Entrevista

“Não troco este país por outro”

Isaquiel Cori

Pertence à geração que proclamou a Independência Nacional e esteve no centro dos acontecimentos da época, tanto na qualidade de ministro da Informação do Governo de Transição como de alto responsável do MPLA. Escritor consagrado, autor da letra do hino nacional, Manuel Rui tem opinião qualificada sobre a história recente e o momento actual do país. "Dos Santos deveria voltar à sociedade civil, fazer conferências em universidades, falar com o povo, ter um programa de televisão sobre as suas memórias", afirma.

É autor de letras de músicas, algumas com muito sucesso de público. Como é o seu processo de participação nas músicas?
Eu faço letras em cima de músicas e as pessoas dizem que é difícil. Prefiro que me dêem uma música para eu passar uma letra em cima. A pessoa dá-me a música e eu passo a letra em cima. Ao criar o hino da UCCLA, fiz uma letra que tinha estrofes com x sílabas e depois outra com menos sílabas e o músico meu amigo disse-me que não gostava de trabalhar assim, com sílabas… Eu disse que não era problema nenhum, “dá-me a música e eu ponho o mesmo conteúdo, as mesmas palavras dessa letra nas sílabas que me trouxeres”… O “Pôr do sol”, do André Mingas… eu fui a casa dele e ele disse-me “tenho aqui uma coisa para te mostrar, que fiz agora”… Tocou a primeira frase, pedi-lhe papel e em dez minutos fizemos o “Pôr do sol”: “Tantas vezes o mar já viu…”

Na criação do Hino Nacional a letra também foi feita em cima da melodia?

Foi uma emergência. Dois dias antes da independência, ali em minha casa, no Saneamento, o Rui Mingas com o violão tirou uma frase musical e eu pedi-lhe para repetir enquanto escrevia… Foi assim que surgiu o Hino. Estavam pessoas a assistir, a letra, o Hino surgiram ali mesmo.

O nosso Hino é considerado um dos mais bonitos do mundo…
Sim. Tenho uma enciclopédia de hinos e  falam isso. Falam da letra, da sua intemporalidade: “Unidos lutaremos pela paz, com as forças progressistas do mundo”… Isso é intocável. Quando quiseram mudar o Hino, a Unita quis mudar, fui chamado ao MPLA, com o Rui Mingas, pediram-me para tirar o “Poder popular”; o Rui Mingas não quis. Tirei e fiz outra versão. Foi  João Lourenço quem nos recebeu, na altura. A maka era o “Poder Popular”. Mas o que é certo é que as Constituições dizem que a soberania reside no povo. Isso também é poder popular. Há hinos que são bélicos, falam em canhões e nunca mudaram para mísseis…

O Carlos Lamartine também participou na criação do hino?
Não. O Lamartine não estava. Mas um momento: depois do hino ser aprovado pelo Comité Central [do MPLA] alargado, que incluía os que estavam no Governo e representantes dos comités, era preciso arranjar jovens para constituirem o coro. Mas primeiro fomos à Rádio Nacional para gravar; aí estava também o Lamartine. A Katila e mais gente, inclusive eu também cantei nesse coro improvisado. O Lamartine ficou incumbido de arranjar jovens para o coro. O ensaio foi feito mesmo no 1º de Maio. Será por isso que o Lamartine diz que também é autor do Hino nacional?  Mas isso não me importa. Não me pagaram nada nem eu ia querer direitos naquele tempo. Nem tenho uma pensão. Nem passaporte diplomático tenho.

Não lhe foi atribuída uma patente militar?

Por ser autor do Hino nacional não tenho nada. Tenho uma reforma que nem vou falar na miséria…

Mas está reformado como? Funcionário público?

