Entrevista

“Não concebíamos a luta sem armas de fogo”

Osvaldo Gonçalves

Natural de Luanda, onde nasceu em 1943, Jonuel (José Manuel) Gonçalves passou por várias estruturas e formas de luta pela defesa da liberdade e democracia em Angola. Docente numa universidade brasileira, este pesquisador, escritor e jornalista tem vasta obra bibliográfica publicada. É autor de livros como “A Economia ao Longo da História de Angola” (2011), “A Economia de Angola nos Espaços Austrais” (2014), “A Ilha de Martim Vaz” (2015), “Franco Atiradores” e de “Relatos de Guerra Extrema”, ambos publicados em 2010. Nesta entrevista, realizada via Internet, fala sobre o livro “E Se Angola Tivesse Proclamado a Independência em 1959?”, publicado este ano

Jonuel Gonçalves é um grande apreciador da literatura
Fotografia: DR

Fale-nos um pouco sobre o método “what if” (“e se”) e as razões que o  levaram a escolhê-lo para escrever este livro.
Esse método, na prática, é usado há muito tempo em cenários de superação ou prevenção de crises económicas, procurando prever como seria o comportamento dos agentes se outras decisões de base fossem tomadas. Também está implícito em formas de explicar ou reproduzir acidentes. Na História, constatou-se que as decisões tomadas em situações capitais não eram as únicas possíveis e começou a curiosidade de como seria se a opção fosse outra. Importante para comparar com rumos seguidos, mas ainda como forma de aperfeiçoar decisões futuras ou estimular o estudo das várias respostas aos desafios.
Tomei conhecimento dum trabalho desses, ao saber que um professor da escola onde estudei em França dirigira um grupo de trabalho intitulado “E se a França tivesse continuado a guerra em 1940”, em vez de se render a Hitler. Achei um excelente exercício e pensei imediatamente num projecto rudimentar dos nossos tempos de alunos do ensino secundário, quando já fazíamos parte de um grupo clandestino, ligado ao então Movimento de Libertação Nacional de Angola (MLNA) e que, com a prisão dos seus responsáveis, ficámos “à toa” e resolvemos prosseguir assim mesmo. Abordo isso num outro livro, “Franco Atiradores”. Achávamos que a panfletagem era insuficiente e que o poder da PIDE dependia do controlo político pelo colonialismo salazarista. Ou seja, se esse controlo acabasse, a PIDE caía junto.
A nossa ideia era tomar as principais cidades do país e reforçar o número inicial de combatentes com os presos libertados, soldados angolanos das então pequenas unidades militares coloniais e populares dispostos a lutar. A primeira fase seria dedicada ao roubo de armas. Não concebíamos a luta sem armas de fogo. As informações que tínhamos revelavam um dispositivo policial-militar colonial com pouco mais de dois mil integrantes. Após as 22 horas, nem duzentos estavam operativos e mesmo assim de forma negligente. Ouvíamos muitos comentários de colonos melhor informados e oficiais do exército, enfatizando a debilidade do dispositivo e, ao mesmo tempo, projectos de reforço muito noticiados. Esse era um dos planos, mas havia outros desde meados de 1959 e um deles faria o 4 de Fevereiro.

O que o levou a pensar que as coisas se processariam da forma como as descreve no livro? Falamos, sobretudo, dos personagens e dos cargos que ocupam no Governo fictício, além, obviamente do desfecho.

Acreditámos que o plano era viável e podia ter sucesso se agíssemos até final de 1959 ou começo de 1960, porque após essas datas estava evidente que a correlação de forças mudaria. Aliás, ainda no início de 1961, se os militantes do 4 de Fevereiro tivessem armas de fogo, em vez de catanas, poderiam não apenas tomar as cadeias, mas até tomar Luanda. Digo isso na introdução do livro. O nosso grupo era pequeno e não ampliávamos em virtude das regras básicas da clandestinidade, para evitar infiltrações inimigas. Aliás, apesar de muitos  jovens, revelámos perspicácia nisso, pois fomos nós que infiltrámos uma organização para-militar juvenil do salazarismo para termos instrução militar, feita dentro do único quartel então existente em Luanda.
As nossas previsões da altura e avaliações feitas por mim durante a elaboração do livro permitiam prever sucesso onde o efeito de surpresa estivesse garantido. Também já tínhamos aprendido como a questão do “timing” era crucial no sentido de reduzir a hipótese do Governo colonial reagir. Enfim, seria decisivo conquistar pelo menos uma rádio e pô-la em funcionamento, pois, naquela época, nenhuma emitia depois da meia noite.
Escolhemos a Rádio Clube, porque dois de nós a conhecíamos por dentro.
Isto tudo significava fortes chances a Oeste e muitos problemas a Leste, onde a Diamang possuía uma força armada, sem que tivéssemos meios de agir de surpresa.  Por outro lado, com o processo de descolonização em curso pelas demais potências coloniais e a posição norte-americana, acreditávamos que pressões seriam exercidas sobre Salazar, para não se incorrer em radicalizações muito receadas pelos países ocidentais.
Quanto às personalidades pensadas para exercerem funções governativas, eram as que reconhecíamos como opostas ao colonialismo e ao racismo, mesmo aquelas que se mantinham discretas, por se saberem muito vigiadas. Outro critério - nosso naquela altura e meu durante a pesquisa recente para o livro - era o envolvimento cultural. Com base nesses raciocínios, foi construído o cenário geral do livro.

