no sentido de desenvolvermos o turismo na nossa província. Vamos ser a província piloto do Plano Nacional de Desenvolvimento Turístico.

Angop - A banca comercial apoia projectos de investidores privados?

RF
- Não com o limite que gostaríamos, mas a banca ajuda. Infelizmente, uma parte substancial dos nossos empresários não tem capacidade de responder aos encargos que assume e isso também faz com que os bancos receiem conceder créditos. Faz igualmente com que exijam mais condições para ressarcir os valores e isso tem criado algumas dificuldades aos empresários.

Angop - Há estabilidade nas águas marítimas do Namibe?

RF
- Há segurança e estabilidade nos vários sectores. Temos alguns meios que nos permitem fazer patrulhamento na nossa costa. No decurso desta semana, vamos receber mais alguns meios e isso vai melhorar a nossa capacidade de intervenção.

Angop - Como caracteriza a convivência entre os partidos políticos na província?


RF
- Aqui não há problema absolutamente nenhum. Primeiro, porque o governador não marca audiências. Estamos sempre abertos para atender qualquer situação. Qualquer cidadão pode dirigir-se às instituições e é atendido. Nenhum partido político aqui tem dificuldades em contactar o governador ou outro membro do governo.

Angop - Em que ponto está o plano de requalificação da cidade do Namibe?


RF
- O plano de desenvolvimento provincial aponta para a requalificação da zona ribeirinha, que parte da Praia Amélia até ao Saco Mar. Nesse espaço está o Porto Comercial do Namibe, mas não é o porto que nos preocupa. O que nos preocupa é a linha férrea, que atravessa todo o coração desta zona ribeirinha. Enquanto ela estiver lá,  temos imensas dificuldades para fazer a requalificação. Vamos agora tratar deste assunto, porque já há sensibilidade por parte de alguns órgãos centrais. Toda a gente compreende. Para o Namibe crescer em termos turísticos e servir de ex-libris de Angola no mundo, temos de resolver esta situação. A requalificação vai abranger toda a província, sobretudo nas sedes municipais e algumas comunas.

Angop - Como avalia a execução do Programa Angola Jovem?

RF
- Demos início ao diálogo com os jovens e ainda temos muito por fazer. Está na minha agenda ainda em Abril ou Maio fazer novo encontro com os jovens, porque assumimos alguns compromissos e honramos já grande parte deles. É preciso detectar novas preocupações para irmos em direcção à nova acção. Há esse diálogo permanente. Vamos continuar para encontrar as soluções dos problemas.

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