Não. Trabalhei em vários sítios. Numa empresa eu era consultor e tinha contrato, portanto descontava para a segurança social; a Universidade (ISCED do Lubango, onde cheguei a ser director) fez um papel de má fé, para eu não receber (tenho aí o papel). A Endiama - eu é que inventei o nome Endiama, quando comandava o processo de nacionalização da Diamang, que ocorreu pacificamente, com os accionistas a quem prometemos que seriam parceiros no fornecimento de tecnologia e na compra dos diamantes - fez um papel para a minha reforma, todo mal feito, sem o salário que eu estaria a ganhar actualmente. Olha, o papel está aí atirado. Portanto, não tenho nenhum benefício pelo Hino nacional, tirando as pessoas me alegrarem quando vou ao supermercado: “Desculpe, não é o autor do Hino nacional?” Ou os estudantes virem bater-me à porta, no fim das suas licenciaturas, para me entrevistarem sobre o Hino nacional. Essas são as únicas vantagens que eu tenho. No mais, fechei o escritório de advogados cansado da perversidade da Justiça.

O que é feito do seu projecto 11 Poemas em Novembro, que consistia em publicar todos os anos, em Novembro, um poemário com onze poemas?

Precisava de ter uma pessoa que me arrumasse os poemas. Este ano já vou tarde, mas para o ano vou retomar.

E a antologia dos 11 Poemas em Novembro?

Já saiu uma, dos primeiros cinco anos. Os 11 Poemas em Novembro saíram durante sete anos, queria pelo menos chegar aos dez anos. A periodicidade dos 11 Poemas em Novembro pressupõe pessoas empenhadas. Quem se empenhou nisso primeiro foi o Costa Andrade “Ndunduma”, depois o David Mestre, que então trabalhava no Jornal de Angola. As pessoas não ligam muito às coisas. Fico espantado quando fazem a festa das Edições Novembro… Quem inventou a Revista Novembro? E o jornal? Há um despacho, publicado e está no vosso arquivo: “Encarrega-me o camarada ministro da Informação Dr. Manuel Rui Monteiro, de proceder ao seguinte despacho:  a partir de amanhã o jornal “A Província de Angola” passa a chamar-se “Jornal de Angola”. Assinado: Fernando Oliveira. Depois reunimo-nos ali na descida onde era a “Revista Novembro”. O (Mário de) Alcântara Monteiro, fixem este nome, foi o primeiro director da “Revista Novembro”. As edições dessa revista para saírem eram uma chatice. A luta pelo jornal “A Província de Angola” passou pela explosão de uma bomba já os sindicalistas haviam tomado o jornal. Tem gente ainda viva aí no jornal que deveria contar isso tudo. A televisão, abriu contra o Conselho de Ministros, o Alto-Comissário tuga odiava a comunicação social. Fui falar com Agostinho Neto que deu luz verde e a televisão entrou no ar… mas há quem viva por omissões da história...

Qual surge primeiro: a Revista Novembro ou a Edições Novembro?

A Revista Novembro. Depois era preciso ter uma estrutura à maneira socialista, um kolkhoze, para tomar conta da revista, do jornal… Fizeram tudo para que só houvesse um jornal. Fecharam o “Diário de Luanda” por causa do Nito Alves, enquanto que em Moçambique mantiveram todos os jornais.

O espírito de participação, de engajamento político e cívico da sua geração é comparável com o das gerações actualmente jo
vens?
Não é comparável porque nós tínhamos a certeza da vitória. Nós éramos Tanu, não éramos Zumbi, personagens do meu último romance  “Kalunga”. E além disso, mesmo na Universidade, em Coimbra, eu tive a sorte de encontrar uma geração de ouro. Grandes poetas portugueses, músicos da craveira de um  Zeca Afonso ou Adriano Correia de Oliveira…

