Entrevista

Nelson Cerqueira o poder da palavra

Francisco Pedro |

A literatura tem um impacto forte sobre as sociedades, segundo o investigador e escritor brasileiro Nelson Cerqueira.

Escritor Cerqueira afirma que o Brasil lê e conhece muito pouco a cultura africana
Fotografia: Domingos Cadência

A literatura tem um impacto forte sobre as sociedades, segundo o investigador e escritor brasileiro Nelson Cerqueira. Professor de Literatura Comparada pela Indiana University, Nelson Cerqueira esteve recentemente em Luanda a convite da Fundação Agostinho Neto e concedeu uma entrevista ao Jornal de Angola, realçando o poder da literatura no mundo contemporâneo. Falou também das razões que fizeram surgir a “etnopoesia”, um dos temas apresentados em conferência na Semana da Cultura da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), assinalada este mês, na capital do país.

Jornal de Angola - Que relação estabelece entre o contexto de surgimento dos folhetos de cordel  e a evolução diacrónica para a  literatura erudita?

Nelson Cerqueira
- A relação entre a literatura de cordel e a erudita começa com o facto de ambas serem consideradas literatura. A seguir, é importante considerar que a literatura oral está na origem de todas as formas literárias e que a literatura de cordel é uma fase transitória que, mais tarde, nos conduziu à formação da literatura erudita.

JA- Será que a literatura de cordel foi uma arte destinada à recepção popular, ou seja, uma saída direccionada aos desígnios de fruição estética da plebe?

NC -
Não consideraria a literatura de cordel como sendo direccionada à plebe. A literatura oral, assim como a de cordel, a seu tempo, representam o espírito literário de uma época na história de um povo, tal como a oralidade levou-nos à Ilíada e  Odisseia, por exemplo, e, num processo de evolução, aos grandes clássicos da literatura universal.

JA - Enquanto autor, que obras tem publicadas e qual a sua tipologia, referindo-nos à sua orientação temática?

NC
- Publiquei livros sobre hermenêutica e literatura, crítica marxista sobre a obra de Franz Kafka, textos políticos do partido comunista, a questão do realismo em Jorge Amado, antologias poéticas e dezenas de artigos sobre filosofia e literatura.

JA - Na sua conferência, apresentada no último Café Literário, na Biblioteca Nacional de Angola, afirmou que a literatura de cordel pode ser comparada à actividade jornalística. Porquê?

NC
- O resultado da publicação de um livreto de etnopoesia na forma de literatura de cordel é semelhante a uma narrativa jornalística, pois os temas a serem versejados, na sua maioria, narram factos quotidianos, envolvendo situações políticas, sociais e religiosas. As personagens estão envolvidas em situações controversas, com nuances do bem e do mal. O cordelista conclui sempre com algum tipo de julgamento, no qual o foco será o bem, como resultado ou como moral proposta.
 
JA - Que razões estilísticas, ou sociais, estarão na origem do surgimento do termo “etnopoesia”?

N.C
- O termo “etnopoesia” significa que se está a falar de poesia ou narrativa do povo, onde a expressão tenta sempre representar uma posição ou anseio popular, veiculando, desta forma, pressupostos morais inerentes ao espírito colectivo da comunidade. Assim, uma comunidade mais tradicional terá, no processo de conflitualidade social, uma posição de julgamento do bem e do mal que, normalmente, é coerente e está próxima do espírito dominante do povo. Caso contrário, o poema não terá uma recepção positiva, nem terá leitores.

JA –Por que o povo brasileiro, que se diz ter afinidades culturais e históricas com Angola, desconhece a realidade angolana, mesmo sendo ambos países de língua oficial portuguesa?

NC
– Infelizmente, a media do Brasil, e creio que também de Angola, são mais eurocêntricas, quando não estão limitadas aos factos de impacto político e social, esquecendo-se das comunidades literárias. Isso torna o fluxo de informações entre os dois países limitado aos factos relacionados com desastres naturais, crimes, escândalos e outros feitos sensacionais. Talvez um melhor entendimento da arte, da literatura e do desporto nos pudesse aproximar. O Brasil lê pouco e conhece muito pouco da cultura africana, apesar do grande número de afro-descendentes. Estes mesmos conhecem pouco e misturam, na maior parte das vezes, a cultura dos países africanos.

JA - Como professor universitário e escritor, que opinião tem sobre o poder da literatura nas sociedades contemporâneas, tendo em conta a abertura, cada vez maior e veloz, que as pessoas possuem para o deleite do que é verosímil, bem como de coisas ocultas?