Numa entrevista que deu a propósito, Jonuel afirma que não se partiu para uma insurreição na época, porque os mais velhos não deixaram. Podia ser mais objectivo na resposta?

Tínhamos conhecimento de outros pequenos grupos estudantis, conectados com a ideia de libertação nacional, no Lobito-Benguela e Lubango. Porém, a soma era insuficiente para executar o plano, além de sermos vistos como “miúdos” e isso tirava-nos capacidade de mobilização. Daí os mais velhos serem indispensáveis – pelo número e pelo prestígio.
A noção de mais velho era relativa, dizia respeito a compatriotas com mais de vinte anos. Um deles era o nosso contacto com o MLNA e falámos também discretamente com um advogado e dois professores. Não condenaram o plano, apenas disseram que ainda não era o momento, era só aguardar, pois não tardaria. Continuámos a fazer reconhecimento e panfletagens por conta própria durante 1960. No primeiro trimestre de 1961, eclodiu a guerra. Mas é importante aqui sublinhar que foi uma guerra com dois espaços de movimentação: a guerrilha rural e a clandestinidade urbana. Não há por que atribuir mais mérito a uma ou a outra. É significativo que o maior contingente militar colonial fosse colocado em Luanda e que importantes regimentos estacionassem no Huambo e Lubango.
Ao mesmo tempo, os relatórios da PIDE e da 2ª REP (Serviços de Inteligência Militar) sublinhavam sempre os riscos de insurreição urbana.
Dos primeiros, só tivemos conhecimento após o 25de Abril. Mas, dos segundos, recebíamos ecos constantes, graças a camaradas nossos que faziam serviço militar obrigatório. Núcleos clandestinos nunca deixaram de existir nos musseques e em estabelecimentos de ensino. Além de prisões individuais frequentes, três vagas de prisões foram feitas pela PIDE na década de 60 e começo de 70, incluindo pessoas que depois da Independência ocuparam postos importantes. Até atingiram meios estudantis e intelectuais angolanos em Portugal.
 
Além das debilidades referidas do poder militar colonial, Jonuel faz no livro uma forte crítica ao sistema de ensino na então colónia. Pode fazer-nos um retrato daquela época, nessas duas vertentes?

Sobre a vulnerabilidade do aparelho militar colonial já falei atrás. Osistema de ensino era, como sempre acontece, reflexo do regime em vigor, seja onde for. Na época focada no livro, nem metade das crianças iam à escola primária e o ensino secundário estava limitado a algumas cidades, sendo os alunos em maioria brancos ou mestiços. A Universidade só seria criada após o começo da guerra e tinha a mesma configuração. Tal quadro comandava o perfil dos recursos humanos: a maioria dos quadros, profissionais superiores e a quase totalidade dos cargos de confiança vinham da antiga metrópole.

Quem lê o livro e conhece minimamente Angola verifica que há uma forte preocupação em descrever a geografia do país, as distâncias entre as localidades. Foi difícil chegar a esse ponto?
Não, não foi. Já naquela altura conhecíamos bem a nossa geografia e isso ajudou a imaginar os “timings” possíveis. Até viajávamos, fosse por motivos de prática desportiva ou apanhando boleias com camionistas. Eu, por exemplo, além do desporto, desde os 14 anos, ia à grande parte da zona cafeeira do norte com um camionista meu vizinho na Vila Alice. Aliás, essas viagens ajudaram a visualizar situações cuja influência foi enorme na formação da nossa consciência.

Ao lermos o livro, percebe-se, pelo estilo, que há um jornalista por detrás do autor. Jonuel Gonçalves é apresentado na imprensa como investigador, escritor, jornalista e comentador. Onde acaba uma figura e começa a outra ou cada uma complementa a outra?
Sou profissionalmente um pesquisador em economia, especializado na área do desenvolvimento/sub-desenvolvimento de África. Durante e depois do meu doutoramento, fui convidado a dar aulas. Gosto muito de escrever e a minha vivência deu lugar a convites por órgãos de comunicação ou eu mesmo ofereci alguns de meus escritos. Finalmente, como sou grande apreciador de literatura, acabei por  me atrever a escrever três romances. Assim, fico com as três vertentes. Já uma vez, por outras razões, situei a minha vida no“Triângulo das Bermudas”, metáfora devido à turbulência naquela região. Agora vejo mais um motivo triangular.

Uma questão de praxe: o que se pode esperar de Jonuel Gonçalves a seguir?
Estou a trabalhar numa História Económica de Angola, de facto aprofundamento do meu livro “A Economia ao Longo da História de Angola”. Ao mesmo tempo, vou escrevendo um novo romance e o máximo que lhe posso dizer no momento é ser ambientado em vários países africanos.

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