E eram fundamentalmente de esquerda…
Absolutamente de esquerda. Marxistas, a maioria de nós. Marxista-Leninista nunca fui, porque nunca acreditei no centralismo democrático e no governo dos operários e camponeses, que nunca existiu, era tudo uma falácia. Quando começo a conhecer os países socialistas um por um, eu disse: “não quero essa porcaria”. Congelaram o pensamento de Marx. Deixou de haver liberdade.  Havia uma aparente igualdade de satisfação de bens materiais por toda a população, mas as elites tinham as suas lojas próprias. E depois havia os campos de concentração, os delitos de opinião, as prisões… Não sei se vocês souberam, mas parece que a revista do João Melo (África 21) publicou sobre Cuba quando eu estive lá num festival do livro, estavam lá também a nossa ministra da Cultura e outras pessoas do aparelho daqui… Eles fizeram uma edição do meu livro “Quem me dera ser onda”, que lá chegou a ser considerado contra-revolucionário, sem me pedirem autorização, não vi capa nem nada. A TV dava todos os dias o Chaves de meia em meia hora, e o Fidel em fato de treino. Na conferência perguntaram-me o que achava da TV (que felizmente não tinha publicidade). “Acho que é melhor que as outras, pelo menos tem menos merda”, respondi. “Mas falta a voz popular, vocês aqui em Cuba ainda não se libertaram das esquizofrenias recebidas do Leste, como nós em Angola recebemos e foi com vocês mesmo que aprendemos a usar os cartões para comer e beber, e o próprio povo é que destruiu isso, com a sua tendência para as esferas antigas, a troca das coisas, a carne pelo peixe, o feijão pelo milho. Vocês deviam acabar com as esquizofrenias que são do Leste. E o principal, acabar com os delitos de opinião e pôr os presos políticos cá fora”. Aquilo gelou a sala. Houve pessoas da delegação angolana que saíram. Quando cheguei ao hotel, disseram-me: “camarada Manuel Rui, isso não se faz, eles são os anfitriões”. Eu disse: “mas eu sou irmão do povo cubano, que verteu sangue lá em Angola, e eu com os meus irmãos tenho de ser sincero. Há pessoas muito importantes, não são como eu, um Gabriel Garcia Marques, que também já se chatearam com o Fidel e disseram que isso tinha de acabar, tinha de mudar”. Hoje, neste momento em que estamos a falar, estou a rir-me porque a nova Constituição cubana já fala em propriedade privada.

“Neto era um comandante poderoso, com carisma e alto astral”

O apoio dos países socialistas era incontornável?
Os países do Leste, isto temos que reconhecer, apoiavam os movimentos de libertação. Mesmo na ONU batiam-se por nós contra Portugal com os americanos por trás. Só que a determinada altura houve uma espécie de pacto. Houve um aproveitamento da guerra fria. Vieram fazer a guerra fria aqui, experimentar armamento aqui. A segunda batalha com o maior número de blindados, depois da II Guerra Mundial, foi aqui em Angola. Foi uma tremenda estupidez nossa andarmos em guerra uns contra os outros, em vez de conversarmos. Mas como não tínhamos conversado durante a guerrilha, tornava-se impossível conversar com o Savimbi. E quer na UNITA, quer na FNLA, quer no MPLA, os presidentes eram a simbologia do poder e não presidentes de partidos. E estupidamente fomos aceitar aqueles acordos do Alvor, que não serviram para nada, Portugal nem tinha experiência de democracia.  A França quando dá a independência ao Senegal já tinha a democracia e o Senghor já tinha sido ministro da Cultura em França. Foi um erro tremendo, não sabermos conversar uns com os outros. Os colonos deixaram uma economia forte, uma capital que os outros não tinham. Em cada província o colono deixou um palácio, há países que não têm palácios de Presidente assim. Temos uma rede de rios, água com fartura, temos riquezas minerais, temos tudo. Porquê que nos fomos meter na guerra? Se não fosse a guerra não tínhamos esta gente toda que está cá. As pessoas que enriqueceram com a guerra… Eu não imagino a potência que seria Angola. Os sul-africanos diziam, quando conversavam connosco: “Vocês têm coisas que nós não temos. Vocês ultrapassaram o problema racial, até mesmo os problemas tribais vocês ultrapassaram”.