NC
- A literatura nas suas expressões diversas possui um impacto forte sobre as sociedades. Um poeta pode mudar o rumo de um movimento político, um escritor de auto-ajuda, falo daqueles que propõem soluções de tipo psicológico, para crises pessoais e colectivas, pode redesenhar o comportamento pessoal e até empresarial. A literatura também pode ofuscar a sensibilidade, como nos casos dos “best-sellers” mais estúpidos, inspiradores de valores deformados que, infelizmente, são lidos por milhares de pessoas ao mesmo tempo. O poder da literatura no mundo contemporâneo pode ser abordado de, pelo menos, duas formas: a literatura como elemento de dominação hegemónica, produzida por intelectuais sistémicos visando manter o que Foucault denominou de poder ou conhecimento. A literatura e a escrita como formas de exclusão ou inclusão, onde a maioria analfabeta ou semi-alfabetizada do globo permanece à margem, a actuar de forma secundária, informal, marginalizada da consciência crítica organizada.
Quanto mais sofisticado e hermético for o texto, mais marginalizante ele se torna. Por isso, a popularidade dos livros simplistas de auto-ajuda, incluindo os do tipo Harry Potter e vampiros, atrai significativo número de jovens que fogem dos textos mais densos e dos clássicos, que ficam mais restritos aos espaços académicos.

JA - A verdade é que, actualmente, independentemente do género, nota-se o surgimento de obras literárias inéditas, na verdadeira acepção do termo?

NC
- Sem dúvida que surgem sempre obras inéditas, independentemente do género literário, uma vez que o ser humano é naturalmente criativo, em qualquer género literário e artístico, independentemente do tempo, e passa sim por transformações estéticas como as da pós-modernidade, efemeridade, a liquidez, a imaterialidade, como preconizam Zygmunt Bauman e Lyotard.

JA - É excessivo afirmar que o escritor, em particular, e os artistas em geral, estão à margem das leis que regulam uma determinada sociedade? 

NC
- Ninguém  está à margem da lei. O artista possui liberdade de criar e mesmo essa passa, muitas vezes, por restrições de ordem política, ideológica e religiosa, que podem dentro de algum requisito até aprisionar o artista. Nos casos de repressão, o artista precisa de ser ainda mais criativo para representar o que deseja, tanto na forma, quanto no conteúdo, conforme nos alerta Derrida.

JA - Que razões estiveram na base da sua decisão de seguir a carreira de escritor?

NC
- Por que escrevo? Na verdade, essa resposta depende do que produzo. Quando escrevo poesia, por exemplo, narro, de forma transfigurada, o resultado da minha observação do quotidiano, os meus desencontros e, às vezes, de forma correlata e objectiva, a figuração, na senda do pensamento de T.S. Eliot, de uma sensação, de um desejo, que pode ser alcançável ou não. Quando escrevo “teoria da interpretação”, procuro melhorar o meu entendimento de fenómenos e pressupostos já abordados por outras pessoas. Noutros casos, busco justiça para o artista ou pensador incompreendido, no âmbito da recepção da sua obra. Tenho consciência de que não disponho da palavra final e da verdade absoluta. Essa, também, em mutação perpétua, e aberta a outras janelas de compreensão do universo.

 

Breve resenha histórica da literatura de cordel

Literatura de cordel é um tipo de poema popular, originalmente oral, e depois impresso em folhetos rústicos ou outra qualidade de papel, expostos para venda, pendurados em cordas ou cordéis, o que deu origem ao nome originado em Portugal, que tinha a tradição de pendurar folhetos em barbantes. As capas dos folhetos têm somente dizeres chamativos ou também ilustração. No Nordeste do Brasil, o nome foi herdado, embora o povo chame a esta manifestação de folheto, pois o folheto brasileiro podia ou não estar exposto em barbantes. São escritos em forma rimada e alguns poemas são ilustrados com xilogravuras, o mesmo estilo de gravura usado nas capas. As estrofes mais comuns são as de dez, oito ou seis versos. Os autores, ou cordelistas, recitam esses versos de forma melodiosa e cadenciada, acompanhados de viola, como também fazem leituras ou declamações muito empolgadas e animadas para conquistar os possíveis compradores. No Brasil, Leandro Gomes de Barros e João Martins de Athayde são dois dentre os primeiros poetas; os livrinhos da sua autoria são continuamente reeditados, com direitos vendidos e revendidos. São famosos os títulos como “O cachorro dos mortos”, “Juvenal e o dragão”, “História da donzela Teodora”, “Como se ameaça uma sogra”, “Rolando no Leão de Ouro”, “Os sofrimentos de Alzira”, entre outros.

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