É a insolúvel questão do “se”. Infelizmente não é possível modificar o passado.

Sim. Ainda voltando à questão que colocou sobre o marxismo. O marxismo para mim é uma forma de pensamento para reflectir uma socedade, mas não é uma forma tipo Bíblia ou Corão, que possa incluir todas as soluções, quer espirituais quer materiais de forma dogmática e estacionária. No socialismo não há mudanças e quando as há é para importar o mais perverso do capitalismo.

Não faltaram alertas à sua geração, e mesmo à anterior, sobre o marxismo. Já se tinham publicado livros sobre as purgas, os gulag, a inexistência de liberdade e intelectuais de nomeada no Ocidente demarcaram-se do comunismo.

Sim. Aqui, quando algumas pessoas como eu agarraram nesses livros e os entregamos a pessoas que mandavam, vieram ralhar comigo. Que era contra-revolucionário. Havia pessoas com a cabeça quadrada e outras que utilizavam o marxismo para roubar. O marxismo servia para tudo aqui. Sob o olhar silencioso de Lénine.
O problema de fundo é que nós não tivemos pensamento, no sentido de cientistas políticos ou pensadores políticos, como o PAIGC teve o Amílcar Cabral, mesmo o próprio Mondlane ou Samora Machel em Moçambique. É só juntar os discursos do Samora Machel e ver como é que um enfermeiro é um grande pensador. No livro do Óscar Monteiro, que eu fiz a contracapa, há uma parte em que os portugueses estão a bombardear imenso, a matar muita gente, e o Samora faz uma reunião alargada com os quadros todos, os intelectuais estavam todos lá, tinham poucos mas estavam lá todos, no MPLA sempre houve chatice com os intelectuais e divisões (Revolta Activa, etc., etc., etc.). Os intelectuais ponderaram que era preciso mudar a estratégia, ver como é que se deviam posicionar perante a forte resposta colonial; Samora disse: “O que está a faltar à Frelimo é produzir pensamento, todos nós temos que produzir pensamento, produzindo pensamento vamos vencer”. Isto define uma liderança. Agora, tem um aspecto que é inevitável, a nata do pensamento em Angola estava no MPLA. A pouco e pouco essa nata foi absorvida pelo pensamento dos guerrilheiros, dos maquisards.

Qual era o pensamento dos maquisards?

Era uma via muito estreita e empírica do marxismo-leninismo. Um pensamento igualitário, idealista, impossível de alcançar em qualquer sociedade. Enquanto que os outros já pensavam nos erros do campo socialista, já faziam uma reflexão crítica. É tudo bonito dizer que a gente vai reunir para tomar decisões, mas todos nós estamos a pensar que vamos votar na decisão que o chefe quer. Eu nas primeiras reuniões via as pessoas a correr e de repente estava eu sentado do lado direito da cabeceira do Agostinho Neto e era o primeiro a falar; se dissesse asneira estava lixado. Todos fugiam daquele lugar.

A figura de Agostinho Neto era completamente absorvente?

O Neto era o capitão do navio, um comandante poderoso, ele era  cheio de energia.

A isso chama-se carisma…

Não era só carisma. Era alto astral.

Mas essas qualidades não impediam o surgimento de outras vozes, com outros pensamentos…
Sim. Mas é no tempo do Neto que se sai do marxismo-leninismo. Sem dizer nada. Em Moçambique a Frelimo ainda fez uma pequena declaração antes.

Há quem diga com convicção que a morte de Neto em Moscovo terá resultado dessa guinada que ele faz para o centro do espectro ideológico…

Ele começou a observar que os fenómenos, a prática, não era consoante aquilo que ele teria pensado.

Enquanto autor sente-se realizado?

Não totalmente. Podia ter escrito mais. Aqui em Angola não há uma actividade editorial consequente. Não há livrarias, as pessoas não lêem. Os jornais publicam coisas que não são literatura, transformam os amigos em escritores, as pessoas compram os livros desses autores e depois não compram mais, desistem. Se for a um restaurante e a comida não presta, deixo de ir a esse restaurante.

Para si dá para viver da escrita?

Não. Os direitos de autor que recebo, neste momento, vêem mais de fora. Sempre há um disco. O ano passado correu bem, foram três livros. “Os meninos do Huambo” fazem um bocado de dinheiro, por exemplo. Agora quero publicar os meus primeiros livros de poesia, “A onda” e “Poesia sem notícia”. Tenho várias séries de crónicas. Já publiquei duas em livro, “Maninha” e “As Novas da Maninha”. A primeira série de crónicas foi publicada no Jornal de Angola, “O Kikas e o Kocas”, a falar na problemática da alteração alfabética, da ortografia, já naquele tempo. Tenho umas três séries de crónicas no Jornal de Angola, outra naquele jornal Semanário Angolense. Gostaria de publicar em livro as séries de crónicas que estão no Jornal de Angola, com um texto introdutório de uma pessoa que conheça a história do Jornal de Angola.

Como é que o Diário de Luanda desaparece?

Administrativamente. Estava lá o António Cardoso, que era um stalinista, a dirigir. Aquilo era um coito do Nito Alves. À boa maneira do MPLA, em vez de tirarem o Cardoso e o Nito Alves, fecharam o jornal. Para nunca mais abrir.

27 de Maio: “Até agora faz sentido criar uma comissão da verdade”

Naquela altura Estado e Partido misturavam-se, mas era o Partido a mandar no Estado.
Já havia Estado, Constituição, Hino Nacional, Bandeira, mas para o MPLA era como se isso não existisse. Assim, houve um conflito dentro do Movimento, fizeram uma reunião, que devia ser um Conselho de Ministros, mas fizeram uma reunião do Comité Central, onde expulsaram os chamados fraccionistas, democraticamente, quando o golpe já vinha sendo preparado. Nas vésperas do 27 de Maio de 1977 o José Van-Dúnem queria que eu me encontrasse com ele, queria falar comigo. Se eu me tivesse encontrado com ele também tinha desaparecido.

É verdade que fez parte da chamada comissão de lágrimas? Qual era o seu objectivo?

A tal comissão esteve dois dias a trabalhar. O objectivo era ouvir se pertenciam, se estiveram por dentro da organização (do golpe).

Não tinha também a missão de determinar se as pessoas eram ou não culpadas?

Não. E tudo era gravado pela televisão. Não sei se já deitaram fora as gravações. A gente não estava a fazer relatórios a dizer “mata este”, “mata aquele”. Era uma comissão com lágrima no olho, nós estávamos comovidos com aquilo. O Diógenes [Boavida], o [Ambrósio] Lukoki, eu… Estávamos a ser usados como tribunal à margem da lei. Havia um Estado, fizeram uma reunião do Comité Central, expulsaram os homens quando há a tentativa do golpe de Estado, aquilo devia passar para os tribunais, ou militares ou civis, e não ser resolvido dentro da estrutura da guerrilha. Ao contrário do que muitos dizem, que eu andei a torturar pessoas, começamos é a safar as pessoas. Mas o mundo faz-se disso. Havia pessoas que se queriam promover em Portugal e o protagonismo era a vitimização na imprensa.
Tudo foi feito segundo a estrutura da guerrilha e era gravado pela televisão, tudo era instrumentalizado. Quando alguém fosse fuzilado dizia-se que foi para uma bolsa de estudo em Cuba. Usava-se essa expressão.

Depois de tudo isso o que é que devia ter sido feito, para reconciliar verdadeira e profundamente as pessoas no seio do MPLA?

Devia-se ter feito uma comissão da verdade.

Ainda hoje faz sentido criar uma comissão da verdade sobre os acontecimentos que se seguiram ao 27 de Maio de 1977?
Até agora faz sentido. Se não a história vai ficar cheia de mentiras. O Nito Alves vai aparecer como um libertador que foi amputado, quando seria uma desgraça se ele ganhasse. Isto seria um Kampucheia, um Cambodja. Houve essa confusão, o desprezo pelas estruturas do Estado, que se vai agravando consoante a guerra que nós tínhamos, na ilusão de que ela se resolveria com tiros, quando afinal dava jeito para alguns que houvesse guerra. É nessa continuidade que não se inventa um esquema económico de  satisfazer as novas exigências e que se cortam verdadeiramente as comunicações humanas, que ainda hoje estão por restabelecer (estamos a caminho disso). É só com essas comunicações humanas que o feijão pode ir de um lado ao outro, que o peixe seco pode ir para o interior, que os medicamentos podem chegar aos hospitais, sem serem roubados, para as pessoas terem consciência de que estão ao serviço da sociedade e não de meia dúzia de ladrões, em suma, para diminuir as desigualdades. Até à entrada deste novo presidente o povo sabia que a economia estava ao serviço dos milionários. O povo sabe tudo. As empregadas dos mwatas contam aos maridos, os maridos contam aos amigos, estes contam nos candongueiros… O povo é que é a Internet. Internet sem fake news.

Voltando à ideia da criação, ainda hoje, da comissão da verdade sobre o 27 de Maio. Qual seria o formato dessa comissão? Ao jeito da que foi criada na África do Sul?

Já falei sobre isso numa entrevista que dei há anos ao Folha 8. A África do Sul fez isso com coisas muito mais graves do que as nossas.

O ponto prévio seria que todo o mundo que se oferecesse a prestar depoimento teria o perdão?

Nós aqui vamos perdoar a quem? O ponto de partida seria a verdade.

Esse processo deveria ser dinamizado sobretudo pelo MPLA?

Sim. E não seria assim tão difícil.

Qual seria a saída para toda essa crise económica e social, com fortes raízes éticas e morais, em que nos encontramos?
A saída seria um socialismo democrático. Não impedir o crescimento da riqueza. As pessoas que têm propriedade privada que a desenvolvam. Essa economia está dependente disso. Está provado que o Estado não pode ser produtor. Mas reservar áreas da economia para o Estado. Áreas que são propriedade do povo. A água é propriedade do povo. Antes de haver MPLA, antes de haver independência, e se este é o continente-berço, antes de se inventar Deus (Deus foi inventado no continente-berço), a água era do povo. Num dos meus contos eu falo nisso. Há áreas que no meu entender não podem ser privatizadas. A água, a energia eléctrica, a indústria diamantífera, os petróleos… Portanto, as infraestruturas de base. Nós só devíamos poder pagar o custo da água acrescido de um milésimo, porque a água custa para chegar às nossas casas. A energia eléctrica também. Mas podemos fazer tabelas diferentes. Lá onde o dinheiro vale mais, por exemplo no Huambo, o preço tem de ser diferente. As cooperativas agrícolas. Os silos. A população produziu, entrega o seu milho, o seu feijão, parte é guardado, parte é comprado e tem as lojas para comprar panos, tem as farmácias… Portanto, há uma economia privada de cariz eminentemente capitalista que visa o lucro mas é controlada, há zonas comerciais com os preços controlados e tratamento fiscal especial, por exemplo os medicamentos não pagam impostos, para serem baratos. O ensino gratuito com livros de graça até um determinado nível e a entrada nas universidades por critérios de meritocracia. Na Universidade já há uma ligação com as empresas e estruturas do Estado. Evita-se a concorrência desleal. Eu sou ministro, agarro no telefone e digo: “Olha, arranja-me um lugar no Ministério das Finanças, o meu filho formou-se em economia”. No tempo antigo só faltaria acrescentar: “Eh pá, o gajo também quer roubar um bocado”. (Risos).

O que pensa de todo esse processo de discussão sobre a implementação das autarquias?
O tempo que se quer dar para fazer autarquias, 10 anos, é muito tempo. Actualmente o poder local nas províncias são pequenos feudos. O governador manda mais do que toda a gente e até pode mandar matar uma pessoa indirectamente.

E a sua opinião sobre a legislação de repatriamento dos activos obtidos ilicitamente? Todo o mundo devia ir para a cadeia?
Acho que ninguém devia ir para a cadeia. A solução do Presidente actual é sábia, resolver os problemas na justiça sem fazer a divisão física entre os cidadãos. Há famílias poderosas que vão ficar incomodadas. Os milionários têm o seu séquito. Cada milionário tem a volta de si umas três mil pessoas. É preciso evitar que a sociedade se deflagre por causa dos actos ilícitos mas que foram consentidos por quem mandava.  As pessoas não foram com uma espingarda ou uma bomba roubar a caixa forte de um banco. Tiraram com a consciência de que era ilícito. E isso de tirar em cima vinha até cá abaixo, onde só se podia pedir uma gasosa. Penso que esse dinheiro tem de voltar para cá mas para ser aplicado em infraestruturas, hospitais, escolas. Se o dinheiro vem e fica nas mãos deles lançam no mercado e vamos todos comprar os dólares. Ou o dinheiro vem e depois dizem-lhes: “você vai fazer uma fábrica de chouriço?” Isso é absurdo. Aliás é absurdo devolver o roubado ao ladrão. Veja o caso Lava Jacto no Brasil. E é preciso fazer a prova e dar o contraditório para não ser inquisitorial. Não me incomoda muito o que foi roubado, mas o que vamos produzir. Agora estamos todos à procura de ladrões. Eu não estou a pensar num Estado-Polícia. Já perdemos o medo de falar. Nos jornais isso vê-se, até no vosso. Agora não vamos inventar outros medos. Um sistema fossilizado é como um balão. Tem de ser esvaziado cuidadosamente para não rebentar. Veja, os garotos compram nos armazéns dos estrangeiros que arranjaram licenças pela mão de agentes do Estado, para venderem na rua, as quitandeiras compram legumes e frutas nos camiões, os medicamentos andam nos mercados. Basta cortar um elemento do sistema, por exemplo, os armazéns, para os miúdos não terem nada para vender e se parar as quitandeiras deixamos de ter a comida à porta (forma subtil de obrigar as pessoas a irem aos grandes espaços propriedade dos donos disto tudo)…

O facto de já haver pessoas detidas faz-lhe pensar em quê?

É impensável, nem em ficção, no romance, eu escreveria que um Fundo Soberano, que é equivalente à Reserva Federal dos EUA, seja entregue a meia dúzia de jovens para gerir. Fazer isto é um crime. Ainda por cima a um filho. Você é presidente de uma República e não vai entregar o Fundo Soberano a um filho. Entregar a gestão da maior indústria que sustenta esta economia, que é o petróleo, a uma filha; a comunicação social a outro filho. Isto tem nome. O outro comprou um relógio a 500 mil dólares. É igual ao Obiang. Aquele relógio do Obiang, filho do nosso ilustre parceiro na CPLP. Mas eu peço desculpa a Dos Santos porque está fragilizado. Ele deveria ser o primeiro a vir a público falar dos erros, porque se se vai melhorar o que está bem é porque no seu consulado também se fizeram coisas boas. Dos Santos deveria voltar à sociedade civil, fazer conferências em universidades, falar com o povo, ter um programa de televisão sobre as suas memórias.

João Lourenço versus Dos Santos

É possível comparar esses dois homens: José Eduardo dos Santos e João Lourenço?
Primeiro no perfil do pensamento, este homem [João Lourenço] estudou História, compreende melhor uma filosofia política de acção, e é marido de uma cientista de economia que já esteve no FMI… Quanto a Dos Santos fico por aqui porque não é positivo falar de pugilistas tombados no ringue, com o desmoronar da sua família seria mais um acto de crueldade. No entanto, sublinho  que  João Lourenço foi um opositor mas com uma consciência dos passos que devia dar. São pessoas totalmente diferentes. Um tolerou ou fomentou o nepotismo, a corrupção e a miséria do povo, o outro é contra o nepotismo, contra a corrupção e diz-se empenhado em resolver os problemas do povo. Isso é interessante. Na fenomenologia política isso é inédito e deve-nos honrar. Dentro do seu próprio partido fazer mudanças que correspondem a uma revolução e as próprias pessoas do partido aceitarem a ideia anti-corrupção, quando algumas delas são parte activa nesse fenómeno da corrupção. Mas isso é saudável porque tem uma inspiração da tradição africana. É bom chamar os mais velhos e traçar um plano de solução que satisfaça os interesses da maioria. Claro que 99,9 % do povo está de acordo com o Presidente. As pessoas que não têm poder, porque  as que têm muito poder económico nem todas estão de acordo com ele, há algumas que já não sabem quando é que roubaram ou quanto é que não roubaram. Mas temo que a questão do regresso da riqueza não vá a bom porto. Por mim era daqui para a frente.

Não haverá um risco de desestabilização por parte da franja que sendo minoritária tem poder real?
Têm poder real e isso é que tem de ser controlado.

Como?
Lembras-te da figura do Tanu, que sem querer tinha poder económico no Quilombo? Mas o Zumbi tinha o poder político. O Tanu é que tinha razão. Se Zumbi o tivesse deixado fazer o que queria, ir pelas encostas atrás dos fazendeiros, a coisa teria sido diferente. E além disso este Presidente é um homem que não cultiva a “estabilidade”, a paralisação, como o outro. As coisas estavam todas em águas mornas. Inaugurar no fim do seu governo obras que ainda não estavam acabadas! Fazer coisas que me parecem inócuas; assim que começou o processo eleitoral o governo devia ser só de gestão corrente e não fazer leis para depois de sair, criar imunidades para si próprio! Não é possível comparar essas duas pessoas.

Como é que vê o futuro deste povo, deste país?

Com optimismo. Por tudo aquilo que a gente já passou, aqui em África não há um país com a estabilidade como a nossa. Posso ir de noite daqui até ao Namibe, daqui até ao Huambo, desde que a estrada me deixe. Já fui de noite daqui até ao Uíge. No Quénia não é possível. Eles têm pequenas aldeias com bares e prostitutas, os camiões ficam ali parados até de manhã, não se viaja à noite. Na Namíbia também já está a ficar assim, na África do Sul está assim há muito tempo. As pessoas querem vir para cá.

Está a advogar a ideia de que os angolanos são especiais?

Não somos especiais. Tivemos uma história diferente. Uma colonização de 500 anos que nos pôs a falar a língua do invasor tal como ele fala ou melhor. As lutas dos reinos contra os colonos. As primeiras revoltas nas minas sul-africanas foram comandadas por um angolano, kwanhama. No Sul os portugueses levaram muita tareia, os kwanhamas nunca pagaram imposto, até ao fim do colonialismo. É todo esse tipo de trama, das lutas, da revolta da Baixa de Cassanje, do 4 de Fevereiro, é o Savimbi que tem a coragem e a filosofia maoísta de se encontrar com os portugueses para negociar, a avalanche toda da poesia de Neto, do Viriato da Cruz, etc., etc., em paralelo com os grandes poetas da Negritude que estava a acontecer em França, é a origem do MPLA, por exemplo, em que os estudantes fogem de Portugal para depois descerem para o Marrocos para fazer treino militar e ir para a guerra… Tudo isso é diferente de receber a independência através de um papel. Fazendo a soma disso tudo, aí está a nossa endurance, que faz de nós a única ex-colónia que vai bater o pé ao ex-colonizador. Chegar lá e dizer, “o meu processo não fica aqui, vai para Luanda”. Tudo isso aponta para a singularidade deste país, mas também para a singularidade do Magreb, da África do Sul, etc., etc. Outro fenómeno é a liberdade religiosa. Não troco este país por outro.

 

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